MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Posts com a tag ‘ensaios’

A herança do tradicionalismo que nunca tive.

17 de fevereiro de 2011

Minha família é relativamente nova aqui no Brasil. Uma dessas levas imigratórias loucas européias, com um pouco de guerra, fome, miséria e brigas pontuais. Nada de glamour ou esperteza no processo; a coisa era subsistência e sobrevivência pura.

Acontece que nesse período curto de Brasil, a família, de um modo geral, passou por poucas e boas. Desde o auge das fazendas, extrativismos, comércio, marcenarias e beneficiamentos até a mais simples e usual bancarrota da mão na frente e atrás,  a vida passou da mesma forma calma e sorrateira.

D’além mar quase não veio nada, apenas uma canastra ou outra com roupas, meia dúzia de ferramentas e algum superfluo que se perdeu com o tempo.

Não sobraram lembranças materiais. Apenas histórias recontadas, fotos surrupiadas e lendas fermentadas com o tempo.

Dia desses tuitei uma frase que resume toda esta reação à praticidade:

Sempre gostei de velharias. Tenho um rádio Pioneer antigo de 1940, de baquelite, micromatic, com ondas curtas. Ganhei do meu avô, que barganhou com outrem e que, no final das contas, tornou-se parte desta herança adquirida e figurada.

A mesma coisa funciona com um tankard alemão de cerveja, feito de estanho, prata e cerâmica queimada. Encontrei na marcenaria do meu avô paterno, cheio de trapos e sujo de betume de madeira. Na época eu nunca tinha visto um caneco com tampa, achei muito legal e ele me deu. Disse que era um utensílio qualquer, que tinha ganhado de alguém e que nunca viu um uso para o mesmo.

É uma herança sem importância histórica, mesmo porque tem gravado no estanho o nome da familia do antigo dono da peça. Em alemão gótico antiquíssimo.

Minha capacidade de coleção de coisas antigas aumenta a cada dia. Tentei, tempos atrás, negociar uma Luger P08 em uma loja de quinquilharias no meio do Goiás. Quase consegui. Pena que o velho era louco.

Hoje não me é estranho surtar por um passado que não existiu.

Apenas tento sanar essa ausência com um materialismo relevante.

Acho que está funcionando.

A fotografia é arte?

5 de outubro de 2010

Fotografar é colocar
na mesma linha de mira
a cabeça, o olho e o coração
— Henri Cartier-Bresson

Eu tento acompanhar a evolução digital fotográfica desde 1996, quando conheci a primeira câmera digital da Kodak, uma DC40 de 250kilopixels. Algo como ¼ megapixels, o que significa uma imagem de 756×504. Um equipamento de $999 que perdia feio para um scanner qualquer de R$200.

Mas era interessante saber que o filme estaria morto em pouco mais de 4 anos.

A questão é que a fotografia nunca foi tão explorada como no começo deste novo século. A digital conseguiu forçar qualquer forma de elitização de processos lentos para o imediatismo do cabo lógico. E arrebanhou milhões de novos clicadores inveterados. Basicamente passou de um ritual mecânico, químico, transformático e lento para um simples processo físico-digital instantâneo.

A evolução pegou pesado nas bolas dos fotógrafos clássicos e isso foi um tapa de luva de pelica no brio póstumo de grandes clicadores. Conheci muita gente que tinha na fotografia um dogma religioso e performático muito sério. E que acabou sucumbindo ao marasmo da cultura diluída em novos entusiastas virtuais massivos.

E a fotografia era uma arte?

Era.

Quando todo o processo de produção, raciocínio e montagem da fotografia abrangia muito mais técnica e controle do resultado final de uma única imagem, poderíamos dizer que era arte. Mesmo porque todo o resultado só poderia ser visto um ou dois dias depois.

Hoje não sei se é.

Aprende-se a fotografar com o método mais burro e penoso que existe: tentativa e erro. Abertura focal, diafragmas, profundidade de campo, ‘bokeh’ (boqueta demais), dof e granulação são coisas paranormais em um equipamento na mão de quem não tem idéia de como essa mecânica toda funciona. É uma burrice preguiçosa, por assim dizer. Existem milhares de livros, tutoriais e videos explicando tudo sobre o todo.

Mecânica e fisica, meu amigo. Por que você acha que existe aquele mito dos 150 mil cliques que matam uma reflex digital?

Então em uma saída de safári fotográfico, lá vão os ‘autodidatas patetas’ com suas digitais poderosas clicando tudo e todos, sem muito pensar. O estalar do espelho em conjunto do burst e da pluralidade de máquinas gera um som hipnótico. Das 983 imagens clicadas, 32 ficaram excelentes, 8 sensacionais e 2 concentuais e perfeitas.

Valeu?

Sinceramente eu não sei. Regra dos terços, enquadramento e composição, pensamento e imaginação acabam sendo engolidos pelo imediatismo da vomitação visual. Fica uma sensação de que tudo poderia ter sido mais bonito e bem feito.

