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EM ALGUM PONTO ENTRE FERREIROS, GALIZA E PAMPLONA


sábado, 24 de novembro de 2007 | 10:42 pm

Encontrei uma carta das bordas ibéricas listradas dentro de um velho livro de cabotagem basca.

A letra forte, carrancuda e cheia de tensão nas ascendentes era de Florita Nuñes Cabezapretta, uma jovem dama compostela canhota. Adressava à Giancarlo V. Sólo e lacrada à sinete. Bem na infeliz época em que ele resolveu percorrer a malograda trilha de Santiago, e que voltou em uma desacerbada carreira, não querendo comentar nada.

O que aconteceu na época não foi nada agradável, pelo que li na missiva. A história é bem lógica e calculada e, se eu não conhecece meu irmão, diria se tratar de uma cena tragicômica perfeitamente inventada.

É claro que peguei Giancarlo pelos gargumilhos e ele se rendeu de bom grado “Já se passaram quase 20 anos, camarada. Pois vou te contar o que se sucedeu”.

Era uma noite qualquer de esbórnia em uma dessas pequeninas cidades de rota peregrina, Giancarlo acabou se engraçando com uma catalã muito inquieta. Tudo começou na taberna da pequena albergaria da qual seus pais eram donos. Ela era uma espécie de relações-públicas do estabelecimento, o que focou a atenção imediata de Giancarlo. Embalados por uma sangria pra lá de enebriante, os dois caíram em desejos carnais na sala particular da charutaria do pai da moçoila, ali mesmo, em cima do carpete floral em frente da lareira flamejante.

A fogosa libertina era escandalosa demais e, apesar da despreocupação do casalzinho, o patriarca desconfiado veio conferir a fuzarca no recinto, encontrando a filha descabelada das bochechas rubras e Giancarlo, polaco queimado, que de súbito prostou-se em guarda-defesa como um jaguar que salta assustado.

O velho colerizou na hora: puxou da chapeleira um florete desembanhado e pôs a honra perdida da guria na ponta da esgrima. Mesmo em tensão absorta, Giancarlo de nada reagiu. Pelado em frente a lareira, e apenas segurando a calçolona da moça em frente de suas vergonhas, não achava alternativa viável para o entendimento. O homem não demorou nem meio segundo e fez zunir aquela lâmina brilhosa pela guarda do flertista. Giancarlo deu mais um pulo, agora para trás do sofá e saiu em disparada para a adega. Foi o tempo de encontrar algumas garrafas de prosseccos e chapagnes. Não titubeou, agarrou una bottela de Taittinger-Millésime’63, chacoalhou ao extremo, arrancou-lhe os anilhos metálicos de rolha, fez mira de assalto e espocou o projétil. O petardo foi tão bem feito que o rolhame pegou de cheio o olho direito do velho, prostrando-o de joelhos, com o florete caído, as duas mãos nos olhos e urros de dor.

A peleja cessou em um quarto de minuto, tempo de Giancarlo calçar as botas, pegar sua mochileta de peregrino, seu cajado de raíz de nogueira, de roubar um beijo lascivo da donzela que chorava pranto lavado.

Sumiu na escuridão em trote de fuga, pelado, de botas e mochila.

A tal carta alcança-o em Viscarret. Nota-se que à Giancarlo fôra atribuída a má índole dos mouros cruzadistas, aqui descrita como franjs - do persa, “cruzado” ou “levantino”.


(…) E te odio porque és como los franjies, incógnito impúdico y lascivo, que cohabita con las mujeres, sin distinción de estado ni edad, efectuando el coito, o concúbito, con ellas sin importarles que sean viejas repelentes o jóvenes bellisimas, y sin conceder ningún valor al hecho de que sean solteras, casadas o viudas; (…)

Apesar de toda a ira história postulada na carta, Florita desnuda seu coração por segundos, finalizando a redação com uma ponta de esperanças.


(…) Un día, todavía espero para encontrarle, ojos en los ojos. Ver otra vez la cara del hombre que deflorated me con una energía persuasiva genuina y con un ecstasy de la pasión que hasta hoy nunca percibí en otrorem.

Regards de Florita.

E assim descubro que não sou o único abilolado na família.

O DIA EM QUE R.VALENTINO LEVOU UM TIRO NA BUNDA


quarta-feira, 17 de outubro de 2007 | 3:27 pm

Conheci Eliza Mildred-Eclair Françoise Rumbauldt em 1998. Era uma mulher exuberante, tinha 34 anos de idade e já havia morado em Timbuktu, Maputo, Comores, Salerno e Tegucigalpa. Nunca desperdiçou sua bela vida em bancos frívolos acadêmicos, tampouco em escritórios; apenas lecionava francês para universitários, de forma empírica e instintiva, conhecimento e experiência.

Tinha naquela época uma rotina pacata após muitos anos dessas viagens, pagas devidamente na moeda universal dos favores sexuais. Sim, rodara o mundo, mas teve uma freqüência sexual similar ao de qualquer demi-mondaine de uma grande cidade litorânea. Aliás, Eliza lembrava algumas conhecidas raparigas praieiras: cheiro de mar, pele acobreada, cabelos queimados pelo sol, roupas esvoaçantes, a ausência permanente de soutiens ou similares e, é claro, a extensa quilometragem venérea.

Eliza, então, tocava sua vida guiando um velho hatchback´92 azul marinho e falando “Bonjour” das oito às dezoito, com duas horas de intervalo para o almoço. À noite, tinha como opções tomar um aperitivo entre os amigos desocupados do Meio Artístico & Decadente S.A. ou fumar um pouco de maconha na beira-mar norte. Ganhava o suficiente para pagar esse lazer diário, a gasolina do automóvel, o aluguel do muquifinho e a alimentação macrobiótica.

Considerava-se uma mulher feliz e realizável (note que realizada e realizável são antônimos desconexos em tacanha funestra).

Mas faltava algo na vida de Eliza: ela fingia não ligar por não ter um companheiro, afinal vivia entre amantes vorazes, nenhum que realmente a completasse. Até que, um dia, nesses de início letivo, Eliza teve naquela sala-de-aula de sempre uma sensação que não tinha há muito. R. Valentino iria mudar a sua vida e ela pressentiu isso desde o primeiro instante que o viu.

Passaram-se três semanas do início das aulas. Eliza e Valentino já haviam trocados vários olhares, principalmente quando todos estavam de cabeça baixa resolvendo alguns exercícios ou então no pátio, nos intervalos entre as aulas. Eliza também já se arriscava a brincar com o ele durante a aula: chamava-o Rudolfn Valèntin, em um belo sotaque franco-prussiano; solicitando sempre que ele iniciasse a leitura ou elogiando sua voz.

Nascia uma paixão de rumos inesperados e furtivos.

Eliza se tornava cada vez mais obcecada com aquele rapaz e esperava aflita o horário de sua aula no cair da noite. Seu coração palpitava quando o via chegar e a sua ansiedade — quando este se atrasava — só era dirimida quando o via girar a maçaneta e sentar-se nas fileiras posteriores. Só aí a aula tomava um rumo tranqüilo. Quando Rudlfñ se abstinha da aula, Eliza se enervava a tal ponto de finalizar a lição mais cedo, alegando um passamento ou outro mal-estar momentâneo. Um sentimento amoroso foi crescendo dentro de Eliza até que ela tomou coragem em uma obscena sexta-feira, quando o chamou para um festival de música naquela noite. Não aceitaria recusas, pois tinha já comprado as duas entradas e foi o que convenceu Valentino a acompanhar a professora de francês.

Foram ao evento e, já na primeira noite, Eliza conheceu o amor carnal como nunca imaginara. Vários amantes prévios não a tinham feito feliz como naquela noite e ela pensou ter, finalmente encontrado a sua alma-gêmea. Aquela noite se repetiu por várias e várias vezes até que Eliza começou a desconfiar da fidelidade de seu novo amor. No início tinha-o visto conversando com outras alunas do curso, nada de mais. Depois foram as desculpas, cada vez mais amiúde, do rapaz em não comparecer à sua casa ou mesmo não sair juntos. Eliza se enervava e começava a dar mostras de perder o próprio controle, discutindo primeiro em casa, depois em público e até na escola de línguas. Nas últimas vêzes, berrava em voz alta, repetindo frases agressivas e xingamentos leves.

E Rudolfner não dava a mínima, mostrou ser um sujeito insensível aos apelos de Eliza, chegando a rir dela dando-lhe as costas e chamando-a de “vetusta maluca”. Ela engolia as ofensas entre soluços guturais e lágrimas quentes e amargas. Mas não pensava na hipótese de perder sua paixão e, logo que possível, reatava seu relacionamento com presentes e promessas.

