MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

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Viver de hojes

19 de julho de 2007

Viver é conseguir mudar dia-a-dia os sentimentos que apenas postergam a existência de qualquer minh’alma. É ser um outro e este mudar como queira. Sentimentos de um passado ontem, de uma realidade agórica e de um futuro pertinente e insensato.

Não viver é destruir o passado em patacoadas e desatinos. É iniciar invariavelmente todo dia o desejo de não se ausentar. Apenas estar aqui é ter a complacência de uma virilidade marginal, uma toque no âmago do que realmente somos. 

Nesta noite, tempo qualquer, a vida incendeia-se como um nada. É na escuridão de um sono incontido e agonia insone que aparece a necessidade da sua luz. E essa sua luz quem sabe nunca existiu, essa noite nunca aconteceu, a agonia sufocada em tormentas apenas arraigou-se de tédio compulsivo. Quem sabe eu não tenha existido, sou apenas consciência vã, sua apenas lembrança.

Amanhã, ah o amanhã! Será qualquer outra coisa sem sentido. A intocada vida amanhã encarregar-se-á de recompor a estafada mente em novos torpes desvarios.

Famoso tempo

18 de julho de 2007

Vez ou outra, por alguns raros e apoucados momentos, começamos a exercer uma simplicidade vã e nos tornamos celebridade incondicional. Sim, monumentos homéricos de perfeita convicção.

E é nesse momento estranho aos olhos alheios que se percebe o quão dificil é ser o que nos resta sempre em outros dias: nós mesmos.

Ah, mas hoje nublou o céu, esfriou a alma e corrompeu-se a alegria. Sim, dia de martírio. Chôva então!

Quer o que? Tem gente que sequer esboça alegria ao ter sonhado qualquer coisa.

Capítulo final do livro 2

18 de julho de 2007

Fotos em preto-e-branco na parede. Um garçom despreocupado com a vida. O dono do bar, fiel ao futebol no rádio de ondas médias, alheio à tudo.

Na pequenina mesa de madeira, bamba e gasta, um diálogo caloroso e intenso. ali a luz apoucada deixara uma penumbra esfarelenta de escuridão suja. Gente ociosa vagando pela calçada úmida. Pouca gente. Mais vento gelado de inverno mesmo, assoviando tristonho.

Entreolharam-se o casal da mesa bamba e gasta. O desespero de não saber interpretar olhares intensos deixou aqueles dois pares de olhos, assustados.

Uma leve brisa derruba um guardanapo. Abaixaram-se juntos. Mãos entrelaçadas sem querer. Olhares, agora na altura dos joelhos. O beijo era a única certeza aparente.

E beijaram-se oras! Embaixo de uma mesinha bamba de bar deserto, pode?

A noite era de domingo moroso: olhares, um beijo furtivo. Madrugada gelada. E tudo isso enquanto o mundo adormecia.

Ou fazia amor.

Duas vidas

18 de julho de 2007

Tinha eu a facilidade e o talento congénito de reunir amizades sórdidas. Isso cansou. E nunca mais tive amigos, não que me faltassem esses extraordiários reis e rainhas da adulação babarosa.

É que os parcos padrões de amizade que eu originara aqui fôra mesmo um lapso de meus sonhos e utopias.

E os resquícios disso não são mais amigos. Não os tenho mais.

A minha falha constante e o gozo da voluptuosidade mostra-me algumas vezes a consideração que de tudo serei grato: o que dantes eram decididamente poucos e bons amigos, hoje considero irmãos.

Posso enclausurar-me com essa descrição, mas irmãos é o que são.

divisor

Não veio de graça. A vida que aqui vivi e essas pequeninas esculpturas de detalhes e relacionamentos passageiros caem-me como rotos afrescos memorais.

Foram momentos vis que me fizeram esquecer alguns propósitos interessantes da vida, a perda de algumas direções, o gozo da plenitude de emergir (ou afundar) em emoções descompassadas. Um gozo de não perceber que apenas meus reais desejos indeléveis povoassem sentimentos.

