Odeio coentro. Tenho total aversão pelo gosto, pelo cheiro, pelo formato mimético e copiado da salsa. O coentro (na medida certa) é como pimenta (em excesso) na comida: consegue inocular seu aroma fétido e gosto execrável, inibindo o sabor original do pobre alimento.
Mas nem tudo é pessimismo pessoal: descobri que aquele cheiro-de-peido que o coentro exala é muito pior para a saúde do que eu imaginava.
Simone Weil (Cf. Simone Weil,Plantes toxiques et leur bel-mortels plaisirs, 1997, p. 476) bem explica os efeitos devastadores que o uso constante da umbelífera (Coriandrum sativum) exerce no metabolismo humano:
Jusque-là, il n’y avait pas un travail d’enquête sur la variété de plante glabreux. La coriandre (Coriandrum latine) de la famille des ombellifères, dont les feuilles - utilisée comme assaisonnement ou de saveur - une forte odeur, et dégage une grand caractéristique lorsqu’il est utilisé en cuisine.
Cette odeur vient du mélange des alcaloïdes pirrolizidíniques (une substance toxique produite dans le processus de bio-synthèse de la plante) avec du cyanure d’hydrogène (qui produit la forte odeur des amandes amères à partir des feuilles macérées).
Au cours des sept années de recherche (1989 à 1996) a montré que la consommation continue de coriandre peut conduire à une cirrhose, avec un risque élevé de cancer de parvenir à la destruction totale des cellules du foie
(…)
Au départ, la recherche a pour but d’identifier la présence de la toxine dans les plantes séchées herbier récoltés dans la cité scientifique de Villeneuve-d’Ascq (Université Lille Nord-de-France). Plus tard une analyze ont été mis dans 185 spécimens de plantes dans la nature, prises à différents moments de l’année et dans différents pays.
Les tests de laboratoire pour déterminer la présence d’alcaloïdes alliés de cyanure dans les plantes et de démontrer leurs méfaits ont été les plus exhaustives de recherche menées par l’Weil et avec les efforts des experts multidisciplinaire dans les domaines de la chimie, la toxicologie et l’histologie de Lille.
Pour l’identification des alcaloïdes et le cyanure, un processus qui a été utilisé est, d’abord, avec du méthanol à préparer un extrait de la plante, la chaleur et il analysera les différents composés chimiques de la vapeur dans un chromatographe en phase gazeuse couplée à un détecteur (spectrophotomètre) de masses. Ensuite, en utilisant des techniques de résonance magnétique nucléaire du proton et du carbone 13, isolé et caractérisé dix types d’alcaloïdes et de quatre différents types de cyanure (y compris le cyanure de potassium (KCN) et de cyanure de sodium (NaCN); changements C ≡ N et ion-ion CN) entre les composés chimiques, plus la réalisation des extraits purifiés de la substance.
L’étape suivante consistait à effectuer les tests toxicologiques, avec l’injection d’alcaloïdes dans 140 rats, dix pour chaque type de substance seule. Il est appliqué dans différentes doses chaque cobaye, afin de mieux suivre et d’évaluer l’effet de la toxine dans le corps de l’animal.
Enfin, les rats ont été sacrifiés et le foie soumis à histologiques analyze, pour évaluer l’état microscopique de cellules. Weil a été constaté au moment où les dommages aux organes des animaux qui avaient reçu des doses plus élevées de l’alcaloïde.
(…)
La combinaison avec les alcaloïdes et cyanure hepatoxiques sont différents, c’est-poison mortel pour le foie. La toxine bloque la circulation du sang dans le corps et nuire à son fonctionnement.
Agora a empenhada e livre tradução do trecho documental da revista cientifica québécois, cometida por nossa artífice francófona Émile Maraneur:
Até então, não havia um trabalho investigativo sobre essa variedade de planta glabra. O coentro (do latim coriandrum) da família das umbelíferas (Coriandrum sativum) cuja folha — usada como tempero ou condimento — exala um odor forte e característico quando utilizado na culinária.
Esse odor é proveniente da mistura de alcalóides pirrolizidínicos (uma substância tóxica produzida no processo de bio-síntese da planta) com cianeto de hidrogênio (que produz o forte cheiro de amêndoas amargas das folhas maceradas).
Durante os sete anos de pesquisa (1989 a 1996) foi comprovado que o consumo contínuo do coentro pode provocar a cirrose hepática, com alto risco de chegar ao câncer através da destruição total das células do fígado.
(…)
Inicialmente a pesquisa procurou identificar a presença da toxina em plantas desidratadas colhidas no herbário da Cidade científica Villeneuve-d’Ascq (Universidade Lille do norte da França). Posteriormente foram postas em análise 185 exemplares de plantas in natura, colhidas em diferentes épocas do ano e em diferentes países.
Os exames laboratoriais para identificar a presença de alcalóides aliados a cianetos nas plantas e comprovar seus malefícios constituíram a parte mais exaustiva da pesquisa conduzida por Weil e com o esforço multidisciplinar de especialistas das áreas de química, toxicologia e histologia da Lille.
