MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

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A fotografia é arte?

5 de outubro de 2010

Fotografar é colocar
na mesma linha de mira
a cabeça, o olho e o coração
— Henri Cartier-Bresson

Eu tento acompanhar a evolução digital fotográfica desde 1996, quando conheci a primeira câmera digital da Kodak, uma DC40 de 250kilopixels. Algo como ¼ megapixels, o que significa uma imagem de 756×504. Um equipamento de $999 que perdia feio para um scanner qualquer de R$200.

Mas era interessante saber que o filme estaria morto em pouco mais de 4 anos.

A questão é que a fotografia nunca foi tão explorada como no começo deste novo século. A digital conseguiu forçar qualquer forma de elitização de processos lentos para o imediatismo do cabo lógico. E arrebanhou milhões de novos clicadores inveterados. Basicamente passou de um ritual mecânico, químico, transformático e lento para um simples processo físico-digital instantâneo.

A evolução pegou pesado nas bolas dos fotógrafos clássicos e isso foi um tapa de luva de pelica no brio póstumo de grandes clicadores. Conheci muita gente que tinha na fotografia um dogma religioso e performático muito sério. E que acabou sucumbindo ao marasmo da cultura diluída em novos entusiastas virtuais massivos.

E a fotografia era uma arte?

Era.

Quando todo o processo de produção, raciocínio e montagem da fotografia abrangia muito mais técnica e controle do resultado final de uma única imagem, poderíamos dizer que era arte. Mesmo porque todo o resultado só poderia ser visto um ou dois dias depois.

Hoje não sei se é.

Aprende-se a fotografar com o método mais burro e penoso que existe: tentativa e erro. Abertura focal, diafragmas, profundidade de campo, ‘bokeh’ (boqueta demais), dof e granulação são coisas paranormais em um equipamento na mão de quem não tem idéia de como essa mecânica toda funciona. É uma burrice preguiçosa, por assim dizer. Existem milhares de livros, tutoriais e videos explicando tudo sobre o todo.

Mecânica e fisica, meu amigo. Por que você acha que existe aquele mito dos 150 mil cliques que matam uma reflex digital?

Então em uma saída de safári fotográfico, lá vão os ‘autodidatas patetas’ com suas digitais poderosas clicando tudo e todos, sem muito pensar. O estalar do espelho em conjunto do burst e da pluralidade de máquinas gera um som hipnótico. Das 983 imagens clicadas, 32 ficaram excelentes, 8 sensacionais e 2 concentuais e perfeitas.

Valeu?

Sinceramente eu não sei. Regra dos terços, enquadramento e composição, pensamento e imaginação acabam sendo engolidos pelo imediatismo da vomitação visual. Fica uma sensação de que tudo poderia ter sido mais bonito e bem feito.

Vamos aos fatos:

A imagem abaixo é uma composição clássica de Salvador Dali com o fotógrafo Philippe Halsman. Tem até nome: Dali Atomicus. Apesar de parecer uma montagem das brabas, a fotografia teve um ensaio gigantesco, todo preparado com assistentes e precisão. Ah, jogaram os gatos, a água, os móveis, o Dali pulou e tudo mais.

Arte ou artesanato?

Existe uma briga grande entre artistas que é a dicotomia entre a arte e o artesanato. A mesma coisa é na fotografia. Uma imagem pode ser meramente clicada, reproduzida e ampliada quantas vezes quiser. O mesmo vale para uma produção em série de estatuetas do Mestre Vitalino. Seria arte? Ou simples artesanato de reprodução?

Esta outra imagem é um lightblur. Ali em cima da Câmara (bacia pra cima) tem um ponto amarelo maior, a lua cheia. Eu deixei essa foto muito exposta e na hora de tirar a câmera do tripé o obturador ainda estava aberto, dando esse efeito de riscos e pontilhados “sujando” a fotografia. Foi um acidente e o resultado ficou legal. O acaso é arte?

A fotografia só é arte porque tem a cultura abstrata por trás. Uma espécie de legado, meio que forçado. E só é artesanato porque o cotidiano suplica por novas idéias visuais fiéis a cada instante. Fotojornalismo, estúdio, ensaios, pornografia e conceitualização pessoal fazem parte da massa visual indigesta.

