MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Coisas do caderno velho

14 de abril de 2009

Lucky yuppie hohay.Achei esse desenho em um caderno velho do tempo em que eu achava que o dinheiro me salvaria. Hoje, a idéia é bem projetada na cara-de-bunda do personagenzinho de 4cmx3cm rabiscado à nanquim 0.2.

Rockabilly9

13 de abril de 2009

Descendo*, você pode se deparar com uma pérola dessas:

Ilustracao cutout

Br-101 trecho Curitiba-Garuva. Releitura com um tablet e um Photoshop v8-302 canadense restaurado ano 71.

divisor

*Descer é um verbo intransitivo curitibano. Significa tão somente viajar ao esdrúxulo pequeno-litoral paranaense.

R.Valentino

8 de abril de 2009

Há locais difíceis de descrever. Uns porque não são em nada inspiradores, outros porque, precisamente pelo contrário, por serem especiais deveras, nos deixam a sensação de que tudo o que dissermos ou é pouco ou é excesso (e ambas as situações são igualmente negativas). Ou pior: que aquilo que aformamos é uma amálgama de clichês que já ninguém quer ouvir.

E é por isso que hoje, muito tempo depois de perceber essa conciência absorta é que conto a história dos meus locais seguros, honestos e reconfortantes.

Meu nome é R. Valentino. Admirável, eu sei. Acabei de ser entrevistado por Donald Guthwell, um dos gênios metamórficos e contemporâneos da internacional revista Économie et Affaires. Ao som de Medeski, Martin & Wood, ao vivo — é claro. Conversamos sobre economia, dólares, mulheres e as esquisitices mundanas. Exatamente como o protocolo de uma entrevista na Itália carcamana deve tomar corpo.

Ele foi embora. Aliás, a taquígrafa-secretária que ele trouxe à tira-colo engambelou meus pensamentos. Despediu-se com um “Ciao!”, a ragazza, de arrepiar a pantufa da nuca. Desapareci em segundos com um Listrac-Médoc da adega e duas taças. Sempre duas, nunca se sabe o que há por aí.

Todos se retiraram. As luzes se apagaram, as lamparinas tremeluzem como se o esforço hercúleo para iluminar o paçadisso fizesse honra por notar.

Aqui onde estou é a Sardenha. A Sardenha exclusiva e intocada, quero ressaltar. O lado virgem e inocente. O mar cor tem a cor da verde esmeralda, a inacessível vegetação mediterrânea, as rochas rosadas que roçam a areia branca em cada balangandar de ondas e os perfumes da murta e do lentisco exprimem a quintessência do exclusivo onde me hospedo. Um refúgio de relvado bem cortado, que desanda em degraus sobre a praia, limítrofe de um jardim com passadiço em madeira, um pouco arcada e empenada, que despontam como manchas imaculadas por entre o verde do pinhal e o azul do mar (que outrola chamei de esmeralda), levam-me para lugares longinquos.

A vida complexou-se muito ao meu redor. Recebi uma enxurrada luxuosa e cultural que às vezes nem noto-me mais na essência. Sei me portar à mesa e comer com mais de 28 talheres. Travo entendimento e discorro assuntos em meia dúzia de idiomas com um cretinismo vil. Degustei Lafite Rothschild´66 no Alain Ducasse au Plaza Athénée em 2001. Beijei uma atriz famosa, ano retrasado. E não foi por acidente.

Então deparo-me aqui, nesta suite gigantesca, a navegar por um pretérito perfeito.

Algumas fotos afanadas da internet, em páginas abandonadas, onde apareci fantasiado de múmia, com umas 10 ataduras de gaze. Ou quando atolamos um jipe velho no meio de uma fazenda no mais profundo e inabitado vale da nossa cidade.

Na página de um amigo que há muito tempo não converso (mas acompanho por uma rede social privada) apareço rindo. A lengenda dizia: “Velhos tempos que não voltam mais…”

Reticências…

Aliás, tenho nos meus favoritos do computador portátil uma lista interminável de velhos amigos. Acompanho-os de longe, na surdina, sem ser notado. Sei o passo de cada um, o ânimo, a vida social, pública e pessoal. Quem casou, descasou. Morreu.

Não consigo mais, e juro que tentei inúmeras vezes, voltar às velhas amizades.

Hoje vivem no passado, atualizado como um F5 refreshned, para que eu não esqueça.

Minhas amizades, hoje vinculações de caráter exclusivamente social, são ligadas por cifras, safras e comprometimentos: um preço que pago pela complexidade da evolução.