Para a identificação dos alcalóides e cianuretos, foi empregado um processo que consiste, inicialmente, em preparar com metanol um extrato da planta, aquecê-lo e analisar os diferentes compostos químicos contidos no vapor em um cromatógrafo gasoso acoplado a um detetor (espectofotômetro) de massas. Depois, com o uso de técnicas de ressonância magnética nuclear de próton e de carbono 13, isolou e caracterizou dez diferentes tipos de alcalóides e quatro tipos diferentes de cianetos (Inclusive cianeto de potássio (KCN) e cianeto de sódio (NaCN); as variações C≡N e íon íon CN-) entre os compostos químicos, conseguindo obter extratos purificados da substância.
O passo seguinte foi realizar os ensaios toxicológicos, com a injeção dos alcalóides em 140 ratos, dez para cada tipo de substância isolada. Aplicaram-se doses diferentes em cada cobaia, para poder melhor controlar e avaliar o efeito da toxina no organismo do animal.
Por último, os ratos foram sacrificados e seus fígados submetidos a análises histológicas, para avaliação microscópica do estado das células. Foi quando Weil pôde constatar os danos causados aos órgãos dos animais que haviam recebido doses maiores de alcalóide.
(…)
A combinação dos alcalóides com os cianetos diversos são hepatóxicos, ou seja, venenos mortais para o fígado. A toxina obstrui a circulação sangüínea no órgão e compromete seu funcionamento.
O meu avô — pai da minha mãe — é uma das pessoas que mais admirei neste mundo. Um polacão sagaz e sentimental. Aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que me rendeu uma das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância. Ele adorava todos os netos, e todo mundo viva grudado no pescoço dele.
Ninguém ficava indiferente com suas traquinagens. Ele era poliglota, falava dialetos longíqüos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventava palavras e dava uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Misturava seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã. Foi combatente da segunda guerra. Apesar do avião dele nunca ter saído do brasil para o front de batalha. Detalhes.
O homem daria inveja ao professor Pardal: sabia consertar rádio velho valvulado. Sabia consertar rádio novo transistorizado. Sabia consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.
Mas o mimo de suas peripécias era a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!
Ele era um luthier. Acho que nunca soube desse titulo, uma pena. Seria algo a mais para ele contar.
Esculpia cravilhas, afinava a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalhava com paciência em cada peça. Dedicava toda sua arte aos instrumentos. E sabia tocar. Lançava sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento.
Gosto muito dele. Ele sabia o que era ser companheiro. E seus amigos gostavam muito dele. Ele era muito amado.
O meu avô era maravilhoso.
Final de semana estive com meu avô materno. Como sempre foi um momento muito bom, apesar do problema de saúde que o acomedeu. A gente conversou pouco dessa vez. Hora que nos despedimos, pedi a bença, uma coisa que quase nunca fiz na vida, bem comum na vida dele.
“Deus te abençoe, meu filho.”
“Cuide-se, vô!”
“Pode deixar.”
Aí descobri, bem naquele momento em que saí pela porta do quarto do hospital, que nem todas as despedidas precisam ser tristes. Mesmo as definitivas.
Hoje meu avô faleceu.
Fiquei triste, é verdade. Mas sorri ao relembrar as peripécias que aprontávamos juntos. Ele era um homem bom, simpático e, apesar da imensa tristeza do momento, sorri ao lembrar dele. Chorar em um momento como esse seria injusto com o homem alegre que ele foi.
O mundo é uma bela escola que nos ensina muito. Eu já sabia que ele iria partir. Aquele quadro clínico dele, no hospital era desanimador. Mas, mesmo assim, ele vinha com as suas, para cima dos médicos: “Como está hoje, José?” “Bem melhor!”
Fica a belíssima lembrança e a sensação de felicidade por todos os anos que convivemos juntos e por ter sido um avô tão incrível para mim.
Avalio o que já fiz até hoje. Claro que me arrependo de inúmeras situações que poderiam ter mudado minha vida. Mas arrependeria-me de ter arrependido, pois algumas outras coisas não teriam existido. Foram frutos bons de situações ruins.
Foi o beijo que não dei, o beijo que dei. Palavras ásperas, profanadas com um orgulho bestial. Palavras doces, quando deveriam ser sutis e realistas. E-mails não respondidos, amores não correspondidos. O inóspito ignorado, o grito não dado, o sinal furado. O medo do futuro, a paciência do passado. A dor do “não” recebido em hora errada, a multa por velocidade.
Minha plenitude humana é baseada em retrospectivas e avaliações paramétricas da alma. E os fatos de maiores reflexões são os que aproximam a conturbada notoriedade de minha vivência, com a linha tênue da imaginação desejada! E assim vivo, revivo e reclamo constantemente.
Aquele terraço de um prédio passado era infinitamente grande. Edifício majestoso, com um imenso e inútil terraço. Ali cabia, eu, meus amigos e nossas conversas regadas a um bom jazz. Blues outras vezes.
