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R.Valentino

8 de abril de 2009

Há locais difíceis de descrever. Uns porque não são em nada inspiradores, outros porque, precisamente pelo contrário, por serem especiais deveras, nos deixam a sensação de que tudo o que dissermos ou é pouco ou é excesso (e ambas as situações são igualmente negativas). Ou pior: que aquilo que aformamos é uma amálgama de clichês que já ninguém quer ouvir.

E é por isso que hoje, muito tempo depois de perceber essa conciência absorta é que conto a história dos meus locais seguros, honestos e reconfortantes.

Meu nome é R. Valentino. Admirável, eu sei. Acabei de ser entrevistado por Donald Guthwell, um dos gênios metamórficos e contemporâneos da internacional revista Économie et Affaires. Ao som de Medeski, Martin & Wood, ao vivo — é claro. Conversamos sobre economia, dólares, mulheres e as esquisitices mundanas. Exatamente como o protocolo de uma entrevista na Itália carcamana deve tomar corpo.

Ele foi embora. Aliás, a taquígrafa-secretária que ele trouxe à tira-colo engambelou meus pensamentos. Despediu-se com um “Ciao!”, a ragazza, de arrepiar a pantufa da nuca. Desapareci em segundos com um Listrac-Médoc da adega e duas taças. Sempre duas, nunca se sabe o que há por aí.

Todos se retiraram. As luzes se apagaram, as lamparinas tremeluzem como se o esforço hercúleo para iluminar o paçadisso fizesse honra por notar.

Aqui onde estou é a Sardenha. A Sardenha exclusiva e intocada, quero ressaltar. O lado virgem e inocente. O mar cor tem a cor da verde esmeralda, a inacessível vegetação mediterrânea, as rochas rosadas que roçam a areia branca em cada balangandar de ondas e os perfumes da murta e do lentisco exprimem a quintessência do exclusivo onde me hospedo. Um refúgio de relvado bem cortado, que desanda em degraus sobre a praia, limítrofe de um jardim com passadiço em madeira, um pouco arcada e empenada, que despontam como manchas imaculadas por entre o verde do pinhal e o azul do mar (que outrola chamei de esmeralda), levam-me para lugares longinquos.

A vida complexou-se muito ao meu redor. Recebi uma enxurrada luxuosa e cultural que às vezes nem noto-me mais na essência. Sei me portar à mesa e comer com mais de 28 talheres. Travo entendimento e discorro assuntos em meia dúzia de idiomas com um cretinismo vil. Degustei Lafite Rothschild´66 no Alain Ducasse au Plaza Athénée em 2001. Beijei uma atriz famosa, ano retrasado. E não foi por acidente.

Então deparo-me aqui, nesta suite gigantesca, a navegar por um pretérito perfeito.

Algumas fotos afanadas da internet, em páginas abandonadas, onde apareci fantasiado de múmia, com umas 10 ataduras de gaze. Ou quando atolamos um jipe velho no meio de uma fazenda no mais profundo e inabitado vale da nossa cidade.

Na página de um amigo que há muito tempo não converso (mas acompanho por uma rede social privada) apareço rindo. A lengenda dizia: “Velhos tempos que não voltam mais…”

Reticências…

Aliás, tenho nos meus favoritos do computador portátil uma lista interminável de velhos amigos. Acompanho-os de longe, na surdina, sem ser notado. Sei o passo de cada um, o ânimo, a vida social, pública e pessoal. Quem casou, descasou. Morreu.

Não consigo mais, e juro que tentei inúmeras vezes, voltar às velhas amizades.

Hoje vivem no passado, atualizado como um F5 refreshned, para que eu não esqueça.

Minhas amizades, hoje vinculações de caráter exclusivamente social, são ligadas por cifras, safras e comprometimentos: um preço que pago pela complexidade da evolução.

E toda noite vivo essa busca fantásmica pela internet. Às vezes procuro amigos que ainda não se conectaram. Não receberam convites para exporem as vidas na rede social. Não se cadastraram em servidores de grupos de mensagens. Não escrevem para diários virtuais. Mas busco-os diariamente, na esperança de que ingressem. Como uma sede por saber mais deles, sem que eles me vejam como um menino curioso à beira da cerca.