E toda noite vivo essa busca fantásmica pela internet. Às vezes procuro amigos que ainda não se conectaram. Não receberam convites para exporem as vidas na rede social. Não se cadastraram em servidores de grupos de mensagens. Não escrevem para diários virtuais. Mas busco-os diariamente, na esperança de que ingressem. Como uma sede por saber mais deles, sem que eles me vejam como um menino curioso à beira da cerca.

Descobri que a rádio lá da cidade do interior onde vivi, está na internet. Ao vivo. A programação continua a mesma. Final de noite e o clássico ‘Love Songs’ corta-me o coração com as baladinhas congeladas de 15 anos atrás.

Quer saber? Vou ligar para lá.

“Voltamos, ouvinte na linha quem fala?”

“Valentino!”

“De qual bairro, Valente?”

“Aqui da vila sardinha!”

“Qual a música e para quem?”

“Toca aí What´s Up do 4 Non Blondes, dedico para quem quiser remoer o passado!”

A bela voz esganiçada e rouca de Linda Perry ecoa por meu imaginario, fazendo-me viajar por milhas e anos até a garagem da festa da vassoura em que eu beijei uma ex-namorada qualquer.

Há locais difíceis de descrever. Uns porque não são em nada inspiradores, outros porque, no final de todas as contas e ponderações, apenas existem no imáginário. E a cada dia monto-os e desmonto-os como bem quero. Cenários, complexidades, emoções. Um mundo companheiro, fictício e viciante, em minha pequena vida solitária. Que existiu um dia e como tudo mais, jamais voltará a ser a sombra do que já foi um dia.

It is like this forever*

7 de abril de 2009

*Qualquer coisa que te enfie na rotina.  Para sempre. E de F-100 à botija de gás.

Welcome to the foreign country, pilgrim.

6 de abril de 2009

De vez em quando deve-se dar trégua aos censores (*editor, grafe esta palavra com “c” mesmo) e deixar que assuma o leme da caravana um espírito que te leve menos a sério, daqueles que deixam escapar uma risada quando caberia um espanto ou uma indignação.

Certa manhã, decidi fazer umas pequenas modificações nos meus dias, sacos de areia que começavam com despertares torturantes e terminavam com noites enfadonhas. Um deserto existencial com amplitudes térmicas gigantescas: do calor da revolta/abuso ao frio polar da indiferença depressiva.

Combinação que acabou por fender o teto do meu juízo, agora com vazamentos e sujeito a infiltrações de novas idéias e réstias de razão. Esse ambiente de sombra, umidade e um pouco de energia luminosa é bastante propício ao crescimento de lodo e líquen (mutualismo de pensamento com impulso), um convite para alguns artrópodes originais que formaram um ecossistema que era a exata representação da minha consciência fantástica.

Minha maior preocupação tornou-se elaborar uma nova estratégia no Xadrez. Talvez uma atualização do (Tc8 42. De6+ Re8 43. Th8!! Txc1+ 44. Rh2 e as pretas abandonam)?

Como a sensatez já tinha se esfumaçado do meu córtex cerebral, decidi-me pela opção da mudança real. Tapão no portafolhas e resumé. Just a brand new and in english wohah! Vacanças não me faltarão.

Como um trem que badala seu sino na última chamada, a noite me chama com a buzina dos automóveis na avenida cinco quadras acima. É como o bilheteiro que brada “todos a bordo”, o grito eufórico aos passantes na calçada à cinco andares abaixo.

Guilherme II, o sacripantas

26 de março de 2009

Guilherme II

Os cantos

23 de março de 2009

A tradição mitômana — ou puramente mistificatória — carrega, ao longo do tempo, diversas conotações e intenções que variam, justamente, ao sabor das circunstâncias históricas e das idiossincrasias de cada artífice. Dessa galeria de ilusões destaca-se, por exemplo, a declaração de texto apócrifo no Philadelphia Press, em 1913, que afirmava ser Ezra Pound “considerado na Inglaterra um dos maiores poetas do mundo”.

As mãos do próprio bardo americano lavraram essa loa, soube-se mais tarde. O que não se sabe, todavia, é se o fato já sinalizava a dementia praecox de que viria a sofrer o autor de Os Cantos.

Tristemente, esse soberbo expediente madequepeniano é continuado de forma leviana por artistas menos escrupulosos. Incapazes de obter os efeitos desejados, quais sejam o assombro e a credulidade, da verdadeira atitude sicofanta, caem na facilidade do exagero.