O prédio era quase que uma super-república de estudantes. Nossa missão no mundo naquela época era estudar muito, tomar todas, arrumar mulheres devassassas e principalmente burlar a lei.
E sempre que começava a escurecer, lá estava, contemplando o pôr-do-sol, de cadeira de praia, toda a rapaziada. Que programa! A gente podia sempre contar um com o outro, e isso só acontecia porque havia irmandade na ação. Éramos muito desmedidos, não calculávamos as ações e suas consequências.
E sempre tinha coisa diferente acontecendo. Era época do explosão de vendas de aparelhos telefônicos celulares. Com um papel alumínio, alguns códigos malucos digitados e um fio ligando o telefone ao aparelho de som, podíamos rastrear e escutar conversas telefônicas. E em sua maioria, homens conhecendo mulheres de programas.
Outras vezes, lunetas e voyeurismo para vizinhas incautas saindo do banho.
Ríamos muito, de tudo. E bastava apenas um gesto, um som. O humor, do nada passava por cima da gente, e ríamos como retardados. As estrelas eram mais brilhantes, os aviões gigantes passavam mais perto, ali no 25° andar, o nosso andar, nosso terraço.
Tinha vez que gastávamos as economias com fogos de artifício. E quando levávamos algumas amigas loucas para dançarem a noite inteira? Ficávamos vendo, observando seus movimentos, suas expressões. Problema é que ríamos mais do que flertávamos. E isso atrapalhava em muito.
E o terraço se perdeu, um dia. Um de nós passou em um vestibular em outra cidade. Foi embora. E ali a razão do tempo sobre nossas vidas estava se mostrando. A imortalidade, imoralidade e infinidade do terraço definhava em seus últimos risos.
E não houve uma última vez em que nos encontramos lá em cima. Simplesmente ao mesmo tempo, vivendo cada dia de terraço como se fosse o último, nunca mais apaercemos. E isso não foi combinado. Assim crescemos. A vida colocou responsabilidades, as amizades inconseqüentes dispersaram-se. E toda a risada ficou para trás, toda a cumplicidade, o prazer das coisas ilícitas, a fragilidade da intimidade de uma boa e verdadeira amizade, para trás, uma lembrança.
Não houve despedidas. Cada um rumou para seu destino, cada um arrumou sua namorada, seu tom sério. Um morreu, deixando somente bons momentos. Outro, sumiu para a europa. Ficou aquele terraço vazio. Cheio de histórias, verdades e segredos que ninguém contaria melhor do que aqueles sete desocupados do bloco B.
Uma das pessoas que mais admiro neste mundo é o Nhô Guépe, José ou simplesmente Seu Zé. Um polacão vivido, sagaz e sentimental.
Desde que me lembro, já conhecia aquele sujeito. Ele ficara amigo de meu pai nos áureos tempos de juventude. Acho até que foi minha mãe quem o apresentou. E aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que rendeu-me umas das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância.
E sabe que o Nhô Guépe é uma daquelas pessoas carismáticas? Ri quando está feliz, chora quando está triste. Nem que seja escondido.
E você não consegue ficar indiferente com suas traquinagens. Ele é poliglota, fala dialetos longíquos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventa palavras e dá uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Mistura seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã.
O homem dá inveja ao professor pardal: sabe consertar rádio velho valvulado. Sabe consertar rádio novo transistorizado. Sabe consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.
Mas o mimo de suas peripécias é a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!
Esculpe cravilhas, afina a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalha com paciência em cada peça. Dedica toda sua arte aos instrumentos. E sabe tocar. Lança sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento. Ele vende cada um por um salário mínimo. Foi a forma de sempre acompanhar a inflação e não preocupar a cachóla com variações cambiais, desvaloriações do dolar et al. E o que é UM salário? Unzinho. Já vendeu para freiras, italianos turistas, músicos da sinfônica do Paraná. Decoradores que nunca tirarão um acorde da peça.
Gosto muito dele. Ele sabe o que é ser companheiro. E seus amigos gostam muito dele.
Quando amei — e amei de verdade — aquela mulher, toda a plenitude de minh’alma transbordava em córregos de êxtase e paixão.
Mas ela nunca percebeu.
Agora, anos mais tarde, a seda de sua voz me faz tremer o que estava à deriva do passado. Mostra-me um amor incontido e uma angústia dantesca em busca de um atrasado amor não correspondido. Não correspondido não. Correspondido deveras. Correspondido de uma maneira tão trôpega e carente que talvez a cegou drasticamente.
Agora é tarde.
Nossas vidas mudaram, minha cara. Seu destino aflorou, sua alma cresceu.
E almas crescidas não carregam paixões adolescentes à tiracolo.
O desejo traz uma lembrança um tanto quanto irresistível e triste do que ainda não fui. E no meu acalento desalmado — porém irresistível — conheço a saudade que me dói, corrompe e me faz assim, levemente sofrer.
Traz desejo, ainda que sorrateiro, uma palavra que não se deixa audível, uma palavra que faz as vezes de tudo e me faz sofrer.
