MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Posts com a tag ‘literatura’

Gente X Mato: Pedro Martinelli

1 de dezembro de 2009

Pedro Martinelli  — um dos fotógrafos que escrevem a história do Brasil em imagens — anunciou em seu blog que está fazendo a venda direta dos seus dois livros, Gente X Mato e Mulheres da Amazônia. O preço é muito atrativo (50 lascas cada) e o frete já está incluído. Você não encontra uma oportunidade com essas características e preços em livrarias.

Resolvi comprar o Gente X Mato. Quando chegou o envelope, fiquei espantado com o tamanho do livro. Aliás, fiquei espantado com o tamanho, o papel, a encadernação, a diagramação e a impressão. O livro tem o formato de um jornal, grandão, impresso em papel Pólen 80gr, com um design muito fera.

É a sua chance de comprar um presente diferente de verdade, coringa, que agradará seu amigo que é designer, publicitário, fotógrafo, ativista, fazendeiro, desmatador, jornalista, ambientalista, tratorista, chef de cozinha ou até político. Todo mundo se identifica com alguma coisa ali.

E se você for cara-de-pau como eu, peça autografado. O Pedro manda.

Livro Gente X Mato (Pedro Martinelli)

Eu tenho um alter-ego

18 de novembro de 2009

Meu alter ego é esbelto e elegante. Não tem residência fixa, é verdade. Faz exercícios físicos todo dia, anda, dorme até tarde e come tudo o que dá vontade. Meu alter ego não tem dinheiro, sobrevive de bicos como ghostwriter e viaja o mundo de carona.

O mundo!

Meu alter ego fala seis idiomas com uma fluência avassaladora: aprendeu um dialeto na Polinésia em apenas 8 meses.

Não tem muitas posses: uma mochila muito resistente mas velha, uma calça jeans desbotada, algumas camisetas brancas, um tênis verde musgo muito confortável e anti-derrapante e um canivete suíço original, com 27 funções, que ganhara de um finlandês em Antíqua. Tem um computador portátil que não funciona a bateria, tela monocromática e muito velho. É assim que meu alter-ego faz frila.

Tem um costume risca-de-giz que vale mil oitocentos e e oitenta e nove e noventa. Caro, muito caro. Carrega junto. E você não conseguiria imaginar as festas que meu alter ego conseguiu entrar com esse traje.

Meu alter ego não gosta de mim e fica tentando me dominar, mas eu sou mais forte que ele.

Mentira.

Eu sou fraco, muito fraco.

Meu alter ego terminou o curso superior mas procrastina a bendita colação de grau. Ele às vezes se aventura em algum palco, tem muito talento. Meu alter ego sabe desenhar e canta como ninguém. Meu alter ego — se quisesse — poderia ser bem sucedido como empresário, advogado, publicitário, médico, dono, patrão, spalla, mascate, pirata ou astronauta.

Meu alter ego daria um ótimo professor, se quisesse.

Meu alter ego poderia ficar famoso, poderia ganhar o Nobel de literatura, se quisesse.

Meu alter ego poderia viver de arte, se quisesse.

Meu alter ego ganharia leôes em Cannes e kikitos em Gramado, se quisesse.

Mas ele é louco, apaixonado, independente, desvairado, intenso, insaciável, amicíssimo, afável, bondoso, enérgico às vezes e não se preocupa com costumes cotidianos.

E prefere viver de vida.

Incrível, não?

Quando Alexeyevich pirou

11 de setembro de 2009

“Nem bem o ano começou, eis que os círculos literários são tomados por uma limítrofe teia de tragicidade e comicidade (…) Compilando dados de suas vivendas e desaventuras, o jovem escritor sérvio naturalizado brasileiro Alexeyevich Кропткин elege-se como novo expoente do disperso movimento apelidado pelo crítico Rubens Siebra Roudão como crônicas losers (vide também a coluna twitadas losers) através de sua estréia PICARDIAS DE ESCULÁPIO (Editora Guanabariana; 189 páginas; R$15,80) em que conduz seu personagem Wagner Tebas numa epopéia quase homérica que desemboca num redentor final antológico.”

