
Lá pelas tantas, no meio do carnaval: Brasília e suas rodovias magníficas.

Lá pelas tantas, no meio do carnaval: Brasília e suas rodovias magníficas.
Esse titulo de post era um slogan antigo da secretaria de turismo de Santa Catarina. E não é puxar a sardinha para o meu lado, mas a realidade é que esse pequeno estado brasileiro tem um apelo turístico incrível. Para você ter uma idéia do que eu estou falando, veja a pequena viagem que fiz com minha mulher e minha irmã: saímos de Florianópolis, atravessamos vários quilómetros de praias desertas até chegar ao Farol de Santa Marta, um reduto neo-hippie e SurfBro de primeira qualidade.
Aliás, o Farol de Santa Marta continua com um atendimento excelente, almoços regados à frutos do mar com preços atrativos e com as praias ainda intocadas.
Do litoral nos atracamos por Gravatal, que é uma cidadezinha termal com águas quentes e hotéis honestos, parques aquáticos e uma variedade cultural incrível. Gravatal na verdade é uma cidade estratégica para subir a serra entre Grão-Pará e Urubici.
A Serra do Corvo Branco é uma estrada de 50km, não pavimentada, que liga a região litorânea até a serrana. A subida é esculpida em um paredão que varia em pouco mais de 1200m em relação ao nivel do mar em apenas 30km de percurso. Alguns trechos da subida são assustadores, porque é parede de rocha de um lado, três metros de largura na estrada e um precipício de 300m do outro lado.
Aí em cima da serra tudo muda: o clima fica ameno, a vegetação abre para araucárias centenárias e mata de altitude, a cabeça dói, você continua subindo e o GPS avisa que estamos a quase 1800m acima do nível do mar. A estrada acaba novamente, agora em uma base militar da aeronáutica chamada CINDACTA II, restrita, de frente para uma das paisagens mais impressionantes da serra geral, que é o morro da igreja.
Paramos em Urubici, em um hotel que tem calefação em todo lugar que você consegue olhar, lareiras, fogões à lenha. E não é por menos, a cidade tem o recorde oficial de cidade mais fria do Brasil, com temperatura registrada de -14°C. E fotos de neve por tudo.
A volta, segundo o meu GPS doidão, poderia ser por estrada pavimentada ou por um caminho que ele deu certeza que era viável. Uma estrada de terra de 50km, beirando escarpas, fazendas incríveis e um caminho que afinava cada vez mais.
Descemos a serra do Rio do Rastro, via Bom Jesus da Serra. Estrada clássica, concretada, com 12 curvas completas de 180°. Pra mim um dos trechos de estrada mais bonito do Brasil.
Retorno tranquilo para Florianópolis: praia do Rosa, do Ferrugem, Garopaba e Guarda do Embaú.
Clássicas.
E tudo isso em apenas dois dias.
Praia, dunas, estradas de terra, trilhas, travessia de rios, serra, escarpas, 4×4, altitude e aventura ao extremo. E meu GPS não poderia ser mais aventureiro e louco do que já é.
Abaixo algumas fotos e dois pequenos videos da subida do Corvo Branco e a descida do Rio do Rastro. A noção da magnitude dessa aventura não chega aos pés do que é ao vivo. Mas fica o aperitivo.
Luz do carro cortada de supetão. Carro da esquerda freia rápido, tênis no meu pára-brisa, freio eu, desesperado. Retrovisor projeta o horrível balançar de um corpo que flutua no ar. Lentamente gravado em minha memória.
Sim, um atropelamento, na pista ao meu lado. Não tenho medo, não tenho receio do que aconteceu. Do carro branco sai uma mulher. Assustada, mãos no rosto. Ainda não acredita.
Menino negro. Tamanho de 11, idade de 14. Sem os tênis. Calça rasgada, costas à mostra e camiseta na cabeça.
Ela, do carro branco? Vestida de branco, estudante de humanas. Tremendo.
Menino respira sangue. Cheiro violento de cola. Anestesiado.
Dezenas de carros páram, pessoas atônitas, imóveis novamente ao redor.
Duas baforadas, parou. Sem pulso, lanterninha do cheveiro nos olhos. Pupila dilata. Olhar de suplício. Ela assusta-se com a inércia. Ouvidos escorrem vermelho. Cheiro de sangue e cola. Voláteis.
“Chamei a ambulância” avisa o homem de terno e gravata grená.
Rosto inchado, hematomas, imóvel. Resgate rápido, ambulância e polícia. Classe quatro.
Preciso perguntar, quero a resposta que já sei.
“O que vai ser, oficial?”
“Clinicamente morto. Mas a gente não diz isso para ninguém.”
“É o hospital quem diz…”
“Afirmativo”
BO, perícia, burocracia, trânsito rapidamente se dissipa. Acabou. Eu, a moça de branco, que tremia, e a vida, encostados no carro:
“Efêmera a vida.”
“Ele morreu, não é?”
“Ainda não, vai morrer ali no PS.”
“Então morreu… Nunca vi alguém morrer.”
“Medicina?”
“Sim, segundo período.”



(…)
Dois quilômetros quentes depois do cruzamento com uma linha férrea abandonada, da qual só restava uns dez metros de dormentes de cada lado, avistei a figura imóvel como uma vela e seu reflexo a ondular no vapor sobre o asfalto preto – asfalto novo.
Só a alguns passos consegui ver ali uma mulher, sentada sobre sua mala com a coluna muito reta e os cabelos longos colados às costas. Deparei com uma estátua feita de grafite. A pele toda, os cílios e cabelos de um material escuro com infinitos pontinhos brilhantes de todas as cores. Toda a superfície lisa e brilhante só era maculada pelo rosa dos olhos e a margem vermelha das pálpebras inferiores. Minha fala pingou no acostamento:
— O que…?
— Isso é a poeira do asfalto.
(…)
in “Two Ways, no U-turn” — P. Felicte