“Ah, o amor e suas vicissitudes…”

Por último foi um flagrante no qual presenciou seu namorado em um amoroso beijo com outra mocinha na edícula do pequenino jardim central da instituição na qual trabalhava. Aquilo para Eliza foi o cúmulo da traição. Mais do que desesprerada, gritou de forma bruta e destonada. Largou em cada lado de seu corpo a bolsa hippie e os livros. Partiu com as frágeis mãos erguidas para agredir o seu querido menino, que havia suspenso a carícia com a outra colega após o grito de Eliza e agora estava furioso com aquela cena de acinte.

Eliza foi recebida com um desvio de corpo pelo aluno — o que a fez passar de solsaio pelo assunto — e em seguida sentiu seu rabo de cavalo agarrado virilmente de modo que lhe doeu o escalpe. Dominada, foi, a seguir, arremessada de encontro à grama, impacto que lhe tirou a energia e a coragem de levante. Interrompeu o choro alto com a pancada de um soco que lhe atingiu as costelas à direita, liberando um som oco pulmonar, trocando as imprecações que soltava ao vento contra a masculinidade de seu agora ex-quer-o-que-seja por um gemido contínuo. Quem passava pelo jardim naquela hora de maior movimento, via o corpo de uma professora a se contorcer e rolar entre papéis e capim, gritando: “Rudulgrunfz Valèntnstz vas te faire enculer! Pédé! Tarlouze! Toi, baclêur bon à rien!” Ele apenas retroucou um “Je m’en foutre!” quando já ia longe, pensando em como uma mulher enciumada e maluca podia atrapalhar a sua vida.
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É claro que R.Valentino jamais contaria aqui sobre este micro=relacionamento tórpe. Ainda mais quando ele se deparou com Eliza no dia seguinte, sentada no banquilho de pedra-sabão da esquerda da edícula, pitando um cigarro de folha de parreira em uma cigarrilha a tremilicar.

“Bonjour, gros cochon.”

“Bonjour, grosse poubelle.”

“Corra, puto.”

Ele fingiu que não entendeu. Fez um “pff!” com a mão e deu-lhe as costas. Ela puxou sua bolsa hiponga e pegou uma pistolinha American Derringer de uma bala só.

Ela engatilhou, fez mira e atirou.

O projéctil embolou o popinho da nádega esquerda. A bolotinha de Flobér.22 o pinicou de maneira tão aguda que Valentino pulou de supetão e disparou em uma corrida como jamais o fizera. Eram passos esvoaçantes e zigue-zagueados onde quase que as pernas deixavam o corpo cambalear para trás, tamanho ritmo frenético que o impulsionava.

Eliza apenas sorriu.

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Nota do autor: Conheci Eliza em 88 justamente por não acreditar nas histórias que me contaram sobre o petardo em pleno campus e por Valentino bater o pé em não assumir que foi baleado na bunda pela professora histérica. O incidente realmente se consumou — e Eliza confirma (”Mas não conta para ninguém, pega mal!”) — apesar de jamais constar nos autos da instituição. Como era de se prever, vive apenas na memória informal das lendas universitárias.

CASAMENTO EM CINCO ATOS


segunda-feira, 17 de setembro de 2007 | 5:20 pm

Uma viagem qualquer para um casamento a mais. No convite, estampado o nome dos noivos. Cidade de interior, cidade natal, casamento de movimentar paróquia. Sabia que não seria uma viagem a mais. A sensação de que encontraria surpresas e novidades era grande.

Fazia tempo que eu não circulava sozinho por aquelas ruas estreitas e de pavimentação precária. Sozinho mesmo, relembrando em cada lugar a aventura e desaventura de viver sem pretensões.

Encontrei meu passado vivo na festa do casamento. Amigos de quase todas as minhas fases. Pessoas hoje maduras, sérias, casadas. Filho no colo! O que era o Lenhador! Uma das últimas personalidades da minha infância que esperaria casar. Casou! Uma namorada do longíquo ensino médio. “Oi Rudy! Como você cresceu!” Sim, o que mais escutei foi isso. “Como você está diferente!” Outra amiga com uma criança no colo, contava-me as suas histórias “Este é o Pedro, meu filho de um ano!” Ah, como aquela sensação me era estranha e nova! Meus amigos agora com a seriedade de uma adultez estampada nas faces! Alianças douradas nos dedos, praticamente todos à minha volta com uma consciência demasiadamente boa.

“E aí Lenhador, e aquelas trilhas doidas? ainda existem?” Era o que nos restava de um passado. “Não mais, Rudy. Depois que o Thiago morreu todo mundo acalmou…” Era verdade mesmo. Até eu parei nas minhas desaventuras. “E o pessoal hein, quem diria, todos casados!” A frase pareceu óbvia demais para o Lenhador. E era verdade para mim. Não esperava tudo isso.

O que mais escutei nesta festa foram perguntas sobre minha vida. Longe de tudo e todos, velhos conhecidos, outrora amigos meus, explicitos em uma curiosidade genial, queriam conhecer minhas aventuras. A vida em uma capital, empregos, amizades novas e amores. Ah, como as mulheres queriam conhecer meus sabores e dissabores amoristicos! Contei das vezes que fui assaltado, só para deixar todos felizes com a segurança da pacata cidadezinha de interior. As mulheres que apaixonei, as desilusões da solidão de uma metrópole. A chateação de um terno em uma segunda-feira chuvosa. O dinheiro fácil que deturpava meus sonhos. Drogas e amigos drogados! Esse ponto que atiçou a todos! “Você conhece pessoas drogadas é?” Sim, pacata cidade. Eu parecia um missionário encontrando as pessoas de um vilarejo isolado.

Foi uma festa deliciosa. Contei que iria casar e, breveta que sou, inventei uma noiva. E quando revelei isso, uma sensação de alivio tomou a todos ali. Era o que faltava para que eu integrasse novamente à uma rede social srtificial à qual não pertenço mais.

Achei que eu era o único da minha geração que almejava um casamento. E descobri que estava, na verdade, apenas seguindo o óbvio ululante. Atrasado.

É a vida.

AH! INTERNET SAFADA…


segunda-feira, 17 de setembro de 2007 | 2:50 pm

Depois de muito refletir, estava de mãos dadas com o destino que acabara de gargalhar, ao me ver perdido em desatinos: “É Rudy, seu destino é a solidão.”

Sim, meia dúzia de relacionamentos, finais bruscos e terríveis. Com certeza eu era o problema, e disso não tive dúvidas. Resolvi ficar triste e escrever poesias. Poeta triste é sensacional, já dizia meu avô: “Entristeça, mesmo que de mentirinha. Aí você vai ver o que é escrever uma poesia com a alma e o sofrimento digno de um amor ingrato!”

Estava em uma época de poucos amigos. Trabalho estável e lucrativo. Mercado novo, reuniões e comprometimentos. Universidade finalmente engrenada em um curso delicioso e fluente. Mas poucos amigos. Conhecidos e convenientes muitos, isso não tem como escapar. Porque de trabalho, estudos e vizinhanças convivi de aparências, sempre.

Decidi escrever. Escrever valendo, colocar em palavras as minhas angústias, solidões, medos e passados. Escrevia para meu computador. Depois de um tempo, para meu site pessoal, que acabou virando blog. Ah, era uma delícia escrever naquele espaço! Somente alguns amigos o liam, coisa bem íntima e pessoal. Contei muito da minha vida. Eram contos tristes, perdidos em pensamentos.

Apenas minha vida pedindo socorro.

A cada dia, lá eu me perdia em controvérsias e desatinos da minha imcompatibilidade vivencial. E assim me arrastei por longos meses. Problema que o site começou a ter audiência inesperada. Pessoal da universidade, amigos que há tempos não via, familiares. Todos meus familiares! Conheceram muito de mim por ali. E isso minou minha intimidade com o blog.

Mas uma coisa eu digo: aquele blog me salvou. Ao quinto dia do ano de dois mil e três. Mas isso também é história para outra tarde chuvosa.

A CAPITAL DO ANONIMATO


quarta-feira, 12 de setembro de 2007 | 4:12 pm

Sair de uma pacata cidade com pouco mais de quinze mil habitantes para uma capital de sete milhões definitivamente foi uma aventura de vida. Giancarlo retornara para o interior, com estudos completos e exercendo uma profissão liberal. Gianlucca estava no último ano de direito e morava com um colega.

