
Lá pelas tantas, no meio do carnaval: Brasília e suas rodovias magníficas.

Lá pelas tantas, no meio do carnaval: Brasília e suas rodovias magníficas.

Essa foto era de um caminhão lá da fazenda do meu avô. Um Chevrolet no toco, que carregava metade de um pinheiro centenário.
Como máquina fotográfica (e caminhão) naquelas bandas era coisa rara de se ver, qualquer destombamento virava motivo de evento social.
Domingo reunimos uma turma de pessoas que não gostam de ficar em casa sem fazer nada e seguimos rumo ao Lenhador, na região da Fercal. O espaço é muito democrático, para carros, motos, bikers e loucos.
Deu muitas chapas legais, o que comprova a teoria do “final de semana desplugado é o melhor que há!”:
Esse titulo de post era um slogan antigo da secretaria de turismo de Santa Catarina. E não é puxar a sardinha para o meu lado, mas a realidade é que esse pequeno estado brasileiro tem um apelo turístico incrível. Para você ter uma idéia do que eu estou falando, veja a pequena viagem que fiz com minha mulher e minha irmã: saímos de Florianópolis, atravessamos vários quilómetros de praias desertas até chegar ao Farol de Santa Marta, um reduto neo-hippie e SurfBro de primeira qualidade.
Aliás, o Farol de Santa Marta continua com um atendimento excelente, almoços regados à frutos do mar com preços atrativos e com as praias ainda intocadas.
Do litoral nos atracamos por Gravatal, que é uma cidadezinha termal com águas quentes e hotéis honestos, parques aquáticos e uma variedade cultural incrível. Gravatal na verdade é uma cidade estratégica para subir a serra entre Grão-Pará e Urubici.
A Serra do Corvo Branco é uma estrada de 50km, não pavimentada, que liga a região litorânea até a serrana. A subida é esculpida em um paredão que varia em pouco mais de 1200m em relação ao nivel do mar em apenas 30km de percurso. Alguns trechos da subida são assustadores, porque é parede de rocha de um lado, três metros de largura na estrada e um precipício de 300m do outro lado.
Aí em cima da serra tudo muda: o clima fica ameno, a vegetação abre para araucárias centenárias e mata de altitude, a cabeça dói, você continua subindo e o GPS avisa que estamos a quase 1800m acima do nível do mar. A estrada acaba novamente, agora em uma base militar da aeronáutica chamada CINDACTA II, restrita, de frente para uma das paisagens mais impressionantes da serra geral, que é o morro da igreja.
Paramos em Urubici, em um hotel que tem calefação em todo lugar que você consegue olhar, lareiras, fogões à lenha. E não é por menos, a cidade tem o recorde oficial de cidade mais fria do Brasil, com temperatura registrada de -14°C. E fotos de neve por tudo.
A volta, segundo o meu GPS doidão, poderia ser por estrada pavimentada ou por um caminho que ele deu certeza que era viável. Uma estrada de terra de 50km, beirando escarpas, fazendas incríveis e um caminho que afinava cada vez mais.
Descemos a serra do Rio do Rastro, via Bom Jesus da Serra. Estrada clássica, concretada, com 12 curvas completas de 180°. Pra mim um dos trechos de estrada mais bonito do Brasil.
Retorno tranquilo para Florianópolis: praia do Rosa, do Ferrugem, Garopaba e Guarda do Embaú.
Clássicas.
E tudo isso em apenas dois dias.
Praia, dunas, estradas de terra, trilhas, travessia de rios, serra, escarpas, 4×4, altitude e aventura ao extremo. E meu GPS não poderia ser mais aventureiro e louco do que já é.
Abaixo algumas fotos e dois pequenos videos da subida do Corvo Branco e a descida do Rio do Rastro. A noção da magnitude dessa aventura não chega aos pés do que é ao vivo. Mas fica o aperitivo.
“Quatro quebras por hora. Parou por mais de 10 minutos, camba e continua!” Essas eram as palavras de ordem para a terceira Expedição Willys de Brasília, um evento monomarca e exclusivo, onde apenas Jeeps, camionetas Rural e picapes F-75 — todos Willys — poderiam fazer parte do comboio.
Estavam inscritos 62 veículos, em um sábado ensolarado, precedido de uma semana e meia de chuvas, o que rendeu excelentes poças, alagados e muita lama. A Expedição saiu de Brasília, viajou por 130 quilômetros de terras e trilhas até as margens da represa Corumbá IV, em Goiás.
Meu 4×4 é japonês, mais novo, com ar condicionado, cheio de firulas automatizadas. O contraste era visível quando embarquei como fotógrafo e zequinha, a bordo de um CJ5 ano 62, militar. O nhéco-nheco da suspensão, a lama que entrava por todas as frestas possíveis, a poeira, lata rangendo, a precariedade do limpador do pára-brisa, basculante, tudo era singular e contagiante.
A cada parada, meia dúzia de jipes aparecia com os capôs abertos: gente futricando no motor, regulando uma ou outra coisa. Sangria de freio, lixadinha no platinado, reparo no carburador, radiador furado, bomba fraca. Tudo detectado e arrumado com velocidade e praticidade impressionante.
No meio da viagem um expedicionário perdeu uma roda traseira. Quebrou a ponta de eixo, o que inutilizou o veículo. Prontamente inventaram uma amarra do pára-choque traseiro do jipe estragado no pára-choque dianteiro de outro jipe, testaram a firmeza e pronto! Com apenas três rodas seguiram viagem até o vilarejo mais próximo.
A chegada foi triunfal, em uma pousada magnífica à beira da represa. Com 12h de viagem, sujos, cansados, enlameados e empoeirados, cozidos do sol sob as capotas escuras, mas com um sorriso de satisfação por ter vencido mais uma trilha cheia de imprevisibilidades.
Para fechar com chave de ouro, piscina com vista panorâmica, causos e o merecido aconchego de uma confortável cama.
Depois desta aventura entendi porque este evento se repete pela terceira vez, e que, com toda certeza, vai se repetir por muitos outros anos: os três organizadores (Ademar, Eraldo e Otamir), são, em sua essência, jipeiros apaixonados por um hobby excêntrico e prazeiroso: proprietários de jipes velhos de guerra.
E só quem experimenta pode entender essa paixão.
Luz do carro cortada de supetão. Carro da esquerda freia rápido, tênis no meu pára-brisa, freio eu, desesperado. Retrovisor projeta o horrível balançar de um corpo que flutua no ar. Lentamente gravado em minha memória.
Sim, um atropelamento, na pista ao meu lado. Não tenho medo, não tenho receio do que aconteceu. Do carro branco sai uma mulher. Assustada, mãos no rosto. Ainda não acredita.
Menino negro. Tamanho de 11, idade de 14. Sem os tênis. Calça rasgada, costas à mostra e camiseta na cabeça.
Ela, do carro branco? Vestida de branco, estudante de humanas. Tremendo.
Menino respira sangue. Cheiro violento de cola. Anestesiado.
Dezenas de carros páram, pessoas atônitas, imóveis novamente ao redor.
Duas baforadas, parou. Sem pulso, lanterninha do cheveiro nos olhos. Pupila dilata. Olhar de suplício. Ela assusta-se com a inércia. Ouvidos escorrem vermelho. Cheiro de sangue e cola. Voláteis.
“Chamei a ambulância” avisa o homem de terno e gravata grená.
Rosto inchado, hematomas, imóvel. Resgate rápido, ambulância e polícia. Classe quatro.
Preciso perguntar, quero a resposta que já sei.
“O que vai ser, oficial?”
“Clinicamente morto. Mas a gente não diz isso para ninguém.”
“É o hospital quem diz…”
“Afirmativo”
BO, perícia, burocracia, trânsito rapidamente se dissipa. Acabou. Eu, a moça de branco, que tremia, e a vida, encostados no carro:
“Efêmera a vida.”
“Ele morreu, não é?”
“Ainda não, vai morrer ali no PS.”
“Então morreu… Nunca vi alguém morrer.”
“Medicina?”
“Sim, segundo período.”



