MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

As fotos que eu não tirei são as minhas melhores

15 de agosto de 2011

A vida é basicamente composta de dois tipos de pessoas: as viciadas e as que viciam. Eu sou o viciado. E o Mitarai San, inventor da Canon, é o meu traficante de drogas pesadas.

Maldito foi o dia em que meti as mãos em uma câmera fotográfica que preste. Isso é coisa que tinha que ser restrita apenas para profissionais e gente muito rica. Como andar de Ferrari em Mônaco. Ou você é profissional ou caga dinheiro. Simples assim.

Então este sou eu, depois de dois meses com uma câmera profissional em mãos, agora tirando fotos de celular. É de cair o cu da bunda a sensação de abstinência que uma coisa assim faz.

Principalmente aqui em Londres. A vontade de retratar essa viagem definha no momento em que eu levanto o telefone e não sinto mais aqueles 2,5kg de equipamento fotográfico bruto saindo da inércia. Os comandos se reduziram drasticamente a: HDR control, flash on/off e “take a picture”. E aí eu vejo cada coisa doida, como um pintor de placas velhas, um camarada que anda pelas ruas com uma caixinha de tintas retocando as letras pretas e vermelhas das placas com o nome das ruas. A foto era para ser fantástica com um controle de profundidade de campo adequado, baixa velocidade no crepúsculo e até o ciclista passeando em segundo plano.

Deu nessa coisa assindética abaixo:

A vida é toda cheia desses tapões de luva de pelica na cara. Talvez seja apenas para inferir exatamente onde cada limite deve se exteriorizar.

Mas depois que eu conheci a Jessops e a Jacobs, realmente pecebi o que o crápula do Mitarai me preparou para afundar de vez nesse poço fétido da fotografia.

A vida nada comum pelas redondezas

13 de agosto de 2011

Eu moro novamente em um endereço de nome poético, pequeno e funcional: algo como Rua da Meia Lua, 22. Como meu amigo Dennis D. falou uma vez, Brasília eu não poderia ser levado a sério morando na Asa Setentrional Cúbica Norte, Vetor C, Vórtice 312 – Quadrante 18a.

A vida em Londres é complicada. O transporte público funciona de uma maneira tal que, toda aquela saudade de ter um carro foi água abaixo em apenas uma semana de vida cotidiana aqui. Na verdade foi e voltou, a partir do momento em que você descobre que uma Land Disco 4 aqui custa 22 contos.

As mulheres são feias, disseram para mim antes de vir. Ah, vá para a merda! Há inglesas lindas saracoteando por aqui. E desesperadas por homens. Nem precisam ser os gentleman of westenminster. Sendo hétero já vira jogo.

Ao lado aqui de casa tem o quê? Um pub. A cultura de frequentar bares era uma coisa que eu não praticava mais. Tudo era muito caro, os garções sempre queriam me roubar em um ou dois canecos, o petisco era caro pra cacete e whisky era uma facada no ego. Já tentou tomar uma weiss, dessas da bohemia mesmo, em um bar? R$15 se você tiver sorte. Então a gente foi no pub. Desde a hora do almoço até a hora em que a gataiada fica parda tem gente por lá. Não é gente estranha nem os bêbedos pedantes de sempre. É diferente.

Bebemos uma pint de weiss, comemos um fish’n'chips de hadoque e gastamos £9 por tudo. E, como quem converte não se diverte, seria algo como você gastar R$9 em um chopp de trigo de 500ml e um prato de peixe frito com fritas. Incluindo a gorjeta.

Andar por ruas e becos de 1800 e lá vai bolinha é uma sensação indescritível por essas redondezas onde estou. A sensação de estar em um lugar diferente é quase nula e isso me assusta, mesmo porque não sei se a ficha não caiu ainda e vai bater o desespero ou se, na verdade, eu não estou nem aí para mudanças. Acredito na segunda.

Saudade? Dos amigos e família. Mais nada. E isso é foda, porque parece que eu sou um nariz empinado ou sei lá o que, mas essa é a verdade. Essa mudança lembrou quando eu migrei de Curitiba para Brasília e a sensação foi a mesma. Vai ver que sou o cara do coração de dianteiro com osso.

Era para eu já ter saudades da picanha, mandioca, paçoca, rapadura e guaraná. Mas com a diversidade impressionante de tudo que tem aqui no mercadinho da esquina, acho que vai levar bem uns 5 ou 10 anos para eu experimentar todos os tipos de  comidas que tem naquelas prateleiras. Frutas, inclusive.

Os parques são gigantes e pertos. Os ciclistas, muitos. As pessoas realmente pedem desculpa por qualquer coisa (mesmo que a culpa não seja delas), a TV a cabo é engraçada, a telefonia móvel é ridiculamente barata e com dados infinitos.

No mais a vida aqui parece muito mais tranquila do que pintaram. Vamos ver se continua essa maravilha, porque até agora eu estou impressionado e isso não é o meu normal.

É hoje!

8 de agosto de 2011

Malas prontas, tudo separado e o mundo lá fora só na espreita da movimentação errônea.

Inglaterra com xenofobisses e protestos, fresquinha para nos receber de braços cruzados.

