MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

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O texto apoucado — a crônica estregueta

19 de julho de 2007

A escrita que se apresenta neste blog segue caminho clássico. Não gosto de tomá-lo como simples diário pessoal, mas textos assim seguem com aprazível fluência nas palavras.

Pessoalidades sempre inibem-me em vorazes palavras, é verdade.

Mas hoje é diferente.

Falemos das crônicas absortas que insistem em não apresentar-se de modo preferível neste espaço destinado justamente para isso.

O que acontece é que ainda sofro de um intrínseco vínculo de sentimentos ao escrever. E ultimamente meus sentimentos estão embaralhados. Aliás, embaralhados e mostrando-se de uma forma muito mais explícita que o normal. E aí, quando vejo que o que escrevi era pura emoção incontida, ou apago tudo por birra, ou mando para ela.

Aliás, alguns belíssimos textos, para ela. A atenção, confesso, para ela.

E assim, apesar de tanto tentar, escrevo e escrevo muito. Ou imagino e imagino muito. Mas enquanto essas idéias não decantarem só um pouquinho, continuarei embaralhando e presenteando-a com essas sentimentalidades que ainda não conseguiria postar aqui.

A mentira desregrada

19 de julho de 2007

Quando pequeno, minhas aventuras batiam pé com Munchausen, o barão. Todas as histórias fantásticas que eu contava pareciam tão irreais ou ficcionais que logo achavam que era mentira desregrada. As histórias eram reais. Meu mundo infantil foi tão absurdamente rico que, se eu contasse tudo que aconteceu realmente, ninguém acreditaria.

De fato eram histórias apimentadas com um pouco de imaginação. E pense comigo: como um menino que tinha mania de morder braços alheios prenderia a atenção de adultos ao narrar alguma coisa? Criando aditivos forçosamente interessantes em historietas comuns. Só assim me levariam a sério.

Eu adorava escutar as histórias dos adultos. Tudo para desconstruí-los e remontá-los, como em uma nova e diferente aventura. Meu avô era quem mais histörias novas contava.

— Pare de mentir moleque, isso é feio!
— Deixa ele… criança que mente tem futuro brilhante!

Ora ora, ledo engano.

Sentimentos embaralhados

18 de julho de 2007

Hoje, como em todos os outros hojes e quaisquer ontens, nada mais de desatinos para me refugiar a alma.

Um dia mareado como os olhos que insistem em molhar um rosto ainda virgem e trôpego de palavras amarelecidas. Sentimentos meus ou mais meus, e a vã tentativa de apenas apagar o quadro em uma revirginidade de olhos recompostos.

Dia após dia.

Perfeito de uma nova visão, creio aqui. E creio ainda que esta luz e essa hora e este momento e todas as vidas que em perpétuos ufanismos pairam estejam neste meu ser.

Hoje estou sentimentando suas escolhas em azuis olhares que pousam assim, na face que a casaria com o homem onde sempre sonhara morar.

Hoje.

E a perfeição atônita as vezes confunde a realidade mais que perfeita com uma onda de sonhos. Sonhos que encaram de olhos vidrados o amanhã que, seja o que for, será outra coisa. Sempre outra coisa, sempre outros sonhos.

Olhos vidrados e sonhos recompostos.

Menos, demais, eu.

18 de julho de 2007

Esse descaso me faz abandonar muitos dias bons no cais da melancolia.

Aquelas pessoas rôtas não me conhecem mais. Não conseguem mais distinguir qual o meu real significado de vivência. Existi em um mundo ignorado que apenas me mostrou que o ignorado era eu no mundo. Lentos e lentos mundos desconexos em pensamentos que ainda assim não me deixaram despedir do caixeiro ou daquela rica donzela do café das quatro.

Era tudo falso. Não existiu a tal moça. O café era mentira. E a minha vida ignorada nem sequer estava ali.

E isso não foi criado à toa. As letras não vagam sozinhas.

Calderon de la Barca diz:

“que farão pelo que ignoro
se pelo que sei me enterram”.

Das prateleiras do velho porão empoeirado

16 de julho de 2007

Não, não esqueço a melancolia dos atos vagos e mecânicos e inertes vascolejando velhos lembretes e lembretes ruidosos. Lembra? Era até o album de cromos. Ah, os cromos, como eram difíceis de retirar o auto-colante! E colava-os em seu caderno. Adorava te ver colando cromos, ornamentando-os em volta com hidrocores e amores, traços incontidos, por vezes tímidos. Por que não?

O porão era de porta estreita. Emperrada desde sempre aquela entrada do porão. Briquedos velhos.

E aquele porão mostrou-me onde guardar as velhas e boas lembranças.

Melancolia da vida, ó, segura em uma mão trôpega e senil as lembranças não tão boas. Se boas fossem, não estariam em um porão. Ah, o porão que agora mostra-me claramente que lembranças chinfrins ainda não se descartam. Guardemo-as por dó. Descartar seria amainar a vida com novos disparates.

Aquele velho porão de porta torta, emperrada de sentimentos. Aqui. Aí.