Lembro-me claramente do domingo à noite, dia em que meus pais retornariam para o interior. Levei-os até a garagem, dei um beijo de despedida em cada um. Entraram no carro e foram embora. Pronto, estava sozinho. Sozinho em uma capital, com uma vida para cuidar.

E morar só em um apartamento era perturbador. O silêncio e a liberdade muitas vezes me sufocavam.

Foi assim que conheci as artimanhas da vida de solteiro. E cuidar de todas as tarefas da casa, suprimentos, dispensa, limpeza e contas realmente ainda não estava em meus planos. Descobri os segredos de culinária unitária, a pastilha setzer para limpeza de sanitas, roupas penduradas em cabides no banheiro para o vapor desamassá-las.

O melhor era a facilidade de andar pelado pela casa sem preocupações.

Conheci muitos amigos no prédio. Alguns estudavam no mesmo cursinho, outros já estavam em universidades e faculdades. Com esses amigos aprendi muita coisa importante e alguns fundamentos que espero nunca usar.

Foi um ano intenso. Consegui, pela primeira vez, navegar ilicitamente na Internet pela RNP da universidade federal. Conheci o anonimato de andar por semanas e semanas nas ruas e não avistar um conhecido sequer. Vivi a adrenalina de ser assaltado por um moleque de doze anos e constatar que o revólver dele tinha todas as balas no tambor. Achei dinheiro no chão e fiz festa de aniversário regada a uisque importado. Fui à shows de rock gigantescos, levei geral da polícia, entrei em arrastão de torcida organizada em saída de estádio, conheci mulheres descartáveis e levianas.

Morar em uma capital abriu meus olhos para a outra extremidade social, até então monótona e simples de vida interiorana. E percebi, tardiamente, que minha vida era pequenina para um mundo demasiado real.

Senti falta do meu mundo pela primeira vez.

O DIA EM QUE EU CONHECI UMA PSICOPATA


terça-feira, 11 de setembro de 2007 | 11:23 am

Ariadne era o que eu podia chamar de namorada ideal: bonita, morena, olhos azuis claros, voz deliciosa e uma personalidade perfeita. Conheci aquela mulher em uma festa de dia das bruxas da escola de inglês. Fui fantasiado de alguma coisa malvada: capa preta, dentadura de vampiro — dessas que a gente ganha em maria-moles de boteco — botas de motocross e um taco de basebol. Ariadne estava vestida de anjo, com asinhas brancas de algodão, camisola de cetim, batom vermelho vivo e uma auréola verde brilhante com luz própria, dessas que a gente encontra em shows e eventos.

“Olá, o que é sua fantasia?” Aquela voz ecoou dentro de mim como uma bruma enevoada que se dissipa lentamente com o sol de uma manhã de verão. “Ceifador de mesóclises.” Ué, eu tinha um taco de basebol! Ela sorriu e o batom vermelho contrastou com os dentes branquíssimos de um sorriso estonteante. Sempre encontrávamos em festas ou na saída do colégio. E não havia de ser diferente.

Nem preciso dizer que conversei a noite inteira e que, em tempo recorde, estava namorando novamente.

Adorava quando ela caía em contradições existencialistas e discutíamos filosofias diversas. Suas ideologias eram de linhagem estreita e conservadora. Ela se considerava agnóstica e foi a primeira vez que conheci o termo. Contou-me a diferença básica entre um ateu e um agnóstico. Disse-me desconhecer alguém que negasse Deus com veemência. E foi nessa época que descobri que uma pessoa não basta querer ser ateu: tem que poder.

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Nosso namoro foi muito bom. Época de descobertas, limites, causas e suas quebras intrínsecas. Tínhamos muitas semelhanças deliciosas e isso realmente nos interessava. O relacionamento foi muito bem.

Até o final do ano.

Era minha oportunidade de terminar o ensino médio em uma instituição focada em vestibulares. Precisava realmente disso. E uma boa instituição, só na capital.

Mas Ariadne não entendeu. Como eu não entendi antes.

Lembro-me muito bem da data fatídica. Estávamos sozinhos em casa. Novamente fiquei para final no colégio, em história. E novamente perdi a oportunidade de viajar. Bom para mim, ruim para meus pais. Convidei Ariadne para jantar em casa. Música suave, um bom vinho e duas velas em cima da mesa. Jantar tenso para mim. Lavei a louça, Ariadne secava, dançando no ritmo da música que o phono arranhava.

“Preciso te contar uma coisa: vou para a capital ano que vem, estudar”

E isso a estagnou. Paramos o que estávamos fazendo. Ela sabia do meu carma de antigas namoradas e essas quebras de namoro pela capital maldita. Começou a engrossar o diálogo. Palavras fortes e por vezes agressivas surgiam como punhaladas em nossas almas. Virou discussão séria, as vozes levantaram. E eu nunca brigava com as minhas namoradas! Era o fim. Ariadne ficou descompassou e ficou histérica. Na mão esquerda um pano de prato, na direita, pasmem, uma grande faca pontiaguda, afiadíssima, de cortar as sottiles fettas de carpaccio. Italiana espaventada, falava e agitava aquela faca que nem percebia.

É de ficar preocupado, claro. Olhei fixamente para aquela lâmina inox e brilhante. E ela percebeu o que fazia. Fiquei encurralado entre a pia e os armários e ela se valorizou da condição. Levantou a faca e hora que disse que poderia terminar aquela discussão de uma maneira muito fácil e sutil, não tive dúvidas: agarrei seu braço com a mão direita e com a esquerda arranquei-lhe a faca das guampas. Cortei-me de leve, não teve jeito.

É claro que ela não ia me matar. Acho eu. Mas não arrisquei. Nosso tórrido e caloroso relacionamento acabou naquela cozinha, naquele chão.

Selado por um beijo pós batalha.

AO DESCOBRIR A VERDADE


terça-feira, 11 de setembro de 2007 | 9:25 am

Descobri duas coisas importantíssimas em minha vida: o conceito de ser-humano não é tão subjetivo quanto imaginamos aos 16 anos e a vida é muito mais êfemera e delicada do que confortavelmente presumimos.

Apesar de parecer, minha vida não foi repleta de desgraças. O que acontece é que alguns fatos intensos criaram em mim divisores e quebraram teorias imaturas que preservei com louvor.

Sábado de um sabado situado em um mês qualquer. Era festinha de dança de vassoura e encontrei o Thiago bem na hora em que ele iria embora: “Rudy, vou nessa! Se cuida!” Sempre se despedia com um aperto de mão cruzado, shake-hands inglês com toda sua firmeza. E era um “se cuida” tão desprovido de preocupações que o tomei como exemplo em minha vida. “Cuide-se, viu?” troquei posições por capricho, mas o viu coloquei como enfâse de uma preocupação qualquer.

Thiago morava na fazenda com seus pais, distante algumas dezenas de quilômetros da área urbana.

Ele foi embora e eu aproveitei a deixa, à pé, conversando com Ariadne, uma garota atraente e que adorava a facilidade de caminhar em nossa pequena e pacata cidade.

Telefone tocou dia seguinte. Dona Margareth, mãe de Thiago, queria saber se ele dormiu na minha casa. A gente tinha esse costume de dormir na casa dos amigos, dependendo do estado etílico de cada um. “Não Dona Margareth, ele falou que ia embora para casa ontem…”

E Thiago não estava em casa de amigo algum. A cidade era pequena, fácil de se situar. Inicio de tarde e nenhuma noticia. A polícia foi contactada, bombeiros, amigos.

Suspeitaram da rota de retorno do Thiago. O acesso para sua fazenda passava por uma pequenina serra cheia de curvas para lá e para cá. Observaram, atentamente as redondezas. Depois de três horas de procuras, a constatação: aquele carro novinho, capotado, mato abaixo, em uma das curvas.

Não tinha marcas de freiadas, não tinha resquícios de colisões nem que rodara na pista. Thiago estava sem cinto, arremessado cerca de trinta metros do veículo.

Morreu na hora.

A “perícia” local dos oficiais e bombeiros concluiu que Thiago tentava tirar o moletom na hora do acidente. Soltou o cinto de segurança e a blusa simplesmente enroscou nele. Tudo isso a mais de 150Km/h. O moletom obstruiu tudo. E ele morreu.

No velório, seu irmão mais velho, inconsolado, encontrou-nos em estado de choque. Ele, mais que a gente. Olhava como quem pedia, desesperadamente, um milagre ou alguma coisa impossível. Queria nossa ajuda para algo que não existia solução.

Doeu muito.

