Estou
mais velho.
E isso significa
obviamente que os
mesmos pensamentos
à todos me é comum:
devo estar mais
paciente, ter
progredido e a
cultura me atraiu.
Estar mais velho
me remeteu ao passado
um tanto longíquo
de que antes eu era
poeta e romântico
incurável e que minha
vida estaria fadada
ao amor incontido e
infinito. E estar mais
velho me percebeu que
perdi um pouco da
prática poética
incandecida que
metricamente me
aliviava o amor.
Há muito amor
naquelas poesias,
incontestável isso!
Mas aquelas métricas
absortas extraviei
e nem dei par de que
isso era a única
contextualização
amorística que
tive. E o qual
sentimento o
substituiu, se
é que substituiu?
Ainda é a conversa
de que sou o proclame
explícito de minh'alma,
a quantificação de um
eu grandioso e
explêndido. É o
mero discurso
de de um outro
alheio que
a mim foi, um
fragmento interior
de vida pura. Com
a idade, aquele
retrógrado sentimento
de nunca saber o
que é realmente
perdeu-se e não
me deixou triste não.
São fragmentos que
nem sequer percebem-me
como dono, tamanha
distância comeu as
beiradas — o que me
amedronta. Outras
genialidades que
nem quero ter
sido eu
o autor.
Typewriter
18 de julho de 2007
Caiu
18 de julho de 2007
É noite fria. Como uma garoa de noite qualquer, que sorrateira vem, e no prazer de ver o pequenino fogo murmurar centelhas esfumaçadas, lacrimeja o mundo que a viu.
É noite fria, solidão descarada.
Perdas sensíveis, o carinho carcomendo a vida e o sorriso de um medo que apenas o contempla mansamente. Novamente a história da fogueira que sucumbe à fina garoa.
Nem era fogueira. Nem era garoa de noite qualquer.
Apenas um soluço esparso e uma dor de coração aflito.
Contido viver
18 de julho de 2007
A vida é uma corrida irriquieta e furtiva. E a velocidade dessa corrida irriquieta trafega sempre na iminência de momentos únicos. A delícia de aproveitar esses momentos está justamente em conseguir suprir de medo contínuo a certeza da imunidade.
O indiscreto reinado peculiar
18 de julho de 2007
Lá no Reino-de-Não-Sei-Onde existia um rei muito excêntrico. Ele adorava suas posses, prezava pelo poder absolutista e ainda por cima detinha um peculiar harém de 128 mulheres ruivas. Sua vida era muito tranqüila. Matou todos os inimigos que atravessaram sua frente. Tinha uma agenda cultural elitista e bailes nunca faltaram em sua corte.
Agora uma coisa que era segredo muito bem guardado era a fonte de juventude de sua majestade, o rei do Reino-de-Não-Sei-Onde.
Todo dia o majestático rei — de posse de seu cálice de ouro maciço — visitava suas ninfas ruivas. Olhava nos olhos de cada uma, por minutos. Um olhar forte e intenso que inusitadamente vertiam algumas lágrimas, colhidas no cálice.
Ninfa-a-ninfa, tete-a-tete. Aquele rei enchia meia taça de lágrimas de mulheres ruivas em pouquiíssimos quartos de horas.
E essa era sua fonte de juventude, um ritual de inigualável prazer, a degustação das lágrimas das suas ruivas.
Tempo se passou e o rei morreu. As lágrimas eram elixir da juventude, não proviam uma vida eterna, oras!
Velando seu corpo no grandioso salão das abóbodas doiradas, as 128 mulheres.
Estavam chorando.
Desatino
18 de julho de 2007
Adoro falar de paixonites e efervescências amorísticas.
Ainda que refreado pela violência das palavras apaixonantes, gosto de me deixar levar por oratórias melodramáticas desses devaneios ilusórios.
Palavras apaixonantes são assim, do nada, escritas sem pensar.
Palavras apaixonantes soam desconexas. E qual amor é preciso e linear?
O prefeito maior
17 de julho de 2007

O velho prefeito falido da cidade moribunda ganhou, enfim, a estátua de bronze que sempre almejara.
Era sonho saborear, mesmo que finado e desejo mórbido, seu busto ao lado do Padre Estrôncio e Dona Catifunda. Ora ora, era um “sair da vida para entrar na história”. Bem mequetréfe, convenhamos. Mas era.
Admiração só dos pombos, que o redecoravam com uma alvura fedegosa.
Dos seus olhos opacos vista apenas das prostitutas, dos velhos gagás, da molecada traquina dos pelotassos.
Não o desejaria, busto de bronze da praça decadente. A polenteira tinha busto, o mandatário chacinento tinha busto. Até a Filandrinha do Rococó tinha um busto de praça decadente.
Bateu-se em todas as portas da inquietude, falou algruras de criadores e então o silêncio, que implacável o criara, sorriu de canto de boca bangela a estatueta oca de bronze de terceira, um suspiro murchante que o quebrou no joelhinho da esperança desacreditada.
É, estátua de busto de prefeito escorrido, tua ganância te fagocitou.
Das prateleiras do velho porão empoeirado
16 de julho de 2007
Não, não esqueço a melancolia dos atos vagos e mecânicos e inertes vascolejando velhos lembretes e lembretes ruidosos. Lembra? Era até o album de cromos. Ah, os cromos, como eram difíceis de retirar o auto-colante! E colava-os em seu caderno. Adorava te ver colando cromos, ornamentando-os em volta com hidrocores e amores, traços incontidos, por vezes tímidos. Por que não?
O porão era de porta estreita. Emperrada desde sempre aquela entrada do porão. Briquedos velhos.
E aquele porão mostrou-me onde guardar as velhas e boas lembranças.
Melancolia da vida, ó, segura em uma mão trôpega e senil as lembranças não tão boas. Se boas fossem, não estariam em um porão. Ah, o porão que agora mostra-me claramente que lembranças chinfrins ainda não se descartam. Guardemo-as por dó. Descartar seria amainar a vida com novos disparates.
Aquele velho porão de porta torta, emperrada de sentimentos. Aqui. Aí.
Porão velho da portinha branca no canto do seu coração, e eu o quero vasculhar.
Escrita canhóta
16 de julho de 2007
O menino canhoto vive na literatura que o cerca. Adora palavras inconstantes, permeia capítulos de livros e só o faz pela mania estranha de falar de escrita nativa e não da literatura em si.
O menino canhoto adora a escrita e suas inconstâncias. Esta adoração lhe dá mordomia como o lampejo de escrever possibilidades únicas de histórias fantásticas e realistas. O menino usa algumas palavras velhas de sua vastidão vocabulárica, mortas em poeirentas páginas de rusgados dicionários imaginários. Verbetes frios, cadavéricos e com toques fúnebres de um desuso eterno.
O menino canhoto acredita que as palavras — assim como as pessoas — podem ser amadas mesmo depois de mortas. E esta escrita torta, repleta de escapes e nuances imperfeitas combinam com os ares abstratos e assim o seduzem. Palavras instigadoras que ora afagam, outrora afogam o âmago da eloquência canhota.
O menino canhoto às vezes perde a noção do realismo e obcessivo, talvez por medo ou pavor da incapacidade, exagera no método. É um medo tolo, podes tu falar. Mas de medos tolos o menino canhoto apura a mão e o gesto, relacionando sempre alguns milimetros à frente d’alma pensamentos esparsos à tempos alheios.
O menino canhoto não sabe, mas essa vida atroz de querer escrever o que não é, vai acabar enlouquecendo-o.