Vamos aos fatos:

A imagem abaixo é uma composição clássica de Salvador Dali com o fotógrafo Philippe Halsman. Tem até nome: Dali Atomicus. Apesar de parecer uma montagem das brabas, a fotografia teve um ensaio gigantesco, todo preparado com assistentes e precisão. Ah, jogaram os gatos, a água, os móveis, o Dali pulou e tudo mais.

Arte ou artesanato?

Existe uma briga grande entre artistas que é a dicotomia entre a arte e o artesanato. A mesma coisa é na fotografia. Uma imagem pode ser meramente clicada, reproduzida e ampliada quantas vezes quiser. O mesmo vale para uma produção em série de estatuetas do Mestre Vitalino. Seria arte? Ou simples artesanato de reprodução?

Esta outra imagem é um lightblur. Ali em cima da Câmara (bacia pra cima) tem um ponto amarelo maior, a lua cheia. Eu deixei essa foto muito exposta e na hora de tirar a câmera do tripé o obturador ainda estava aberto, dando esse efeito de riscos e pontilhados “sujando” a fotografia. Foi um acidente e o resultado ficou legal. O acaso é arte?

A fotografia só é arte porque tem a cultura abstrata por trás. Uma espécie de legado, meio que forçado. E só é artesanato porque o cotidiano suplica por novas idéias visuais fiéis a cada instante. Fotojornalismo, estúdio, ensaios, pornografia e conceitualização pessoal fazem parte da massa visual indigesta.

Elevar-se da massa clicadora é a chave para a arte.  O resto é conversa para flickr.

A arte do anonimato na internet.