Bom, todo mundo sabe que Brasília não tem pavimentação nas vias e que as trilhas, caminhólas e carreiros de terra e cascalhête levam todos a qualquer lugar.
A foto abaixo, por exemplo: é meu carro novo (bonitão né?) estacionado na Esplanada dos Ministérios. Você pode notar, logo atrás das rodas traseiras, um trecho conhecido como “eixo monumental” ou via N1. Não, não é uma via asfaltada de 6 pistas, engano seu. É apenas um carreiro de terra vermelha e batida onde mal passa um carro grande.

Agora, falando sério: você já viu como é feita uma pavimentação asfáltica padrão? Não? então vou resumir aqui só para você ter uma idéia: Um povo de capacete plástico e camisa de manga curta com canetas no bolso, atrás de um óculos de aro grosso e preto, faz o levantamento geotécnico do terreno. Riscam umas folhas de papel vegetal com milhares de cálculos e linhas e mandam para o pessoal de terra. Estes fazem a fundação do subleito da via, estabilizando, drenando e alinhando toda a fundação geomórfica. Depois vem um tratorzinho amarelo e faz a subbase, que é um monte de brita amontoada com uma deliciosa cobertura de asfalto diluída — a imprimação — que praticamente gruda todas essas britas como se fosse um pé-de-moleque. Quase pronto. Tasque 4 xícaras de binder para fazer uma camada de ligante asfáltico e uma cobertura de emulsante para finalizar. Reserve por umas horas e pinte riscos e faixas.
Todo esse trabalho resulta em uma pavimentação asfáltica ideal, com aproximadamente 50cm de espessura de materiais petrólicos totais.
Agora dá uma olhadinha na buraqueira média das vias do Distrito Federal. Tirei uma foto hoje mesmo, de um desses mastigadores de pneu em uma via aleatória a caminho do trabalho:

Percebeu a diferença? Terra batida, lama asfáltica e uma espécie de blend de subbase com binder. Tudo isso com menos de 5cm de espessura.
Foi por isso que eu comprei um fora-de-estrada. Você não imagina o que é passar com um carro europeu em um buraco desses a 80km/h e escutar um barulho que mistura pneu rasgando, roda trincando, geometria entortando e o bolso esvaziando R$300.
Fora-de-estrada é a antítese do bom asfalto brasiliense.
Sábado foi dia de fechar a esplanada para a equipe de automobilismo da RedBull fazer umas macaquices com carros de corrida nas longas e largas avenidas candangas.
A luz, o céu e o grafismo do evento estavam propícios para excelentes fotos.
Agora, tentar capturar um bólido movido à Renault V10 a 263,8km/h é missão impossível para lentes sem função panning e câmeras sem burst de 6fps