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Dois quilômetros quentes depois do cruzamento com uma linha férrea abandonada, da qual só restava uns dez metros de dormentes de cada lado, avistei a figura imóvel como uma vela e seu reflexo a ondular no vapor sobre o asfalto preto – asfalto novo.
Só a alguns passos consegui ver ali uma mulher, sentada sobre sua mala com a coluna muito reta e os cabelos longos colados às costas. Deparei com uma estátua feita de grafite. A pele toda, os cílios e cabelos de um material escuro com infinitos pontinhos brilhantes de todas as cores. Toda a superfície lisa e brilhante só era maculada pelo rosa dos olhos e a margem vermelha das pálpebras inferiores. Minha fala pingou no acostamento:
— O que…?
— Isso é a poeira do asfalto.
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in “Two Ways, no U-turn” — P. Felicte