Descobri que a rádio lá da cidade do interior onde vivi, está na internet. Ao vivo. A programação continua a mesma. Final de noite e o clássico ‘Love Songs’ corta-me o coração com as baladinhas congeladas de 15 anos atrás.

Quer saber? Vou ligar para lá.

“Voltamos, ouvinte na linha quem fala?”

“Valentino!”

“De qual bairro, Valente?”

“Aqui da vila sardinha!”

“Qual a música e para quem?”

“Toca aí What´s Up do 4 Non Blondes, dedico para quem quiser remoer o passado!”

A bela voz esganiçada e rouca de Linda Perry ecoa por meu imaginario, fazendo-me viajar por milhas e anos até a garagem da festa da vassoura em que eu beijei uma ex-namorada qualquer.

Há locais difíceis de descrever. Uns porque não são em nada inspiradores, outros porque, no final de todas as contas e ponderações, apenas existem no imáginário. E a cada dia monto-os e desmonto-os como bem quero. Cenários, complexidades, emoções. Um mundo companheiro, fictício e viciante, em minha pequena vida solitária. Que existiu um dia e como tudo mais, jamais voltará a ser a sombra do que já foi um dia.

Coentro

16 de outubro de 2008

Odeio coentro. Tenho total aversão pelo gosto, pelo cheiro, pelo formato mimético e copiado da salsa. O coentro (na medida certa) é como pimenta (em excesso) na comida: consegue inocular seu aroma fétido e gosto execrável, inibindo o sabor original do pobre alimento.

Mas nem tudo é pessimismo pessoal: descobri que aquele cheiro-de-peido que o coentro exala é muito pior para a saúde do que eu imaginava.

Simone Weil (Cf. Simone Weil, Plantes toxiques et leur bel-mortels plaisirs, 1997, p. 476) bem explica os efeitos devastadores que o uso constante da umbelífera (Coriandrum sativum) exerce no metabolismo humano:

Jusque-là, il n’y avait pas un travail d’enquête sur la variété de plante glabreux. La coriandre (Coriandrum latine) de la famille des ombellifères, dont les feuilles – utilisée comme assaisonnement ou de saveur – une forte odeur, et dégage une grand caractéristique lorsqu’il est utilisé en cuisine.

Cette odeur vient du mélange des alcaloïdes pirrolizidíniques (une substance toxique produite dans le processus de bio-synthèse de la plante) avec du cyanure d’hydrogène (qui produit la forte odeur des amandes amères à partir des feuilles macérées).

Au cours des sept années de recherche (1989 à 1996) a montré que la consommation continue de coriandre peut conduire à une cirrhose, avec un risque élevé de cancer de parvenir à la destruction totale des cellules du foie

(…)

Au départ, la recherche a pour but d’identifier la présence de la toxine dans les plantes séchées herbier récoltés dans la cité scientifique de Villeneuve-d’Ascq (Université Lille Nord-de-France). Plus tard une analyze ont été mis dans 185 spécimens de plantes dans la nature, prises à différents moments de l’année et dans différents pays.

Les tests de laboratoire pour déterminer la présence d’alcaloïdes alliés de cyanure dans les plantes et de démontrer leurs méfaits ont été les plus exhaustives de recherche menées par l’Weil et avec les efforts des experts multidisciplinaire dans les domaines de la chimie, la toxicologie et l’histologie de Lille.

Pour l’identification des alcaloïdes et le cyanure, un processus qui a été utilisé est, d’abord, avec du méthanol à préparer un extrait de la plante, la chaleur et il analysera les différents composés chimiques de la vapeur dans un chromatographe en phase gazeuse couplée à un détecteur (spectrophotomètre) de masses. Ensuite, en utilisant des techniques de résonance magnétique nucléaire du proton et du carbone 13, isolé et caractérisé dix types d’alcaloïdes et de quatre différents types de cyanure (y compris le cyanure de potassium (KCN) et de cyanure de sodium (NaCN); changements C ≡ N et ion-ion CN) entre les composés chimiques, plus la réalisation des extraits purifiés de la substance.

L’étape suivante consistait à effectuer les tests toxicologiques, avec l’injection d’alcaloïdes dans 140 rats, dix pour chaque type de substance seule. Il est appliqué dans différentes doses chaque cobaye, afin de mieux suivre et d’évaluer l’effet de la toxine dans le corps de l’animal.