Já estamos naquela faixa de aceleração que não existe mais volta. E assim fechamos o DX  de longa com um bom reco-reco nas costelas e um 73/51 repleto de emoções.

Obrigado a todos que nos suportaram e ajudaram nesta transição fenomenal; Obrigado aos que apoiaram e aos que criticaram: o peso das opiniões, conselhos e dicas foi edificante;

A partir de amanhã transmitiremos este periódico diretamente dos trópicos mais árticos do mundo.

g’Day!

 

40 dias sem postar, elaiá.

4 de agosto de 2011

Pois é, mais de um mês sem dar as caras nessa vassalagem sem igual. Topicarei, para assim dar uma visão clara do que a ponte está sofrendo:

  • Vendi quase tudo o que eu tinha acrabunhado em casa. Fizemos um garage sales e um site bacana onde conseguimos vender coisas inimágináveis e impressionantes. A decepção, é claro, ficou com os livros: pouquíssimos fariseus os compraram, o que, segundo nosso vox populi empírico relatou, mostra que o brasileiro é um cagado literal.
  • Ítens entregues, um a um. Vislumbrar o desapego de um produto, livro, dvd ou peça de roupa e sua história em nosso meio foi, afinal de contas, uma escola para a vida.
  • Hoje tenho, por incrível que pareça, um computador, um telefone, uma mala de 32kg e muito dinheiro embaixo do colchão. Mais nada.
  • Segunda-feira é o dia zer0.
  • Saudade do que?
  • Descobri que gosto de dirigir.
  • E, tarde demais, achei meu cartão da Claro Clube. No meio da mudança, é claro.
  • Google Agenda ligado para gerenciar as promessas de gente que diz que reservará R$160 por mês para me visitar na gringa em um ano. Acredito piamente.
  • Sábado; casamento.
  • Domingo? Churrascão do chororô.
  • Segundo o doido venal da familia: vocês serão as pessoas que vestirão preto na Inglaterra? Entenda a professia como quiser.
  • Não sei qualé a maré de sorte, mas todos meus cancelamentos de contas, produtos, equipamentos, aluguéres, serviços e qualquer outra coisa que requeira um zero oitocentas foi indescritivelmente rápido e indolor.

No mais, amiguinho, Esse blog continuará a mesma sopa química virtuosa que sempre foi, mesmo porque escrever blogs em inglês em um domínio .com.br é coisa de retardado mental.

Daqui uns dias remeto telegrafias d’álem mar. É só o tempo de eu descobrir como se falar internet wifi em inglês.

The kitten in the hat.

3 de agosto de 2011

Hélio Pellegrino

21 de junho de 2011

Hélio Pellegrino era um cara famoso pela militância errática de esquerda pura e principalmente por ser amigo de infância de Fernando Sabino. Encostou-se na proximidade de Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Nélson Rodrigues. Passou o rodo em Lya Luft.

E escreveu uma definição interessante daquilo que te atormenta:

O demônio é pura força fanática, desarticulada de seu contrapeso erótico. A pura morte é dilaceramento, desagregação da matéria. A morte disjunta, desfaz, atomiza – corrompe o rosto do mundo. Nessa linha, a capacidade do demônio é insuperável. Ele preside, alegremente, à fissão nuclear. Ao demônio é impossível unir o que quer que seja, pois lhe falta bondade. Ele funda o lugar da máxima mentira. A verdade é relação, enredamento, tecido de pertinências que se entretecem. O demônio está condenado, por toda a eternidade, a não ter relação com quem quer que seja. É incuravelmente burro porque é ausência absoluta de amor. Todo ato de bondade se comunica, se distribui, irriga a carnadura do real. Se a vida ainda existe é porque a virtude prevalece, como inteligência ordenadora, contra o desmembramento de tudo.

É preciso contar com a força das coisas simples. A cada manhã presencio o milagre da água que jorra, – prestativa, clara, generosa, modesta, – da torneira. Para que isto aconteça, é preciso que muita gente trabalhe, muitos gestos se somem, muitos músculos se articulem, desde a nascente da água até o metal da torneira de onde ela jorra, para desespero impotente do demônio – incapaz de anular a bondade que a faz jorrar. Deus está ao lado do povo oprimido. O resto, a torneira matinal, com sua cega paciência, se encarregará de lavar.

O comedor de pepinos.

17 de junho de 2011

Magro, cenhos franzidos e dedões ossudos como uma pederneira de pistola pirática, Humberto era uma ossadinha branquela e desnutrida que perambulava pelos cantos de uma repartição pública cafifenta em um prédio público decadente dos anos 60.

Auxiliar de serviços gerais — e xerocador — orgulho de sua familia de vendedores e mascates. “Betinho é servidor do serviço público, olha só” e assim ele sustentava sua audácia pela familiagem toda. Problema é que seu ordenado residual era porco demais para sustentar qualquer mentira mais papeloenta. Não podia se dar luxos. Carro era transporte público, chave-canivete era o cartão do vale-transporte. Cinema? Em casa, com filmes comprados no camelô, que filmou no cinema qualquer. Jantar fora? Quintal.