Porão velho da portinha branca no canto do seu coração, e eu o quero vasculhar.

Dos recuerdos de mi alma

11 de julho de 2007

Não, não era a vida imitando a arte ou a arte insinuando-se para sempre na minha infância. (E antes que você pergunte: minha infância durou até os 13 anos. Adolescência, dos 13 aos 14. Dos 14 em diante virei adulto.) E a vida, meu caro, simplesmente agiu como agiu, para lembrar de uma forma sazonal que eu perderia amigos de forma constante e ambígua. Para sempre.

Um que lembro: Playmobil era o nome dele. Guilherme, apelido. Coisa assim. Ruivinho sardento, nove anos de idade, olhos esbugalhados e azuis. Gostava de me seguir com uma monarque de placa de corrida. Daquela cabeça recoberta por uma peruca dos bonequinhos que o apelidara, saíam notas e pérolas verborrágicas que até hoje me arrancam um sorriso de canto de boca. Banana à muzzarela, por exemplo. O nanico gostava. Circo-circuito nos fuzílo. Biscleta. Mijão, o gato com incontinência urinária. Era dele.

Lembro-me claramente do dia em que ele estava confuso e inquieto. Iria mudar de cidade, para a capital. Perguntei se ele voltaria, ele deu certeza. Iriam de lotação qualquer para a rodoviária e de lá para longe. Pegaram as malas foram até o ponto da esquina. A lotação era a lenta da meia em meia hora, tempo necessário em que eu via nos olhos da mãe do pleimobiu algumas verdades incontestáveis: “A gente volta né mãe?” “Claro filho.” E o olhar estava mentindo! Que coisa!

A lotação chegou, embarcaram e o destino, assoviando, levou um amigo embora. Não foi o primeiro, muito menos será o último. Muitos amigos perdi e outros tantos irão para a cucuia.

Do Playmobil restou um expólio interessante: Mijão — o gato cinza escuro — de pelagem sedosa escura, olhos azuis e incontinente (que fugiu 4 dias depois atrás de gatas no cio); uma motinho branca com o tanque verde, dos playmobils; um cano velho e torto, de cobre, esverdeado nas pontas. Ele gostava do cano e nunca soube o real motivo. Talvez porque fossem verde as pontas.

E a lembrança de tudo isso que é a única coisa que sobrou.

Amizades

11 de julho de 2007

Os humanos nascem sozinhos. Crescem sozinhos, mas vivem rodeados de pessoas, isso é claro. Incrivelmente sozinhas, como condicional óbvia. Aí a maioria das pessoas acham que a solidão é o “way of life”. Mesmo porque ‘conhecidos’ apenas são pessoas por aí, nada mais.

E aí começa toda a merda:

Com uma marretinha dourada lá vai o sozinho, perdido na consciência moral, construir uma muralha granítica em volta de si. Instransponível, alta, grossa. Até sentinelas nas guaritinhas a gente vê. Fazem da vida uma carreira militar armamentista. Os conhecidos podem ser inimigos ou espiões, melhor se precaver, por que não?

Então o serzinho consegue viver seguro. Uma segurança ingênua e solitária. Sem inimigos, sem espiões ou adversários.

Esse é o preço: eterna solidão.

Só que algumas pessoas (raras, deixo claro) pensam que a vida é uma coisinha mais engraçada. Vivem momentos e minutos e talvez a vida inteira megulhadas em paixões, amores e intensidades venais. Abrem-se para os inimigos — que na atual circunstância não são inimigos, mas sim parceiros ou maridos ou namorados, quem sabe até amantes. Preferem cair e levantar e cair novamente e erguer-se ao ponto mais alto de suas vidas, por um minutinho que seja, do que viver uma vida inteira seguros de si. E sozinhos.

A pessoa rara diria que isso é viver intensamente. O ser emuralhado chamaria de perca de tempo.

O amigo ali

11 de julho de 2007

Eu tenho um amigo muito inteligente.

Conversamos muito, muito mesmo. Sei que ele mora em uma cidade grande, mas não a minha. Não sei com o que ele trabalha ao certo, é verdade. Ele é apelido. O nome real não conheço. Culto e elegante, vivido e despretensioso. Pratica a arte da amizade clássica, leve e sem cobranças. Ele tem defeitos; conhece minhas falhas. E nada disso importa para ele ou para mim.

É o que muita gente rotularia de “virtual”. Alguém, que na prática, não existe. Tal e qual esquizos.

De vez em quando desaparece por uns tempos. Não deixa vestígios de onde está. E, mesmo assim, com essa conectividade fragilíssima de apenas um fio transparente de contato virtual, alimento as esperanças de que ele nunca desapareça.

Meio estranho e ilógico.

“Poderia você perguntar-lhe o nome completo, quiçá algum telefone!” Diria alguém aqui ou acolá.

Mas eu não quero. Amizades inteligentes — assim como amores voluptuosos — terminam em histórias completas. Ou em mentirinhas homéricas de um desfecho inédito, vá saber.