O DIA EM QUE PERDERIA A VIDA


quinta-feira, 6 de setembro de 2007 | 4:06 pm

Minha vida – assim como a de qualquer adolescente — era cheia de problemas, dúvidas, medos e desilusões. Eu vivia cercado de indefinições e algumas vezes senti que tudo estava complicado demais para tentar arrumar.

Para piorar as coisas caí de bicicleta e consegui a nobre proeza de dar perda total na infeliz. Eu andava como ou doido, muito rápido e errei uma tomada de curva. A roda da frente encavalou dentro de uma boca-de-lobo, a bicicleta ficou parada e eu continuei a trajetória, voando. Pousei todo errado, com as mãos e a cara diretamente em um asfalto sujo, áspero e duro. Ralei meu corpo inteiro, da cabeça aos pés. Esfoliação completa. Bati a cabeça de uma forma que me nocauteou no chão.

Creio que fiquei cerca de uns cinco a dez minutos ali, sem me mexer, tonto e perdido. Foi a primeira e única vez que desmaiei. Levantei lentamente, senti meu corpo ardendo. Meu capacete quebrou ao meio. Os cadernos e tranqueiras de escola estavam espalhados pela rua. A dor era insuportável. Olhei para minhas mãos e só podia ver sangue e a falta de pele.

A roda da frente da bicicleta havia quebrado em 3. A suspensão dianteira entortou as bengalas e vazou todo o óleo. Quebrei o quadro ao meio e a sapatilha arrancou um pedal.

No final das contas Eu passei uma semana horrível, sem dormir, sem poder me mexer, com lençóis que grudavam nos esfolados (que nao eram poucos) e com febre generalizada.

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Depois do incidente ciclístico, fiquei uns dois ou três meses sem bicicleta. Nosso grupo de bicicletadas compadeceu da situação e resolvemos mudar o foco de nossos acampamentos. Agora eram boas caminhadas por serras e montanhas. Pequenas andanças que foram se extendendo naturalmente.

Resolvemos nos aventurar pela região serrana da mata atlântica. Nessa aventura as garotas decidiram não ir, Murilo ficou receoso das cartas topográficas e só eu e Ricardo seguimos em frente. Lembro-me claramente do dia em que fomos à capital comprar equipamentos para montanhismo. Mochilas novas, sapatilhas e botas, costuras, cordas e outras tralhas. Organizamos cartas topográficas, bússolas e informações da cadeia serrana. Iriamos atacar um pico pela crista leste, de acesso íngreme e sem trilhas demarcadas.

Chegamos ao local depois de cinco horas de viagem em um ônibus completamente podre e velho. Era inverno e apesar do ar seco e gelado, a vegetação serrana estava verde e exuberante. Andamos uns 5 kilômetros até o início do mapeamento e montamos acampamento. A carta era extremamente precisa e em pouco mais de seis horas de caminhada chegamos ao cume. Acampamos lá em cima e ficamos dois dias acompanhando a paisagem e a condição do tempo.

No último dia Ricardo descera alguns metros para averiguar um paredão e as condições de ancorar uma corda para rapel. Eu estava em cima de uma das pedras do cume, a maior delas. Era um paredão muito bonito (um big wall) de uns 300 metros de altura. Sempre gostei de chegar muito perto de bordas de penhascos e desfiladeiros, e dessa vez não foi diferente.

Mas parar em frente daquele abismo deu uma sensação diferente. Senti naquele momento que inclinar alguns centímetros para frente seria solucionar alguns problemas e complicações em minha vida que estavam realmente me atormentando. Era uma solução corajosa e interessante do ponto de vista problemático. E quanto mais eu pensava naquela solução, mais eu inclinava para frente. Era quase que um transe. Aquela sensação de liberdade, vôo e queda de um mundo estava me abraçando como se nada mais tivesse importância. E lá fui eu, inclinando mais e mais em câmera lenta. Não tinha mais volta. Tudo estava em outra sintonia, sons, imagens, cores e velocidades.

Ricardo me segurou pelo boudrier. Sabia que algo estava errado comigo. “Rudy, achei uma via grampeada para descermos!” Desmontamos acampamento e descemos pelas pedras, pendurados em cordas.

Ele sabia que eu ia pular naquele momento. Ficamos sem conversar quase a descida inteira. Chegamos no acampamento base e ele não aguentou: “Porque pularia ali?”

Até hoje não sei a resposta.

O ANONIMATO LITERAL


quarta-feira, 5 de setembro de 2007 | 1:09 pm

Cheguei em casa para almoçar e em cima da minha cama uma carta pairava solícita. Letras redondas, bonitas e femininas. Não tinha remetente. Abri e o que encontrei escrito naquele papel cheiroso e de texturas leves mudou meu dia.

Era uma carta de amor.

E era anônima. De uma garota que dizia me conhecer muito bem, que adorava meu jeito e que eu não percebia esse amor que ela tinha por mim. Caramba, eu não percebia mesmo! Afinal eu nem idéia tinha de quem era! Estava me sentindo nas nuvens. Uma admiradora secreta, que tal!

Eram cartas diversas, uma ou duas por semana. Cores, nuances e novidades a cada nova leitura. Eu queria descobrir quem era a jovem. Ela escrevia coisas minhas que poucas pessoas conheciam. Sem dúvida ela me conhecia, ou alguém muito próximo dela me conhecia.

E assim eu reparava em todas as garotas à minha volta. Sempre esperando um sinal ou um pequenino blefe que a denunciasse. E me esforçava nisso. Até que em uma carta, o comentário: “Você olhou em meus olhos de uma maneira que não atirar em seus braços naquele momento foi ato extremo em minha vida.” E eu olhei todas as mulheres à minha volta. Foi como se eu não tivesso olhado para elas. Aquele anonimato estava me enlouquecendo.

Um mês depois e cartas e mais cartas. Estava começando a ficar bicudo com a indefinição da moça. Ela sabia tudo de mim e eu nada.

Quando a gente terminou
E não é que teve um dia em que chegou uma carta de envelope preto em minha casa? Era uma carta de texto frio e incisivo. Havíamos terminado. Olha só! Levei um fora de uma mulher que não sabia quem era. Terminei um relacionamento anônimo, por carta. Já havia terminado antes por telefone, por antecedência, cara-a-cara. Mas por carta?

Tudo bem, achava aquela mulher estranha demais para mim.

MULHERES, CARROS E DESAMORES.


terça-feira, 4 de setembro de 2007 | 12:50 pm

Definitivamente deixei de ser adolescente quando ainda tinha meus quinze anos de idade. A cidade onde morei era pequena e tranquila. Isso nos dava uma liberdade de ação muito grande. Meus pais eram influentes e eu estudava com alguns filhos de militares e policiais locais, o que imunizava em muito nossas ações.

E uma dessas liberdades era dirigir.

Lembro-me claramente das tardes penosas lavando os automóveis do meu pai e da minha mãe, com direito à cera, polimento e outros mimos, apenas para dar uma ínfima volta na quadra, dirigindo sozinho. Aos treze anos Gianlucca ensinou-me a dirigir. Ele era mais velho, tinha 16 anos e dirigia tranquilamente pelas pacatas ruas locais. Aprendi rápido. E aprendi a guiar automóveis com possantes motores 3.1 litros. Trocas de marchas, arrancadas suaves e giro do motor oscilando perfeitamente. Meu pai sempre deixou eu passear de carro pelas redondezas e minhas andanças iam cada vez mais longe. Lembro-me o dia em que acompanhei meus pais até a concessionária local. Era a compra de um carro alemão, fruto da abertura do comércio exterior nacional. Sedã de luxo, injeção eletrônica e o mais interessante: microchipado com requintes de automóvel esportivo.

Tinha em minhas mãos um carro perfeito, cheio de segredos e traquitanas diversas. Eu passeava de carro todos os dias, e isso virou uma coisa banal e corriqueira para a minha familia. Giancarlo já tinha o próprio carro, Gianlucca usava o carro de minha mãe. Eu compartinhava o do meu pai.

O melhor de tudo era que meu pai trabalhava à algumas quadras de casa. E em um perfeito dia chuvoso, frio e muito cedo, acordei-o para me levar ao colégio. “Ah, filho, pega a chave e vai sozinho.” Não acreditava naquilo! E não pensei duas vezes: lá fui de carro para a aula. Alguns alunos do ensino médio já faziam isso, mas era o pessoal do segundo, terceiro ano. E a minha ida motorizada para a escola virou uma bela rotina: fizesse chuva, fizesse sol, lá ia eu de carro.

Essa mordomia rara e que até hoje não entendo, rendeu-me algumas regalias interessantes: Eu dava carona para quatro amigas, três delas garotas da nossa turma bicicleteira. Note que nenhuma morava perto da minha casa, eu apenas dava carona porque era belas companhias.

