MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘pessoais’

Biografia

11 de julho de 2007

Muita gente que circula por este blog não me conhece.

Conhecer, no sentido pessoal e físico, digo.

Náo sabem quem eu sou, de onde vim, o que me leva a escrever tanta coisa insistente. E isso é um problema sério, de verdade!

Escrevi, há uns 5 anos atrás, uma biografia. E escrever biografia é um erro estúpido, percebi depois: tudo muda, idéias transpõem movimentos e a visão deturpada de um passado biográfico fraco e vazio amadurecem na vontade (e velocidade) de jogar tudo fora e criar uma nova vida.

Esse blog é uma auto-biografia de pensamentos, apenas.

Um eu, estranho ao mundo, quem sabe. Mas nada real, nada retrato. Não condiz com a minha explícita.

Por isso reescrevo algumas cronologias de vida — novamente — rebatendo o passado. Ei-la:

Sou de 78. Era novinho há cinco anos atrás. Hoje vejo que o tempo é um cão sarnento implacável. Nasci no interior do Paraná. Cresci pelo mundão, estacionei em Curitiba. Migrei para Brasilia. Continuo brasileiro, alemão, polaco, italiano, chinês e japonês. Tenho olhos que eram castanhos escuros, hoje esverdearam e estão em cores transitórias e esquisitas. E não tenho idéia do porquê.

Sou escorpiano e, ao contrário do passado, pouco me importa isso. Continuo viciado em internet, continuo com o som de carro barulhento e ainda quero ter um Porsche, apesar da impossibilidade real.

Da velha linha de ocupações mil que me eram orgulho (design, literatura, mecânica, computadores, mulheres que me intrigam, esportes radicais não convencionais, montanha, cyberspace, terra/lama/barro, molhar-se na chuva, blablabla), esqueça isso: bobagens. Fiz tudo tantas vezes que não são mais importantes. Hoje a vida tem um pouquinho mais de sentido e algumas prioridades existenciais ganharam muita importância. Antes era eu um revoltado com religiões e dogmas inúteis. Hoje, conheço realmente um significado pleno de fé, crenças e Deus. Era medo ou preguiça, vai saber.

Continuo com os quase dois metros e isso não quer dizer nada. Continuo não torcendo para time algum. Canhoto para sempre. Música? Época de jazz, alguma coisa eletrônica inteligente. Perdi totalmente o pique dos heavymetais, hardcores e gritarias. Coisa da idade.

Namorei por 5 semanas corridas ou um ano picotado. Casei. E com isso aprendi algumas coisas perfeitas e inimagináveis que um dia qualquer (quiçá uma nova biografia) contarei.

Concluí uma faculdade de publicidade. Fui empresário por 6 meses, de papel passado e tudo mais. Da minha vida profissional náo falo nada, mesmo porque chefes lêem blogs, sabia?

Não gosto de fumaça de cigarro. Náo gosto de drogas alguma. Nem de drogados. (coisa do auto-retrato do fracasso e tal, qualquer dia o tio conta) Não gosto de bebidas. Nem o social mais, acredita? (exime-se disso o bom vinho degustado em almoço de domingo. Isso náo é beber, é apreciar, fique claro.)

Continuo a perder amigos e isso é uma coisa normal. Convivo com perdas e ganhos desde que terminei a prê-escola e isso não me assusta nem um pouco. “Evolução-descontinua-e=paralela” é como chamo isso.

São essas coisinhas aí em cima que definem uma pequenina base do que sou. Mais do que isso e vossa senhoria entediaria consideravelmente. Afinal de contas, ninguém quer mesmo conhecer gente. Já ouvi de amizades próximas que eu aparentava ser um arrogante e babaca em primeira vista. Outros, que sou um amorzinho, carismático e afável.

E sabe do mais interessante de tudo?

Continuo babaca, arrogante e um amor de pessoa. É estilo-de-vida essa imprevisíbilidade toda, sabe como?

