MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Saudade de uma boa churrasqueada.

25 de outubro de 2011

Ao anoitecer sentaram-se em bancos sem encosto (pranchas de madeira em cima de pedras e tijolos empilhados) ao longo duma grande mesa feita de várias mesinhas emendadas e a cuja cabeceira estavam sentados os noivos, tendo à direita os pais da moça e à esquerda o padre. Em cima da mesa viam-se pratos e travessas cheios de pedaços de galinha assada, carne de porco com rodelas de limão, batatas doces, pinhões e aipim.

No fundo do quintal preparava-se o churrasco: dezenas de espetos fincados em bons nacos de carne estavam colocados sobre um longo valo raso, no fundo do qual luziam braseiros; a graxa derretida caía nas brasas, com um chiado, e uma fumaça cheirosa subia no ar, enquanto duas pretas de vez em quando mergulhavam ramos de pessegueiro dentro dum balde com salmoura e depois aspergiam os churrascos, trazendo os que ficavam prontos para a mesa, onde eram disputados aos gritos.

Os homens usavam suas próprias facas, que tiravam da cintura ou das botas, e com elas cortavam o assado, muitas vezes respingando o rosto com o sumo sangrento da carne. Nas barbas negras de alguns deles a farinha branquejava como geada sobre campo de macegas recém-queimado.

O dono da casa dirigia o jantar, gritava para os churrasqueadores, recomendando: “Um bem assado!” ou “Que venha uma boa costela!” ou ainda: “Um gordo aqui pró Chico Pinto!” No princípio da festa notara-se um silêncio um pouco constrangido. Mal, porém, o vinho começou a encher os copos e subir à cabeça dos convivas, eles se puseram a falar mais alto, a rir, a contar histórias, entusiasmados. As mulheres, mais quietas, limitavam-se a sorrir, de cabeça meio baixa.

O terreiro estava iluminado por muitas lamparinas de azeite e sebo dentro de guampas postas em cima da mesa ou presas nos galhos das laranjeiras e pessegueiros. Rodrigo mastigava o seu churrasco com gosto, bebia o seu vinho estralando a língua. Sentia aos poucos um calor bom a poderar-se-lhe do corpo e ao mesmo tempo ficava um pouco inquieto, pensando no que poderia acontecer se ele se embriagasse e “perdesse a tramontana”.

O gaiteiro começou a tocar e os primeiros acordes do instrumento foram abafados pela gritaria de aplauso. Depois as vozes silenciaram um pouco e o homem – mulato de cara larga picada de bexigas – começou a tocar uma tirana. Estava sentado numa cadeira, no meio do terreiro, o chapéu quebrado na frente, o barbicacho quase a entrar-lhe na boca; tocava de olhos fechados, as sobrancelhas erguidas, e segurava a gaita com frenética paixão, como se estivesse abraçando uma mulher.

Rodrigo meteu na boca um naco de carne gorda, triturou-o nos dentes fortes e pensou ainda: Minha marca não sai mais. Nunca mais. Mastigou bem a carne e depois ajudou-a a descer goela abaixo com um gole de vinho tinto. Afrouxou o nó do lenço. “Está quente, amigo” – murmurou, dirigindo-se ao homem que tinha a seu lado. O outro não ouviu e continuou a comer, de cabeça muito baixa, como um porco com o focinho metido no cocho. Os sons rasgados e chorosos da gaita enchiam o ar. Um ventinho morno bulia com as folhas, fazia oscilar a chama das lamparinas. Homens iam e vinham trazendo churrascos ou levando espetos.

A vida era boa – pensava, enfim, Rodrigo.

 

O Sobrado I – Erico Veríssimo; p.292

Dois meses.

12 de outubro de 2011

Dois meses de Londres. Simples assim.

Mesmo com todas as informações de como a capital é cosmopolita, você só sente na pele que está em um resumo mal feito do mundo quando convive uma rotina maluca que esta cidade exaspera.

Isso não é ruim, nem se torna uma barreira.

A decepção só é grande porque sou fã do idioma britânico. Sempre achei o american english accent uma pastelantice mal sonorizada e fanha. E aqui em Londres é difícil escutar alguém falando um proper english. O que mais se tem é indianos que sobrevivem por aqui de muitas maneiras, algumas mágicas e louváveis, outras apenas existindo sem uma razão aparente. Eles rasgam o sotaque sem se importar com o glamour que é articular o idioma.

Os ingleses continuam pedindo desculpas e licença como há dois meses atrás, e isso é bom. Respeitam muito o próximo e, por incrível que pareça, são amistosos. Quando percebem estrangeiros falam de uma forma mais pronunciada e lenta. Para ser entendido mesmo.

A pontualidade britânica é fogo. Continua ferrenha e assídua.

Os policiais são extensivos e estão em todos os lugares.