É claro que de vez em quando rolava algumas infantilidades: rachas, velocidades mortais e até derrapagens controladas. E hoje percebo que passei por alguns momentos tão idiotas que não sei como não morri. Eram mais de 150 cavalos de potência em minhas mãos. Aceleração estúpida “zero-a-cem” em apenas nove segundos. Duzentos por hora em pouco mais de 25 segundos. Do conforto à ignorância quase que instantaneamente.

Eu sempre dava carona à Patrícia e Priscila, duas irmãs. Patricia estudava comigo e era da turma. Priscila, a irmã mais velha, estudava com Gianlucca, meu irmão do meio, e tinha uma leve queda por ele. “Ei Rudy! Festa la em casa, o que acha de ir com seu irmão? Ele não está muito afim…” Há! Priscila o convidara, mas ele não fez muita questão de comparecer. “Claro Priscila, eu vou e levo ele junto.”

Consegui convencer Gianlucca. Festinha americana clássica: meninos levam refrigerantes (álcool, por supuesto) e as meninas, comidas gerais (bolos e salgados). Cheguei com um refrigerante barato e colorido, Gianlucca com uma garrafa de uísque. Só tinha gente da turma dele, pessoas que eu me dava bem mas que tinham uma filosofia muito liberal. Fiquei perambulando pela festa. “Ei Priscila, onde está a Patrícia?” Patrícia era a única mulher que eu conhecia ali. E ela não estava. Meninos de um lado se embebedando, meninas fofocando do outro. Decidi ir embora da festa quando as luzes baixaram, o som aumentou e Bonnye Tyler lançou o tenebroso e melancólico “Turn Around…”

Pronto, era a deixa. Aquela música me deixaria deprimido o resto da semana. Priscila gostava do meu irmão. Gianlucca era apaixonado por ela. Mas tanto ele quanto ela não sabiam disso! Na hora da música ele estava inacessível. Era uma rodinha de shots de uísque. Pareciam hunos gritando e cantando, alheios ao que estava acontecendo à volta. Alguns casais começaram a dançar. Priscila pegou-me na saída. “Dança essa música comigo?”

É claro que não recusaria. Priscila era bonita, magra, alta e tinha uma voz estonteante. Dançamos ao clássico estilo música-lenta: mulher com os braços em volta do pescoço do homem. Homem com os braços na cintura da mulher. Rostos perigosamente próximos e passo lento um-prá-cá-um-pra-lá. Não deu outra: ela me fuzilou com um olhar estonteante. Não consegui desviar daqueles olhos verdes por um segundo. Nossos corpos encostaram-se, Não sei se por magnetismo ou vontade própria. Senti meus lábios à milímetros dos lábios dela.

E nos beijamos.

Um beijo lento e carregado de paixão e vontade. Acabou Bonnye Tyler, tocou outra música lenta. E outra, e outra. Nos beijamos por quase uma hora! Saímos do ambiente e fomos passear nas redondezas. Problema que o carro não estava mais ali na frente de casa. Surtei, pensei em tudo, menos no óbvio ululante: Gianlucca viu eu e Priscila.

Perguntei para um dos amigos dele, confirmaram que ele saíra muito nervoso e bravo.

Conversei quase a noite inteira com Priscila, ela tinha um sorriso delicioso quando eu contava histórias doidas, surpreendia-se a cada verdade que eu abria ali. Beijamo-nos por algum tempo. Tudo estava deliciosamente estranho, e estranho a tal ponto de Priscila me pedir em namoro naquele momento. Muito rápido, muito eficaz.

Voltei à pé da casa de Priscila, sozinho. Pensei em inúmeras desculpas para Gianlucca. Afinal de contas eu o traíra. Mas não tinha desculpa o que fiz. Acabava de roubar a garota que ele falava em namorar há tempos. Eu estava muito feliz e muito triste. Extremos, novamente. Remorso e paixão me corroíam por dentro.

Cheguei em casa, ele já estava dormindo. Fiquei com receio de acordá-lo para conversar e fui dormir.

Levantei muito cedo, era sábado, santo dia para mais um passeio de bicicleta com meus amigos. Voltei domingo à noite, ele saíra jogar basquete. Encontramo-nos apenas no intervalo de aula de segunda-feira. Confesso que eu estava com medo do que poderia acontecer. Gianlucca pegou-me pelo braço. Estava visivelmente alterado: “Porra cara, você está namorando a minha namorada!” e empurrou-me com as mãos. Não reagi, não respondi nada. Apenas fiz um sinal afirmativo com a cabeça e a sombrancelha esquerda. Ele entendeu. virou-se e foi embora. Priscila estava longe, veio correndo saber o que aconteceu.

Naquela manhã meu relacionamento com Gianlucca morreu. Ele não conversou comigo por longos meses. Namorei Priscila, uma garota mais velha e muito interessante. Ela tinha ideais definidos e uma mente brilhante. conversávamos muito, beijávamos muito. Era um relacionamento ideal e sem problemas.

No final do ano minha sina desgracenta se repetiu: Priscila iria para a capital estudar o terceiro ano, preparar-se para o vestibular. Eu não acreditei naquilo! Minha terceira namorada, meu terceiro namoro terminado de uma forma violenta e exata do mesmo jeito dos outros!

Obviamente que não deu certo o namoro daquele ponto em diante. Priscila dedicou sua vida aos estudos aquele ano. Terminamos o relacionamento de uma maneira fria e sem sentimentos. Por telefone. Cretino e por telefone.

Voltei a conversar com Gianlucca, mas percebi que aquela ferida no coração do meu irmão ainda doía ao me ver.

UMA NOTA MENTAL.


segunda-feira, 3 de setembro de 2007 | 11:20 am

Ao relembrar as experiências transcritas aqui, acredito que algumas pessoas simplesmente não acreditarão que uma criança de onze, doze, treze ou quatorze anos possa ter sentimentos dessa maneira. Possa ter vivido intensamente como descrevo em palavras.

Não é para essas pessoas que este weblog existe.

Este weblog existe para as pessoas que compreendem que os sentimentos de uma adolescência podem — e muito — mudar um caráter. Os sentimentos de um jovem moldam a espiritualidade e a vivência de todo um adulto.

E eu acredito que muitas dessas experiências vividas foram, sem sombras de dúvidas, muito intensas e marcaram para sempre a vida de um certo Rodolfo qualquer coisa.

SABER AMAR


sexta-feira, 31 de agosto de 2007 | 5:17 pm

Meu professor de geografia era completamente doido e isso prova uma das razões das quais adoro a geografia. O mais legal, porém, foi o dia em que ele decidiu levar as três turmas da sétima série para conhecer algumas formações geológicas de um parque espeológico qualquer.

Cheguei atrasado. A viagem estava marcada para 03h00 da madrugada e é óbvio que eu não consegui acordar antes. Droga, era uma viagem muito boa e cheguei no momento em que o primeiro e segundo ônibus partiam!

Consegui parar o último. E é óbvio que o último ônibus era o ônibus de uma das outras duas turmas. Senti-me deslocado de tudo e de todos. Andei pelo corredor, todo mundo conversava e ria e eu ali, isolado do meu habitat natural, da turma do fundão que sempre comandava a bagunça desmedida em viagens e afins.

“Oi Rena do Papai Noel, senta comigo!” Era Mariela, uma das garotas das bicicletadas abaixo. Salvou minha viagem naquele momento. Rena do Papai Noel, a do nariz vermelho, homônimo.

Mariela nascera na Alemanha. Seus pais viajaram à trabalho e a volta ao Brasil atrasou, o que fez daquela garota uma alemã nata. Ela era relativamente mais alta que as outras garotas, ombros de nadadora, corpo delineado e acima de tudo, muito bonita.

Conversamos a viagem inteira. Todos ali no ônibus adormeceram, o que nos deu privacidade para um longa e deliciosa conversa.

Abramos parêntese. Percebo hoje que em nossas bicicletadas eu sempre estava perto de Mariela. Compatilhamos minha barraca a maioria das vezes. E confesso que em algumas dessas vezes simplesmente eu fingia adormecer, apenas para observá-la dormir. A respiração dela era gostosa de ouvir, um ressonado leve, cos olhinhos que saltitavam rapidamente. Adorava aquilo. Fechemos o dito cujo.

