MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Posts com a tag ‘acidente’

Quando a fotografia era uma coisa importante.

9 de fevereiro de 2010

chevrolet tombado - Irati PR

Essa foto era de um caminhão lá da fazenda do meu avô. Um Chevrolet no toco, que carregava metade de um pinheiro centenário.

Como máquina fotográfica (e caminhão) naquelas bandas era coisa rara de se ver, qualquer destombamento virava motivo de evento social.

Slowmotion hyperbole

17 de novembro de 2009

Luz do carro cortada de supetão. Carro da esquerda freia rápido, tênis no meu pára-brisa, freio eu, desesperado. Retrovisor projeta o horrível balançar de um corpo que flutua no ar. Lentamente gravado em minha memória.

Sim, um atropelamento, na pista ao meu lado. Não tenho medo, não tenho receio do que aconteceu. Do carro branco sai uma mulher. Assustada, mãos no rosto. Ainda não acredita.

Menino negro. Tamanho de 11, idade de 14. Sem os tênis. Calça rasgada, costas à mostra e camiseta na cabeça.

Ela, do carro branco? Vestida de branco, estudante de humanas. Tremendo.

Menino respira sangue. Cheiro violento de cola. Anestesiado.

Dezenas de carros páram, pessoas atônitas, imóveis novamente ao redor.

Duas baforadas, parou. Sem pulso, lanterninha do cheveiro nos olhos. Pupila dilata. Olhar de suplício. Ela assusta-se com a inércia. Ouvidos escorrem vermelho. Cheiro de sangue e cola. Voláteis.

“Chamei a ambulância” avisa o homem de terno e gravata grená.

Rosto inchado, hematomas, imóvel. Resgate rápido, ambulância e polícia. Classe quatro.

Preciso perguntar, quero a resposta que já sei.

“O que vai ser, oficial?”
“Clinicamente morto. Mas a gente não diz isso para ninguém.”
“É o hospital quem diz…”
“Afirmativo”

BO, perícia, burocracia, trânsito rapidamente se dissipa. Acabou. Eu, a moça de branco, que tremia, e a vida, encostados no carro:

“Efêmera a vida.”
“Ele morreu, não é?”
“Ainda não, vai morrer ali no PS.”
“Então morreu… Nunca vi alguém morrer.”
“Medicina?”
“Sim, segundo período.”

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Voltando e no rádio os versinhos honestos: “…sometimes you win, sometimes you lose… N’ I´ll wait for you…” A vida é efêmera e realista.

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Não era o radinho. Era eu cantando. Nem existe música com aquela letra. Fiquei com medo de ser “eu” o realista demais.

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A vida está estranha novamente. A gente encontra a luz e ela, depois, apaga-se em palavras presas. Luz que se estatela em versos e rimas. Palavras doces que perdem o brilho. E ainda fechamos os olhos. E mais a procura de luz (encontro sempre) e mais os versos a tragam. Versos de vida, lágrimas esfaceladas pela luz (ou falta dela). Luzes dispersas. Talvez uma escuridão tenra e sorrateira, que continua sempre a repetir, sem sentimentos ou rodeios: “Vem, seu lar é aqui”.

Futuros possíveis

21 de outubro de 2009

Foto 1 (antes)
É jovem, está na praia com três amigos. Em cima da mesa um côco, duas garrafas de refrigerante, uma carteira de cigarro. Sorri bastante.

Foto 2 (depois)
É um cadáver deitado numa mesa de ferro com um ralo no centro. Ao redor do corpo marrom e rígido, semi-dissecado, reúne-se um grupo de estudantes de anatomia recém-ingressos na faculdade, todos vestindo batas. Alguns mostram suas pinças e bisturis. Sorriem bastante.

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Foto 1
Um senhor de bigode com a família num almoço dominical. A mulher ao fundo, segura uma panela de feijoada. Algumas crianças agrupam-se à esquerda. Um quadro na parede mostra uns coqueiros na praia.

Foto 2
No jornal, um senhor de bigode é empurrado para dentro de uma viatura por três policiais militares, alguns circunstantes observam ao fundo, sem camisa e de braços cruzados. Em cima a legenda “preso por tentativa de estrangulamento após briga de trânsito”

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Foto 1
Um casal no banco de uma praça florida. O homem coloca seu braço sobre o ombro da mulher. Ela beija sua face. Ao fundo uma banca de revistas com um senhor sozinho diante de um tabuleiro de damas. Usa um boné sobre os cabelos negros e ensebados.