O diário do menino apaixonado

11 de julho de 2007

Apaixonado pela garota bonita de longos cabelos castanhos e brilhosos — de um brilho perfeito e que desnorteia qualquer intrépido homem desavisado — o menino sincero e ingênuo comprou um vidrão de perfume.

A história é longa e curta: lá na bancadinha lateral da igreja ele ouviu de solsaio a garota bonita do belo cabelo sedoso confessar à melhor amiga. Relatou a delícia dos aromas de flores, do espírito de liberdade que aquela fragrância lhe concedia.

E quer coisa melhor do que uma coisa que transmitisse tais coisas para ela? Lá foi o menino à luta. Encheu os picuás do pai. Ganhou mesada adiantada e prolabore, residuais por lavagens de carro e o naniquinho que faltava por uma cortada de grama.

Pronto, fizemos o menino encher os bolsos de dinheiros.

Dormiu, sonhou com a menina dos cabelos brilhosos saracoteando por flores alvas e de balanço lento. Aliás, o sonho inteiro estava em uma intensidade de sentimentos que qualquer coisa que tentasse interagir teria a velocidade reduzida por uma infinidade de sentimentos e carências vivenciais que aquele adolescente, jovenzinho outrora apenas um garoto, imaginava.

Amanheceu sábado, sem aula. Rumo ao comércio. Era perto do dia dos enamorados, coloquemos assim a data. Adentrou pela amadeirada porta da botica sóbria. “O espírito das flores, faz favor!” A linda atendente, carregada de cores, sombras, luzes e tudo mais que a maquiagem poderia corrigir e realçar, sorriu para ele. Virou-se e, lendo com os dedos as embalagens brancas de letrinhas doiradas, sussurrava um mántra delicioso de nomes e apelidos. Daria uma música, a ordem caótica que lêra aqueles nomes de fragrâncias. Mas só essa ordem. E ela não repetiria jamais, nem teria como. “Espirito das flores, tamanho único, embalagem para presente, senhor?” Sussurou com uma piscadéla na hora do ‘senhor’. “Claro! Mulher adora rasgá-las, não é, jovenzinha?” Ora, quem diria! Retrucando à altura! O que essas paixonites não fazem com um garoto desses?

E ele comprou a fragrância. Ah, menina dos cabelos sedosos e esvoaçantes, da voz aveludada e ritmada, allegro non molto… Agora mais um sentido o embriagava!

A compra, o presente, a sacolinha de fios crus e esverdeados.

Subiu no bonde da rua Quinze. Era hora de voltar para casa, criar um plano estratégico, riscar e rabiscar poemas e, quem sabe, escrever a poesia de sua vida para enebriar de sentimentos e amores a estonteante garota dos cabelos-mel.

“Ai caramba, é ela!”

Caramba! Ela está linda! O fedorento bonde eletro-pneumático está em movimento, sentido contrário aos passos leves e descompromissados dela. Anda garoto, faça alguma coisa! Ele ensaia um pequenino salto, sem impulso. a velocidade é desconfortante, até um tombo poderia sujá-lo todo. “Às favas com isso!” Era a expressão mais estranha e encorajadora que ele conhecia. Como um ‘Aeiou Silver!’ mas sem a retórica.

A sacolinha entreabriu, ele se atrapalhou com a instantaniedade dos fatos. Agarrou pela ponta dos dedos o corrimão e equilibrou a tamanca dos sapatos de couro no madeirame da soleira. É claro que aquela cena não deu certo, o garoto varou no ar, com uma expressão de incredulidade e medo, gritando um “Que merdaaaa!” homérico e engraçado, não fosse a tragicidade do fato até então. Frouxo, de costas no paralelepípedo irregular da subida da fonte e inerte por tamanha injeção de susto no corpo, percebeu-se rodeado de pessoas tentando ajudar.

Meninos não se machucam sério, são meio borrachentos. Apenas esfolões nos escanteios.