E a escursão dos estudantes avoaçados chegou ao destino. Professor tagarelando, todo empolgado à frente e alguns estudantes que não davam a mínima atrás, saracoteando por estalactites e estalagmites. Alguns espeleólogos experientes nos acompanhavam, mostrando detalhes interessantes das formações. “Sigam-me, entraremos em um salão restrito”. E seguimos aquele guia. “Dentro deste salão existe um silêncio e uma escuridão absoluta” E era mesmo. Ele pediu para que todos apagassem as luzes e se mantivessem quietos para perceber a intensidade do momento.

Apagamos as luzes e ficamos quietos de verdade.

Mariela aproximou-se de mim, apagou a lanterna e me abraçou, meio de lado. As luzes se apagaram, como uma cidade que se prepara para dormir e o silêncio e a escuridão tomaram uma forma majestosa. Mariela moveu-se para minha frente, ainda abraçada. subiu sua mão por minhas costas e me apertou em um abraço novo e inusitado.

Senti sua respiração a milímetros do meu rosto. E ela me beijou.

Um beijo delicioso, inusitado e até esperado demais. Eu percebia claramente seus lábios tremulando. Percebia que ela me abraçava com uma força e intensidade assustadora. Revidei, é claro, e a abracei forte.

Problema é que naquela escuridão e silêncio e intensidade, Mariela descompassou na hora de respirar e deu um breve e delicioso gemido. Foi uma complexidade de ruídos muito interessante: um estalido de beijo com expiração sem fôlego e meu uh! no contra-ponto. Tudo bem baixinho e rápido, é lógico, mas suficiente para que o salão inteiro, que até então se concentrava no incrivel som do silêncio, começassem a desordem caótica de ruídos e luzes.

O professor foi o primeiro a ligar a lanterna para ver o que estava acontecendo. todos ligaram e começou um bafafá danado para descobrir quem estava beijando quem. A cena foi deliciosamente apimentada porque ninguém sequer desconfiou dos beijoqueiros.

Saímos e, entre risadas e suposições, eu entreolhava Mariela. Ela estava extasiada e surpresa com o que acabara de acontecer. Passeamos de teleférico, andamos por trilhas e no final do dia já estávamos todos exaustos dentro do ônibus, pronto para voltar.

Meus amigos me esperavam dentro do primeiro ônibus, mas misteriosamente voltei com o terceiro, deslocado e desconhecido, da turma da Mariela. Sentamos lá no fundão. Conversamos alguns minutos. O ônibus estava novamente em um silêncio embalado por sonhos de estudantes cansados. Mariela recostou em mim e fechou os olhos: dormira a viagem inteira abraçada engalfinhada em meus braços.

E naquela noite me senti a pessoa mais completa e feliz do mundo.

Tempos depois namoramos. Não lembro ao certo de um pedido formal de namoro, apenas nos encontrávamos enamorados.

Minha segunda namorada, enfim.

Ao final do ano Mariela decidiu que estudaria todo o ensino médio em um colégio-cursinho preparatório na capital. E novamente me vi perdido. Mariela sabia que estudar na capital nos traria o desamparo de um namoro firme e sólido. Nos veríamos poucas vezes na semama, uma ou duas vezes, quem sabe. Mas ela estava decidida. “É Direito o que eu quero e você sabe que é concorrido”. Sim eu sabia. O meu amor era concorrente desleal.

Nosso namoro durou dois ou três meses. Víamos pouquíssimas vezes.

E invariavelmente nos tornamos perfeitos amigos, novamente.

BICICLETADAS


quinta-feira, 30 de agosto de 2007 | 4:18 pm

Morei por muito tempo em uma cidade cercada por horizontes infinitos, lugares belíssimos e encantos inexplorados. Muitos rios e cachoeiras característicos de uma exuberante mata nativa. A natureza, logicamente, sempre me atraíu para aventuras e desaventuras. Tive a companhia de bons amigos dispostos a loucuras e riscos, simplesmente para quebrar a rotina de uma cidade interiorana.

Minha adolescência foi marcada pela novidade de abertura de mercado: as indestrutíveis mountain bikes. Todos da turma se esforçaram e adquiriram exemplares robustos, suficientes para submergir em qualquer banhado ou lama. Programávamos trilhas de finais de semana e não tinha um santo sábado e domingo que não fosse pedalado em estradas poeirentas ou descidas de carreiros intrincheirados pelo meio da mata.

Foi nesse periodo que conheci algumas das pessoas que mais marcaram minha vida de adolescente. Pessoas especiais que tinham muito em comum umas às outras: divertidas, loucas e, acima de tudo, verdadeiros irmãos.

Nossas aventuras ciclísticas ficaram mais complexas e envolventes: em vez de trilhas de algumas horas, nossos roteiros estavam orçados em pernoites. E quase todo final de semana era bicicletada até algum ponto remoto, acampamento e bicicletada de retorno. Eram acampamentos perfeitos: riachos, pôr-do-sol envolvido por barracas em volta da fogueira. Violão choradinho e Murilo cantando músicas que atravessavam a noite.

Nossa turma era basicamente composta por seis rapazes e por cinco garotas que eram adoravelmente loucas como nós. E essa cumplicidade toda que reuníamos era entendível ao ponto de podermos dormir juntos em barracas, sem reservas ou constrangimentos. Aquelas noites frias em volta de fogueiras de fagulhas que pirilampeavam os céus eram intensas e o silêncio que nos permeava era constantemente quebrado por risadas e pela alegria de simplesmente estarmos juntos.

Lembro-me claramente que Murilo mostrava em cada acampamento uma letra nova de suas composições. Eram músicas inspiradas em amores, amizades e a pureza de nossos seres. “A beleza das estrelas do céu…”, “Festejar a alegria de se estar vivo…”, “Só há amor em meu coração…” Letras que cantávamos juntos, com pequenas fotocópias que ele nos preparava. Lembro muito bem que cada um ali tinha uma carracterística fundamental. Eu tinha sempre histórias mirabolantes que cuidadosamente resgatava das aventuras dos meus avôs. Algumas meninas adoravam cozinhar iguarias mateiras naquele fogo nosso. O Roberto era especialista em nos iludir com truques baratos de mágicas. Ricardo não fazia nada, era tímido e quieto. E mesmo assim todos adoravam ele! Aquela roda à volta da fogueira era perfeita. Tinham vezes que atravessávamos a noite, víamos o sol se pondo e o sol nascendo sem dar conta do tempo.

Era fantástico!

Em uma das raras vezes que tivemos problemas com nossa loucura: o dia em que o Ricardo inventou de cair em um barranco pedregoso. Era a volta de uma cachoeira, ainda tínhamos mais de trinta quilômetros para rodar. Ele era sempre o abre-trilha e acho que nunca teve freios naquela bicicleta. Ralou-se inteiro, estava com pequenos cortes e com a mão dolorida. “Estou bem!”, gritou lá de baixo. Mas hora que foi levantar, a perna pegou e ele hurrou de dor: havia fraturado alguma coisa ali. Desci eu e o Murilo, talas de emergência e muito soco das dores em nosso capacete. Coloquei-o na garupa da minha bicicleta, alforjes e a bicicleta dele empilhada nos outros.

Outro pequenino acidente ocorreu quando um galho inventou de atravessar minha perna ao lado do joelho. Fiquei com aquela ferpa, de ponta a ponta na pele, sem pegar musculo nem nada, apenas uma flechada incômoda e sangrenta. Foi engraçado no final.

A minha vida ganhou forma e consistência nesses anos de bicicletadas divertidas. Foram aventuras que jamais esquecerei. A companhia, a leveza do momento e as peripécias inusitadas ainda hão de virar muitas histórias.

DESATINOS E DESAMORES


quarta-feira, 29 de agosto de 2007 | 11:15 am

”Amor, preciso te contar uma coisa: Não podemos mais namorar…”

Assim conheci a realidade dos amores e desamores.

Era o final de ano do período mais recheado de descobertas em minha vida. E final de ano era certo ficar em alguma matéria em recuperação de notas. Sempre em história. Acontece que Janaína ficara em história também. Assistíamos a aula cedo e, no meio da manhã, já estávamos caminhando de mãos dadas pelas ruas da pacata cidade.

Parei de imediato quando ela exclamou aquelas palavras aterrorizantes. “Como assim não podemos mais namorar? Você brigou em casa?”

Fiquei perdido.

Janaína ia mudar para o interior de São Paulo com a família. Seu pai comunicou duas semanas antes. Era o prazo que achou necessário para ela terminar o pequeno e ralo relacionamento comigo. Na época achei uma canalhice. Mas hoje percebo o quanto nos foi bom não prolongar muito aquela dor.

