MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

A aranha arranha a jarra rara.

31 de agosto de 2007

aranha

Trezentos metros

30 de agosto de 2007

Ondulações a 300m.

Bicicletadas

30 de agosto de 2007

Morei por muito tempo em uma cidade cercada por horizontes infinitos, lugares belíssimos e encantos inexplorados. Muitos rios e cachoeiras característicos de uma exuberante mata nativa. A natureza, logicamente, sempre me atraíu para aventuras e desaventuras. Tive a companhia de bons amigos dispostos a loucuras e riscos, simplesmente para quebrar a rotina de uma cidade interiorana.

Minha adolescência foi marcada pela novidade de abertura de mercado: as indestrutíveis mountain bikes. Todos da turma se esforçaram e adquiriram exemplares robustos, suficientes para submergir em qualquer banhado ou lama. Programávamos trilhas de finais de semana e não tinha um santo sábado e domingo que não fosse pedalado em estradas poeirentas ou descidas de carreiros intrincheirados pelo meio da mata.

Foi nesse periodo que conheci algumas das pessoas que mais marcaram minha vida de adolescente. Pessoas especiais que tinham muito em comum umas às outras: divertidas, loucas e, acima de tudo, verdadeiros irmãos.

Nossas aventuras ciclísticas ficaram mais complexas e envolventes: em vez de trilhas de algumas horas, nossos roteiros estavam orçados em pernoites. E quase todo final de semana era bicicletada até algum ponto remoto, acampamento e bicicletada de retorno. Eram acampamentos perfeitos: riachos, pôr-do-sol envolvido por barracas em volta da fogueira. Violão choradinho e Murilo cantando músicas que atravessavam a noite.

Nossa turma era basicamente composta por seis rapazes e por cinco garotas que eram adoravelmente loucas como nós. E essa cumplicidade toda que reuníamos era entendível ao ponto de podermos dormir juntos em barracas, sem reservas ou constrangimentos. Aquelas noites frias em volta de fogueiras de fagulhas que pirilampeavam os céus eram intensas e o silêncio que nos permeava era constantemente quebrado por risadas e pela alegria de simplesmente estarmos juntos.

Lembro-me claramente que Murilo mostrava em cada acampamento uma letra nova de suas composições. Eram músicas inspiradas em amores, amizades e a pureza de nossos seres. “A beleza das estrelas do céu…”, “Festejar a alegria de se estar vivo…”, “Só há amor em meu coração…” Letras que cantávamos juntos, com pequenas fotocópias que ele nos preparava. Lembro muito bem que cada um ali tinha uma carracterística fundamental. Eu tinha sempre histórias mirabolantes que cuidadosamente resgatava das aventuras dos meus avôs. Algumas meninas adoravam cozinhar iguarias mateiras naquele fogo nosso. O Roberto era especialista em nos iludir com truques baratos de mágicas. Ricardo não fazia nada, era tímido e quieto. E mesmo assim todos adoravam ele! Aquela roda à volta da fogueira era perfeita. Tinham vezes que atravessávamos a noite, víamos o sol se pondo e o sol nascendo sem dar conta do tempo.

Era fantástico!

Em uma das raras vezes que tivemos problemas com nossa loucura: o dia em que o Ricardo inventou de cair em um barranco pedregoso. Era a volta de uma cachoeira, ainda tínhamos mais de trinta quilômetros para rodar. Ele era sempre o abre-trilha e acho que nunca teve freios naquela bicicleta. Ralou-se inteiro, estava com pequenos cortes e com a mão dolorida. “Estou bem!”, gritou lá de baixo. Mas hora que foi levantar, a perna pegou e ele hurrou de dor: havia fraturado alguma coisa ali. Desci eu e o Murilo, talas de emergência e muito soco das dores em nosso capacete. Coloquei-o na garupa da minha bicicleta, alforjes e a bicicleta dele empilhada nos outros.

Outro pequenino acidente ocorreu quando um galho inventou de atravessar minha perna ao lado do joelho. Fiquei com aquela ferpa, de ponta a ponta na pele, sem pegar musculo nem nada, apenas uma flechada incômoda e sangrenta. Foi engraçado no final.

A minha vida ganhou forma e consistência nesses anos de bicicletadas divertidas. Foram aventuras que jamais esquecerei. A companhia, a leveza do momento e as peripécias inusitadas ainda hão de virar muitas histórias.

Quando casei, choveu dinheiro.

29 de agosto de 2007

Quando

Desatinos e desamores

29 de agosto de 2007

”Amor, preciso te contar uma coisa: Não podemos mais namorar…”

Assim conheci a realidade dos amores e desamores.