Elevar-se da massa clicadora é a chave para a arte.  O resto é conversa para flickr.

Rapidinhas, rápidas e rasteiras.

20 de setembro de 2010

Olha só como é o mundo dos carros 4×4: meu utilitário — fabricado e montado no Brasil — só consome peças originais japonesas. Não tem xixi-minha-nêga não: o mercado paralelo nem sequer sabe do que estamos falando. Então toda peça nova que preciso, lá vem aquela embalagem toda cheia de ideogramas e códigos de guerra nipônicos.

Isso inviabilizou algumas coisas importantes no meu conceito da montadora. Uma é que a revisão programada dos caras é muito porca e desrespeitosa. Outra é que eles simplesmente não olham direito os 49 pontos de revisão previstos em regulamento. E terceiro, uma peça normal que custa em média R$150 para qualquer carro de qualquer marca, do meu custa R$600, porque é meidindjapan.

Graças ao acúmulo de não verificações dos 49 pontos de verificação das revisões anteriores, o novo mecânico oficial do  bruto achou alguns problemas crônicos: bieletas, tuchos, buchas, retentores, e uma série de pequenos apertos que os mentecáptos não apertaram nas outras vezes. A correia-multi, que eu paguei 2 vezes para trocar em duas revisões, continuava a mesma, original de fábrica, olha só! (Não trocamos itens que estejam com estado e aparência satisfatória e segura).

Agora está tudo sanado. E atualizado.

Estou dando um tapa no meu portfólio, estava com 8 meses de atrasos criativos. Oito meses foram coisas demais criadas por conta e risco. Oigalê!

Ontem bebi em um sorvo só, estalando os beiços, um copanzil d’água.

Falei algo parecido. Isso é a literatura atual, que está me afetando mentalmente.

Estou diagramando um livro das fotos de circo que publiquei aqui há 2 anos atrás. DOIS ANOS ATRÁS. Olha como meu cronograma é idiota! Parece o projeto de publicidade, onde cerca de 200 imagens estão em um queue interminável para serem publicadas.

Quem posterga um quinhão, posterga um mião.

Sou muito, mas muito mais babaca do que você imagina. Muito mais.

Cansei desse pseudônimo rValentino. Ajudem-me a trocar por um malacabento mais interessante. Essa novela da globo acabou com o mojo Valentino.

Comentário apolítico: A Dilma me lembra uma professora de português que eu tinha na quinta série. Tudo que ela discursa ou brada, parece um desatino metafórico onde EU fiz alguma coisa que não devia.

Uma mijada, no sentido mais pueril e estrogonófico. Sinto-me como uma mulher de malandro que devo alguma coisa e o medo me faz recuar a cada pitombada.

Só tenho recaídas de gozo quando ela fala errado, mas isso está em voga na Presidência da República há 8 anos, né não fíí?

Já o Serra continua com a mesma cara de nhé.

Perceberam que essa briga pela presidência só tem candidato fracassado e sem carisma? Dilma e Serra tem o poder para os empurrar. A Marina, coitadinha, parece uma tia do rococó que quer peitar um varão maniqueísta de 9 pés de altura e massa muscular avantajada. Não terá sucesso na incursão.

Plinio de Arruda, Ezequiel de Medeiros, Jofran Tavares e Berlúcio Villela nem contam como candidatos, não é?

O Distrito Federal está bem visto nas mídias, olha só: São alunos brigadores de escolas públicas, postos de gasolina que promovem orgias, dinheiro vazando nos canos podres do poder político. A corrida da cerveja essa corja da imprensa marrom não fala, né!

Ezequiel de Medeiros, Jofran Tavares e Berlúcio Villela não existem, inventei esses nomes e, como era de se esperar você nem tchuns para a infame existência de outros candidatos para a PR. Seu pulha!

Conversemos depois. Minha consciência reluta em ser limpa e saudável.

O Antônio José Custódio.

9 de setembro de 2010

Todo domingo por volta das oito horas da manhã a campainha lá de casa tocava duas vezes. Domingo para mim era um dia daqueles que não se podia perder um segundo. Totalmente carregado de brincadeiras, diversões, bicicletadas e artes não muito ortodoxas.