Tomem-se como exemplos alguns brasileiros que naufragam nessa arte. Caubi Peixoto era conhecido por declarar uma suposta fama em terras estrangeiras (mormente na Bretanha), chegando a citar periódicos locais que o alcunham de “a voz de diamante do Brazil”. Pelo mesmo trilho seguia Nelson Ned — antes de se converter— que de sua banheira de ouro em uma fictícia mansão em Atlanta, ouvia no rádio chamarem-no “the little king of Las Vegas”. Nada que honre o savoir faire de um Pound.

Mas nem tudo está perdido. Alguns poucos vates ainda carregam o estandarte da megalomania genuína. É o caso do nosso RValentino, que regala constantemente nossos leitores com pérolas deste honrado metier aparentemente fadado ao esquecimento.

Recentemente saiu das letradas controversas e criou, abrilhantado, o que prometera jamais fazer: um layout de blog. Aliás, prometeu em algum texto sem importância que não os criaria!

Não obstante e ainda traído por suas palavras criou novamente um novo layout, que desta vez promete “ser a quintessência da desconstrução empírica das raízes blogueiras”. Veremos.

Só nos resta esperar que a tradição se mantenha viva por parte desse discípulo que se empenha tão fortemente na sua arte digital etérea.

E que suas contradições não apodreçam sua alma.

Salto do Itiquira

16 de março de 2009

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Os humanos e o poço.
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A vegetação local permanentemente molhada.
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Vista por trás de uma das quedas menores.
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A foto que todo mundo tira do último mirante.
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A vista do topo da queda d’água.
 

O Salto do Itiquira é uma cachoeira de 168 metros de altura que fica em um parque municipal da cidade de Formosa-GO. Lá o turismo é predatório e a natureza foi toda adaptada com caminhos, vias, pontes, banheiros, chafarizes para banhos, estacionamento, restaurante, lanchonete, quiosque com tranqueiras.

O bom de tudo isso é que você chega rapidinho no poço principal onde o salto despenca. Pode ir até de chinelo-de-dedo que não tem problema. É um programa ideal para quando se está com preguiça para uma aventura maior. Bom para criançada, grupos grandes, idosos.

A foto acima é uma panorâmica, tirada do lado direito do salto, onde encana um vento ferrenho. A dificuldade técnica de tirar uma boa foto por lá é interessante, porque o vento que a movimentação da água faz molha todo o equipamento fotográfico em segundos.

Velha sem sentidos

6 de março de 2009

A “Velha Sem Sentidos” é uma pequena série de imagens obsoletas capturadas de periódicos, revistas, manuais e almanaques antigos.

Meio sem sentido. E sem graça. Mas eu gosto de coisas estranhas.

A graca dos gestos femininos ao espelho.

Vai postergando, vai…

5 de março de 2009

Final de ano resolvi visitar gente que fazia tempo que não via. Como moro longe pra caramba da maioria das personalidades do meu passado, aproveitaria a deixa de final de ano para tal.

Fiz uma lista mental de personalidades da minha juventude: amigos da rua, pessoal do jeepclube, os maloqueiros da vila vintém, a turma do badminton, da escola de literatura e artes, do grupo educacional, a escoteirada de outrora.

A idéia era ver, após 10 anos de distância, se aquelas sementes podres vingaram para alguma coisa.

Acabou que não visitei quase ninguém. Faltou tempo, prática, vontade.

Aí recebo a notícia de um amigo meu — ontem — que uma dessas pessoas da lista (e que eu realmente ia visitar e tomar um chimas), morreu.

Que beleza né? Essa vida de procrastinador é exatamente o que me faz pensar se não sou milionário ainda por pura birra. É incrível como postergo ad infinitum coisas triviais da vida. Talvez seja uma arte. Ou a virtude de cultivar a paciência.

Ou doença. 

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 Outra coisa que ainda não aprendi: cultivar contatos. Alio a minha maestria em postergar coisas com a falta de contato. Perco amigos, conhecidos, a patóta da igreja, os escafandristas amadores de Santarém, os pedaladores noturnos.

Deixo meio assim-assim, até o contato se tornar um fantasma do passado que insiste em morar na pasta do meu mailbox “A responder”.

Não tem santo que me faça criar coragem em replicar um email de quatro meses atrás. 

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Contatos são portas, pontes, mãos caridosas. Não seja sovina. Cultive-os. Um dia você verá, no auge da sua velhice, que jogar xadrez sozinho só tem graça para o Geri.