Foto 2
Uma menina sentada num banco, olha com atenção para um saco de pipocas que segura firmemente. As bochechas são rosadas e os olhos mal se abrem por causa do sol. Ao fundo uma banca de revistas com um senhor sozinho diante de um tabuleiro de damas. Usa um boné sobre os cabelos brancos e ensebados.

O deputado e a cidade do interior

18 de agosto de 2009

Eu sou natural de Guarapuava, Paraná. A cidade onde vivi algumas das mais importantes e surreais aventuras da minha juventude. A maioria delas eu já contei aqui e, apesar de parecer mentiras descabidas, são a mais pura verdade.

Saí de lá com pouco mais de 17 anos e nunca mais voltei. E tenho quase a certeza que jamais voltarei. Digo voltar a morar, fique claro. É uma cidade turística para mim. Excelente para passear, rever amigos e relembrar o passado. Mesmo porque com todas as desaventuras que já tive em cercanias cada vez mais longíquas , a cidade ficou pequena demais. E o mundo, mais tangível que outrora.

Parece estranho ver na mídia uma cidade pequena como Guarapuava. Meu tio falava que Guarapuava só aparecia na TV por 3 motivos: o granizo que de vez em quando devastava as plantações de maçã; algum ônibus desafortunado que caía da estrada dentro do rio Coutinho ou, mais recente e graças ao posto da Polícia Federal instalado por lá, apreensões gigantescas de maconha em caminhões oriundos de Foz do Iguaçu.

É de Guarapuava o ex-deputado estadual que causou a indignação nacional ao matar dois jovens com seu bólido descontrolado em Curitiba.

O excelentíssimo estudou no mesmo colégio em que eu estudei na época. Ele e os filhos dos muitos políticos locais que alçaram carreiras diferentes na vida pública legislativa.

Guarapuava é uma cidade pequena. Tem dialeto próprio, que gerou até uma página na Desciclopédia. Interiorana, provincial, com famílias tradicionalíssimas que cultuam a prática da boa convivência. Muitos nomes de ruas levavam sobrenomes conhecidos de amigos meus. Avós, bisavós. Personagens inolvidáveis, viscondes, realezas de outrora.

Esse tradicionalismo todo fez com que as classes sociais da cidade se distanciassem de uma maneira pecaminosa. Abastados fazendeiros convivem, com seus caríssimos carros importados, com pessoas que mal conseguem pagar as prestações das redes de eletrodomésticos populares.

Assim essa divisão social faz com que adolescentes-quase-jovens-púberes aprendam a dirigir antes da hora. Aconteceu comigo e aconteceu com todos meus amigos. E quiçá a prática tenha se tornado um lugar-comum com o passar do tempo.

É dessa fórmula tóxica e fatal que muitos amigos meus, alguns de infância, morreram. Uns embriagados por festinhas de garagem, outros por não saber como dominar tamanha cavalaria embaixo do capô. Gente que partiu postes e carros em colisões extraordinárias hollywoodianas.

Sempre com carros ou motos.

Éramos “James Deans” em uma espécie de Juventude Transviada no interiorzão do Paraná. Gente que ia para a escola com carros importados vestidos com motores de mais de 200cv.

Carros turbinados, embebidos com gasolina azul do aeródromo local.

O acidente do deputado repercutiu como uma desgraça fenomenal na capital do estado desta Guarapuava underground que nenhum jornalista conheceu. Ele, para muitos jovens guarapuavanos como eu, tornou-se apenas mais um nome na lista dos locais que destruíram um carro em mais um acidente inconseqüente e idiotizado.

Foi uma reação tardia, pode ter certeza.

Mesmo porque todos, depois dos 20 anos (e alguns velórios devastadores) aprenderam com o erro dos mártires despreparados que o carro é uma arma descontrolada.

Foi estranho ver ícones do jornalismo, cronistas conceituados e polemicistas, tanto na TV quando no rádio, falando de Guarapuava em algum momento.

Talvez agora, o tal deputado reformado tenha aprendido. A morte estava ali no banco do carona.

Mas forfetou na hora agá.