Na frente do portão lá estava ele, vestido sempre de um jeito muito peculiar: camiseta branca, básica, sobreposta por uma camisa de fazenda qualquer, sempre muito colorida e um casaco mais tricotado. Na cabeça um chapéu de palha trançada dos índios caingangues, em estilo cowboy, que eu não sabia se era de abas quebradas propositadas ou se a palha simplesmente enveredou as ponteiras.

Seu Antônio carregava sempre uma sacola trançada de nylon, que não lembro se era azul ou verde. Um fio tão grosso que eu poderia jurar que era linha de pesca. Dentro, uma meia-dúzia de hortaliças, doações e um radinho à pilhas que nunca ouvi chiar.

Não tenho nem como precisar de que época são essas lembranças. Desde que tenho noção de que o mundo é mundo o velho Antônio buzinava a campainha de casa. E acredito eu que ainda o vi uns pares de vezes quando eu tinha vinte e poucos.

Ele passara do século de idade há tempos. Sempre me troçava quando dizia que tinha o dobro da minha idade: eu mostrava meus cinco dedos esquerdos mais o indicador direito. E eram, de fato, os doze anos duplicados dos meus seis. Mais um século de bônus.

Seu Antônio era a antítese de um velho centenário: lúcido e suficientemente forte para andar uns bons cinco ou seis quilômetros diários, visitar amigos e conhecidos, como a minha família, que eu não sei ao certo o motivo da cordialidade semanal que era nutrida por nós.

***

Na frente do portão lá estava ele. De olhar vago e distante da porta ou até mesmo da casa, em que havia um permanente e curioso fito devaneístico, como se tudo, afinal de contas, não fosse essas coisas todas que a gente tenta confabular e ele fingia não perceber. Seu rosto expressivo sempre mo era murcho e pergaminhado, de olhos fundos e brilhosos, que quase não combinava com o couro curtido e acabrunhado da sua caricatura.

Eu não tinha muita paciência com ele, confesso. Sua fala mansa e leve, carregada em saudações e eruditismos flanavam como um idioma irreconhecível. Não compreendia o vossa mercê e o sinhozinho que me tratava. Voismecê para mim, naquela época, era apenas jacuzices dos do mato.

À parte disso, outra coisa me encafifava as idéias; ele jamais punha o pé dentro de casa. Era apenas uma cadeira que eu levava lá na porta, a qual ele se sentava para conversar. Degustava uma boa bolacha de maizena com um copo de leite morno enquanto contava suas prosápias epopéias.

Interessante era que, mesmo impaciente e sem atenção alguma, eu escutava suas lendas históricas. Como bom guarapuavano, ele me contou detalhadamente o causo da cobra gigante que tem o rabo na lagoa das lágrimas e a cabeça na catedral. O pároco alimentava o bichão com crianças pagãs não batizadas.  Eu achava essa história uma invencionisse descabida caducada, mas é uma lenda tão conhecida e famosa na cidade que o velhinho ou a inventou e a semeou no vento, ou pior, fez parte da implantação do bicho lânguido.

E assim fiquei sabendo das presepadas do nosso Visconde de Guarapuava; de quando os escravos realmente começaram a circular pela cidade, livre; da comemoração da república e da sacanagem em terem chutado as ancas do império brasileiro pra’lém mar.

O primeiro carro da cidade, um Fordinho 29 que parecia uma besta-fera; o fonógrafo, as cavalhadas, a instalação da sede da cavalaria para defender a fronteira do município, que era às margens das sete quedas com os castelhanos malditos.

Eu náo colocava juízo na questão. Mas realmente naquela época minha cidade era — territorialmente falando — a metade ocidental do Paraná.

***

Assim que acabavam seus dois ou três biscoitos de maizena e o copo de lente, que ele agradecia com um suave Deus -que-ajude, levantava-se solícito e rumava para o centro da cidade.

Eu voltava para minha rotina hiperativa qualquer, e nem ao menos digeria direito o que havia escutado.

***

Seu Antônio, por supuesto.