Era o final de ano do período mais recheado de descobertas em minha vida. E final de ano era certo ficar em alguma matéria em recuperação de notas. Sempre em história. Acontece que Janaína ficara em história também. Assistíamos a aula cedo e, no meio da manhã, já estávamos caminhando de mãos dadas pelas ruas da pacata cidade.

Parei de imediato quando ela exclamou aquelas palavras aterrorizantes. “Como assim não podemos mais namorar? Você brigou em casa?”

Fiquei perdido.

Janaína ia mudar para o interior de São Paulo com a família. Seu pai comunicou duas semanas antes. Era o prazo que achou necessário para ela terminar o pequeno e ralo relacionamento comigo. Na época achei uma canalhice. Mas hoje percebo o quanto nos foi bom não prolongar muito aquela dor.

Foram duas semanas intensas e dolorosas. Era uma situação imposta e maluca. Tínhamos até planos de fuga para vivermos nosso amor. Bem na verdade não sabíamos o que fazer. Cada dia que nos restava era planejado com delicadeza. Acredito que ficamos mais tempo juntos nessas duas semanas que se passaram do que em todo o resto de nosso namoro em tempo normal. Foi doloroso. Foi triste. Amargo e desesperador. Não consegui dormir naquele período. Meus sentimentos purulavam dor pelo corpo. Eu chorava compulsivamente à noite.

E chegou aquele sábado do último dia de nossas vidas.

Encontrei com Janaína no portão de sua casa. Ela estava com os olhos tristes, nariz com a pontinha avermelhada. A cena me desarmou de todo o resto de coragem que consegui reunir para o momento. Minhas pernas enfraqueceram, caí de joelhos em sua frente. Ela ajoelhou-se de imediato e me abraçou. Choramos. Aquele abraço repelia qualquer sentimento ou pensamento que passasse na minha cabeça. Era dor e pavor.

Dei à ela um perfume que ela tanto pedira: Spirit Of Flowers. Ficamos algumas horas juntos. Precisava ir embora. Estava noite. O pai de Janaína achou melhor dar uma carona para mim. Lembro muito bem que aquele senhor grande e forte tinha um magnífico carro importado. Vermelho, vidros escuros originais. Motor de ronco forte. E o único Pontiac da região.

Ele se despediu de mim com um caloroso e forte abraço. Apertamos as mãos, ele foi embora. Uma cena inesquecível.

divisor

Troquei cartas com Janaína por uns cinco ou seis meses. Nossas cartas foram nos distanciando. Ela mudou mais algumas vezes, foi se aventurar por Londres, tempos depois.

A saudade e a dor de uma paixão interrompida ficaram.

Mostraram-me que, feridas de paixão, mesmo que doloridas, cicatrizam com o tempo.

Hana Matsuri

28 de agosto de 2007

Hana Matsuri Drum'n'bass

Briga

28 de agosto de 2007

Uma coisa que sempre assegurou minha integridade física nos tempos de colégio foi a avantajada estatura de italiano carcamano. Eu era o maior da turma e isso deixava espaço para pensar em outras coisas, nunca em brigas ou desentendimentos com outros colegas.

Namorar, por exemplo.

Enquanto aquele bando de moleques — uns vinte de cada lado — corriam atrás de uma bola ovalada e encardida na quadra poliesportiva eu estava com minha namoradinha recém conquistada em uma peça de teatro nada fiel ao roteiro. E é claro que em alguns momentos eu estava correndo atrás da bola e ela jogando um volei. Ma a maioria do tempo, cumpríamos nossos papéis conjugais.

Eu adorava beijar a Janaína. Era uma experiência difente, descobri que o primeiro beijo da menina fôra meu primeiro beijo. E o segundo e o terceiro.

Os intervalos de aula no colégio definitivamente era onde o estado social de cada aluno era construído. Amigos, namoradas, poder, liderança. Lembro-me claramente dos que conquistavam tudo isso com carisma, com humor, com a força.

E lembro claramente do dia em que eu tive que usar a força para assegurar minha posição e não perder a “hombridade” perante uma namorada.

Eu brincava de dar soco com o Ricardo, um colega que praticamente conheci na maternidade. E como dois chimpanzés na puberdade, vivíamos pegando o outro desprevinido com essas brincadeiras. Ricardo estudava em outra classe. E naquele ano, um cara meio estranho ingressou na classe de Ricardo. Eles conversaram algumas vezes, mas nada que afetasse a distância entre ser amigo e ser apenas conhecido.