Levantou-se, conferiu os fundilhos com um rasgão, pegou sua sacolinha de espirito de flores e foi para casa. Abriu o pequenino sótão de casa. Guardou com cuidado aquela sacolinha. Imagina se os pais o descobrissem, seria muita conversa para tão pouco presente, pensava.

Ele ensaiou aquela entrega. Passou quarenta e duas vezes em frente à casa dela. Conversou com uma melancia, beijou uma laranja. De língua! Ganhou uma afta. Ora, preciava aprender a coisa, entenda.

Sábado de final de ano, quatro meses depois dos inúmeros ensaios, diligências e investidas de entrega, ele tocou a campainha.

Era ela, de cabelos lindos, quem atendeu a porta.

“Oi!”

“Presente para você.”

A dicotomia de sentimentos no momento era bem compreensível. De um lado, o menino que a conhecia com uma profundidade de correlações poéticas avassaladoras. Todos os detalhes do corpo dela tinham comparativos épicos.

Do outro lado, uma garota de cabelos belos e sedosos, tentando entender o que acontecia.

“Ai, o perfume que eu adoro! como você sabia?”

“Descobri.”

“Como é seu nome?”

“Garoto.”

“Obrigado, Garoto! Adorei! Feliz Natal!”

Ela deu um beijo em seu rosto, sorriu e entrou em casa. Ele virou-se e foi embora.

Nunca mais viram um ao outro. Nunca mais conversaram.

Aí você fala: “Que otário, ele.”

E ele te mostra o diário que escreveu, dois dias depois:

…() Quatro meses e agora não mais vejo apenas cabelos sedosos e de perfeito balançar. O rosto, alvo como a bruma que insiste em ludibriar as montanhas esverdeadas e que, com os raios de sol por penetrá-la, revelam-se na beleza de uma brancura perfeita. Lábios, na mais natural cor, carnudos e tenros como um beijo torpe de um morango gelado são doces e misteriosos ao mesmo tempo. É o que eu imagino e é o que eu quero que seja. Olhos esverdeados, grandes, perfeitos. Duas esmeraldas lapidadas e expostas em um beiral de loja de finas jóias. E inacessível para qualquer mortal. Um corpo delicado e frágil, curvas constantes como uma viagem despreocupada pela serrinha graciosa, com um clássico conversível. Mãos leves e perfeitas, voz aveludada e ritmada, allegro non molto. Ah, a voz eu já descrevera antes, não eram só os cabelos ()…

Pensando em voz alta

11 de julho de 2007

Dez anos. Esse é o tempo que passou das minhas últimas aventuras desvairadas. O tempo, ingrato, corre sem parcimônias. E a vida, que deveria ser intensa e cheia de novidades avassaladoras, insiste em manter alguma folga entre uma emoção e outra.

A vida é assim, cheia de nhéco-nhéco.

Uma hora, correria desenfreada.

Outra, calmaria aterrorizante.

Dez anos. Há dez anos não pulo de cima de uma cachoeira. Há dez anos não saio com amigos e mochilas nas costas. (Aliás, nem eles!)

Não é falta de tempo. Não é falta de amigos. E não é a falta da mochila que inibe. É a vida, que envelheceu dez anos. Ficou adulta, essa vadia velha.

Mas a acomodação incomoda a vida velha, vadia. Só esperar. Ela se desespera. E vira uma vida serelepe e peralta, cheia de vontadisses e meninices.

Espero.

Como era e como ficou

11 de julho de 2007

Existiam dois velhos simpáticos na minha cabeça. Um era senil e realista, cheio de manias simplórias e vícios bestiais. Coisas simples, como tomar banho de chinelos de dedos para não levar choque ou cobrir espelhos para não chamar raio em dia de tempestade.

O outro velho era engraçado. Mergulhado em mentiras e desatinos, sentia-se muito bem e à vontade para contar lorótas mirabolantes. Gostava de relatar histórias e feitos que vivera, com realismo de detalhes perfeito. Mesmo não as tendo vividas. Todos gostavam dele. E no fundo, sabiam que era apenas um pobre e doente velho contador de histórias. E que já não conhecia mais o passado vivido.