Aliás, o parasimpático Betinho era avesso à alimentação saudável. Contraiu o mal do vegetarianismo ainda 0cedo, e assim restringiu-se a poucas frutas e verduras para o sustento diário. A razão, ninguém sabia, óbvia: carne era ítem fora do ordenado mercantil.

Dessa mesquinhez nutricional Betinho sofreu: atacou-lhe a anemia, sua pleura fraquejou, a pele — elástica como a de uma bribinha — era branqueada e fria. Olhos fundos e avessados por olheiras cheias de cafiaspirinas mordulentas que amainavam sua dor-de-cabeça constante.

Betinho parecia um velho ranzinza, mas sua juventude aturdida escondia apenas poucos quarenta anos.

Morreu, sabia?

Enveneado, olha só. E por cianureto, aquele veneno bonito das estórias do Sheldon e da Agatha. Cianeto de Potássio. Descobriram ele desfalecido da língua roxa e então investigaram que não morreu de morte morrida, e sim matado. A família quase bailou com esse entrevero todo e o velório foi atacação e chororô.

Niguém sabia ao certo quem poderia ter feito tal desfeita com Betinho. ele era um cara tão ruéla e fracassado que não havia razão singela de aniquilar o bocó. Mulher não tinha. Família era mais alçada no sucesso e prosperidade do que ele jamais sonhara.

A história esfriou, todo mundo acabou seguindo a vida e Betinho foi sumindo nas lembranças poucas que ainda, vez ou outra alguém atiçava no brasil de lenha leve.

O que ninguém suspeitou foi na dieta falha de Betinho, o vegetariano murrinha. Ele comia pepinos e maçãs. Mas das maçãs ele debulhava até as sementes.

E, no final das contas, ninguém estava nem aí que semente de maçã é um demoniozinho cianético, carregado do veneno da baba do cão, ali, a milímetros da sua boca.

Comer as sementes, todo dia, aos pouquinhos, o fez sucumbir sem nem dar um tchau para a Cidinha, a moçoila do facsímile que ele gostava. E assim a seleção natural dos carnívoros prosperou em cima de um aficcionado por insistir que vacas e frangos tinham almas.

A realidade atracada em uma galheta qualquer.

15 de junho de 2011

Depois dessa expedição — que lotou o blog com um recheio bávaro de embutidos — percebi coisas fenomenais que me fizeram mudar alguns conceitos de como eu estava vivendo em um plasma suspenso e não sabia.

A começar pela fotografia, o meu motor de curiosidade diário e a melhor coisa que descobri fazer como passatempo. Uma câmera boa faz a diferença. Agora, uma lente prime te faz mudar todo e qualquer conceito do que era a fotografia com um material bunda e o que o potencial de imagem pode exercer quando há capacitação técnica para tal.

Foi uma malacostumação catastrófica andar com uma 70-200 durante 30 dias. A abstinência hoje dói em toda a minha ossada.

Mas o meu celular tem 8 megapixels para isso. Então suprimos essa deficiência com a resignância.

Outra coisa deliciosa dessa viagem: fazia muito tempo que eu não viajava com meus pais. Eles mudaram muito: não são mais os administradores e roteadores das férias escolares de outrora, e sim parceiros colaborativos de uma expedição internacional. 30 dias inesquecíveis que eu não imaginava recordar como era bom conviver com a família em lugares inéditos.

A turistaiada brasileira me envergonha.

Ô povo chato que é o brasileiro em terras estrangeiras. Você percebe claramente a praga de gafanhotos chegando. Desde os externalismos óbvios de camisetas da seleção e bandeiras/bandanas brasileiras, ao apapagaiado gritar farofeiro típico.

O brasileiro não se esforça para tentar se aculturar no inexplorável. Azeita-se no idioma e nos costumes. E, é óbvio, não é polido e educado. Deixam o “Obrigado” e o “Por Favor” em casa.

Chilenos são mais educados e ríspidos com direitos e rotinas do que argentinos. Argentinos, por sua vez, são mais calorosos e amáveis quando se precisa de ajuda ou favores.

Uruguaios falam português, escutam MPB e estão mesclados na sintonia brasileira, então fica uma coisa meio estranha.

Argentina e Chile têm cachorros de rua educados e bacanas. Não são feios, te acompanham se você pedir e até fazem brincadeiras inteligentes. E esses países têm carros velhos. Que dividem as ruas com super-máquinas européias. Vai entender.

Voltar ao Brasil foi estranho. Eu estava acostumando com o castelhano. Sempre gostei de Buenos Aires, mesmo nesse jeitão gaiata de ser. O retorno pelo Rio Grande do Sul foi, de certa forma, adentrar em um quarto país inesperado, mesmo porque a gauchada da República Juliana Rio-Grandense continua meio alheia ao resto do Brasil.

Agora falta apenas vender umas coisas, se desfazer de outras, encerrar meia dúzia de contas e apagar as luzes.

O Brasil está se tornando uma lembrança boa sem eu nem ter me despedido ainda.

Mas 60 dias é pouco tempo para quem quer fazer tudo o que não fez em 10 anos.