Foram duas semanas intensas e dolorosas. Era uma situação imposta e maluca. Tínhamos até planos de fuga para vivermos nosso amor. Bem na verdade não sabíamos o que fazer. Cada dia que nos restava era planejado com delicadeza. Acredito que ficamos mais tempo juntos nessas duas semanas que se passaram do que em todo o resto de nosso namoro em tempo normal. Foi doloroso. Foi triste. Amargo e desesperador. Não consegui dormir naquele período. Meus sentimentos purulavam dor pelo corpo. Eu chorava compulsivamente à noite.

E chegou aquele sábado do último dia de nossas vidas.

Encontrei com Janaína no portão de sua casa. Ela estava com os olhos tristes, nariz com a pontinha avermelhada. A cena me desarmou de todo o resto de coragem que consegui reunir para o momento. Minhas pernas enfraqueceram, caí de joelhos em sua frente. Ela ajoelhou-se de imediato e me abraçou. Choramos. Aquele abraço repelia qualquer sentimento ou pensamento que passasse na minha cabeça. Era dor e pavor.

Dei à ela um perfume que ela tanto pedira: Spirit Of Flowers. Ficamos algumas horas juntos. Precisava ir embora. Estava noite. O pai de Janaína achou melhor dar uma carona para mim. Lembro muito bem que aquele senhor grande e forte tinha um magnífico carro importado. Vermelho, vidros escuros originais. Motor de ronco forte. E o único Pontiac da região.

Ele se despediu de mim com um caloroso e forte abraço. Apertamos as mãos, ele foi embora. Uma cena inesquecível.
divisor

Troquei cartas com Janaína por uns cinco ou seis meses. Nossas cartas foram nos distanciando. Ela mudou mais algumas vezes, foi se aventurar por Londres, tempos depois.

A saudade e a dor de uma paixão interrompida ficaram.

Mostraram-me que, feridas de paixão, mesmo que doloridas, cicatrizam com o tempo.

BRIGA


terça-feira, 28 de agosto de 2007 | 4:25 pm

Uma coisa que sempre assegurou minha integridade física nos tempos de colégio foi a avantajada estatura de italiano carcamano. Eu era o maior da turma e isso deixava espaço para pensar em outras coisas, nunca em brigas ou desentendimentos com outros colegas.

Namorar, por exemplo.

Enquanto aquele bando de moleques — uns vinte de cada lado — corriam atrás de uma bola ovalada e encardida na quadra poliesportiva eu estava com minha namoradinha recém conquistada em uma peça de teatro nada fiel ao roteiro. E é claro que em alguns momentos eu estava correndo atrás da bola e ela jogando um volei. Ma a maioria do tempo, cumpríamos nossos papéis conjugais.

Eu adorava beijar a Janaína. Era uma experiência difente, descobri que o primeiro beijo da menina fôra meu primeiro beijo. E o segundo e o terceiro.

Os intervalos de aula no colégio definitivamente era onde o estado social de cada aluno era construído. Amigos, namoradas, poder, liderança. Lembro-me claramente dos que conquistavam tudo isso com carisma, com humor, com a força.

E lembro claramente do dia em que eu tive que usar a força para assegurar minha posição e não perder a “hombridade” perante uma namorada.

Eu brincava de dar soco com o Ricardo, um colega que praticamente conheci na maternidade. E como dois chimpanzés na puberdade, vivíamos pegando o outro desprevinido com essas brincadeiras. Ricardo estudava em outra classe. E naquele ano, um cara meio estranho ingressou na classe de Ricardo. Eles conversaram algumas vezes, mas nada que afetasse a distância entre ser amigo e ser apenas conhecido.

Ricardo passou perto de mim, desprevinido. É claro que levou uma bifa no braço. Ele parou para conversar, a gente estava tramando uma descida de bicicleta por umas trilhas no meio do mato. Acontece que esse cara que era novo no colégio presumiu que eu tinha batido de verdade no Ricardo. Parou na minha frente, interrompendo nossa conversa. Ele era menor que eu. Bem menor. Magrinho, franzino e feio. Pegou pela gola da minha jaqueta e perguntou se eu não percebia a idiotice que acabara de fazer.

E é claro que nesses 5 segundos da ação do magrélo o colégio inteiro juntou-se à nossa volta. Não se pode brigar nas dependências de colégio, então algum doido da multidão exclamou: “Briga na saída moçada!” Todos hurraram como medievais. Ele se afastou, mas sem antes selar aquilo com um “Espero na esquina de baixo.”

Pronto. Minha honra posta em cheque. Praticamente todos já sabiam da picuínha, inclusive Janaína. Ela veio conversar comigo, estava preocupada. Sabia que eu não teria desvio de caráter e sabia que eu nunca brigaria por nada. Meus irmãos mais velhos, maiores e mais fortes que eu martelavam táticas de guerrilha para eu acabar com o desafiante. Fecharam a conversa antes das duas ultimas aulas com um “Se você apanhar, a gente bate nele.”

As duas aulas que se passaram foram aterrorizantes. Não era medo da briga, não era saber se apanharia ou não. Era questão da agressão e da quebra de algumas premissas que sempre tive.

Meio-dia. Cena de faroeste na rua. Centenas de estudantes exaltados, a esquina lotada. Ele estava lá, esperando. Meus irmãos em pontos estratégicos. Parei diante do rapaz. Aquela cara fechada fez eu sentir a raiva dele nos olhos. Uma coisa imcompreensível, e até hoje não entendi toda a revolta.

“O que acha de apertarmos as mãos? Assim não teremos problemas mais.” E falei isso de todo o coração. O rapaz jogou a mochila no chão, tirou sua jaqueta. Pronto. Jogar a mochila no chão é um insulto ao desafiado. Coloquei minha malinha subaqueira no chão. Ele não queria conversa mesmo. E tanto que não queria conversa que deu-me um chute na bunda. Um chutinho fraco, provocador. Eu ainda não brigaria. Mas aquele chute encheu os olhos do público e aí já viu… o cara ficou todo cheio de si! Montou posição de guarda com as mãos. Desviei meu olhar para Janaína, gesticulei com as mãos em sinal de interrogação, ela não sabia o que responder. Era uma cena estranha. Aí não deu outra, o rapazinho avançou para cima de mim. Eu iria levar um soco se não fizesse nada. Juntei os dedos da mão esquerda. Apertei-os com toda a força e esperei. Ele era ansioso demais. E isso que o derrubou.

Na verdade o que derrubou aquele saco de ossos foi um soco no meio da fuça. Um soco com tanta força que ele cambaleou uns cinco ou seis passos para trás antes de cair atordoado. Foi nocaute propriamente dito. Sangrou-lhe o nariz, um olho começou a inchar.

Na hora parti para cima dele, queria saber se estava tudo bem. Aquele nariz não parava de sangrar, ele não conseguia ficar em pé. Foi horrivel. Horrível e engraçado, pois me preocupei mais com ele do que com meu dedo médio que havia trincado. Ajudei-o a ficar em pé e recostar-se no muro. Todos ali estavam estasiados com a potência da bifa. Janaína veio ao meu lado. Ela sabia que não teve outro jeito. “Podia ter batido com menos força, né!” Ela deu o lenço de bolso para o rapaz estancar o vazamento. E foi aí que tudo voltou ao normal: ele olhou para mim e mandou um “Ei cara, foi mal viu!”

Apertamos as mãos. Final de briga. Segui embora de mãos dadas com Janaína, escoltado pelos meus irmãos. Giancarlo resmungava da brevidade da situação. Gianlucca dizia que o magrélo ainda iria revidar aquilo. Ela só me olhava de canto de olho.

Eu sabia que ela não esperava nada daquilo.

No final das contas levei uma advertência escrita por briga nas cercanias do colégio, uma radiografia da mão e talinha de alumínio por 45 dias para cicatrizar a fissura na falange media do terceiro distal da mão esquerda.

Algumas coisas que ficaram: Nunca mais briguei no colégio. A fama daquele único soco ficou. Aquele moleque nunca mais chegou perto de mim. O Ricardo continua meu amigo até hoje. E não me orgulho desse episódio. Não acrescentou em nada.

O SEMINARISTA


segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 10:14 am

Certa vez encenei uma peça de teatro. O Seminarista, de Bernado Guimarães. Atuei como Eugênio, o filho de um fazendeiro abastado. E foi nessa brevíssima época de teatro que conheci Janaína, uma linda e refinada senhorita que contracenaria comigo.

Janaína, na vida real, era filha de um poderoso fazendeiro. Estava encenando Margarida, a filha de peões da fazenda.

Era peça de teatro do colégio. Quinta série. Na verdade fomos obrigados pela professora de literatura a encenar uma peça inspirada em algum clássico da literatura brasileira. Precisávamos de nota, a professora era uma freira e “O Seminarista” cairia como uma luva.