***

Tempos atrás encontrei no Museu virtual de Tampa um retrato do Seu Antônio, clicado por Valdir Cruz. Não acreditei quando vi aquele semblante munchauseano imortalizado em uma chapa de gelatina de prata sepiada por selênio e exposta em um museu norte-americano.

O velhinho era foda mesmo.

***

Descobri que Valdir Cruz é um fotógrafo de mão cheia. Retrata com uma câmera que 99% dos fotógrafos digitais por ai jamais imaginariam que existe. E que faz fotos tão realistas e perfeitas. Prazer, é o grande formato.

É no site dele que encontrei uma galeria sobre Guarapuava. Foi uma viagem incrível, mesmo porque aquela cidade não muda.

O Valdir saiu de Guarapuava para o mundo no mesmo ano em que eu nasci. E, conversando com ele, percebemos que a cidade não mudou nada.

***

Acredito que só escrevi esse texto meio sem nexo porque estou lendo O Retrato, primeiro tomo da segunda coleção do O Tempo e o Vento, do Veríssimo.

E algumas coisas ali batem com as histórias do come;o da primeira década do século XX que o velho Antônio contava. E coincide com algumas campanhas publicitárias de alguns periódicos velhos que achei pelo mundo.

Pena.

Seu Antônio hoje, com um gravadorzinho desses de 16gb daria um belíssimo livro de contos da carochinha.

O relento.

27 de julho de 2010

Chegamos no alto da serra às 02h da madrugada. Era um comboio pequeno e de poucos carros. Continuar a viagem seria arriscado, mesmo porque as trilhas estavam abandonadas e incertas. A decisão de descansar um pouco foi acordada por todos.

A região era impressionante: estávamos em uma crista da cadeia de montanhas, em um dos pontos mais altos, rodeado por uma amplitude visual imensa. A lua estava cheia e toda a penumbra escura ganhava cores esmaecidas. O vento na região era constante e gelado, e a vegetação de altitude comprovava essa força eólica. As estrelas cintilavam como furos na lona de circo e as raríssimas luzes de propriedades rurais tentavam — em vão — competir com a beleza do firmamento.

Enfrentar aquela ventania gelada de montanha era uma coisa muito peculiar. A maioria do pessoal resolveu se recolher nos carros e descansar até a alvorada. Outros ainda tentaram, em vão, se recolher atrás de qualquer veículo que emparedasse aquela ventania toda.

A minha situação já era perdida: estava em um Willys sem portas, capota e qualquer coisa que cortasse minimamente o vento. Nem o banco de couro salvava a estadia. Não havia um único lugar a salvo. Todos os carros estavam lotados, e eu estava apenas com uma jaqueta sintética corta-vento. Ela, por motivos situacionais, não esquenta. Mesmo porque aqui no planalto central não faz esse frio todo.

Tentei me acomodar em uma cadeira, nem sinal de conforto. Olhei a relva seca e densa, de um capim seco e quebradiço, titubeei por um instante, mas não relutei: resolvi encontrar um local sem muita irregularidade e relativamente macio.

Aquele capim era perfeito! Seco como estava, mostrava uma maciez e conforto fenomenal. Puxei um pedaço de tronco de corticeira que achei na redondeza e, com um pouco de jeito consegui montar um travesseiro honesto. O melhor de tudo daquele capim era que ele isolava o frio de alguma maneira térmica que me salvou de uma hipotermia qualquer. Deitar no chão foi uma atitude bem-sucedida, pois consegui fugir da massividade do vento que cortava por cima da minha cabeça.

Relaxei aos poucos. Todo aquele medo de insetos, cobras, lobisomens e coisas assustadoras foram dando lugar a uma sensação de tranquilidade. Vez ou outra um avião cruzava lentamente o céu. Estrelas continuavam o pisca-piscar frenético, uma estrela cadente varou de um horizonte a outro. E assim o corpo foi relaxando. A lua caminhava lentamente para trás de uma montanha, amarelescendo aos poucos e estufando o tamanho como uma cartada final antes do desaparecer do dia.