E se traz, que mate de uma vez o que não é mais meu. Assim não luto nem insisto. Apenas, aos cacos de mim — e quem sabe do coração, ora, por que não? — mostro o quanto sou freguês, vulnerável e seu.
A escrita que se apresenta neste blog segue caminho clássico. Não gosto de tomá-lo como simples diário pessoal, mas textos assim seguem com aprazível fluência nas palavras.
Pessoalidades sempre inibem-me em vorazes palavras, é verdade.
Mas hoje é diferente.
Falemos das crônicas absortas que insistem em não apresentar-se de modo preferível neste espaço destinado justamente para isso.
O que acontece é que ainda sofro de um intrínseco vínculo de sentimentos ao escrever. E ultimamente meus sentimentos estão embaralhados. Aliás, embaralhados e mostrando-se de uma forma muito mais explícita que o normal. E aí, quando vejo que o que escrevi era pura emoção incontida, ou apago tudo por birra, ou mando para ela.
Aliás, alguns belíssimos textos, para ela. A atenção, confesso, para ela.
E assim, apesar de tanto tentar, escrevo e escrevo muito. Ou imagino e imagino muito. Mas enquanto essas idéias não decantarem só um pouquinho, continuarei embaralhando e presenteando-a com essas sentimentalidades que ainda não conseguiria postar aqui.
Quando pequeno, minhas aventuras batiam pé com Munchausen, o barão. Todas as histórias fantásticas que eu contava pareciam tão irreais ou ficcionais que logo achavam que era mentira desregrada. As histórias eram reais. Meu mundo infantil foi tão absurdamente rico que, se eu contasse tudo que aconteceu realmente, ninguém acreditaria.
De fato eram histórias apimentadas com um pouco de imaginação. E pense comigo: como um menino que tinha mania de morder braços alheios prenderia a atenção de adultos ao narrar alguma coisa? Criando aditivos forçosamente interessantes em historietas comuns. Só assim me levariam a sério.
Eu adorava escutar as histórias dos adultos. Tudo para desconstruí-los e remontá-los, como em uma nova e diferente aventura. Meu avô era quem mais histörias novas contava.
— Pare de mentir moleque, isso é feio!
— Deixa ele… criança que mente tem futuro brilhante!
Hoje, como em todos os outros hojes e quaisquer ontens, nada mais de desatinos para me refugiar a alma.
Um dia mareado como os olhos que insistem em molhar um rosto ainda virgem e trôpego de palavras amarelecidas. Sentimentos meus ou mais meus, e a vã tentativa de apenas apagar o quadro em uma revirginidade de olhos recompostos.
Dia após dia.
Perfeito de uma nova visão, creio aqui. E creio ainda que esta luz e essa hora e este momento e todas as vidas que em perpétuos ufanismos pairam estejam neste meu ser.
Hoje estou sentimentando suas escolhas em azuis olhares que pousam assim, na face que a casaria com o homem onde sempre sonhara morar.
Hoje.
E a perfeição atônita as vezes confunde a realidade mais que perfeita com uma onda de sonhos. Sonhos que encaram de olhos vidrados o amanhã que, seja o que for, será outra coisa. Sempre outra coisa, sempre outros sonhos.
Luz do carro cortada de supetão. Carro da esquerda freia rápido, tênis no meu pára-brisa, freio eu desesperado. Retrovisor projeta o horrível balançar de um corpo que flutua no ar. Lentamente gravando em minha memória.
Sim, um atropelamento. Na pista do meu lado. Não tenho medo, não tenho receio de ajudar. O carro branco sai uma mulher. Assustada, mãos no rosto. Ainda não acreditava.
Menino negro. Tamanho de 11, idade de 14. Sem os tênis. Calça rasgada, costas à mostra e camiseta na cabeça.
Ela, do carro branco? Vestida de branco, estudante de humanas. Tremendo.
Menino respira sangue. Cheiro violento de cola. Anestesiado.
Dezenas de carros páram, pessoas atônitas, imóveis novamente ao redor.
Duas baforadas, parou. Sem pulso, lanterninha do cheveiro nos olhos. Pupila dilatando-se. Olhar de suplício. Ela assusta-se com a inércia. Ouvidos escorrem vermelho. Cheiro de sangue e cola. Voláteis.
“Chamei a ambulância” o homem de terno falou.
Rosto inchado, hematomas, imóvel. Resgate rápido, ambulância e polícia. Classe quatro.
Preciso perguntar, quero a resposta que já sei.
“O que vai ser, oficial?”
“Clinicamente morto. Mas a gente não diz isso para ninguém.”
“É o hospital quem diz…”
“Afirmativo”
BO, burocracia, trânsito rapidamente dissipa-se. Acabou. Eu, a moça de branco, que tremia, e a vida, enconstados no carro:
“Efêmera a vida.”
“Ele morreu, não é?”
“Sim”
“Nunca vi alguém morrer.”
“Medicina?”
“Sim, segundo período.”
Voltando e no rádio os versinhos honestos: “…sometimes you win, sometimes you lose…n i wait for you…” A vida é efêmera e realista.