24 de agosto de 2010

Desde quando a internet era internet eu gostava de fazer experiências sociais constrangedoras. Era um pouco de anarquismo sem fronteiras moderadas e também uma lasca de anonimato literal.
Lembro-me da vez em que um colega de trabalho resolveu agitar uma lista de discussão em que participávamos, a famosa e d’outrora reconhecidíssima WDMasters, hospedada na 10′Minutos. A lista tinha virado uma babação de ovo infernal e meu colega mandou ver uma foto escatológica, sem pudores e malícias, de uma mulher qualquer fazendo um No.º 2 aguado.
Lembro que aquilo gerou moderação instantânea, gente surtou e alvoroçamos a lista de uma maneira que ela nunca mais voltou ao normal. MEu amigo, em sua essência, era um umbundsman que falava o que ninguém tinha coragem ali. E, tempos depois, descobri que muita gente importante e histórica da internet gostou do que ele aprontou.
***
Mas não era essa a questão.
***
Depois disso continuei com os vários conceitos experimentais e sociais virtuais. A internet virou minha alcova de frankenstenezices até o dia em que resolvi, com o mesmo mentecapto ali da estória acima, criar um email fake, desses que todos repassam.
Eu não lembro direito o conteúdo — mesmo porque era lorota braba — mas o email foi bem diagramado, escrito e disparado. Em questão de horas ele começou a voltar para a caixa de entrada. Na semana seguinte, praticamente todos do meu meio virtual tinham me repassado o email ou uma variante dele. Foi um sucesso viral incrível e o seu ponto de glória foi quando a empresa (não sei se era microsoft ou icq, que o valha) escreveu uma pequena nota no site dizendo que aquilo era bullshit.
***
Era 2001 isso. Naquela época eu vi o quão feroz e monstruosa a internet poderia ser. E nunca mais mexi com os grandes.
***
voltei minhas atenções na rede humana individualista. Criei sites, personagens, gente em foruns, omunicadores instantâneos e tudo mais.
A coisa não era mais tão legal, mesmo porque a massa e a cauda monga estavam ficando menos massivas e mongas.
Até o dia em que eu recebi um convite do Orkut.
***
Mermão, pense na porteira de um infinito sem lei que me fôra aberta! Orkut, a primeira e mais monstruosa rede social mundial nas minhas mãos.
Criei Três personagens inolvidáveis: um bastardo milionário, um nobre parente da realeza brasileira e um faveladinho de oratória invejável. Todos, com alguma interação intersocial e finamente monitorados em seus passos e indicações.
***
Como você e eu temos tempo sobrando, vou contar a história desses camaradas, um a um.
***
O faveladinho foi fácil de construir: meia dúzia de fotos, algumas comunidades carniceiras, uns amigos vidaloka e os truta correria e sepam, mil hora mil grau o maluko entrou na lombra de conversar nivelado em comunidades inteligentes.
Comunidades do tipo “Devaneios de Nietzsche”, “A alcobaça Freudiana” e “Literatos doutrém” nunca mais foram a mesma. Os demiurgos e babacobaços irritavam-se com a qualidade intelectual do ranhento. Ficavam furiosos quando o faveladinho os destamancavam com pensamentos inteligentes e quebrativos. Não apelava, não chuleava, não brigava. Eram palavras que os desferiam na eteriedade.
A muleta desses comunas era fácil, segregadora e racista. Tratamento escravocrata e gritos de ordem do tempo dos grilhões avermelhavam vossos olhos.
E assim eu fazia, vez ou outra a veia de algum sociólogo mofento, angionar.
***
O nobre era cômico demais! Tinha sobrenome que não cabia no campo devido no cadastro. Eram cerca de 12 familias reais que o compunham. Suas comunidades variavam de Monarquia e impérios, passando por realeza e Bourbons até principados europeus e o bom costume cultural.
Fez amigos inimagináveis. Travou conversas calorosas com alguns membros famosos reais brasileiros (sim, a nobreza no Brasil é uma força que nunca acabou, pode pesquisar). Ganhou convites para banquetes “reais”, fez amizades com outras nobrezas européias internetizadas.
Era um sujeito muito tranquilo.
E tinha um amigo, o bastardo milionário.
***
O bastardo milionário era um porra-louca perdido no mundo da esbórnia maquineísta. Independente, cheio de empresas, casas, carros, barcos, viagens e mulheres.
Arrastava o nobre para todas as festas e putarias. Tomava Romaneé no bico da garrafa e comia caviar com bolacha maria. Não tinha meias palavras, quase um alter-ego do amigo nobre. Completavam-se, Enquanto o MSN do nobre era uma alcova de belas palavras regadas a cordas e vicissitudes, o Messenger do bastardo era o porão do underground lascivo.
***
O faveladinho morreu de bala perdida: era muito difícil conseguir amizades. Os intelectuais — apesar da boa trica de idéias que o franzininho gerava — tinham vergonha de ter um sujeito como ele na lista de amigos.
Assim matei ele sem mais nem menos, cobrindo de remorsos todos que o ignoravam.
***
Matei o nobre em Aspen. Bateu de frente em uma conífera soterrada da mais fina e seca snow powder, torcendo-lhe o pescoço e arrancando daquele esbelto corpo a jovialidade de uma vida inteira.
O cortejo fúnebre deu-se em Monte Carlo, contando até com nota nas comunidades nobres virtuais.
***
O Milionário e bastardo durou muito mais tempo. Como era um putanheiro de marca maior, seu msn e orkut eram a própria filial da Fornication SA. O Libertino era coroínha perto desse monstro egocêntrico.
Um colega meu começou a administrar o perfil. Ele conseguia fazer a mulherada se despir em 5min de conversa na webcam. Era incrível toda a futilidade que ele confrontava. Seus printscreens chegavam com os diálogos anexados. Eu não acreditava que essa putaria explícita fosse tão eficiente.
Caprichei nas fotografias do camarada: quem é da velha guarda virtual e meio nerd vai lembrar daquele gordo alemão intragável, Kim Schmitz, conhecido com Kimble.
Kimble foi a quintessência virtual da internet: um camarada que lucrou muito com a papagaiada toda de segurança, bolsa de valores e internet. Faz viagens maneiras, festar monstruosas e, por incrível que pareça, seus amigos eram quem mais se divertiam.
A receita então era simples, toda a foto que o Kimble não apareceia, ia para o orkut do milionário. Nisso apareceu o cara andando de helicóptero, jatinho particular, em cubas, canáras e fiji, esqui e mulheres estonteantes, ferraris e muita estravagância aturdida. http://en.wikipedia.org/wiki/Kim_Schmitz
Era o ímã de mulheres perdidas ,a perdição em forma de galanteador.
***
Uma das cocotinhas que ele aliciou para seu exército da perdição foi a Besga. A Besga era uma feínha muito marrenta que procurava freneticamente uma alavanca social. Tinha um leve estrabismo e uma cara meio sei lá, Juliana Paes antes da fama. Ela ficou amiga do nobre, antes dele sucumbir nos galhos de Aspen. E sua polipersonalidade era fantástica: um doce de pessoa, amável e culta, afável e verossímil com o nobre. E uma piriguete maliciosa e cheia de mundanices com o nosso putanhesco rico.
***
E assim a poliavatariedade dos personagens resumiu-se no ricasso desapegado. Ele dava uns tocos geniais na menina, que, não sei porque cargas d’água, não sucumbia aos petardos.
Foi quase um ano de coices e tabefes e nada. Nossa idéia aterrorizante foi a mais fria e calculista: criar uma fake gostosa, vagabunda e inteligente para desbancá-la.
E lá vamos nós surrupiar fotos e criar outro monstrinho mulher nota 1000. A Besga surtou. Atacava vorazmente em pvt aquela chinóca, que se deleitava em retribuir as gentilezas.
No final das contas nosso milionário convidou a besguita para um debut hedonista em algum recôncavo europeo. É claro que ela não aceitou e a nossa cocótínha fake assumiu seu lugar. Qubramos corações, cortamos laços e fechamos com chave de ouro a página das redes sociais compartilhadas.
***
Esse meu amigo desgraçado vez ou outra, muito tempo depois disso, religa a máquina dos infernos do msn e chama a besga pro fight. E ela, de pronto, aceita.
***
A questão é que eu não consigo parar de testar os humanos. É uma doença isso. Faço de tudo para não entrar mais nessa barca social, mas é inevitável. Sacanear talvez seja uma atitude biltre e covarde.
Mas a ingenuidade, meu amigo, essa é impagável.

