A vida é efêmera. A morte é fácil. Complicado é o tudo que fica para trás.
Morrer é acabar por sermos outros, totalmente.
E é por isso que o suicídio é uma atitude biltre e covarde; é entregarmo-nos totalmente à vida.
A vida é efêmera. A morte é fácil. Complicado é o tudo que fica para trás.
Morrer é acabar por sermos outros, totalmente.
E é por isso que o suicídio é uma atitude biltre e covarde; é entregarmo-nos totalmente à vida.
Ele não sabe bem o porquê de estar de joelhos naquela travessa estreita. O chão úmido reflete algumas luzes difusas das vitrines de roupas cafonas. Uma atraente garota caminha em direção oposta. Não desvia o olhar em nenhum momento. Ela tem um sorriso gostoso, seus dentes são alinhados, não têm pontas os seus caninos.
Os olhos pesam, a respiração dificulta. Pensamentos claustrofobicos e presos. Não sabe que tem de morrer agora. Não sabe nem se isso é morte ou fraqueza.
As luzes das vitrines apagam-se, uma a uma. Uma pesada e negra nuvem encobre a lua. Os poucos e fracos postes apagam-se. Silêncio. Inércia. Estabilidade. Escuridão.
Morrera de joelhos, e nunca soube ao certo se sucumbira ao chão úmido e gelado da noite de ópio por um desatino daquela mulher de negro.
Ele detestava a vizinhança; sabia que o escarneciam, que o imitavam, que lhe chamavam o contador de sonhos! — Pois também dele não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade!
Vinham de carrinho! Boa!
Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro. — Para uma ocasião! — pensava com humor, sacudindo o mouse velho e encardido. Mas também os amava. Detestava e amava, amor e ódio, vida e morte. Virtualidades e realidades difusas, ali, naquela página estranha e maldita que viciara muita gente incauta.
Chamavam-lhe auspicioso — mas era celerado mesmo.
Era domingo, pé-de-cachimbo. Chuva mansa, gotinhas leves, espalhadas e inconstantes. Almoço de familia, na casa do patriarca. Só para situar, a casa ficava em uma pacata rua onde acabava em descida um pequenino parque de brinquedos.
A criançada faz bagunça, corre-corre pelos corredores, o avô sorri da alegria de todos. A campainha toca. Alguém vai lá fora ver.
Era um menino, provavelmente da rua de baixo, ou umas duas ruas para lá. Pequenino, estava com um guarda-chuva. Trazia junto de si um cachorro à guia. Ambos estavam visivelmente tristes.
Ele contou, entre um soluço e outro, que aquele cachorro o acompanhara a vida toda. Era seu melhor amigo. Mas estava velho e doente. Seus pais não o querem, não têm como gastar com aquele pobre pestilento. O cachorro estava muito abatido, percebia-se claramente em seus olhos. Estavam indo de casa em casa pedir ajuda para o pequenino animal.
Aquilo cortou o coração de todos na casa. O tio mais velho conhecia um veterinário. A tia balzaca e solteira, encarregou-se de arrecadar dinheiro. O menino agradeceu, iria esperar lá no parquinho do final da rua.
Todos reuniram-se à mesa. Era uma bagunça só. Muito barulho, felicidade. Após a refeição, foram ver a quantas estavam o menino e o cachorro.
O guarda-chuva estava fechado. O pequeno animal, deitado no banco, imóvel. O menino, com as mãos na cara, escondido entre os joelhos recolhidos, em prantos.
O cachorro, provavelmente sem raça, sem credo e sem estirpe alguma, havia morrido. Podia ter sido velhice. Podia ter sido alguma doença. Mas o fato de ter sido melhor amigo daquele franzino moleque que chorava sua perda, simplesmente emocionou aquela rua inteira. Não era só o tio mais velho, não era só a tia balzaquiana. Era cada casa ali, cada morador daquela rua em que ele pediu alguma coisa, que compadecera com aquela tenra situação. Todos almoçaram bem, todos queriam ajudar.
Encontrar aquela criança, naquele banco, naquela situação em um dia de chuva realmente não foi nada fácil para os moradores da pacata rua.
Tenho medo dos blogs. Antes eram serezinhos inofensivos, cativantes pela sua beleza estampada. Hoje, anos de fama transformaram o que dantes eram coisas belas em monstros dilacerantes sedentos de comentários.
Esmoleiros virtuais viciados em contadores girantes.
Enfim, perderam-se na selva da existência.
Suas faculdades mentais estavam abaladas e seu controle, esparso. Nada mais do que antes era poderia tornar-se realidade novamente. Não mais aquelas mulheres sofisticadas e perfeitas o queriam em suas vidas. Não mais galantear donzelas. Nem se ater a disparates provocantes.
Hoje a vida se tornou muito mais do que apenas vaidades mundanas. Queria saber porque raios ainda o provocavam. Era claro o desinteresse por complicações, era claro a acomodação da ignorância.
Queria apenas ler um bom livro.
Mas as idéias velhas e ressecadas ainda circulavam à sua volta, zombando baixinho e sorrindo, ironicamente como a vida o é.
Quarta-feira está bom. Aliás qualquer dia serve. Dizer que quarta-feira está bom é apenas conveniência. Nunca nada vai estar bem nessas condições. E ler um bom livro para que mesmo? Ficar mais culto? Suas palavras tornaram-se silêncio. E seu silêncio acabou por se tornar a mudez do longíquo infinito viver.
Aliás, quarta-feira não. Quarta tenho mais o que fazer.
Ao observar uma mulher é necessário muito mais do que a simples subjetividade de um mero olhar quando deparar com uma diva. O olhar às vezes escapa aos sentimentos mais profundos. Não simplesmente a olhe, deleite-se com os sentimentos mais profundos. As mulheres fogem ao que se diz objeto. Observe-as sem as vê-las, pois desta forma sentirá uma coisa que o atraiçoa por dentro, um leve torpor, um frio na barriga.
Mulheres adoram observadores distintos.
Observe captando o que aquela mulher tem. Você pode desejar, isto é normal e biologicamente explicável. Desejar várias mulheres, é comum, mas para saber de verdade o que é uma mulher, escolha uma forma que o agrade particularmente. Ninguém é igual a ninguém.
Pouquíssimas mulheres conseguem abrir a guarda de um homem.
Já dizia Milan Kundera “O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito à uma só mulher)”.
Ao observar uma mulher, venere. Mulheres são mais quentes quando observadas (ou veneradas).
Sinto a orgia de fatos, dos mundos novos e suas novas portas que se abrem sem cessar. Algumas novas desilusões, é óbvio. Novos sentimentos que martirizam nossas novas pessoas.
Sobriamente, trago-ante-trago, delicio-me com fúteis lembranças de palavras doces e salgadas, que dançam alegres sob a melodia de minh’alma.
As vezes é interessante relembrar fatos e embeber em alegria movimentos antigos. As vezes é necessário enterrar amarguras, sentir que sua música já não tem partituras, amar pessoas mesmo que inseguras, beijar bocas, mesmo perdendo a compostura. Viver, calar-se, deixar transpirar o sentimento de derrota para aflorar alguma vitória.
Quase derrota-após-vitória-após-derrota.