Dia desses o velho senil e realista morreu. Ninguém deu muita bola para a coisa. Ele tinha poucos amigos e nenhuma família. Era ele quem administrava as peculiaridades de comprometimentos e constâncias agendadas.

Hoje cedo, o velho mentiroso engraçado morreu. Foi um choque, ninguém esperava. Na verdade ele já estava velho, todos esperavam, mas não queriam. E o querer era como um escudo onde a camuflagem da fragilidade da vida se mantinha intacta e sem vínculos com a realidade.

Enterro simples, com cruzinha de madeira. E mais nada.

Agora sobram duas cadeiras vazias.

E no final das contas, esses dois velhos tocavam este blog. Um tinha os culhões de mentir descaradamente. Outro, doutrinava a constância verbal nos escritos. E pagava a hospedagem. Entendeu como ficou tudo? Morreu o realista, o blog perdeu a periodicidade. Morreu o mentiroso, o blog deixou de ser mágico e sensacional.

Restaram-me dois seres, ambos corpulentos, rejeitados outrora para a função, um de cara angulada e dentes separados. Outro, um sujeito que gosta de girar uma moeda pelos dedos.

Um, alcoviteiro; outro, copidesque.

O alcoviteiro — quem diria! — mora na alcova de um velho lupanar de idéias rôtas. Um fodido sem futuro. Mas cheio de galanteio. Algoz e viral.

O copidesque é um sonhador. E, por sonhar tanto, esqueceu-se da realidade insensata.

Dois trôpegos tortos e imbecis. Gentalha de uma sociedade cheirosa à lavanda. Sobrevivem de imagens onde azulejos são encardidos e verdes, canos rangem as paredes e cachorros lambem os sacos. Comandam macacos. Redigem insones e atordoados. Ilustram figuretas vencidas.

Escritores de blogues, agora, como queira.

Contos do ICQ

9 de julho de 2007

Dia desses avisaram: aquele cara que você doou sangue, morreu. “Doei duas vezes!” pensei com meus borbotões. Eu tinha um pinguinho de responsabilidade sobre ele. Um pouco de nada, mas ao mesmo tempo uma escusa de tudo.

ICQ véio de guerra

Tudo começou quando apareceu uma mulher desconhecida no ICQ, ainda no século passado. (Lembra que os desconhecidos eram apenas um número milionário, que apareciam piscando na mini-tela do icq? Pois então.) Ela era brasileira mas morava no Japão com o marido.

Aqui eram duas da tarde, lá duas da madrugada de amanhã.

Ela se apresentou, conversamos bastante sobre muitas coisas. Ela procurava um velho amigo que, segundo ela, morava na mesma cidade que eu. Ela me adicionou por um refinamento de pesquisas por cidades que o próprio programa permitia acessar. Ajudei-a: achei o nome do rapaz na lista telefônica impressa e passei para ela.

No outro dia ela apareceu no mesmo horário, dia aqui noite acolá. Feliz da vida, tinha conversado com um cara que havia dois ou três anos perdido contato.

Ela mostrou-me fotos do Japão, contou-me aventuras e desaventuras, falou com empolgação de quando conseguiu comprar uma picape lá na terra do sol. Ela era muito inteligente. Rápida, culta e encantadora.

Lobo em pele de cordeiro

Contou-me o porquê de reavivar a amizade antiga: eram amantes virtuais. Amantes virtuais das finadas redes BBS, o que os tornariam os primeiros amantes virtuais de que se tem notícia.

A cada dia que se passava, mais eu descobria segredos dela. Aquela janelinha do icq operava um desbunde de verdades-vivenciais que até eu me assustava. ela relatava desejos, falava das conversas com o rapaz da minha cidade, o descaso do marido, os yenes gastos em cartões para celulares 3g que eu nem tinha ideia do que era.

