MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

As baronesas

27 de julho de 2007

Barão ganhou o apelido pelo duvidoso gosto em manter um bigodão fio-de-arame, com voltinha e tudo mais. E o que realmente fez a sua fama era a diversidade de mulheres as quais lhe acompanhavam. Mulheres sempre impecáveis, bonitas, de uma finesse e educação invejável.

Barão era figurinha carimbada em todo o tipo de evento, convescote ou festa. Com um jeito bonachão, seu sorriso era cativante. Sua presença, obrigatória: seus disparates, aterradores e únicos.

O que intrigava todos seus amigos era o fato de, um sujeitinho pequeno, feio e com um bigode encardido e carcomido pelo cigarro, pudesse fazer par com belas damas. E olha que vez passada até houve diálogo em francês com uma de suas divas. É claro que a curiosidade aflorava toda vez que o galanteador passava. Mas a hombridade e os culhões impediam todos de lhe perguntar o segredo da fama. Insinuações apenas o faziam soltar uma deliciosa gargalhada. Mas falar das mulheres, nunca.

E não era dinheiro, nem fama, tampouco a beleza. O barão era simples, funcionário de um armazém de secos e molhados. Poucos conheciam sua intimidade.

Vez passada não me contive e perguntei o seguredo das “baronesas”. Surpreendeu-me na resposta, após a já esperada gargalhada homérica. Ele simplesmente sanou a já desconfiada asserção: na zona. Sim, barão era costumaz freqüentador de casas de burlesco. Apesar do irônico comentário, que fez com que ninguém acreditasse na resposta, ele foi sincero. As mulheres o conheciam, e conheciam também a sua fama de arroz-de-festa. Elas brigavam para escoltá-lo. E Barão divertia-se. As putas divertiam-se. A finesse das raparigas advinham da excentricidade dos bons pagadores de serviços. A casa era fina.

E o Barão sussurrou, algum tempo depois, só para mim:

– Puta que não cobra, quer gozar.

Barão estava certo. Sempre de bom humor, sempre com mulheres espetaculares. Muito mais jovem que muito jovem gagá. Feliz na sua essência de ser.

A Variant amarela

27 de julho de 2007

Augustão era um pacato cidadão rural. Descendente de Alemães, tinha a pele avermelhada do sol, o que atenuava seu vasto bigodão loiro. Havia adquirido com muito gosto uma Variant amarela novinha. Como todo bom colono, instalara franjinhas no teto, bolinhas massageadoras no banco e trocou a bola do câmbio por uma de caranguejo, a do seu signo. Diariamente levava verduras para a cidade, subindo a serra vagarosamente. Acompanhado de sua esposa, Augustão fazia de seu estimado carro, sua forma de incrementar as vendas de suas verduras.

No começo do verão, sua produção de legumes bateu recorde. Vez ou outra precisava de duas viagens por dia para escoar todas as leguminosas, tamanho o fluxo vegetal. É claro que com esta fartura, Augustão pôde comprar um toca-fitas para a Variant, o que na época era capricho dos valiosos e velozes SP2.

E em uma dessas idas e vindas da cidade ao campo, Augustão, com toda a sua pompa, trafegava feliz por sua rota habitual. Dona Fifi, sua mulher, feliz por estar passeando, cantarolava baixinho a música do rádio. Neste sutil e raro momento, uma mosquinha-da-banana que estava no veículo, zanzou e entrou de forma estranha no ouvido direito de Augustão. Desesperado pelo zunir das asinhas, mas sem perder a calma, retirou do contato a chave, desligando o carro, que continuou em movimento, para assim catucar a intrusa entrincheirada.

É claro que o voltante travou, o freio acabou e o carro saiu da pista. O que se sucedeu foi inacreditável: A desgovernada perua invadiu o pasto vizinho à estrada, descida da serra.

Augustão, pedindo calma à dona Fifi, que com todas as suas forças agarrara-se ao console do painel e no putaoqueospariu, tentava em vão controlar a bendita Variant. A chave já havia caído metros atrás, no meio da balaiada. Com o volante travado, nada podia ser feito. O carro atravessou um pasto, recolheu as vacas na mangueira, passeou por mais umas plantações e estacionou em frente à casa do compadre Guilhermino. Por incrível que pareça, Nada acontecera de grave. Augustão, com toda sua pompa inatingível, desceu do carro, abriu o porta-malas e retirou duas cabeças de alface.

- Presente compadre Guilhermino. Estava descendo a serra e resolvi cortar caminho.