Os brasileiros estão por toda a parte. Muitos andam por aqui de forma ilegal, e isso é ruim. Fazem uns guetos estranhos e são mal vistos. O jeito brazuca de se comportar não se adéqua ao dia a dia britânico. A brasileirada é farofa por natureza, junta meia dúzia e já viu: grito, nome feio e risadas estridentes por todo o lugar.

Conheci muito brasileiro por aqui. Jovens, perdidos e sem presença futura. Alguns com problemas de idiomas, outros procurando empregos underground. A grande maioria ainda veio naquela idéia de juntar dinheiro para remessas Western Union. Conversam em português, compram farofa, feijoada em lata e arroz. Escutam pagode e sertanejo dia e noite. Falam mal das inglesas que não sabem se vestir. Sentem saudades ferrenhas do Brasil e desejam por tudo voltar um dia.

Aliás, tem muito mercado regional luso-brasileiro por aqui que vende tudo que se possa imaginar de origem tupiniquim: farofa, goiabada, picanha resfriada, chá mate, guaraná em lata e 1,5l, temperos e guarnições diversas. Parece a mercearia da Maricóta.

Equipei minha casa com umas 400 libras. Muita coisa de qualidade excelente, algumas marcas famosas e design inteligente por todo o lado. E, entenda por mobiliar, algo como encontrar um apartamento apenas com um sofá, uma mesa e uma cama.

Os preços por aqui continuam atrativos.

Fiz meu insurance number para começar a trabalhar. Eles prometem 8 semanas para entregar. Recebi em 3 dias. Sempre assim, inclusive com o Royal Mail, que todo mundo fala mal. Eles têm um sistema first e second class de entregas que ninguém entende direito, mas que é muito barato.

Sistema de saúde nacional é conhecido como o maior, mais complexo e funcional do mundo. Não testei, mas me cadastrei. Espero não usar nunca.

A cultura cotidiana aqui é foragida de desgraças midiáticas. Não sei se o povo se encheu de saber noticias mundiais ou se, no final das contas, é tudo rubish do mais catinguento e ninguém está nem aí para elas mesmo.

A previsão do tempo é fenomenal: você tem um hora-a-hora com mapa de nuvens, vento, direção e tipo de chuva/fog. Sabe quando levar guarda-chuva ou uma blusa para o ventão das 19h.

A vida aqui é muito, mas muito mais complexa do que eu imaginava. Para você ter uma idéia da proporção que isso atinge, contabilize pelos tipos de sais que existem para cozinhar (e que vendem em qualquer mercado grande): course, table, deep mediteran, iodized, kosher irregular, celtic, dairy, rock, pickling, sea regular e seasoned. Multiplique isso por quase tudo que você possa consumir ou usar por aqui e terá uma pequena amostra da diversidade e costumização que morar aqui significa.

Eu não tenho mais idéia do que será minha vida daqui para frente. Sinto que essa cidade cinzenta está me forçando a plantar raízes.

E isso só pode ser, ou muito bom, ou péssimo.

O tempo, viadinho, vai ter que me falar.

Old times, good times.

2 de outubro de 2011

Coisas que você deveria fazer alguma vez na vida:

23 de setembro de 2011

  • Tocar em uma baleia.
  • Escalar uma montanha.
  • Saltar de um trampolim bem alto e dar uma pirueta.
  • Nadar pelado numa piscina.
  • Ter um cachorro.
  • Plantar uma árvore.
  • Fazer uma horta.
  • Soltar um passarinho de uma gaiola.
  • Ler a Bíblia.
  • Ler o Alcorão.
  • Assistir a um culto budista.
  • Recitar um mantra.
  • Dedilhar uma cítara.
  • Cantar de madrugada na janela.
  • Andar na chuva de terno.
  • Ir a uma reunião de Havaianas.
  • Desligar o micro direto na tomada às 17hs de sexta.
  • Escrever uma poesia.
  • Escrever um conto.
  • Compor uma música.
  • Pintar um quadro.
  • Cabular aula na faculdade pra jogar truco no boteco.
  • Saltar de pára-quedas.
  • Voar em um balão.
  • Ter ou adotar um(a) filho(a).
  • Andar descalço no musgo.
  • Entrar em uma pirâmide.
  • Tentar decifrar um hieroglifo.
  • Estudar hindustani.
  • Ler uma página em grego ou algum idioma antigo.
  • Cruzar um país de carro.
  • Acampar em uma praia.
  • Morar uma semana numa tribo indígena.
  • Viajar de trem.
  • Jogar bolinha de gude.

A reforma da igreja na Inglaterra atual.

12 de setembro de 2011

Eu não sei como está a fé inglesa, mas pelo que percebi andando pelas redondezas de Londres, a coisa está feia para padres e pastores.

Muitas igrejas estão à venda. Sim, placas e mais placas de vendas em pátios de casas religiosas abandonadas. E olha que são prédios suntuosos, vitorianos, com mais de 200 anos de idade. O pessoal compra e converte esses grandes espaços em alguns apartamentos geniosos. Já vi alguns para alugar e garanto que os grandiosos e antigos vitrais ficam muito bem alocados em uma sala de estar.