Fazia muito tempo que eu não dormia ao relento, com as botas ainda calçadas e sem proteção nenhuma. Contabilize dez anos nesse cálculo. Eu tinha esquecido essa sensação tênue e ferrenha que é adaptar-se à uma natureza que não faz questão de te acolher. E se uma cobra notívaga aparecesse por ali? Um escorpião amarelo do cerrado? Ou uma daquelas lacraias ferroadoras que machucam de verdade? Nada disso conseguia arranhar o brio de uma noite nas estrelas. Era fácil reconhecer formatos e brilhos. Que estrela era aquela que piscava em vermelho? Marte, talvez. O Cruzeiro do Sul era fácil de identificar. E assim fui relembrando coisas, sentidos e sensações esquedcidas há tempos.

Hora ou outra eu sentia alguma coisa passear nas minhas pernas. Era um capim a zanzar com o vento ou um inseto qualquer? Nada que uma rápida agitada não resolvesse. Ah, sim, botas, bermuda e corta-vento, esqueci do detalhe indumentário.

O frio não me fez dormir. Perambulei pelas lembranças afagadas por novas sentimentalidades, revivi amizades que não existem há tempos.  Foi uma lenta transposição do que eu era e do que me tornei, com interpelações dignas de memoriais escusos.

Quando a lua resolveu se abrigar nas montanhas não consegui mais ficar imóvel. Uma é que eu tiritava de frio e tudo tremia em meu corpo. Outra é que a imagem era belíssima. Saquei a câmera e lá fui tentar retratar aquele momento. É claro que uma foto não consegue — nem de longe  — contar a amplitude sensorial que o evento e a carga emocional ali abrigava. Mas, mesmo assim, segui adiante. O alvor começava a avermelhar o horizonte e mais um dia encetava sem que ninguém saboreasse aquilo comigo.

Quando o primeiro raio de sol atravessou o brumado e me atingiu, foi como o petardo de uma aduela que se assenta sobre o capitel ao estilingar de uma frécha. O calor me invadiu os póros e toda aquela sensação frienta deu lugar ao aconchego arrepiante de um abraço calorento veementíssimo.

O intrépido pernoitar vivenciado assim, sem muito esperar.

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Algumas fotos que resumem todo o amontoado de letras aí em cima:

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O valioso tempo dos maduros.

15 de junho de 2010

(…)
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário de Andrade
(1893-1945)
Furtado daqui.

Dos capitães do Hápax.

4 de março de 2010

Toda vez que o capitão do navio grego Hápax de bandeira de cabotagem Loyd Britâin descia às docas, senhoritas de vida mundana amontoavam-se no costil de atraque para afofalhá-lo de denguisses.

Todos os marulhos, práticos e baixas-patentes o invejavam. “Esse homem é o puro mel do incrustado, não tem razão de ser essa quereção toda!” E assim seguia o capitão com três escolhidas e uma garrafa de champanha escambada por rapé argelino no Port d’Lion.

Os urros, gemidos e grotejos dos quatros puerís fornicadores libertinos arrepiavam o veludo bolorento do quarto do hotel fuleiro em cima da casa de tolerância mais blasé da região.

O capitão só se entregava na alvorada seguinte, quando o primeiro raio fustigado amarelecido de sol o rasgava as vistas. Ainda assim, prometia revancha na próxima ribalta. As mulheres o acompanhavam na volta ao navio, mesmo já tendo quitado a esbórnia, como que enfeitiçadas pelo jeito trôpego convalescente do capitão de fardamento outrora aprumado à goma. Despediam-se com um beijo breveta nas bochechas barbudas e assim ele seguia sorridente e cambalecido rumo à tripulação.

Assim fez nome em todos os burlescos de todos os portos onde o Loyd que servia alcançava. Contam por aí que ele deflorou três gerações de mulheres-fáceis em uma mesma alcova escura, durante seus quarenta e tantos anos de bobagisses mundanas. Sua lenda era tão grande que começou a ser contada de bar em bar, por homens anônimos que o tinham como uma perfeita reputação do galanteador pueril.

Seu segredo? Bom, como todo mágico, revelou apenas para seu imediato — Rembrandt Rufino  — em herança fechada, ao sucumbir por um petardo de chumbo pederneirado de pistolete, no único bar portuário e arredio da ilha de Tristão da Cunha. O imediato, incrédulo, entendeu tudo:

Rembrandt,

Descrevo sucintamente o destrave que fez do Hápax o navio de cabotagem mais esperado em todos os portos mercantes que visitamos.