Enfin, les rats ont été sacrifiés et le foie soumis à histologiques analyze, pour évaluer l’état microscopique de cellules. Weil a été constaté au moment où les dommages aux organes des animaux qui avaient reçu des doses plus élevées de l’alcaloïde.

(…)

La combinaison avec les alcaloïdes et cyanure hepatoxiques sont différents, c’est-poison mortel pour le foie. La toxine bloque la circulation du sang dans le corps et nuire à son fonctionnement.

Agora a empenhada e livre tradução do trecho documental da revista cientifica québécois, cometida por nossa artífice francófona Émile Maraneur:

Até então, não havia um trabalho investigativo sobre essa variedade de planta glabra. O coentro (do latim coriandrum) da família das umbelíferas (Coriandrum sativum) cuja folha — usada como tempero ou condimento — exala um odor forte e característico quando utilizado na culinária.

Esse odor é proveniente da mistura de alcalóides pirrolizidínicos (uma substância tóxica produzida no processo de bio-síntese da planta) com cianeto de hidrogênio (que produz o forte cheiro de amêndoas amargas das folhas maceradas).

Durante os sete anos de pesquisa (1989 a 1996) foi comprovado que o consumo contínuo do coentro pode provocar a cirrose hepática, com alto risco de chegar ao câncer através da destruição total das células do fígado.

(…)

Inicialmente a pesquisa procurou identificar a presença da toxina em plantas desidratadas colhidas no herbário da Cidade científica Villeneuve-d’Ascq (Universidade Lille  do norte da França). Posteriormente foram postas em análise 185 exemplares de plantas in natura, colhidas em diferentes épocas do ano e em diferentes países.

Os exames laboratoriais para identificar a presença de alcalóides aliados a cianetos nas plantas e comprovar seus malefícios constituíram a parte mais exaustiva da pesquisa conduzida por Weil e com o esforço multidisciplinar de especialistas das áreas de química, toxicologia e histologia da Lille.

Para a identificação dos alcalóides e cianuretos, foi empregado um processo que consiste, inicialmente, em preparar com metanol um extrato da planta, aquecê-lo e analisar os diferentes compostos químicos contidos no vapor em um cromatógrafo gasoso acoplado a um detetor (espectofotômetro) de massas. Depois, com o uso de técnicas de ressonância magnética nuclear de próton e de carbono 13, isolou e caracterizou dez diferentes tipos de alcalóides e quatro tipos diferentes de cianetos (Inclusive cianeto de potássio (KCN) e cianeto de sódio (NaCN); as variações C≡N e íon íon CN-) entre os compostos químicos, conseguindo obter extratos purificados da substância.

O passo seguinte foi realizar os ensaios toxicológicos, com a injeção dos alcalóides em 140 ratos, dez para cada tipo de substância isolada. Aplicaram-se doses diferentes em cada cobaia, para poder melhor controlar e avaliar o efeito da toxina no organismo do animal.

Por último, os ratos foram sacrificados e seus fígados submetidos a análises histológicas, para avaliação microscópica do estado das células. Foi quando Weil pôde constatar os danos causados aos órgãos dos animais que haviam recebido doses maiores de alcalóide.

(…)

A combinação dos alcalóides com os cianetos diversos são hepatóxicos, ou seja, venenos mortais para o fígado. A toxina obstrui a circulação sangüínea no órgão e compromete seu funcionamento.

Quando as coisas fogem do controle

24 de outubro de 2007

O meu avô — pai da minha mãe — é uma das pessoas que mais admirei neste mundo. Um polacão sagaz e sentimental. Aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que me rendeu uma das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância. Ele adorava todos os netos, e todo mundo viva grudado no pescoço dele.

Ninguém ficava indiferente com suas traquinagens. Ele era poliglota, falava dialetos longíqüos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventava palavras e dava uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Misturava seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã. Foi combatente da segunda guerra. Apesar do avião dele nunca ter saído do brasil para o front de batalha. Detalhes.

O homem daria inveja ao professor Pardal: sabia consertar rádio velho valvulado. Sabia consertar rádio novo transistorizado. Sabia consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.

Mas o mimo de suas peripécias era a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!