Uma mulher dinâmica demais. Passional, doidinha.

Problema que eu era gentil demais com ela na internet. Ela acabou se apaixonando por mim, o que me assustou de um jeito que eu parecia ter visto um esprito. Morava com o marido no Japão, reatara a comunicação com o amante virtual que ela sequer tinha visto uma foto dele (e vice-versa) e apaixonada por mim.

Ela contou-me que o carinha da minha cidade estava desempregado. Ele tinha conhecimentos específicos justamente da nova área que a empresa que eu trabalhava precisava.

Então uam sucessão de fatos doidos aconteceram: Consegui empregar ele em um tempo recorde de 3 dias. Ele me conheceu, eu o conheci. Ele era muito aquém daquele herói grego que ela me descrevia. (E ela descrevia sem sequer saber se ele era loiro ou moreno) Ele passou uma ficha minha, sei lá porquê, muito além do que eu era. Isso fez com que a doidinha achasse que eu era um gigante de proporções heróicas e matador de dragões formidável.

Aí ela mudou um pouco o foco. Ligava para mim. lá do outro lado do mundo. Ele ficou de lado, sem entender nada.

Ela falava de separar-se do marido e regressar para o Brasil. Queria porque queria trazer a picape nova em um conteiner. Queria me conhecer, queria vir para minha cidade, passar uns dias na minha casa, casar comigo.

Nesse ínterim todo, conheceu um rapaz árabe, aqui no Brasil também, via ICQ. Ela, na verdade procurava uma prima na internet.

Três dias depois veio a confissão: arrasada, apaixonara-se pelo árabe.

E você não imagina o quanto isso aliviou minha cabeça. E a dela também. A gente parou de conversar por uns tempos, até que recebo um bombástico email com um convite de casamento: Ela separou-se do marido no Japão, juntou as escovas de dentes com o árabe, engravidou, desmanchou o caso-amante com o cara aqui da empresa, comprou um apartamento no Itaim-bibi e planejava estudar informática. Ou psicologia.

Sobraram eu, o ex-marido e o carinha. Eu levei um bom tempo para mensurar o grau de loucura descompassada e multi-tarefa da doidinha.

O marido dela ficou lá pelo Japão mesmo.

O carinha? Conquistou o emprego na empresa. Ele não tinha família, pouquíssimos amigos. Reavivou um mundaréu de conceitos e sempre achou que eu o colocara na empresa. Ele confessou-me uma vez que o caso com a doidinha era uma coisa que ele não sabia como tinha acontecido, terminado, acontecido e terminado de novo. Sabia pouquíssimo da mulher, para ser sincero. Acreditava piamente que ela masturbava-se nas tele-conversas.

Tempos atrás ele adoeceu, fui lá doar sangue para ele. Duas vezes. Eram dessas doenças estranhas que pegam um ou outro de vez em quando. Viveu uma sucessão de fatos irreais e talvez nem tenha percebido.

Faleceu sem nunca ter visto uma foto da amante.

O longo conflito sobre o que nos cerca

6 de julho de 2007

Voltei de avião para Brasília. Não chamaria nunca Brasilia de casa ou lar ou qualquer coisa que se referisse ao meu lugar. Não tenho mais raízes. Brasília, Timbuktu, Curitiba, Florianópolis, Vutuvuru dos Bento. Todas, um quintal temporário.

Virei um cidadão do mundo. Lá em cima, entre as nuvens que insisto em olhar da janelinha graxenta do avião, descobri que a razão não é mais temerária. As fronteiras vivenciais sobrepujam qualquer expectativa de fixar-se em algum lugar.

Neste carnaval, nada foi diferente. Viajei para o sul do país. Encontrei alguns amigos e meus pais. Nossa conversa evoluiu muito, deixamos de preocupações e vivenciamos a filosofia descompromissada.

Meu mundo não atrai mais a saudade. Meu caminho não é mais a ida e a volta, sequer existe a dinâmica de movimentos.