Assim comenta o colunista literário do Correio Cratense, Edgard Mottler, chamando a atenção para este escriba que começa a causar frenesi nas rodinhas literárias do baixo estuário. Não ousei omitir um enxerto da infame obra enfocada (N.A.: Observe que Alexey não utiliza-se de parágrafos ou metonímias de respiro):

Eu fiquei muito triste quando soube que John Eastwhile havia morrido. Passei a tarde inteira chateado e quieto pensando nele e no The Who. Não falava com ninguém, fazia as coisas mecanicamente e esperava o tempo passar até a hora de minha gig na festa mais legal e concorrida da cidade. Eu tomei um banho, escolhi meus discos e peguei uma limousine enviada pelos promoters para a festa, sempre quieto e meditabundo, me lembrando das músicas e das imagens do The Who. Enquanto eu tocava, fazia mixagens perfeitas e levava o público ao delírio, eu me perdia olhando para as luzes e me lembrando de seu jeito comportado e psicodélico de tocar contrabaixo e eu ficava cada vez mais absorto. Eu fiquei muito mais triste em ver todos aqueles idiotas dançando e gritando drogados enquanto eu estava de luto pela morte de mais uma estrela do rock´n´roll. Então eu parei o som tirando abruptamente o disco e o guardei no meu case, deixando na festa um silêncio geral quebrado segundos depois pelos gritos das pessoas drogadas que queriam desesperadamente mais música. Eu pedi ao técnico de som um microfone e então eu amentei o volume do microfone e falando calmamente mandei todos aqueles drogados tomarem no cu. Todos ficaram muito nervosos e um princípio de tumulto tomou conta do local e eu afastava as pessoas de perto de mim dando forte golpes em seus rostos com meu case cheio de discos. Eu acho que perdi a conta de quantos maxilares eu desloquei e quantas pessoas ficaram sem seus dentes naquela noite porque eu estava realmente muito mau humorado. Eu entrei em minha limousine muito irritado enquanto um quebra quebra generalizado colocava abaixo aquele lindo e luxuoso club. Meu agente se ajoelhou na calçada pedindo pelo amor de Deus que eu voltasse a tocar pois eu poderia provocar uma tragédia e eu mandei que ele calasse a boca pois eu não estava bem humorado e não me sentia em condições de apresentar o melhor de mim, musicalmente falando. Ele se levantou arrasado e não disse nada pois sabia que quando eu tomo uma decisão eu a comunico uma vez só e o assunto estava acabado. Eu pedi que o motorista da Limousine me levasse para o aeroporto e ele me atendeu prontamente. Como agradecimento à sua rapidez eu dei todo o meu case de presente e ele começou a chorar emocionado dizendo que milhões de pessoas queriam estar em seu lugar naquele momento e eu o mandei calar a boca e fazer um bom proveito daqueles discos. Eu esmurrei o balcão da companhia aérea bastante alterado e disse aos funcionários que queria estar em Londres ao meio dia e não aceitaria um só minuto de atraso e eles prontamente separaram um avião rápido e exclusivo para me levar a Londres. Eu continuava bastante triste e mau humorado e nem percebi o quão rápido o avião me levara a Londres e logo na saída do aeroporto uma garota de uns 19 anos veio correndo em minha direção gritando que era minha fã. Ela corria em minha direção falando alto e antes que ela terminasse de gritar a palavra autograph... eu acertei um soco direto em sua boca que teve ainda maior força porque ela corria em minha direção. Ela fechou os olhos de dor enquanto caia de costas com a boca toda ensangüentada e centenas de dentes voavam pelo ar e eu me lembrei sorrindo do filme Matrix. A garota banguela caiu estatelada no chão enquanto uma multidão de pessoas corriam para pegar os dentes que eu arranquei com um forte soco para guardarem como uma lembrança minha. Eu me dirigi para o local onde John Eastwhile estava sendo velado e vi muitas pessoas famosas e roqueiros decrépitos de óculos escuros lamentando a perda do querido companheiro. Eu me dirigi diretamente ao caixão e dei leves tapas no rosto barbudo de John que imediatamente abriu os olhos e um sorriso de felicidade. Eu dei-lhe um beijo carinhoso na testa e nós nos abraçamos felizes