Ele era um luthier. Acho que nunca soube desse titulo, uma pena. Seria algo a mais para ele contar.

Esculpia cravilhas, afinava a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalhava com paciência em cada peça. Dedicava toda sua arte aos instrumentos. E sabia tocar. Lançava sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento.

Gosto muito dele. Ele sabia o que era ser companheiro. E seus amigos gostavam muito dele. Ele era muito amado.

O meu avô era maravilhoso.

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Final de semana estive com meu avô materno. Como sempre foi um momento muito bom, apesar do problema de saúde que o acomedeu. A gente conversou pouco dessa vez. Hora que nos despedimos, pedi a bença, uma coisa que quase nunca fiz na vida, bem comum na vida dele.

“Deus te abençoe, meu filho.”

“Cuide-se, vô!”

“Pode deixar.”

Aí descobri, bem naquele momento em que saí pela porta do quarto do hospital, que nem todas as despedidas precisam ser tristes. Mesmo as definitivas.

Hoje meu avô faleceu.

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Fiquei triste, é verdade. Mas sorri ao relembrar as peripécias que aprontávamos juntos. Ele era um homem bom, simpático e, apesar da imensa tristeza do momento, sorri ao lembrar dele. Chorar em um momento como esse seria injusto com o homem alegre que ele foi.

O mundo é uma bela escola que nos ensina muito. Eu já sabia que ele iria partir. Aquele quadro clínico dele, no hospital era desanimador. Mas, mesmo assim, ele vinha com as suas, para cima dos médicos: “Como está hoje, José?” “Bem melhor!”

Fica a belíssima lembrança e a sensação de felicidade por todos os anos que convivemos juntos e por ter sido um avô tão incrível para mim.

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Até mais, velho.

Vida revista

30 de julho de 2007

Avalio o que já fiz até hoje. Claro que me arrependo de inúmeras situações que poderiam ter mudado minha vida. Mas arrependeria-me de ter arrependido, pois algumas outras coisas não teriam existido. Foram frutos bons de situações ruins.

Foi o beijo que não dei, o beijo que dei. Palavras ásperas, profanadas com um orgulho bestial. Palavras doces, quando deveriam ser sutis e realistas. E-mails não respondidos, amores não correspondidos. O inóspito ignorado, o grito não dado, o sinal furado. O medo do futuro, a paciência do passado. A dor do “não” recebido em hora errada, a multa por velocidade.

Minha plenitude humana é baseada em retrospectivas e avaliações paramétricas da alma. E os fatos de maiores reflexões são os que aproximam a conturbada notoriedade de minha vivência, com a linha tênue da imaginação desejada! E assim vivo, revivo e reclamo constantemente.

Em um ponto qualquer

26 de julho de 2007

Aquele terraço de um prédio passado era infinitamente grande. Edifício majestoso, com um imenso e inútil terraço. Ali cabia, eu, meus amigos e nossas conversas regadas a um bom jazz. Blues outras vezes.

O prédio era quase que uma super-república de estudantes. Nossa missão no mundo naquela época era estudar muito, tomar todas, arrumar mulheres devassassas e principalmente burlar a lei.

E sempre que começava a escurecer, lá estava, contemplando o pôr-do-sol, de cadeira de praia, toda a rapaziada. Que programa! A gente podia sempre contar um com o outro, e isso só acontecia porque havia irmandade na ação. Éramos muito desmedidos, não calculávamos as ações e suas consequências.

E sempre tinha coisa diferente acontecendo. Era época do explosão de vendas de aparelhos telefônicos celulares. Com um papel alumínio, alguns códigos malucos digitados e um fio ligando o telefone ao aparelho de som, podíamos rastrear e escutar conversas telefônicas. E em sua maioria, homens conhecendo mulheres de programas.

Outras vezes, lunetas e voyeurismo para vizinhas incautas saindo do banho.

Ríamos muito, de tudo. E bastava apenas um gesto, um som. O humor, do nada passava por cima da gente, e ríamos como retardados. As estrelas eram mais brilhantes, os aviões gigantes passavam mais perto, ali no 25° andar, o nosso andar, nosso terraço.