Desde quando a internet era internet eu gostava de fazer experiências sociais constrangedoras. Era um pouco de anarquismo sem fronteiras moderadas e também uma lasca de anonimato literal.

Lembro-me da vez em que um colega de trabalho resolveu agitar uma lista de discussão em que participávamos, a famosa e d’outrora reconhecidíssima WDBrasil, hospedada na 10′Minutos. A lista tinha virado uma babação de ovo infernal e o ilustre mandou ver uma foto escatológica, de uma mulher fazendo um No.º 2 aguado.

Lembro que aquilo gerou moderação instantânea, gente surtou e alvoroçamos a lista de uma maneira que a dita nunca mais voltou ao normal. O infeliz, em sua essência, era um umbundsman que falava o que ninguém tinha coragem ali. E, tempos depois, descobri que muita gente importante e histórica da internet gostou do que ele aprontou.

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Mas não era essa a questão.

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Depois disso continuei com os vários conceitos experimentais e sociais virtuais. A internet virou minha alcova de frankenstenezices até o dia em que resolvi, com o mesmo mentecapto ali da estória acima, criar um e-mail fake, desses que todos repassam.

Eu não lembro direito o conteúdo — mesmo porque era lorota braba — mas o e-mail foi milimetricamente diagramado, escrito e disparado. Em questão de horas ele começou a voltar para a caixa de entrada. Na semana seguinte, praticamente todos do meu meio virtual tinham me repassado o e-mail ou uma variante dele. Foi um sucesso viral incrível e o seu ponto de glória foi quando a empresa (não sei se era Microsoft ou icq, que o valha) escreveu uma pequena nota no site dizendo que aquilo era bullshit.

***

Era 2001 isso. Naquela época eu vi o quão feroz e monstruosa a internet poderia ser. E nunca mais mexi com os grandes.

***

Voltei minhas atenções na rede humana individualista. Criei sites, personagens, gente em fóruns, comunicadores instantâneos e tudo mais.

A coisa não era mais tão legal, mesmo porque a massa e a cauda monga estavam ficando menos massivas e mongas.

Até o dia em que eu recebi um convite do Orkut.

***

Mermão, pense na porteira de um infinito sem lei que me fôra aberta! Orkut, a primeira e mais monstruosa rede social mundial nas minhas mãos.

Criei Três personagens inolvidáveis: um bastardo milionário, um nobre parente da realeza brasileira e um faveladinho de oratória invejável. Todos, com alguma interação intersocial e finamente monitorados em seus passos e indicações.

***

Como você e eu temos tempo sobrando, vou contar a história desses camaradas, um a um.

***

O faveladinho foi fácil de construir: meia dúzia de fotos, algumas comunidades carniceiras, uns amigos vidaloka e os truta correria e sepam, mil hora mil grau o maluko entrou na lombra de conversar nivelado em comunidades inteligentes.

Comunidades do tipo “Devaneios de Nietzsche”, “A alcobaça Freudiana” e “Literatos doutrém” nunca mais foram a mesma. Os demiurgos e babacobaços irritavam-se com a qualidade intelectual do ranhento. Ficavam furiosos quando o faveladinho os destamancavam com pensamentos inteligentes e quebrativos. Não apelava, não chuleava, não brigava. Eram palavras que os desferiam na eteriedade.

A muleta desses comunas era fácil, segregadora e racista. Tratamento escravocrata e gritos de ordem do tempo dos grilhões avermelhavam vossos olhos.

E assim eu fazia, vez ou outra a veia de algum sociólogo mofento, angionar.

***

O nobre era cômico demais! Tinha sobrenome que não cabia no campo devido no cadastro. Eram cerca de 12 familias reais que o compunham. Suas comunidades variavam de Monarquia e impérios, passando por realeza e Bourbons até principados europeus e o bom costume cultural.

Fez amigos inimagináveis. Travou conversas calorosas com alguns membros famosos reais brasileiros (sim, a nobreza no Brasil é uma força que nunca acabou, pode pesquisar). Ganhou convites para banquetes “reais”, fez amizades com outras nobrezas européias internetizadas.

Era um sujeito muito tranquilo.

E tinha um amigo, o bastardo milionário.

***

O bastardo milionário era um porra-louca perdido no mundo da esbórnia maquineísta. Independente, cheio de empresas, casas, carros, barcos, viagens e mulheres.

Arrastava o nobre para todas as festas e putarias. Tomava Romaneé no bico da garrafa e comia caviar com bolacha Maria. Não tinha meias palavras, quase um alter-ego do amigo nobre. Completavam-se, Enquanto o MSN do nobre era um convescote de belas palavras regadas a cordas e vicissitudes, o Messenger do bastardo tornara-se o porão do underground lascivo.