A mulher do vizinho

27 de julho de 2007

O Baltazar mora em um daqueles condomínios fechados onde cada um constrói a sua casa como mais lhe apetece. E como o estilo é americano, as casas não têm muros ou separações aparentes. Solteiro, simples, mas de carreira invejável, mora sozinho e desfruta das singelas sutilezas de uma vida a sós.

E o vizinho de Baltazar tem um mulher muito gostosa.

Ela sempre toma sol na piscina da casa do Baltazar. O marido, na estranheza de ser, nunca quis contruir uma para ela. E a cena sempre se repetia: Baltazar acordava, abria as cortinas de seu quarto e lá estava aquele monumento, tostando ao sol matinal.

É claro que as peças de banho ínfimas que ela usava tinham um descarado propósito provocativo. Sempre que ela se abaixava, fosse para pegar alguma revista, um creme, insinuava as maliciosas formas dos seios redondamente perfeitos. Passava branzeador de uma forma suave e insensata, apetecendo até olhos mais frígidos.

Baltazar surtava. Só não atacava aquela beldade pelo mínimo respeito que ainda restava ao seu vizinho.

Domingão desses, Baltazar curtia uma ressaca homérica. Deitado no chão, ao lado da piscina, resmungava baixinho, enquanto sua cabeça latejava, evaporando ao sol o álcool sorvido.

A vizinha surgiu do nada, sentou-se ao seu lado. Perguntara-lhe se poderia besuntá-lo de bronzeador. Ali, meu amigo, toda a relutância em não atacá-la fora água abaixo hora que ela encostou-lhe a mão com o óleo.

Os dois entregaram-se aos prazeres mundanos e carnais de uma forma espetacular. A vida de bon-vivant que Baltazar levava fez com que a mulher explodisse em um gozo intenso e imoral. Ficou bem evidente que ela estava há tempos na seca.

Baltazar ganhou a deliciosa vizinha. A Vizinha ganhou um amante insaciável. E o corno do vizinho continua a arrumar o computador do Baltazar de graça. Acha que assim não precisará construir uma piscina para sua tarada mulher. Tão cedo.

ZP

27 de julho de 2007

Zé Palminha era louco.

Formado em filosofia, Zé Palminha adotava, desde os áureos tempos de faculdade a singela ideologia diogenesiana. Diógenes, para quem não sabe, fazia tão pouco caso dos confortos dessa vida, que optou por morar em uma grande tina de barro, em um templo de Atenas. Seu ascetismo ostensivo e a indiferença pela crítica alheia ficaram associados à doutrina cínica. ZP assim como Diógenes, era conhecido como cão. Cão porque fazia festa quando lhe davam alguma coisa, rosnava para quem o rejeitasse, cravava os dentes nos crápulas.

E ZP era muito inteligente. Guardava carros em uma pacata rua comercial. Já fora visto com gerentes, diretores, donos de empresas. Ele palpitava, aconselhava e não muito raro dava broncas homéricas nestes homens. E mesmo assim às vezes precisavam marcar hora para poder conversar em paz com o louco. O apelido “Palminha” advinha de sua mania compulsiva de andar batendo palmas. E isso ninguém sabia o porquê.

Com um cabelão rasta, roupas marrons de sujeira e uma barbicha engraçada, faraônica e mal cortada, Zé Palminha era constantemente intimado à almoços informais no quilo do Fernandes, um português bonachão de bigodes majestosos. Era interessante a cena: Alguns homens impecáveis, com suas alvas camisas engomadas, divertindo-se às pampas com um maltrapilho escondido atrás de um prato de saladas diversas. Sim ZP era vegetariano.

Dia desses um importantíssimo advogado de uma dessas empresas da rua de ZP saiu do carro, esbravejando em seu pequenino celular. ZP, que não tinha nada para fazer, acompanhava com os olhos, sentado no muro da esquina, o impaciente homem, que esperava uma brecha entre os carros para poder atravessar a rua. Ele esbravejava ao celular, queria lembrar o nome daquela abordagem psíquica em que se estuda alguma coisa de percepção visual, pensamentos, raciocínio e solução de problemas.

- Gestalt! – Grita Zé Palminha.

O advogado virou rapidamente e meteu-lhe um tiro nas ventas de ZP. Estava assutado, achou que ZP gritou “assalto”.

E o imcompreensível cínico diogenesiano morrera. Pela espada, que fora mais forte que a pena.

Occhi tristi

27 de julho de 2007

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O piazinho dos dedos a mais

26 de julho de 2007

O Xiru era um ranhentinho órfão de pai e mãe, indigente na vida. Morava em uma cidadezinha do interior, chegou ali de carona de uma capital qualquer. O que chamava a atenção nele era o polidactilismo. Seis dedos em cada mão. Ele era muito sagaz. E agressivo.