matando a saudade de um longo tempo longe. Eu tirei aquelas flores horríveis de cima do seu corpo e ele saiu desajeitado do caixão reclamando por estar descalço. Eu brinquei sorrindo que isso era culpa d´ele ter nascido inglês. Ele sorriu e saímos saltitantes do velório e logo que avistamos a rua lá estava o Magic Bus amarelo e psicodélico esperando por nós, lotado de defuntos dentro gritando e chamando nossos nomes. Nós entramos rapidamente e o ônibus partiu pelas ruas de Londres. Todo mundo gritava, gargalhava e cumprimentava John e eu. Keith Moon era o mais animado e com os olhos em lágrimas me agarrou pelo pescoço e me mostrou duas pick ups e um mixer montados e ele disse que queria que eu tocasse para que todos eles pudessem tomar um ecstasy e dançar a noite inteira. Eu fiquei sério neste momento e disse a Keith que estava na hora das pessoas pararem de se drogar para curtir a música e eu disse a ele que o barato agora era ficar careta e curtir a amizade e o amor. Ele me ouvia com atenção e parecia assimilar completamente o que eu dizia. Eu gritei para que todos fizessem um momento de silêncio para que eu pudesse falar e todos ficaram quietos imediatamente. Olhei para todos aqueles rockstars mortos como Jimmy Hendrix, John Lennon, Brian Jones, Kurt Cobain, Ian Curtis, Jenis Joplin, Elis Regina, Elvis, Dennis Wilson, Dee Dee Ramone, Raul Seixas... e tantos outros que eu não me lembro agora e ainda outros que não reconheci e disse a eles que queria propor uma coisa: eu tocaria para eles e faria um set inspirado se eles me prometessem que jogariam todas as suas pastilhas de ecstasy pela janela do ônibus quando eu contasse até três. Todos concordaram altivos e felizes e eu fiquei bastante preocupado pois se eu contasse o três e eles mudassem de idéia, eu me sentiria bastante humilhado. Mas felizmente não foi isso o que aconteceu e logo quando disse Três em voz alta todos começaram a gritar e jogar para fora do Magic Bus milhares e milhares de pastilhas de ecstasy pelas ruas de Londres. Eu me senti muito feliz e me dirigi para onde estavam as pick ups montadas para começar o meu set inspirado e foi então que me lembrei que havia dado meu case inteiro para o motorista da limousine. Todas aquelas pessoas Vips e defuntas me olharam com olhos incrivelmente tristes e eu fiquei sem saber o que fazer para contornar aquela situação. Sem minha brilhante música e sem as pastilhas de ecstasy que foram jogadas pela janela do magic bus, os rockstars começaram a gritar insultos e eu percebi que eles estavam também bastante mau humorados em uma espécie de crise de abstinência. John me olhou complacente e eu pude ver em seus olhos que ele sabia que eu estava em uma enrascada porque eu era o único ali que não havia morrido ainda. Jimmy Hendrix, com as pupilas extremamente dilatadas deu um chute no mixer derrubando-o junto com as pick ups que nele estavam conectadas e isso deu início a uma briga generalizada entre os muitos que queriam me bater e os poucos que entendiam minha situação e queriam me defender. Eu me senti acuado e tentei me esconder no fundo do ônibus enquanto tomava alguns tapas na orelha e chutes na barriga. Foi então que John Eastwhile tomou minha frente e impediu que os rockstars me agredissem ainda mais. Ele disse que estava muito triste pois jamais imaginou que seria essa a recepção que ele teria ao morrer pelos amigos que ele tinha tantas saudades. Todos voltaram a si no mesmo momento e a tristeza e o arrependimento era visível nos olhos de todos ali dentro. John perguntou se eles estavam percebendo o que as drogas haviam feito com eles. John perguntou se eles sabiam que estavam tentando matar um grande amigo de todos porque simplesmente eles estavam sem as drogas. Neste momento, um a um, as grandes estrelas do rock vieram me pedir desculpas me dando um grande abraço e me agradecendo por ter mostrado a eles que isso não era o mais importante. Eu pacientemente sorri e prometi a todos que voltaria para fazer um set que eles jamais esqueceriam em toda a eternidade e então nós passamos toda a noite sentados no magic bus conversando sobre os anos 60.