Essa igreja vitoriana perto da minha casa virou uma editora e gráfica.

A fé aqui estagnou de uma maneira impressionante. Alguns países nórdicos e extremamente desenvolvidos já deram esse sinal agnóstico de pouca religião, mas da Inglaterra eu não esperava tanta falta de fiéis.

Como bem disse Paulo na segunda carta aos Coríntios, a letra mata e o espírito vivifica. E quanto mais letrado esse povo fica, mais a religião sucumbe às imobiliárias carniceiras.

E é lógico que eu não pensaria duas vezes em comprar uma igreja.

Essa igreja aí em cima é de 1866, estilo vitoriano, devota da St. Mary’s. Ela é toda construída com pedras da colina que deu nome à região: Ankerdine. Foi vendida por £366.000, convertida em residência com 7 quartos e 3 banheiros.

The Dreadnought acoustic guitar.

8 de setembro de 2011


Brighton, East Sussex – UK.

4 de setembro de 2011

Brighton talvez seja a praia mais perto de Londres, o que faz com que a visitação de farofeiros seja alta no verão. A praia é composta por pedras em vez de areia, o que deixa a água incrivelmente transparente e esverdeada. Essas fotos foram feitas apenas com meio dia de pernadas pela cidade. E só nos pontos pega-doido:

O unusual cotidiano londrino.

3 de setembro de 2011

A vida londrina é muito interessante. Descobri que, diferente dos locutores da BBC, o povo aqui come algumas letras das palavras. No metrô por exemplo, Leicester Square pronuncia-se algo como ‘leissstquér‘. O escocês fala ‘Rrúud‘ para road e por aí vai. Esse é o charme de tentar aprender essas nuances locais.

Mas vamos ao que interessa: o cotidiano. Café da manhã com crumpets, umas panquecas gordas e pequenas, deliciosas, pricipalmente com Marmite por cima.  Esse papo de que inglês come mal pra caramba é a maior decepção que me fofocaram. A alimentação aqui é foda demais. Tudo que você imaginar que exista em algum lugar do mundo, você encontra seguramente por aqui. Só come mal quem quer.

Essa é para os viciados em carros: imagine que, com um salário-pobreza de uns £3000 (o que qualquer profissional brasileiro peso-meio-medio recebe) consegue-se comprar qualquer marca de carro que você sempre sonhou. Um Porsche 911? Coisa de £10.000 (pouco mais do que três salarios seus). Ferrari você encontra umas Dino GT4 por menos de £20.000. Aston Martin DB? Mais caro, porque é mais novo: £32.000. Agora BMW, Audi, Mercedes, e qualquer outra coisa de mais de R$50.000 aí no Brasil você encontra aqui por £5.000. É, CINCO MIL. Durma com isso.

Minha câmera (ih lá vem ele de novo com esse papo) fudeu de vez. Então estou em um período sabático da fotografia, onde só registro merdaiada com celular. Nada de mais e sem truques. Estou juntando umas patacas para um auto-presente óptico prime L. Aguardem.

Fotos, como sempre, para mostrar o que acho por aqui:

Um Cooper antigão. O povo aqui gosta muito e cuida dessas tranqueiras.

Boarding tipografado pela minha irmã. Letra foda de família.

Nave principal do Museu de História Natural e um esqueleto de dinossauro.

Torre do Museu de História Natural. A gente encontrou a Lucy original, aquela macaca gnoma que o povo fala que é nossa ancestral.

O homem espera o trem com um ramalhete de flores vermelhas em uma estação de trem ao sul de Londres. A maioria das pessoas preferem os trens de superfície por serem baratos, rápidos, confortáveis e com uma vista bacana do trajeto, ao contrario do metrô. Ah, o povo aqui compra muita flor. E sempre sorri.

Pôr-do-sol às 20h no parque Brokewell. O céu britânico no verão é de um azul surpreendente. E o sol realmente é aquela piadinha de que é igual luz de geladeira: ilumina mas não esquenta.

Isso aí é um Smart preto com detalhes laranjas. E essa entre o retrovisor e a lataria é uma teia de aranha. Tem gente por aqui que não está muito aí com o carro. Igual uma Ferrari Scaglietti com umas cagadas de pássaro na lata, que vi hoje.

Uma BMW 328i por £2200. Preço de chevettão.

Lápis-baqueta. Aham, HB#2 com grafitão, para fazer um pagode na hora do sketche.

Esse tá caro, mas é um bolachão do MJ Thriller 25 anos,
com a capa impressa no próprio vinil.

Seção roque-paulera da HMV, a loja que é a dona daquele cão que escuta gramofone.

Chinatown sempre lotada, com umas lanternas decorativas pra gringo ver. E eu não tinha visto essa véia bocejando na foto.

TV de chinês: pataiada defumada na vitrine, esperando para ser fatiada e devorada.