Não era o radinho. Era eu cantando. Nem existe música com aquela letra. Fiquei com medo de ser “eu” o realista demais.
A vida está estranha novamente. A gente encontra a luz e ela, depois, apaga-se em palavras presas. Luz que estatela-se em versos e rimas. Palavras doces que perdem o brilho. E ainda fechamos os olhos. E mais a procura de luz (encontro sempre) e mais os versos a tragam. Versos de vida, lágrimas esfaceladas pela luz (ou falta dela). Luzes dispersas. Talvez uma escuridão tenra e sorrateira, que continua sempre a repetir, sem sentimentos ou rodeios: “Vem, seu lar é aqui”.
Esse descaso me faz abandonar muitos dias bons no cais da melancolia.
Aquelas pessoas rôtas não me conhecem mais. Não conseguem mais distinguir qual o meu real significado de vivência. Existi em um mundo ignorado que apenas me mostrou que o ignorado era eu no mundo. Lentos e lentos mundos desconexos em pensamentos que ainda assim não me deixaram despedir do caixeiro ou daquela rica donzela do café das quatro.
Era tudo falso. Não existiu a tal moça. O café era mentira. E a minha vida ignorada nem sequer estava ali.
E isso não foi criado à toa. As letras não vagam sozinhas.
Calderon de la Barca diz:
“que farão pelo que ignoro
se pelo que sei me enterram”.
Não, não esqueço a melancolia dos atos vagos e mecânicos e inertes vascolejando velhos lembretes e lembretes ruidosos. Lembra? Era até o album de cromos. Ah, os cromos, como eram difíceis de retirar o auto-colante! E colava-os em seu caderno. Adorava te ver colando cromos, ornamentando-os em volta com hidrocores e amores, traços incontidos, por vezes tímidos. Por que não?
O porão era de porta estreita. Emperrada desde sempre aquela entrada do porão. Briquedos velhos.
E aquele porão mostrou-me onde guardar as velhas e boas lembranças.
Melancolia da vida, ó, segura em uma mão trôpega e senil as lembranças não tão boas. Se boas fossem, não estariam em um porão. Ah, o porão que agora mostra-me claramente que lembranças chinfrins ainda não se descartam. Guardemo-as por dó. Descartar seria amainar a vida com novos disparates.
Aquele velho porão de porta torta, emperrada de sentimentos. Aqui. Aí.
Porão velho da portinha branca no canto do seu coração, e eu o quero vasculhar.
Não, não era a vida imitando a arte ou a arte insinuando-se para sempre na minha infância. (E antes que você pergunte: minha infância durou até os 13 anos. Adolescência, dos 13 aos 14. Dos 14 em diante virei adulto.) E a vida, meu caro, simplesmente agiu como agiu, para lembrar de uma forma sazonal que eu perderia amigos de forma constante e ambígua. Para sempre.
Um que lembro: Playmobil era o nome dele. Guilherme, apelido. Coisa assim. Ruivinho sardento, nove anos de idade, olhos esbugalhados e azuis. Gostava de me seguir com uma monarque de placa de corrida. Daquela cabeça recoberta por uma peruca dos bonequinhos que o apelidara, saíam notas e pérolas verborrágicas que até hoje me arrancam um sorriso de canto de boca. Banana à muzzarela, por exemplo. O nanico gostava. Circo-circuito nos fuzílo. Biscleta. Mijão, o gato com incontinência urinária. Era dele.
Lembro-me claramente do dia em que ele estava confuso e inquieto. Iria mudar de cidade, para a capital. Perguntei se ele voltaria, ele deu certeza. Iriam de lotação qualquer para a rodoviária e de lá para longe. Pegaram as malas foram até o ponto da esquina. A lotação era a lenta da meia em meia hora, tempo necessário em que eu via nos olhos da mãe do pleimobiu algumas verdades incontestáveis: “A gente volta né mãe?” “Claro filho.” E o olhar estava mentindo! Que coisa!
A lotação chegou, embarcaram e o destino, assoviando, levou um amigo embora. Não foi o primeiro, muito menos será o último. Muitos amigos perdi e outros tantos irão para a cucuia.
Do Playmobil restou um expólio interessante: Mijão — o gato cinza escuro — de pelagem sedosa escura, olhos azuis e incontinente (que fugiu 4 dias depois atrás de gatas no cio); uma motinho branca com o tanque verde, dos playmobils; um cano velho e torto, de cobre, esverdeado nas pontas. Ele gostava do cano e nunca soube o real motivo. Talvez porque fossem verde as pontas.
E a lembrança de tudo isso que é a única coisa que sobrou.
Os humanos nascem sozinhos. Crescem sozinhos, mas vivem rodeados de pessoas, isso é claro. Incrivelmente sozinhas, como condicional óbvia. Aí a maioria das pessoas acham que a solidão é o “way of life”. Mesmo porque ‘conhecidos’ apenas são pessoas por aí, nada mais.
