Se alguém, hoje, me perguntasse se valeria a pena mudar de país (e muita gente pergunta, por isso escrevi essa epopéia abaixo), eu diria que não. Antes que você pense que eu estou arrependido ou pior, que bailei na fronteiriça: informo que foi uma das decisões mais acertadas e felizes que já tomei. O que estou brevetando aqui é apenas um ponto de vista sincero do que encontrei em um novo-velho-mundo.
Falo isso para quem pensa em se mandar sem data para voltar. Se você vai apenas intercambiar, pare de ler aqui e vá cutucar alguém no Facebook.
Manualzinho da imigração hipster.
A vida fora de seu país natal é triste. Quase o banzo literário, o spleen de inglêses temperado com o ennui dos franceses em um pote de porridge fumarolento. Imigrar é uma atitude vocacional que requer sangue de barata nas veias.
Não que meu país de origem seja a tragicômica festa do desvario e dos pagãos. O Brasil consegue ser tão triste quanto, mas no idioma do Camões, o que é deveras compreensível.
O que recomendo é simples e como sói, não serve de nada além da reclamação: se você é ou está velho (mais cabeça que corpo, se é que você me entende), não queira mudar sua cultura. Seria o mesmo que destocar uma raiz de aroeira em um terreno pedregoso e árido. Vai doer e será muito mais trabalhoso do que se imagina.
Ganha bem fora. Mas gasta-se bem, também. O consumismo é uma merda e você cai em desgraça no dia-a-dia com o cramunhãozinho da compra assentado no ombro esquerdo. Fazer dinheiro aqui (e remessas de promessas de futuro via WesternUnion) é privar-se do prazer mundano.
Se você tem uma vida mais-ou-menos aí na Tupiniquinolândia, melhore-a localmente. Mudar não significa melhorar no zás-trás. Aliás, não ache que você chegará em outro país ditando moda, cagando regra e ganhando rios de dinheiro. Provavelmente o declínio profissional te pegará pelas bolas e você começará muito abaixo do que pessimisticamente imaginava.
Ritchie, o garotão da menina-veneno, afirmou que foram 30 anos para a proficiência em português. Acredito que o mesmo aconteça com outros idiomas e você sempre levará a alcunha de gringo, onde quer que vá. Abra a boca e a segregação acontecerá. Saiba lidar com isso e 90% das suas preocupações somem. Mais ou menos o que acontece com aquele padeiro perto da sua casa, o Portuga. Viu só?
O mundo é globalizado, mas as pessoas não. Parece uma contradição coloquial, mas em países mais tradicionais o povo tende a se isolar e criar bolhas de formalidade. O que não deixa de ser bom, se você gosta de ser um sociopata que não interage.
O Brasil já é visto com bons olhos por gente que nem sabia que ele existia. Isso é bom e anima. Mas ainda não estão nem ai para o que isso representa ou pior, não têm idéia de onde fica no mapa mundi.
A Europa está capenga, com um estranho freio que a estaqueará. qualquer dia tudo aqui desmorona e somente quem souber manejar uma clava de raiz de nogueira se sustentará na informalidade.
Mudar de pais casado é bom. E bem burocrático. Em contrapartida você tem uma gigantesca parceria emocional para se sustentar e a solidão não chega perto nem com reza. Venha sozinho e em 6 meses seu maior arrependimento te pegará pelos cornos. Sim, as fotos dos seus amigos no Facebook fazendo o que você FAZIA corrói a sentimentalidade varonil.
Tente aproveitar sua vida em seu país natal. Mude de cidade, estado. Vá conhecer as promessas de desenvolvimento tecnológico no Nordeste. Monte um projeto negocial em Piri-Piri, Curralinho, Florianópolis, Xanxerê, Mimoso do Goiás ou onde quer que seja: é quase o mesmo fôlego de mudar de pais, só que mais barato, fácil e com muito menos stress.
Ah, importante: não queira fazer a mostruosa cagada de se tornar um ser ilegal no país de destino. Tem brasileiro que surta e tenta a todo custo migrar. Tenha em mente que não basta querer mudar; a realidade é que nenhum país quer um novo imigrante. Nem o Brasil, acredite. A ilegalidade cansa e você será um cara muito, mas muito amargo. Amargo, esquivo e um fugitivo. Conheci gente assim por aqui e posso te dizer que não são nem um pouco amistosos.
O mundo afora é muito diferente do que se imagina. Pode ser uma delícia ou um inferno, e não existe fórmula do prenúncio de como será sua vida. Quiçá a auto-confiança seja o melhor termômetro de frias que você poderá encontrar. Se você tem alguma dúvida, não mude. Desconfia de algo? Não mude. Tem “Apego” no sobrenome? Fique em casa. Pensa que é fluente no idioma? Repense com sinceridade. É preguiçoso? Continue assim, na inércia eterna.
E não mude.
No mais, tudo só depende do quão safo você consegue ser.