Mais além, Alexeyevich nos prometeu agraciar com novas crônicas surreais. Aguardem.

O Menino no Espelho – MPM Propaganda

20 de fevereiro de 2009

Comprei em um sebo de São Paulo um livro velho, chamado O Menino no Espelho, de Fernando Sabino. Fedendo a mofo, com pontos amarelados em algumas páginas. Mas sou muito fã do autor e do livro em especial.

O charme dele não pára ai. A edição, uma tiragem única de 12000 exemplares, têm capa dura especial e conta com a assinatura do Autor em baixo-relevo:

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Agora o que mais me surpreendeu é que essa edição especial foi confeccionada na década de 70, a mando da MPM Propaganda, quiçá a maior agência de publicidade da época, com estrelas consagradas como Julio Ribeiro, propagandas graciosas como a clássica “Bonita camisa, Fernandinho” (Staroup, lembra?) ou o case sensacional de quando a FIAT aportou no Brasil.

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A agência confeccionou uma tiragem única, não destinada à venda, em uma excelente fase de vida. Para distribuir cultura para amigos, funcionários, sorteios, rifas, prendas. Doze mil! Livros!

História, babe.

A reforma ortográfica

22 de janeiro de 2009

A reforma ortográfica é uma bosta necessária. 

O verbo argüir, que tinha uma pronúncia entojada justamente por ser desconhecido, terá seus dias de dor ao ser pronunciado sem o fonema u.

A reforma ortográfica modificará a fonética gramatical, não tenha dúvida.

E isso é ruim.

Curta! A vida é curta para ser pequena*

15 de dezembro de 2008

Upgrade no Opiomóvel: saindo dos 184cv optimizados para estradas planas (hipotéticas) e bem pavimentadas (teóricas) para adentrar no alucinado mundo 4×4 da realidade vivencial buraqueira brasileira.

Recesso de final de ano, como sempre: do agora até 15 de janeiro vou curtir a vida adoidado com uma turminha muito louca, aprontando altas aventuras nas ruas de Bervely Hills.

Ai estou eu esperando a maravilhosa economia — ciência matemática e exata — definir rumo novamente. Logo eu, que sempre ri da desgraça cabalistica dos números inflacionários, aqui, aflito com essa interminável flutuação cambial.

Acesso diariamente os gráficos monetários internacionais para achar um pingo de fé na realização de um investimento qualquer, mas a coisa sempre descamba para o caos explícito. Capitalizei tarde demais, coisa de dois meses e meio.

O gráfico abaixo mostra meu desespero para comprar uma câmera, meia dúzia de lentes e uns badulaquezinhos para boas fotos:

*O título da posta é um poemetito do Chacal.

A impessoalidade literal

19 de novembro de 2008

Escrever é perder todas as lembranças e destruí-las em formatos de letras agressivas e ásperas. A literatura — em qualquer uma das suas formas mais vorazes: poesia, elegia, ou a prosa fascínora  — é a maneira mais fácil e deliciosa de ignorar a vida. Qualquer outra expressão visual, por mais plástica e abstrata que seja, consegue exprimir sentidos perfeitamentame tangíveis e perfeitos.

A literatura é torpe e baixa. Descreve tudo com uma simplicidade e perfeição incrível. E mesmo assim, nunca a velha casa das paredes descascadas de um mofo adocicado será a mesma.

A sua casa não é a minha.

A minha é na beira de uma praia de Montouk, caída e sem caibros, com neve perto do beiral da varanda. A sua deve ser Bauhaus, apopética, vai saber.

Um drama nunca foi o que almejou ser; no máximo um romance dado sem narrativa alguma. Textos assíncronos, sem realidade, inexistentes em sua própria subjetividade.

A literatura é um monstro aniquilador de sonhos.

Sem dó.

Poetas, loucos & roqueiros emos

21 de outubro de 2008

Eu sempre quis conhecer escritores. Acompanhar a boemia  — na mesa anônima ao lado — da patota-bossa-nova das pingaiadas eternas de meio da tarde em Copacabana. Talvez porque todos esses ícones de uma geração que já bateu as botas foram heróis mundanos e enfadonhos com alguma graça perdida.

Encontrar ao vivo gente como Drummond, Pessoa, Bandeira. A chatisse que não devia ser uma roda de conversa deles! Ou então os loucos curitibanos: Trevisan ou Leminski e suas tentativas absortas de poetizar o que não se deve.

Os poetas já se foram. O mundo, dinâmico do jeito que é, colocou no lugar gente que não tem mais essa pegada toda sentimental.

Quem quer saber de um poeta na idade do rock
um cara que se cobre de pena e letras lentas
que passa sábado à noite embriagado
chorando que nem criança a solidão

Quem quer saber de namoro na idade do pó
um romance romântico de Cuba
cheio de dúvidas e desvarios
tal a balada de Neil Sekada

quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira na beira de um calipso neurótico
um orfeu fudido sem ficha nem ninguém para ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia

Esse poema acima (‘Desabutino’, do Chacal) é a cara das reações culturais contemporâneas. As músicas estão uma bosta. Letristas, mais cornos que nunca. Literatura, ovalada. Blogueiros, inúteis. Boa poesia, música inteligente e almas intensas, trancafiadas em redutos cada vez mais obscuros.

Conheço uma meia dúzia de bons redutos, socializados de forma honesta. Desses, um é virtual e reúne a excelência experimental da poesia e música em podcasts experimentais. Aliás, os podcasts são broadcasts de uma rádio local. Acesse o Programas Antigos e baixe a coletânea.

Recicle um pouco a sua cultura alternativa. É necessário. E gratuito.