Sonolência desanimada de uma vida nova. Sonolência desanimada de querer viver a espiritualidade de uma bonança superior, não apenas se entregar, assim vagamente à libertinagem implícita naquele meu olhar de cachorro louco.

Não sei ainda se fôra uma soberania enclausurada de viver. Quem sabe? Quem sabe apenas minha alma esbatida em cores amenas de um amor não sentido.

Ensaio disperso

18 de julho de 2007

Ainda está impregnado a sonolência implícita do meu olhar moribundo, não?

Inconsistente por uma brumosa e triste realidade de espirito é a cidade que te carcome em um tédio prazeiroso e inquieto, sofrível, consciente. Uma rotina quotidiana esplendorosa e hipersensível que te desatina dia-a-dia.

É o descompasso ínfimo que margeia tua vida.

Trágico isso. Trágico atentar à tua sensação de perfeição marginal. Trágico não te atentar. Quem sabe?

Vejo que algumas pequenas coisas nítidas te confortam. Sensações que te orgulham. E te orgulhar dessas palavras tempestuosas é o mesmo que respirar essa grandeza própria e furtiva. E você ainda treme! Não sabe se esse orgulho é resquício de timidez audaciosa. Porque te conheço, e sei que tuas pequeninas gafes amorísticas são rescaldos de um fogo insandecido que te acomedeu. Queimada em vão. apenas essas sardas te provam. E povoam.

Typewriter

18 de julho de 2007

            Estou
         mais velho.
       E isso significa
     obviamente  que  os
    mesmos  pensamentos
   à todos me é comum:
   devo estar mais
   paciente, ter
    progredido  e  a
     cultura  me  atraiu.
       Estar   mais   velho
         me remeteu ao passado
           um   tanto  longíquo
            de que antes  eu era
            poeta   e   romântico
           incurável e que minha
         vida  estaria  fadada
       ao amor  incontido  e
     infinito. E estar mais
    velho me percebeu que
   perdi um pouco da
  prática poética
  incandecida que
   metricamente me
    aliviava o amor.
      Há  muito  amor
       naquelas  poesias,
          incontestável isso!
            Mas aquelas métricas
              absortas  extraviei
               e nem dei par de que
                 isso  era  a única
                   contextualização
                     amorística  que
                       tive. E o qual
                         sentimento o
                          substituiu, se
                         é que substituiu?
                        Ainda é  a conversa
                       de que sou o proclame
                     explícito de minh'alma,
                   a quantificação de um
                 eu grandioso  e
               explêndido. É o
             mero discurso
           de de um outro
         alheio   que
        a mim foi,  um
        fragmento interior
         de vida pura.  Com
          a   idade,   aquele
           retrógrado sentimento
            de   nunca   saber  o
              que    é   realmente
                perdeu-se    e   não
                  me deixou triste não.
                     São  fragmentos  que
                       nem sequer percebem-me
                           como  dono,  tamanha
                              distância comeu  as
                                beiradas — o que me
                                 amedronta. Outras
                                 genialidades que
                                nem quero ter
                               sido eu
                            o autor.

Caiu

18 de julho de 2007

É noite fria. Como uma garoa de noite qualquer, que sorrateira vem, e no prazer de ver o pequenino fogo murmurar centelhas esfumaçadas, lacrimeja o mundo que a viu.

É noite fria, solidão descarada.

Perdas sensíveis, o carinho carcomendo a vida e o sorriso de um medo que apenas o contempla mansamente. Novamente a história da fogueira que sucumbe à fina garoa.

Nem era fogueira. Nem era garoa de noite qualquer.

Apenas um soluço esparso e uma dor de coração aflito.

Contido viver

18 de julho de 2007

A vida é uma corrida irriquieta e furtiva. E a velocidade dessa corrida irriquieta trafega sempre na iminência de momentos únicos. A delícia de aproveitar esses momentos está justamente em conseguir suprir de medo contínuo a certeza da imunidade.