***

O faveladinho morreu de bala perdida: era muito difícil conseguir amizades. Os intelectuais — apesar da boa troca de idéias que o franzininho gerava — tinham vergonha de ter um sujeito como ele na lista de amigos.

Assim matei ele sem mais nem menos, cobrindo de remorsos todos que o ignoravam. Acho que até foi de bala perdida em alguma CDD da vida quotidiana.

***

Matei o nobre em Aspen. Bateu de frente, esquiando, com uma conífera soterrada na mais fina e seca snow powder, torcendo-lhe o pescoço e arrancando daquele esbelto corpo a jovialidade de uma vida inteira.

O cortejo fúnebre deu-se em Monte Carlo, contando até com nota nas comunidades nobres virtuais.

***

O Milionário e bastardo durou muito mais tempo. Como era um putanheiro de marca maior, seu msn e orkut eram a própria filial da Fornication SA. O Libertino era coroínha perto desse monstro egocêntrico.

Um colega meu começou a administrar o perfil. Ele conseguia fazer a mulherada se despir em 5min de conversa na webcam. Era incrível toda a futilidade que ele confrontava. Seus printscreens chegavam com os diálogos anexados. Eu não acreditava que essa putaria explícita fosse tão eficiente.

Caprichei nas fotografias do camarada: quem é da velha guarda virtual e meio nerd vai lembrar daquele gordo alemão intragável, Kim Schmitz, conhecido com Kimble.

Kimble foi a quintessência virtual da internet: um camarada que lucrou muito com a papagaiada toda de segurança, bolsa de valores e internet. Faz viagens maneiras, festar monstruosas e, por incrível que pareça, seus amigos eram quem mais se divertiam.

A receita então era simples, toda a foto que o Kimble não aparecia, automaticamente era selecionada para o orkut do milionário. Nisso apareceu o cara andando de helicóptero, jatinho particular, em Cuba, Canárias e Fiji, no meio das peitólas de européias lascivas estonteantes, Ferraris e muita estravagância aturdida.

Era o ímã de mulheres ninféticas, a perdição em forma de um galanteador abastado.

***

Uma das cocotinhas que ele aliciou para seu exército da perdição foi a Besga. A Besga era uma feínha muito marrenta que procurava freneticamente uma alavanca social. Tinha um leve estrabismo e uma cara meio sei lá, Juliana Paes antes da fama. Ela ficou amiga do nobre, antes dele sucumbir nos galhos de Aspen. E sua polipersonalidade era fantástica: um doce de pessoa, amável e culta, afável e verossímil com o nobre. E uma piriguete maliciosa e cheia de mundanisses com o nosso putanhesco rico.

***

E assim a poliavatariedade dos personagens resumiu-se no ricasso desapegado. Ele dava uns tocos geniais na menina, que, não sei porque cargas d’água, não sucumbia aos petardos.

Foi quase um ano de coices e tabefes e nada. Mulher de malandro na mais ínfima e sutil essência. Nossa idéia aterrorizante foi fria e calculista: criar uma fake gostosa, vagabunda e inteligente para desbancá-la.

E lá vamos nós surrupiar fotos e criar outro monstrinho mulher nota 1000. A Besga surtou. Atacava vorazmente em pvt aquela chinóca, que se deleitava em retribuir as gentilezas.

No final das contas nosso milionário convidou a besguita para um debut hedonista em algum recôncavo europeo. É claro que ela não aceitou e a nossa cocótínha fake assumiu seu lugar na viagem. Fotos não faltaram depois. Quebramos corações, cortamos laços e fechamos com chave de ouro a página das redes sociais compartilhadas.

***

Esse meu amigo desgraçado vez ou outra, muito tempo depois disso, religa a máquina dos infernos do msn e chama a besga pro fight. E ela, de pronto, aceita.

***

A questão é que eu não consigo parar de testar os humanos. É uma doença isso. Faço de tudo para não entrar mais nessa barca social, mas é inevitável.

Sacanear talvez seja uma atitude biltre e covarde.

Mas a ingenuidade, meu amigo, essa é impagável.

O relento.

27 de julho de 2010

Chegamos no alto da serra às 02h da madrugada. Era um comboio pequeno e de poucos carros. Continuar a viagem seria arriscado, mesmo porque as trilhas estavam abandonadas e incertas. A decisão de descansar um pouco foi acordada por todos.

A região era impressionante: estávamos em uma crista da cadeia de montanhas, em um dos pontos mais altos, rodeado por uma amplitude visual imensa. A lua estava cheia e toda a penumbra escura ganhava cores esmaecidas. O vento na região era constante e gelado, e a vegetação de altitude comprovava essa força eólica. As estrelas cintilavam como furos na lona de circo e as raríssimas luzes de propriedades rurais tentavam — em vão — competir com a beleza do firmamento.

Enfrentar aquela ventania gelada de montanha era uma coisa muito peculiar. A maioria do pessoal resolveu se recolher nos carros e descansar até a alvorada. Outros ainda tentaram, em vão, se recolher atrás de qualquer veículo que emparedasse aquela ventania toda.