Ricardo passou perto de mim, desprevinido. É claro que levou uma bifa no braço. Ele parou para conversar, a gente estava tramando uma descida de bicicleta por umas trilhas no meio do mato. Acontece que esse cara que era novo no colégio presumiu que eu tinha batido de verdade no Ricardo. Parou na minha frente, interrompendo nossa conversa. Ele era menor que eu. Bem menor. Magrinho, franzino e feio. Pegou pela gola da minha jaqueta e perguntou se eu não percebia a idiotice que acabara de fazer.

E é claro que nesses 5 segundos da ação do magrélo o colégio inteiro juntou-se à nossa volta. Não se pode brigar nas dependências de colégio, então algum doido da multidão exclamou: “Briga na saída moçada!” Todos hurraram como medievais. Ele se afastou, mas sem antes selar aquilo com um “Espero na esquina de baixo.”

Pronto. Minha honra posta em cheque. Praticamente todos já sabiam da picuínha, inclusive Janaína. Ela veio conversar comigo, estava preocupada. Sabia que eu não teria desvio de caráter e sabia que eu nunca brigaria por nada. Meus irmãos mais velhos, maiores e mais fortes que eu martelavam táticas de guerrilha para eu acabar com o desafiante. Fecharam a conversa antes das duas ultimas aulas com um “Se você apanhar, a gente bate nele.”

As duas aulas que se passaram foram aterrorizantes. Não era medo da briga, não era saber se apanharia ou não. Era questão da agressão e da quebra de algumas premissas que sempre tive.

Meio-dia. Cena de faroeste na rua. Centenas de estudantes exaltados, a esquina lotada. Ele estava lá, esperando. Meus irmãos em pontos estratégicos. Parei diante do rapaz. Aquela cara fechada fez eu sentir a raiva dele nos olhos. Uma coisa imcompreensível, e até hoje não entendi toda a revolta.

“O que acha de apertarmos as mãos? Assim não teremos problemas mais.” E falei isso de todo o coração. O rapaz jogou a mochila no chão, tirou sua jaqueta. Pronto. Jogar a mochila no chão é um insulto ao desafiado. Coloquei minha malinha subaqueira no chão. Ele não queria conversa mesmo. E tanto que não queria conversa que deu-me um chute na bunda. Um chutinho fraco, provocador. Eu ainda não brigaria. Mas aquele chute encheu os olhos do público e aí já viu… o cara ficou todo cheio de si! Montou posição de guarda com as mãos. Desviei meu olhar para Janaína, gesticulei com as mãos em sinal de interrogação, ela não sabia o que responder. Era uma cena estranha. Aí não deu outra, o rapazinho avançou para cima de mim. Eu iria levar um soco se não fizesse nada. Juntei os dedos da mão esquerda. Apertei-os com toda a força e esperei. Ele era ansioso demais. E isso que o derrubou.

Na verdade o que derrubou aquele saco de ossos foi um soco no meio da fuça. Um soco com tanta força que ele cambaleou uns cinco ou seis passos para trás antes de cair atordoado. Foi nocaute propriamente dito. Sangrou-lhe o nariz, um olho começou a inchar.

Na hora parti para cima dele, queria saber se estava tudo bem. Aquele nariz não parava de sangrar, ele não conseguia ficar em pé. Foi horrivel. Horrível e engraçado, pois me preocupei mais com ele do que com meu dedo médio que havia trincado. Ajudei-o a ficar em pé e recostar-se no muro. Todos ali estavam estasiados com a potência da bifa. Janaína veio ao meu lado. Ela sabia que não teve outro jeito. “Podia ter batido com menos força, né!” Ela deu o lenço de bolso para o rapaz estancar o vazamento. E foi aí que tudo voltou ao normal: ele olhou para mim e mandou um “Ei cara, foi mal viu!”

Apertamos as mãos. Final de briga. Segui embora de mãos dadas com Janaína, escoltado pelos meus irmãos. Giancarlo resmungava da brevidade da situação. Gianlucca dizia que o magrélo ainda iria revidar aquilo. Ela só me olhava de canto de olho.

Eu sabia que ela não esperava nada daquilo.

No final das contas levei uma advertência escrita por briga nas cercanias do colégio, uma radiografia da mão e talinha de alumínio por 45 dias para cicatrizar a fissura na falange media do terceiro distal da mão esquerda.

Algumas coisas que ficaram: Nunca mais briguei no colégio. A fama daquele único soco ficou. Aquele moleque nunca mais chegou perto de mim. O Ricardo continua meu amigo até hoje. E não me orgulho desse episódio. Não acrescentou em nada.

Agripino, o calceteiro

28 de agosto de 2007

Agripino, o calceteiro