MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.
Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881)
Russo esquisitão, vadiava esquivo por São Petesburgo. Abandonou a carreira militar pra escrever o primeiro livro e ganhar alguns trocados “limpos”. É preso por freqüentar um círculo de socialistas utópicos e sentenciado com pena de morte. No último minuto a pena é comutada para 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Cumpre a pena, e passa a viver precariamente de uns escritos estranhíssimos.
Desisti da vida de freelancer. O esforço não vale mais a pena. O mercado de design e publicidade alternativo está muito sujo. Cheio de micreiros-stacattos cobrando menos que prostitutas de rua. E clientes que não entendem o mercado como arte criativa.
Não trabalho mais com criação, nem internet, nem nada. Acabou. Tenho um emprego e o tempo livre dele é para curtir a vida adoidado. Estudar, criar coisas sem fins lucrativos, escrever para blogs, dormir, vadiar, fotografar, gastar sola da bota em cachoeiras de águas transparentes.
Tudo isso sem clientes pressionando, sem o mundo esperando o milagre da recriação.
Como tudo na vida deve ser.
(Claro que sou deveras inconsistente e se você aparecer com uma proposta muito da cretina, envolvendo boa quantia de verba, pouca perspectiva e nenhum compromisso, serei todo seu. Mas não acredito que exista alguém com esse perfil.)
A vida de tradutor de loves song tem lá seus pontos pitorescos. Um aviltado e famoso intérprete sertanejo me pediu para transladar a clássica “When a man loves a woman” da voz sofrida do Percy Sledge e consagrada com um Grammy por Michael Bolton.
Comedido, colocou em um ps no final do bilhete de hotel: “Capricha, R.V. Puxe para a cornice (sic). É o que os meus mal-amados querem ouvir.”
Não podia ser uma tradução dicionaresca. O calorão pedia muito mais fogo e libido. A tradução descambou para a baixaria, mas logrou sucesso nas top 10 sertanejas clássicas de 1988 na cidade de Montividiu-GO:
WHEN A MAN LOVES A WOMAN – QUANDO MINHA MULHER AMA UM HOMEM
************************************************************* When a man loves a woman Quando minha mulher ama um homem Can’t keep his mind on nothing else Não consegue manter seu pensamento em mais nada He’ll trade the world Ele trocaria o mundo For the good thing he’s found Pela coisa boa que encontrou If she’s bad he can’t see it Se ela for ruim, eu não consigo sentir She can do no wrong Ela nunca faz a coisa certa Turn his back on his best friend Ela vira de costas para seu amante If he put her down E ele a deita no chão
When a man loves a woman Quando minha mulher ama um homem Spend his very last dime Ele gasta até seu último centavo Tryin’ to hold on to what he needs Tentando manter a amante He’d give up all his comfort Ele a mima com presentinhos Sleep out in the rain Que eu jamais conseguiria dar na chuva If she said that’s the way it ought to be Se ela disser que é assim para mim
Well, this man loves a woman Pois é, ela ama um outro homem I gave you everything I had Ele dá tudo o que ela quer Tryin’ to hold on to your precious love E tenta preencher tudo que não sou Baby, please don’t treat me bad Meu bem, por favor não me trate mal
When a man loves a woman Quando minha mulher ama um homem Down deep in his soul Ele vai fundo nela She can bring him such misery Ela pode deixá-lo exausto If she plays him for a fool E se ela estiver me traindo He’s the last one to know Sou o último a saber Lovin’ eyes can’t ever see Meus olhos enamorados nunca enxergam direito
Yes when a man loves a woman Sim, minha mulher ama outro homem I know exactly how he feels Eu sei exatamente como ele deve se sentir ‘Cause baby, baby, baby, you’re my world Pois meu neném, meu neném, meu neném, você é o meu mundinho
Eu sempre quis conhecer escritores. Acompanhar a boemia — na mesa anônima ao lado — da patota-bossa-nova das pingaiadas eternas de meio da tarde em Copacabana. Talvez porque todos esses ícones de uma geração que já bateu as botas foram heróis mundanos e enfadonhos com alguma graça perdida.
Encontrar ao vivo gente como Drummond, Pessoa, Bandeira. A chatisse que não devia ser uma roda de conversa deles! Ou então os loucos curitibanos: Trevisan ou Leminski e suas tentativas absortas de poetizar o que não se deve.
Os poetas já se foram. O mundo, dinâmico do jeito que é, colocou no lugar gente que não tem mais essa pegada toda sentimental.
Quem quer saber de um poeta na idade do rock
um cara que se cobre de pena e letras lentas
que passa sábado à noite embriagado
chorando que nem criança a solidão
Quem quer saber de namoro na idade do pó
um romance romântico de Cuba
cheio de dúvidas e desvarios
tal a balada de Neil Sekada
quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira na beira de um calipso neurótico
um orfeu fudido sem ficha nem ninguém para ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia
Esse poema acima (‘Desabutino’, do Chacal) é a cara das reações culturais contemporâneas. As músicas estão uma bosta. Letristas, mais cornos que nunca. Literatura, ovalada. Blogueiros, inúteis. Boa poesia, música inteligente e almas intensas, trancafiadas em redutos cada vez mais obscuros.
Conheço uma meia dúzia de bons redutos, socializados de forma honesta. Desses, um é virtual e reúne a excelência experimental da poesia e música em podcasts experimentais. Aliás, os podcasts são broadcasts de uma rádio local. Acesse o Programas Antigos e baixe a coletânea.
Recicle um pouco a sua cultura alternativa. É necessário. E gratuito.