A minha situação já era perdida: estava em um Willys sem portas, capota e qualquer coisa que cortasse minimamente o vento. Nem o banco de couro salvava a estadia. Não havia um único lugar a salvo. Todos os carros estavam lotados, e eu estava apenas com uma jaqueta sintética corta-vento. Ela, por motivos situacionais, não esquenta. Mesmo porque aqui no planalto central não faz esse frio todo.

Tentei me acomodar em uma cadeira, nem sinal de conforto. Olhei a relva seca e densa, de um capim seco e quebradiço, titubeei por um instante, mas não relutei: resolvi encontrar um local sem muita irregularidade e relativamente macio.

Aquele capim era perfeito! Seco como estava, mostrava uma maciez e conforto fenomenal. Puxei um pedaço de tronco de corticeira que achei na redondeza e, com um pouco de jeito consegui montar um travesseiro honesto. O melhor de tudo daquele capim era que ele isolava o frio de alguma maneira térmica que me salvou de uma hipotermia qualquer. Deitar no chão foi uma atitude bem-sucedida, pois consegui fugir da massividade do vento que cortava por cima da minha cabeça.

Relaxei aos poucos. Todo aquele medo de insetos, cobras, lobisomens e coisas assustadoras foram dando lugar a uma sensação de tranquilidade. Vez ou outra um avião cruzava lentamente o céu. Estrelas continuavam o pisca-piscar frenético, uma estrela cadente varou de um horizonte a outro. E assim o corpo foi relaxando. A lua caminhava lentamente para trás de uma montanha, amarelescendo aos poucos e estufando o tamanho como uma cartada final antes do desaparecer do dia.

Fazia muito tempo que eu não dormia ao relento, com as botas ainda calçadas e sem proteção nenhuma. Contabilize dez anos nesse cálculo. Eu tinha esquecido essa sensação tênue e ferrenha que é adaptar-se à uma natureza que não faz questão de te acolher. E se uma cobra notívaga aparecesse por ali? Um escorpião amarelo do cerrado? Ou uma daquelas lacraias ferroadoras que machucam de verdade? Nada disso conseguia arranhar o brio de uma noite nas estrelas. Era fácil reconhecer formatos e brilhos. Que estrela era aquela que piscava em vermelho? Marte, talvez. O Cruzeiro do Sul era fácil de identificar. E assim fui relembrando coisas, sentidos e sensações esquedcidas há tempos.

Hora ou outra eu sentia alguma coisa passear nas minhas pernas. Era um capim a zanzar com o vento ou um inseto qualquer? Nada que uma rápida agitada não resolvesse. Ah, sim, botas, bermuda e corta-vento, esqueci do detalhe indumentário.

O frio não me fez dormir. Perambulei pelas lembranças afagadas por novas sentimentalidades, revivi amizades que não existem há tempos.  Foi uma lenta transposição do que eu era e do que me tornei, com interpelações dignas de memoriais escusos.

Quando a lua resolveu se abrigar nas montanhas não consegui mais ficar imóvel. Uma é que eu tiritava de frio e tudo tremia em meu corpo. Outra é que a imagem era belíssima. Saquei a câmera e lá fui tentar retratar aquele momento. É claro que uma foto não consegue — nem de longe  — contar a amplitude sensorial que o evento e a carga emocional ali abrigava. Mas, mesmo assim, segui adiante. O alvor começava a avermelhar o horizonte e mais um dia encetava sem que ninguém saboreasse aquilo comigo.

Quando o primeiro raio de sol atravessou o brumado e me atingiu, foi como o petardo de uma aduela que se assenta sobre o capitel ao estilingar de uma frécha. O calor me invadiu os póros e toda aquela sensação frienta deu lugar ao aconchego arrepiante de um abraço calorento veementíssimo.

O intrépido pernoitar vivenciado assim, sem muito esperar.

divisor

Algumas fotos que resumem todo o amontoado de letras aí em cima:

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A Copa do Mundo de 2010 segundo R.Valentino.

15 de junho de 2010

Antigamente eu era um visigodo contrarista e torcia para outras nações. O soldo disso é uma coleção de camisetas alemãs, italianas, inglesas e holandesas. Do Brasil mesmo, tive apenas uma, que ganhei quando tinha uns 6 anos de idade. E lembro muito bem o que aconteceu com ela.

Era ’86, copa do México — aquela do mascote pimentito, que era para ser na Colômbia, mas foi espantada para o Brasil porque as milícias colombianas melaram tudo e, por incrível que pareça, nosso Sarneyzão subditatorial renegou sediar aqui os jogos por motivos desprezíveis, e que fez com que a FIFA desovasse o mundial para o México.

Pois bem, essa copa foi marcada pela “Mano de Dios”, Maradona, em um confronto épico e histórico entre uma Argentina malvinada e um Reino Unido falklandeado.