Tinha vez que gastávamos as economias com fogos de artifício. E quando levávamos algumas amigas loucas para dançarem a noite inteira? Ficávamos vendo, observando seus movimentos, suas expressões. Problema é que ríamos mais do que flertávamos. E isso atrapalhava em muito.

E o terraço se perdeu, um dia. Um de nós passou em um vestibular em outra cidade. Foi embora. E ali a razão do tempo sobre nossas vidas estava se mostrando. A imortalidade, imoralidade e infinidade do terraço definhava em seus últimos risos.

E não houve uma última vez em que nos encontramos lá em cima. Simplesmente ao mesmo tempo, vivendo cada dia de terraço como se fosse o último, nunca mais apaercemos. E isso não foi combinado. Assim crescemos. A vida colocou responsabilidades, as amizades inconseqüentes dispersaram-se. E toda a risada ficou para trás, toda a cumplicidade, o prazer das coisas ilícitas, a fragilidade da intimidade de uma boa e verdadeira amizade, para trás, uma lembrança.

Não houve despedidas. Cada um rumou para seu destino, cada um arrumou sua namorada, seu tom sério. Um morreu, deixando somente bons momentos. Outro, sumiu para a europa. Ficou aquele terraço vazio. Cheio de histórias, verdades e segredos que ninguém contaria melhor do que aqueles sete desocupados do bloco B.

Musicalidade

26 de julho de 2007

Uma das pessoas que mais admiro neste mundo é o Nhô Guépe, José ou simplesmente Seu Zé. Um polacão vivido, sagaz e sentimental.

Desde que me lembro, já conhecia aquele sujeito. Ele ficara amigo de meu pai nos áureos tempos de juventude. Acho até que foi minha mãe quem o apresentou. E aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que rendeu-me umas das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância.

E sabe que o Nhô Guépe é uma daquelas pessoas carismáticas? Ri quando está feliz, chora quando está triste. Nem que seja escondido.

E você não consegue ficar indiferente com suas traquinagens. Ele é poliglota, fala dialetos longíquos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventa palavras e dá uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Mistura seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã.

O homem dá inveja ao professor pardal: sabe consertar rádio velho valvulado. Sabe consertar rádio novo transistorizado. Sabe consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.

Mas o mimo de suas peripécias é a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!

Esculpe cravilhas, afina a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalha com paciência em cada peça. Dedica toda sua arte aos instrumentos. E sabe tocar. Lança sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento. Ele vende cada um por um salário mínimo. Foi a forma de sempre acompanhar a inflação e não preocupar a cachóla com variações cambiais, desvaloriações do dolar et al. E o que é UM salário? Unzinho. Já vendeu para freiras, italianos turistas, músicos da sinfônica do Paraná. Decoradores que nunca tirarão um acorde da peça.

Gosto muito dele. Ele sabe o que é ser companheiro. E seus amigos gostam muito dele.

Ah, o Zé é meu avô materno.

Recado

24 de julho de 2007

Quando amei — e amei de verdade — aquela mulher, toda a plenitude de minh’alma transbordava em córregos de êxtase e paixão.

Mas ela nunca percebeu.

Agora, anos mais tarde, a seda de sua voz me faz tremer o que estava à deriva do passado. Mostra-me um amor incontido e uma angústia dantesca em busca de um atrasado amor não correspondido. Não correspondido não. Correspondido deveras. Correspondido de uma maneira tão trôpega e carente que talvez a cegou drasticamente.

Agora é tarde.

Nossas vidas mudaram, minha cara. Seu destino aflorou, sua alma cresceu.

E almas crescidas não carregam paixões adolescentes à tiracolo.

Jamais.

Aos cacos de mim

20 de julho de 2007

O desejo traz uma lembrança um tanto quanto irresistível e triste do que ainda não fui. E no meu acalento desalmado — porém irresistível — conheço a saudade que me dói, corrompe e me faz assim, levemente sofrer.

Traz desejo, ainda que sorrateiro, uma palavra que não se deixa audível, uma palavra que faz as vezes de tudo e me faz sofrer.

E se traz, que mate de uma vez o que não é mais meu. Assim não luto nem insisto. Apenas, aos cacos de mim — e quem sabe do coração, ora, por que não? — mostro o quanto sou freguês, vulnerável e seu.

Só assim, para que assim, me seja isso.