Seu capitão deverá ser regido por uma lenda de costumes tradicionais e secretas deste navio, que me foi passada como oitava geração e que pretendemos perseverar por tanto quanto for possível.

[...]

A virilidade e charme de todos os capitães do Hápax é nativo e isso não tem como passar. Mas a queredeira do mulherio é notado por todos e aqui entra a dica do escorte viril, que nada mais é do que duas ou três besuntadas de um insumo exótico pastrificado e manipulado na incólume gabina de químios deste navio.

De cada cais aportado, assegure-se de colher as seguintes especiarias:

[...]

Após pastificar todos os insumos, pingue, com extremo cuidado 35 gotas da peçonha da víbora do aquário exótico da sala de refugos. Atente para que o veneno seja gotejado diretamente das presas inoculadoras em cima do pastiche. O segredo de toda o comichão feminino está nesta toxina vípera, que gera caloração, formigamento e enrigecimento atemporal, seguido de espasmos rápidos e intermitentes e uma leve sensação de embriaguez e alucinações pitorescas.

Ao terminar de ler esta missiva testamental, depois do desmasque, o qual fará segredo a outrens, queime-a.

E a carta foi incendiada ali mesmo, no candelabro de 8 velas da mesa central do convés. E o imediato Rembrandt — agora promovido à Capitão de longo Curso — Sorriu de canto de boca. Seu fomento ricamente herdado geraria ainda muita esbórnia para os anais da história do Hápax.

Ernesto Hemingway, (1899–1961).

26 de janeiro de 2010

Ernesto Hemingway

E cá estamos, dois mil e dez!

5 de janeiro de 2010

Faz 13 anos que eu trabalho com essa sujidade virtual chamada internet. Eu achei que ia ficar rico, famoso, feliz e conheceria o mundo inteiro, férias-a-férias, ano-a-ano. E, tirando aqueles gringos fodásticos que encheram o rabo de dinheiro, quase todos os virtualizados que conheci — e que compartilharam deste sonho cibernético — não enriqueceram.

Interessante é que meus planos eram de migrar para algum recôndito pioneiro, muito provavelmente na Europa. mas eu desisti, pois o Brasil merecia muito mais atenção. Entenda por atenção o fato de eu querer conhecê-lo por completo, costumes, cidades, paisagens, cachoeiras, florestas e humanos.

Então, hoje como primeiro dia do MadCap 2010, já entro pessimista e sorrateiro.

Daqueles 13 anos lá de cima, some bem uns 10 anos que eu escrevo tibornices sem peso algum. É muito tempo de enrolação. Se eu fosse uma empresa, já estaria falido. Sem lucro, dividendos, aspirações ou conquistas.

E o mais ridículo de toda essa situação insustentável é que eu vou continuar, sempre, arrastando essa paganália por um bom tempo, como se fosse um objeto relevante na cibercultura contemporânea.

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Todo esse chororô aí em cima significa que vou fazer uma lista das resoluções de ano novo. Nada de coisas difíceis, mesmo porque sou um procrastinador agudo. Algumas delas:

  • Atualizar (no mínimo) duas vezes por semana esse blog;
  • Um desenho elaborado e complexo por semana (e postar aqui);
  • Uma peça publicitária fantasma por semana (e postar aqui);
  • Publicar um anúncio publicitário do projeto ’171 anos de publicidade’ por semana;
  • Nadar 5km por semana.
  • Juntar dinheiro suficiente para comprar uma câmera e uma lente que preste;
  • Tomar um Earl Grey ao vivo com a minha irmã, in loco;
  • Ler 26 livros de literatura inteligente;
  • Não ligar computadores, telefones, internetes e televisores nos finais de semana;
  • Arranjar 6 novos amigos reais por meios analógicos;
  • Melhorar minha vida profissional.

Coisa fáceis, mel na chupeta. Aliás, só o último item que ostenta o caráter de impossibilidade venatória. Mas o resto eu tiro de letra. E sem usar cheat.