E aí começa toda a merda:
Com uma marretinha dourada lá vai o sozinho, perdido na consciência moral, construir uma muralha granítica em volta de si. Instransponível, alta, grossa. Até sentinelas nas guaritinhas a gente vê. Fazem da vida uma carreira militar armamentista. Os conhecidos podem ser inimigos ou espiões, melhor se precaver, por que não?
Então o serzinho consegue viver seguro. Uma segurança ingênua e solitária. Sem inimigos, sem espiões ou adversários.
Esse é o preço: eterna solidão.
Só que algumas pessoas (raras, deixo claro) pensam que a vida é uma coisinha mais engraçada. Vivem momentos e minutos e talvez a vida inteira megulhadas em paixões, amores e intensidades venais. Abrem-se para os inimigos — que na atual circunstância não são inimigos, mas sim parceiros ou maridos ou namorados, quem sabe até amantes. Preferem cair e levantar e cair novamente e erguer-se ao ponto mais alto de suas vidas, por um minutinho que seja, do que viver uma vida inteira seguros de si. E sozinhos.
A pessoa rara diria que isso é viver intensamente. O ser emuralhado chamaria de perca de tempo.
Meu alter ego é esbelto e elegante. Não tem residência fixa, é verdade. Faz exercícios físicos todo dia, anda, dorme até tarde e come tudo o que dá vontade. Meu alter ego não tem dinheiro, sobrevive de bicos como ghostwriter e viaja o mundo de carona.
O mundo!
Meu alter ego fala seis idiomas com uma fluência avassaladora: aprendeu um dialeto na Polinésia em apenas 8 meses.
Não tem muitas posses: uma mochila muito resistente mas velha, uma calça jeans desbotada, algumas camisetas brancas, um tênis verde musgo muito confortável e anti-derrapante e um canivete suíço original, com 27 funções, que ganhara de um finlandês em Antíqua. Tem um computador portátil que não funciona a bateria, tela monocromática e muito velho. É assim que meu alter-ego faz frila.
Tem um costume risca-de-giz que vale mil oitocentos e e oitenta e nove e noventa. Caro, muito caro. Carrega junto. E você não conseguiria imaginar as festas que meu alter ego conseguiu entrar com esse traje.
Meu alter ego não gosta de mim e fica tentando me dominar, mas eu sou mais forte que ele.
Mentira.
Eu sou fraco, muito fraco.
Meu alter ego terminou o curso superior mas procrastina a bendita colação de grau. Ele às vezes se aventura em algum palco, tem muito talento. Meu alter ego sabe desenhar e canta como ninguém. Meu alter ego — se quisesse — poderia ser bem sucedido como empresário, advogado, publicitário, médico, dono, patrão, spalla, mascate, pirata ou astronauta.
Meu alter ego daria um ótimo professor, se quisesse.
Meu alter ego poderia ficar famoso, poderia ganhar o Nobel de literatura, se quisesse.
Meu alter ego poderia viver de arte, se quisesse.
Meu alter ego ganharia leôes em Cannes e kikitos em Gramado, se quisesse.
Mas ele é louco, apaixonado, independente, desvairado, intenso, insaciável, amicíssimo, afável, bondoso, enérgico às vezes e não se preocupa com costumes cotidianos.
Conversamos muito, muito mesmo. Sei que ele mora em uma cidade grande, mas não a minha. Não sei com o que ele trabalha ao certo, é verdade. Ele é apelido. O nome real não conheço. Culto e elegante, vivido e despretensioso. Pratica a arte da amizade clássica, leve e sem cobranças. Ele tem defeitos; conhece minhas falhas. E nada disso importa para ele ou para mim.
É o que muita gente rotularia de “virtual”. Alguém, que na prática, não existe. Tal e qual esquizos.
De vez em quando desaparece por uns tempos. Não deixa vestígios de onde está. E, mesmo assim, com essa conectividade fragilíssima de apenas um fio transparente de contato virtual, alimento as esperanças de que ele nunca desapareça.
Meio estranho e ilógico.
“Poderia você perguntar-lhe o nome completo, quiçá algum telefone!” Diria alguém aqui ou acolá.
Mas eu não quero. Amizades inteligentes — assim como amores voluptuosos — terminam em histórias completas. Ou em mentirinhas homéricas de um desfecho inédito, vá saber.
Muita gente que circula por este blog não me conhece.
Conhecer, no sentido pessoal e físico, digo.
Náo sabem quem eu sou, de onde vim, o que me leva a escrever tanta coisa insistente. E isso é um problema sério, de verdade!
Escrevi, há uns 5 anos atrás, uma biografia. E escrever biografia é um erro estúpido, percebi depois: tudo muda, idéias transpõem movimentos e a visão deturpada de um passado biográfico fraco e vazio amadurecem na vontade (e velocidade) de jogar tudo fora e criar uma nova vida.
Esse blog é uma auto-biografia de pensamentos, apenas.
Um eu, estranho ao mundo, quem sabe. Mas nada real, nada retrato. Não condiz com a minha explícita.