Roteiros, figurino, cenário, tudo elaborado por nós. E aquelas apresentações das turmas faziam muito sucesso! Todos os alunos adoravam assistir as interpretações, fosse para chacotar, fosse para dar risada das coisas inusitadas que apareciam. Escrevi o roteiro. Coloquei cenas fortes, falas potentes e diálogos pesados. Alguns palavrões em cenas críticas. A trilha sonora foi primorosa: desde Black Sabbath até Mozart.

Ensaios, releituras do roteiro original, tudo extremamente impecável e interessante.

No dia da apresentação, lembro que acordei muito cedo. Nossa peça era a primeira do dia, seguida de mais umas três ou quatro. Preparei minha batina, penteado com uma pitadinha de gel e muito nervosismo. A primeira cena começava com barulho de chuva, era o ínicio da música Black Sabbath, da banda homônima. E como tremiam minhas mãos! Entrei em cena, nunca olhe para o público, eu olhei. Casa lotada. Amigos surpresos com a batina.

O ápice da peça, para mim, seria nos primeiros cinco minutos de atuação, no momento em que eu conversaria com Margarida e explicar-lhe-ia a drasticidade do nosso futuro. E foi o que aconteceu. Usei de muita emoção. Foi coração e alma. E a cena termiraria com um abraço e Vivaldi Inverno Adaggio ao fundo. A cena foi tão forte e estarrecedora que o teatro sumira. Todos permaneceram em um completo e infinito silêncio matutino. Abracei Margarida. Ela me abraçou. Eu estava chorando de verdade, confesso. E não era para ser tão triste. Terminei com uma frase que não estava no roteiro, frase de amor, muito menos que eu pensava em dizer. Olhei para Margarida, olhar diferente que me acomedera de quaisquer escapes emocionais que pudesse viver em um mundo qualquer. Era um olhar direto e intenso.

Beijei-a.

Meu primeiro beijo. Um beijo vestido de batina.

E fôra um beijo diante de centenas de pessoas que sequer imaginavam que aquele beijo era muito mais que apenas um beijo técnico ou encenação. Um beijo real, demorado, lento e carregado de emoções.

Todo o teatro veio abaixo com aplausos e gritos dos meus amigos! A cena terminou, Margarida saiu de cena e perdi metade das minhas falas. Eu improvisava pedaços, remendava falas porque simplesmente estava em um estado letárgico de euforia e precisava demonstrar exatamente o contrário! Algumas cenas depois, o desfecho.

Era a primeira missa que Eugênio celebraria, depois de sua ordenação. O Rossi — polaquinho que estudara comigo e fazia papel de coroínha — entra correndo, esbaforido, “Eugênio, chegou um cadáver! Poderias tu encomendar-lhe as orações?”

“Claro, sem problemas”.

O cadáver era de Margarida. A sua segunda cena na peça. É claro que a peça teve novamente um tom pesado e até meio mórbido: Aproximei-me daquela mesa onde o magnifico corpo esticado pairava. Margarida, a reconheci na hora. Fitei-a por alguns instantes, passeei minhas mãos por aquele corpo (e isso não estava no roteiro, confesso) aproximei-me do seu peito e chorei. Novamente o teatro fechado em um silêncio absoluto. Levantei lentamente e a beijei. Novamente um beijo puro e intenso, meu segundo beijo na vida e no teatro. Um beijo onde ela apenas recebia meus lábios. Mais Vivaldi, melancólico, embriagando aquela cena de uma dor terrível.

Eugênio enlouquecera na primeira missa celebrada por ele. Rasgou a batina e se jogou no chão, contorcendo-se de dor e remorsos. A luz gradualmente apagou e a música sumira aos poucos. O público ovacionou toda aquela dramatização com aplausos em pé, urros dos colegas de classe e muitos gritos. Foi uma peça planejada para 30 minutos mas que em 15 conseguiu cortar as cenas mais importantes do celibato longíquo de Eugênio.

Minha primeira e única atuação teatral. Meu primeiro beijo. A única vez que chorei de verdade quando era para chorar de mentira.

A vez definitiva em que decidi não mais ser um seminarista. Havia me apaixonado por Janaína.

Primeira namorada, menina que eu conhecia desde a pré-escola. E o pequeno romance durou até o final de ano, quando ela mudou para alguma cidade interiorana de São Paulo.

Primeiro romance, mas não o primeiro amor, ainda.

PRAZER, RODOLFO.


sexta-feira, 24 de agosto de 2007 | 5:16 pm

rodolfo.jpgEsse aí da foto sou eu. Feio pra burro. Mais esperto que inteligente. Apresento minha vida aos sete anos de idade. Antes disso quase não lembro de nada interessante na minha vida. Aliás, duas coisas idiotas: Um soco que levei na cara e a minha primeira namoradinha.


O soco foi uma briga na pré-escola. Era contra o Diogo, um ogro grandão e e inchado de tanto comer salgadinhos. A gente se desentendeu, a situação ficou insuportável e eu o empurrei. Ele me deu um direto no nariz. Eu nunca entendi como ele aprendeu a socar uma pessoa com 6 anos de idade.

O bom de tudo é que a gente retomou a amizade dias depois e nunca mais o vi.

Até semana passada, quando ele apareceu nos jornais como traficante preso pela polinter.


O caso da minha primeira namoradinha foi muito pior que o soco. Eu disputei com o Vinicius, um colega de classe, a mão de uma bela donzela. A disputa era simples: quem corresse mais que o outro e a pegasse, também na correria, seria o dono da mocinha.

Eu ganhei, ele ficou bicudo e foi embora. Ela olhou para mim, eu olhei para ela. Ambos com cara de ué. Não sabíamos o que fazer. E meu namorico acabou com o recorde de 12 segundos de duração.


Isso aí foi a minha vida até os 7 anos. Nada de mais.

Agora com 7 anos a coisa mudou de vento: conheci o inferno, por uma das empregadas domésticas que fazia às vezes de babá-copeira. Sim o inferno. Até então eu era um menino corajoso, destemido e invencível. Aquela empregada tinha nome Jurema, morava em um pequenino sítio e contava diariamente peripécias e aventuras de seus irmãos.

Eu adorava aquelas histórias. Eram carregadas de um ufanismo perfeito. Moravam em rancho de chão batido, foto de casamento colorizada na parede velha e escura. Mas tudo ali era empolgante. A panela de ferro carregada de dobrões e réis velhos. Herança devastada de um avô descuidado.

E Jurema apresentou-me o inferno.

Contou a história de um pobre homem da comunidade. Foi roubar milho à noite, entrincheirou-se na plantação, começou a quebrar as espigas. Bom homem não era, tinha lá suas maracutaias e desatinos que o condenavam, E o capeta apareceu em sua frente, oras! O Homem correu, mas o diabo é forte e sagaz. Pegou-o pelos gargumilhos e o abanou, como se fosse uma marioneta. Pobre homem aquele! Jurema ficava aflita, “Olha, ate arrepia meus pelos do braço!”.

Jantar e Jurema foi embora. Meu quarto ficou escuro demais aquela noite. A cama tinha um espaço vazio ensurdecedor embaixo. O armário, lugar que sequer admiti existir qualquer monstro (monstros, há, valha-me, nunca acreditei mesmo!) Agora era um lugar de trevas. Trevas cercando-me. Aquele homem fazia coisas que não deviam. O diabo apareceu-lhe. Eu fazia muitas coisas erradas. Qual moleque não faz coisas erradas! Eu andava com uma corja de bandoleiros naquela pequenina vila!

Droga, perdi minha invencibilidade espiritual aos sete anos de idade. Conheci o demônio, por tabela. Sabia que ele poderia estar na espreita, fitando cada merda que eu fizesse. Mas o demônio ali era furtivo e cauteloso. Porque qualquer demônio sabe que um imprestável menino de sete anos possui muito mais anjos da guarda que qualquer outro.

Jurema… Ah, Jurema, como às vezes tenho vontade de te esganar. Ou te agradecer. Não sei ao certo.

O NOVO PERSONAGEM ELEMENTAR


quinta-feira, 23 de agosto de 2007 | 2:51 pm

Criei um camaradinha que vai ser uma espécie de fantoche virtual do MadCap. Um menino chato e idealista, com uma pitada de inocência e descompromisso vivencial.

O nome dele é Rodolfo, e terá residência na categoria “O menino que não existe“.

Qualquer semelhança com personagens, nomes, locais, objetos ou marcas será mera coincidência.