A vida passou, Xiru cresceu. Virou aviãozinho. Tinha um canela-seca, escafote brilhava no olho. Carregava uma farinha para lá, uns boca-de-ferro pra cá. Deu brecha, rodou com os gambé. Já era conhecido, miliano. O deléga foi fichar, a folha só tinha 5 lugares para digitais de cada mão.

Cortou-lhe os sextos dedos, sem titubear. Xiru era um homem normal, “agora arrumado para a vida” o delegado falou. Não chorou, não gritou e nem fez cara feia. Apenas jurou, em pensamentos, arrancar-lhe os culhões e enfiar-lhe goéla abaixo.

Em um ponto qualquer

26 de julho de 2007

Aquele terraço de um prédio passado era infinitamente grande. Edifício majestoso, com um imenso e inútil terraço. Ali cabia, eu, meus amigos e nossas conversas regadas a um bom jazz. Blues outras vezes.

O prédio era quase que uma super-república de estudantes. Nossa missão no mundo naquela época era estudar muito, tomar todas, arrumar mulheres devassassas e principalmente burlar a lei.

E sempre que começava a escurecer, lá estava, contemplando o pôr-do-sol, de cadeira de praia, toda a rapaziada. Que programa! A gente podia sempre contar um com o outro, e isso só acontecia porque havia irmandade na ação. Éramos muito desmedidos, não calculávamos as ações e suas consequências.

E sempre tinha coisa diferente acontecendo. Era época do explosão de vendas de aparelhos telefônicos celulares. Com um papel alumínio, alguns códigos malucos digitados e um fio ligando o telefone ao aparelho de som, podíamos rastrear e escutar conversas telefônicas. E em sua maioria, homens conhecendo mulheres de programas.

Outras vezes, lunetas e voyeurismo para vizinhas incautas saindo do banho.

Ríamos muito, de tudo. E bastava apenas um gesto, um som. O humor, do nada passava por cima da gente, e ríamos como retardados. As estrelas eram mais brilhantes, os aviões gigantes passavam mais perto, ali no 25° andar, o nosso andar, nosso terraço.

Tinha vez que gastávamos as economias com fogos de artifício. E quando levávamos algumas amigas loucas para dançarem a noite inteira? Ficávamos vendo, observando seus movimentos, suas expressões. Problema é que ríamos mais do que flertávamos. E isso atrapalhava em muito.

E o terraço se perdeu, um dia. Um de nós passou em um vestibular em outra cidade. Foi embora. E ali a razão do tempo sobre nossas vidas estava se mostrando. A imortalidade, imoralidade e infinidade do terraço definhava em seus últimos risos.

E não houve uma última vez em que nos encontramos lá em cima. Simplesmente ao mesmo tempo, vivendo cada dia de terraço como se fosse o último, nunca mais apaercemos. E isso não foi combinado. Assim crescemos. A vida colocou responsabilidades, as amizades inconseqüentes dispersaram-se. E toda a risada ficou para trás, toda a cumplicidade, o prazer das coisas ilícitas, a fragilidade da intimidade de uma boa e verdadeira amizade, para trás, uma lembrança.

Não houve despedidas. Cada um rumou para seu destino, cada um arrumou sua namorada, seu tom sério. Um morreu, deixando somente bons momentos. Outro, sumiu para a europa. Ficou aquele terraço vazio. Cheio de histórias, verdades e segredos que ninguém contaria melhor do que aqueles sete desocupados do bloco B.

Poesia

26 de julho de 2007

A melhor e mais emocionante poesia que já escrevi na minha breve vida foi em um guardanapo. Caneta tinteira, curvas descendentes de cada letra feita propositadamente com traço mais lento. O sorver do papel fez com que as letras ficassem com um inconfundível estilo retrô, abauladas nas curvas, delgadas nas serifas.

O texto, de levantar a penugem da nuca.

A combinação de desejos, aspirações e devaneios em versos fez a moçoila sair da inércia de sua cômoda rodinha de amigas de um barzinho qualquer para olhar dentro dos meus olhos lascivos. E aquela noite foi extraordinária.

Olhares lascivos por palavras perfeitas ensinaram-me uma coisa vital: anote o telefone da mulher. Se você não for vê-la nunca mais, que pelo menos ela lhe dite o que foi escrito. É cretino isso, eu sei, mas pelo menos vocês saberiam o que me fez ganhar um beijo.