Por isso reescrevo algumas cronologias de vida — novamente — rebatendo o passado. Ei-la:
Sou de 78. Era novinho há cinco anos atrás. Hoje vejo que o tempo é um cão sarnento implacável. Nasci no interior do Paraná. Cresci pelo mundão, estacionei em Curitiba. Migrei para Brasilia. Continuo brasileiro, alemão, polaco, italiano, chinês e japonês. Tenho olhos que eram castanhos escuros, hoje esverdearam e estão em cores transitórias e esquisitas. E não tenho idéia do porquê.
Sou escorpiano e, ao contrário do passado, pouco me importa isso. Continuo viciado em internet, continuo com o som de carro barulhento e ainda quero ter um Porsche, apesar da impossibilidade real.
Da velha linha de ocupações mil que me eram orgulho (design, literatura, mecânica, computadores, mulheres que me intrigam, esportes radicais não convencionais, montanha, cyberspace, terra/lama/barro, molhar-se na chuva, blablabla), esqueça isso: bobagens. Fiz tudo tantas vezes que não são mais importantes. Hoje a vida tem um pouquinho mais de sentido e algumas prioridades existenciais ganharam muita importância. Antes era eu um revoltado com religiões e dogmas inúteis. Hoje, conheço realmente um significado pleno de fé, crenças e Deus. Era medo ou preguiça, vai saber.
Continuo com os quase dois metros e isso não quer dizer nada. Continuo não torcendo para time algum. Canhoto para sempre. Música? Época de jazz, alguma coisa eletrônica inteligente. Perdi totalmente o pique dos heavymetais, hardcores e gritarias. Coisa da idade.
Namorei por 5 semanas corridas ou um ano picotado. Casei. E com isso aprendi algumas coisas perfeitas e inimagináveis que um dia qualquer (quiçá uma nova biografia) contarei.
Concluí uma faculdade de publicidade. Fui empresário por 6 meses, de papel passado e tudo mais. Da minha vida profissional náo falo nada, mesmo porque chefes lêem blogs, sabia?
Não gosto de fumaça de cigarro. Náo gosto de drogas alguma. Nem de drogados. (coisa do auto-retrato do fracasso e tal, qualquer dia o tio conta) Não gosto de bebidas. Nem o social mais, acredita? (exime-se disso o bom vinho degustado em almoço de domingo. Isso náo é beber, é apreciar, fique claro.)
Continuo a perder amigos e isso é uma coisa normal. Convivo com perdas e ganhos desde que terminei a prê-escola e isso não me assusta nem um pouco. “Evolução-descontinua-e=paralela” é como chamo isso.
São essas coisinhas aí em cima que definem uma pequenina base do que sou. Mais do que isso e vossa senhoria entediaria consideravelmente. Afinal de contas, ninguém quer mesmo conhecer gente. Já ouvi de amizades próximas que eu aparentava ser um arrogante e babaca em primeira vista. Outros, que sou um amorzinho, carismático e afável.
E sabe do mais interessante de tudo?
Continuo babaca, arrogante e um amor de pessoa. É estilo-de-vida essa imprevisíbilidade toda, sabe como?
Apaixonado pela garota bonita de longos cabelos castanhos e brilhosos — de um brilho perfeito e que desnorteia qualquer intrépido homem desavisado — o menino sincero e ingênuo comprou um vidrão de perfume.
A história é longa e curta: lá na bancadinha lateral da igreja ele ouviu de solsaio a garota bonita do belo cabelo sedoso confessar à melhor amiga. Relatou a delícia dos aromas de flores, do espírito de liberdade que aquela fragrância lhe concedia.
E quer coisa melhor do que uma coisa que transmitisse tais coisas para ela? Lá foi o menino à luta. Encheu os picuás do pai. Ganhou mesada adiantada e prolabore, residuais por lavagens de carro e o naniquinho que faltava por uma cortada de grama.
Pronto, fizemos o menino encher os bolsos de dinheiros.
Dormiu, sonhou com a menina dos cabelos brilhosos saracoteando por flores alvas e de balanço lento. Aliás, o sonho inteiro estava em uma intensidade de sentimentos que qualquer coisa que tentasse interagir teria a velocidade reduzida por uma infinidade de sentimentos e carências vivenciais que aquele adolescente, jovenzinho outrora apenas um garoto, imaginava.
Amanheceu sábado, sem aula. Rumo ao comércio. Era perto do dia dos enamorados, coloquemos assim a data. Adentrou pela amadeirada porta da botica sóbria. “O espírito das flores, faz favor!” A linda atendente, carregada de cores, sombras, luzes e tudo mais que a maquiagem poderia corrigir e realçar, sorriu para ele. Virou-se e, lendo com os dedos as embalagens brancas de letrinhas doiradas, sussurrava um mántra delicioso de nomes e apelidos. Daria uma música, a ordem caótica que lêra aqueles nomes de fragrâncias. Mas só essa ordem. E ela não repetiria jamais, nem teria como. “Espirito das flores, tamanho único, embalagem para presente, senhor?” Sussurou com uma piscadéla na hora do ’senhor’. “Claro! Mulher adora rasgá-las, não é, jovenzinha?” Ora, quem diria! Retrucando à altura! O que essas paixonites não fazem com um garoto desses?