Mas o que me deixou puto da vida foi justamente o jogo Brasil e França, pelas quartas. Era um churrascão na casa de um colega do meu pai. Tinha muita gente lá, tv grande, muita cerveja e muita festa. O jogo foi minguado e correu para os penais. Lembro muito bem que Sócrates bateu e o goleiro defendeu. Cara, aquilo ali foi um desespero em minha volta. Tinha gente já gorando o Brasil naquele momento, gente levantando, cenhos fechados, enfim, um clima putiado.

Um francês errou e com isso voltou o clima de já ganhou. Na sequência uma trave brasileira e a vaca foi para o brejo.

Brasil rodou, a festa acabou, o clima pesou, o povo levantava meio sem jeito, uns tios mais exaltados começaram a tirar as camisetas de algodão com as três estrelinhas e arremeçavam na churrasqueira. A molecada fez o mesmo, todos revoltados; eu? eu adorava a minha, ela era de alguma copa passada, de algodão penteado, com a Jules Rimet ainda no Brasão (ou era a logomarca do café, não lembro). O problema é que saquearam-na do meu corpo e tacaram na fogueira amarela.

Mermão, pense em um moleque que chorou. Eu não entendia o porquê dessa revolta toda, desse descarte idiota das belíssimas camisetas amarelas, dessa raiva incontida. Era uma das melhores seleções que o Brasil já teve, Zico, Sócrates, Silas.

Voltei para casa descamisado e puto. Lembro que eu perguntei, ainda com os olhos mareados e no banco de trás do carro, para meus pais, porque tudo isso. Eu não lembro da resposta, mas nada, naquele momento, poderia me consolar.

Desde então eu via a copa com a futilidade existencial que ela sempre foi. Italia’90 não lembro. Aliás, lembro sim: eu tinha montado um arsenal de bombinhas amarradas com fita adesiva e todas as pólvoras ignitoras juntas. Era um jogo qualquer do brasil, todos na sala principal de casa e eu no quartinho da bagunça conferindo o jogo na Telefunken velha, com a bomba na direita e o isqueiro na esquerda.

Eu fui treinar como seria a ignição e uma centelha da pedra pulou na pórva toda e aquela bomba desgraçada começou a pegar fogo. Levei um susto, ela caiu no tapete verde que tinha na sala, começou a pipocar os petardos e eu já devia estar em cima do pé de ameixa lá do quintal. O soldo foi uns buracos no tapete, a casa empestiada de fumaça de pólvora e eu de castigo.

As outras copas eu já não estava nem aí para o mundialito, queria mesmo era sair com amigos, olhar as cocotinhas e bebericar muito etanol.

Muito tempo depois retorno com esse negócio da copa. Amigos vão se reunir daqui a pouco, as TV´s de mais de 50 poelgadas mostrarão tudo em highdef e eu — quiçá oxalá — comprarei uma camiseta amarela novamente, para fazer parte de uma torcida que eu nunca mais me senti integrante.

O valioso tempo dos maduros.

15 de junho de 2010

(…)
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário de Andrade
(1893-1945)
Furtado daqui.

Hugs, nerd; Hugs.

21 de maio de 2010

Você já se perguntou o que significa []´s no final das mensagens? Eu já. A primeira vez que vi esse símbolo na ArpaNet, fiquei encafifado com o grafismo e resolvi perguntar ao SysOp o real significado. Ele rebateu na hora: Abraços, brow.

Como ninguém jamais poderia duvidar de um SysOp na época, dado seu grau de importância, integridade e vicissitude alheia, tomei como verdade absoluta.

A vida seguiu até o dia que, em uma troca singela de e-mails com o amigo Robert Cailliau, perguntei o por quê d’ele usar colchetes para finalizar e-mails.

A resposta foi histórica e acredito ser uma das primeiras razões etmológicas verdadeiras do simbologismo codificado (tradução livre por nosso imberbe colaborador L33t-w33K:

Message-ID: <020a01c5d41c$de175110$5a14a8c0@northrop>
From: "rcailliau <rcailliau@cern.ch>"
To: "rvalentino at North <rcc344rval@northrop.com>"
Date: Fri, 23 Dec 1994 17:48:09 -0200

RV,

Na verdade eu sempre finalizei minhas comunicações com o Tim (N.E.: Tim Berners-Lee, um dos pioneiros virtuais) com um singelo abraço. Coisa de família, então a saudação surgia normalmente para finalizar a missiva. Em dada ocasião, e na pressa de finalizar um DDCo para o Tim, escrevi rapidamente duas chaves {} (braces, en inglês). Ele entendeu e na contra-resposta arrematou um "apóstrofo S", finalizando com {}'s (embraces)

A chave mudou para colchete por comodidade. Muita codificação e operação telefônica comunicativa na época transitava entre colchetes. Inclusive um projeto visionário de IPv era atribuído em colchetes, como esse ldap://[2001:db8:3c4d:15::abcd:ef12]. A facilidade e praticidade de não ter que subir a caixa para escrever []´s foi tamanha que a gente migrou para os colchetes sem perceber. Nossos protótipo de IPv eram limitados por colchetes, então melhoramos a dialética e simplificamos o óbvio. E essa saudação contagiou nossos amigos que, como em um ritual secreto nosso, recebiam o entendimento da codificação.