Apenas ando por aí. Um passeio com a certeza de que tudo se repete em um ciclo perfeito de prazer e alegria.

Tenho mais sorte hoje em dia. Encontro lugares, pessoas e situações que não acreditaria se eu contasse para mim mesmo, anos atrás.

A vida está cada vez mais complexa e inteligente. Ao meu redor, uma aura de proteção divina e uma exultação espiritual intensa. E isso tudo é apenas uma reação espontânea da vida, respondendo na lata quem eu sou, na verdade. Não consigo mais ver o lado ruim das coisas. Descobri que minha visão não era (e talvez nunca foi) perfeita. Tenho um tréco na córnea. Nem o nome eu lembro mais. Talvez eu tenha que usar óculos, lentes rígidas, quiçá fincar anéis de Ferrara no meio da minha íris ou transplantar uma córnea (“Mas não se preocupe com isso” disse-me a doutora).

E isso não me faz perder 1 minuto sequer de sono.

Meu mundo melhora a cada segundo. Exponencialmente, devo dizer.

Minha mulher é sensacional.

Gosto das minhas fotos.

E os pequeninos milagres alvissareiros recheiam de boas novas minha vida. Transformam-se em uma cúpula de sentimentos inalienáveis em volta desse mundinho de merda que muitos vivem sufocados.

Quer ser pessimista? Suma de perto de mim. Quer ser um materialista compulsivo? Suma. Tarado, infiel e insensato? longe, sivuplé. Não dependo mais de uma vida abusiva ou ancorada. O dinheiro é bom, mas vicia. O dinheiro bem gasto em ações inesperadas, é prazenteiro. Dinheiro não é pecado. Lamber os pêlos e as bolas dos bichos que o estampam é que é.

A vida é assim. Quanto mais complexa e intrínseca, mais simples ela é. Contraditória e inverossimil, inacreditável como toda vida deveria ser.

Como toda vida deveria ser.

O quase primeiro post

28 de junho de 2007

Esta é a minha história. Poderia começar de um hoje sem passado, é verdade. Mas descrevê-la sem relembrar passos importantes e pequenas vivências-cicatrizes seria abdicar das minhas mais absortas e elegantes manias viciais.

E assim recuo alguns anos interessantes.

Ao contrário dos grandes escritores, não serão vasculhamentos íntimos e profundos da alma, abertos em palavras sem cores. Nào sou Deus para isso. Sou imperfeito no relato de ser e sentir.

Minha vida fidedignamente relatada, um ponto importante e importante demais para mim. Entenderei — assim pretendo — o que fiz no passado e rezarei para que entenda mesmo.

Imaginei perseguir um ideal onde dinheiro, felicidade e amor estabilizasse minha vida. Hoje tenho medo da convicção que vivo. Interpretar é questão de escolhas. Interpretar a si mesmo é condição humana.

divisor
MadCap não é um blog novo, não se iluda. É apenas um homônimo de um outro velho e experiente blog que eu mantive por uns 5 anos. Cansei dele, cansei de algumas pessoas chatas que por lá apareciam e davam as caras. Cansei das cores, das imagens retrabalhadas para combinar com duas ou três tonalidades que de nada me animavam.

divisor
Eu também mudei de nome. Não sou mais eu mesmo. A fama me capou as idéias. Hoje sou o Ralph, um nome qualquer para me esconder da futilidade de não poder te mandar catar coquinho.

divisor
Outra coisa: Meus textos são registrados na Biblioteca Nacional. Se você acha que pode roubá-los, só porque o outro blog morreu, não se iluda. Eu persigo plagiadores e escarneço-os sem dó nem complacência.

divisor
Sim, continuo o amor de pessoa que sempre fui, agora com um toque de sarcasmo moderado. Acostumem-se.

divisor
Vou encher de textos velhos e repetitivos aqui. São releituras do meu passado, apenas retrabalhados na gramática e ortografia. Aproveitem, sou bonzinho pacas.