[Não tínhamos nada melhor para cobrir, prazo em cima da hora, viemos pela indicação de um informante — matéria tapa-buraco na página 7 — preciso abotoar o último botão da camisa, o gordo já está à minha frente, ir em frente vê o que se pode tirar] O Dr. Miguel Alonzo comenta sobre sua nova invenção, um remédio para gastrite, ou úlcera do estômago algo assim, não é doutor?
* Meu jovem, não é bem isso. Mais que um fármaco, trata-se do aríete que se tornará um novo paradigma do culto de Hipócrates.
— Certo… Mas é um novo remédio, não é?
* Não, é apenas uma brincadeira, eu quis me divertir um pouco e desenrolar palavras formando outras, brincar de ver as combinações aleatórias, protegidas do escrutínio público por mucosas e fibroblastos e brindadas apenas aos endoscopistas. É mais uma private joke com meus colegas hihihi
— Tenho meu respeito pelo Sr. Dr. mas sou um profissional, quero informações claras e objetivas, meu tempo é precioso [hihihi ruguinha entre as sobrancelhas, que stress] [mãos do Dr. Sr. em seus ombros — os médicos tem suas estratégias de fazer com que o paciente se sinta confortável, simulação de um membro da família]
* Não se trata de uma dráguea, um comprimido, nada disso. é apenas um bolo de palavras, enroladas hihihi Eu enrolo uma letra na outra… sabe… Um “W” pode se enganchar em dois “R” que por sua vez se prende na voltinha do finzinho do “G”, sacumé malaca!!! E eu não estou sendo metafórico, não são moléculas com siglas padronizadas e seus efeitos, é apenas frases formadas dentro do estômago. O estômago do paciente se torna mais culto, não que se torne mais culto, mas forma orações e frases que podem ser interpretadas por outro colega endoscopista, observe…
[O médico manda um homem engolir o bolo de palavras, espera alguns minutos e insere o endoscópio no paciente, com cuidado]
* Observe este vistor, veja que algumas sílabas aderem as pernas das letras ao óstio do piloro e impedem que as letras passem ao duodeno, sem no entanto obstruir a passagem do alimento digerido. Olhe para direita que tem umas palavras se formando, que lindo!
cereja – nela – teral
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e o a kant
fl – s s p i
i p l e
137 – o i a tzc
noza ce he
— Nossa, Sr. Dr. Nunca tinha visto algo parecido.
* A idéia é que o estômago tenha uma inteligência própria e lentamente possa montar anagramas que expressem adequadamente seus sintomas e devaneios. Seria outro veículo de expressão humana, não mais apenas a mente
— [espantado] sério?!
* hihihihi que nada, mas que é divertido, isso é!!
… depois daquilo pensou que já era hora de começar a se apaixonar por atrizes do cinema ou por cantoras folk.