O abraço foi a melhor forma de despedida, uma vez que a comunicação à distância sempre delimitava qualquer forma de cumprimento, como um aperto de mão ou qualquer saudação corporal.

[]´s


[N.E.: Em inglês, existem duas formas de descrever um abraço: embrace (mais formal) e hug (mais informal)]

Pena Branca & Xavantinho

9 de fevereiro de 2010

Uma das primeiras coisas que eu aprendi — sem ser obrigado — foi escutar música honesta. Eu escutava música clássica direto dos LP´s do meu pai, motown e disco do meu tio cabeludo, rock e metal do meu irmão e outros tios que tinham coletâneas completas, desde Pink Floyd a Led Zeppelin e Rush e um pouco de gauchesca, que era o folk que todo mundo devia praticar.
Eu gostava basicamente de clássico, rock normal e um pouco de Blues.
Em 1999 fiz dupla de criação com um redator fodão em uma agência de publicidade interativa. Ele tinha algumas manias engraçadas, como copiar VHS de filmes clássicos de uma locadora cult qualquer. Era cópia fiel, inclusive com a caixa, rótulos e xepas das fitas escaneados e impressos à laser colorida.
Ele queria trocar o Curso de Publicidade e Propaganda por Letras. Eu achava, naquela época, que publicidade e propaganda seria um curso que daria mil vezes mais visibilidade para ele, um redator próspero, do que aquele curso merréca de Letras.
Mas voltemos: A questão era a música.
Ele apareceu, um belo dia, com um CD “Renato Teixeira e Pena Branca & Xavantinho: Ao vivo em Tatuí” da Quarup discos. Cara, eu dei muita risada dele. “Pronto, surtou de vez!”
Relutei e coloquei o disco na bandeja do computador, com os fones de ouvido e cara de desconfiado. Na época eu tinha um fone Sehnheiser de amplitude fenomenal.
Quando terminei de escutar, percebi que meu preconceito musical era muito forte. Eu me senti traído, pois tinha gostado da xexelentice sertaneja roots. Eu comprei aquele disco, alguns dias depois. Conheci muita música boa com aquele mentecapto avassalador de preconceitos.
Aprendi a escutar jazz. E do jeito certo, cronologicamente e por complexidade.
E meu horizonte musical foi se expandindo de uma forma monstruosa, com setlists de música eletrônica vindos diretamente da europa, achados raros de gravações de sinfônicas, downloads experimentais de discografias completas e não oficiais, gêneros e formas atonais.
E no final das contas, hoje eu trocaria minha graduação, de publicidade e propaganda, pela de Letras. E tudo por uma bela gramática.
A vida é foda, né?

Uma das primeiras coisas que eu aprendi — sem ser obrigado — foi escutar música honesta. Eu escutava música clássica direto dos LP´s do meu pai, motown e disco do meu tio cabeludo, rock e metal do meu irmão e outros tios que tinham coletâneas completas, desde Pink Floyd a Led Zeppelin e Rush e um pouco de gauchesca, que era o folk que todo mundo devia ter para gostar de seu lugar roots.

Eu praticava basicamente o clássico e o rock.

Em 1999 fiz dupla de criação com um redator fodão em uma agência de publicidade interativa. Ele tinha algumas manias engraçadas, como copiar VHS de filmes clássicos de uma locadora cult qualquer. Era cópia fiel, inclusive com a caixa, rótulos e xêpas das fitas escaneadas e impressas à laser colorida.

Ele queria trocar o Curso de Publicidade e Propaganda por Letras. Eu achava, naquela época, que publicidade e propaganda seria um curso que daria mil vezes mais visibilidade para ele, um redator próspero, do que um curso merréca de Letras.

Mas voltemos: A questão era a música.

Ele apareceu, um belo dia, com um CD “Renato Teixeira e Pena Branca & Xavantinho: Ao vivo em Tatuí” da Quarup discos. Cara, eu dei muita risada dele. “Pronto, surtou de vez!”

Relutei e coloquei o disco na bandeja do computador, com os fones de ouvido e cara de desconfiado. Na época eu tinha um fone Sehnheiser de amplitude fenomenal, totalmente isolado.

Quando terminei de escutar, percebi que meu preconceito musical era muito forte. Eu me senti traído, pois tinha gostado da xexelentice sertaneja. Eu comprei aquele disco, alguns dias depois. Conheci muita música boa com aquele mentecapto avassalador de preconceitos.

Aprendi a escutar jazz. E do jeito certo, cronologicamente e por complexidade.

E meu horizonte musical foi se expandindo de uma forma monstruosa, com setlists de música eletrônica vindos diretamente da europa, achados raros de gravações de sinfônicas, downloads experimentais de discografias completas e não oficiais, gêneros e formas atonais.

E no final das contas, hoje eu trocaria minha graduação, de publicidade e propaganda, pela de Letras. E tudo por uma bela gramática.

A vida é foda, né?