E ele comprou a fragrância. Ah, menina dos cabelos sedosos e esvoaçantes, da voz aveludada e ritmada, allegro non molto… Agora mais um sentido o embriagava!
A compra, o presente, a sacolinha de fios crus e esverdeados.
Subiu no bonde da rua Quinze. Era hora de voltar para casa, criar um plano estratégico, riscar e rabiscar poemas e, quem sabe, escrever a poesia de sua vida para enebriar de sentimentos e amores a estonteante garota dos cabelos-mel.
“Ai caramba, é ela!”
Caramba! Ela está linda! O fedorento bonde eletro-pneumático está em movimento, sentido contrário aos passos leves e descompromissados dela. Anda garoto, faça alguma coisa! Ele ensaia um pequenino salto, sem impulso. a velocidade é desconfortante, até um tombo poderia sujá-lo todo. “Às favas com isso!” Era a expressão mais estranha e encorajadora que ele conhecia. Como um ‘Aeiou Silver!’ mas sem a retórica.
A sacolinha entreabriu, ele se atrapalhou com a instantaniedade dos fatos. Agarrou pela ponta dos dedos o corrimão e equilibrou a tamanca dos sapatos de couro no madeirame da soleira. É claro que aquela cena não deu certo, o garoto varou no ar, com uma expressão de incredulidade e medo, gritando um “Que merdaaaa!” homérico e engraçado, não fosse a tragicidade do fato até então. Frouxo, de costas no paralelepípedo irregular da subida da fonte e inerte por tamanha injeção de susto no corpo, percebeu-se rodeado de pessoas tentando ajudar.
Meninos não se machucam sério, são meio borrachentos. Apenas esfolões nos escanteios.
Levantou-se, conferiu os fundilhos com um rasgão, pegou sua sacolinha de espirito de flores e foi para casa. Abriu o pequenino sótão de casa. Guardou com cuidado aquela sacolinha. Imagina se os pais o descobrissem, seria muita conversa para tão pouco presente, pensava.
Ele ensaiou aquela entrega. Passou quarenta e duas vezes em frente à casa dela. Conversou com uma melancia, beijou uma laranja. De língua! Ganhou uma afta. Ora, preciava aprender a coisa, entenda.
Sábado de final de ano, quatro meses depois dos inúmeros ensaios, diligências e investidas de entrega, ele tocou a campainha.
Era ela, de cabelos lindos, quem atendeu a porta.
“Oi!”
“Presente para você.”
A dicotomia de sentimentos no momento era bem compreensível. De um lado, o menino que a conhecia com uma profundidade de correlações poéticas avassaladoras. Todos os detalhes do corpo dela tinham comparativos épicos.
Do outro lado, uma garota de cabelos belos e sedosos, tentando entender o que acontecia.
“Ai, o perfume que eu adoro! como você sabia?”
“Descobri.”
“Como é seu nome?”
“Garoto.”
“Obrigado, Garoto! Adorei! Feliz Natal!”
Ela deu um beijo em seu rosto, sorriu e entrou em casa. Ele virou-se e foi embora.
Nunca mais viram um ao outro. Nunca mais conversaram.
Aí você fala: “Que otário, ele.”
E ele te mostra o diário que escreveu, dois dias depois:
…() Quatro meses e agora não mais vejo apenas cabelos sedosos e de perfeito balançar. O rosto, alvo como a bruma que insiste em ludibriar as montanhas esverdeadas e que, com os raios de sol por penetrá-la, revelam-se na beleza de uma brancura perfeita. Lábios, na mais natural cor, carnudos e tenros como um beijo torpe de um morango gelado são doces e misteriosos ao mesmo tempo. É o que eu imagino e é o que eu quero que seja. Olhos esverdeados, grandes, perfeitos. Duas esmeraldas lapidadas e expostas em um beiral de loja de finas jóias. E inacessível para qualquer mortal. Um corpo delicado e frágil, curvas constantes como uma viagem despreocupada pela serrinha graciosa, com um clássico conversível. Mãos leves e perfeitas, voz aveludada e ritmada, allegro non molto. Ah, a voz eu já descrevera antes, não eram só os cabelos ()…
Dez anos. Esse é o tempo que passou das minhas últimas aventuras desvairadas. O tempo, ingrato, corre sem parcimônias. E a vida, que deveria ser intensa e cheia de novidades avassaladoras, insiste em manter alguma folga entre uma emoção e outra.
A vida é assim, cheia de nhéco-nhéco.
Uma hora, correria desenfreada.
Outra, calmaria aterrorizante.
Dez anos. Há dez anos não pulo de cima de uma cachoeira. Há dez anos não saio com amigos e mochilas nas costas. (Aliás, nem eles!)
Não é falta de tempo. Não é falta de amigos. E não é a falta da mochila que inibe. É a vida, que envelheceu dez anos. Ficou adulta, essa vadia velha.
Mas a acomodação incomoda a vida velha, vadia. Só esperar. Ela se desespera. E vira uma vida serelepe e peralta, cheia de vontadisses e meninices.