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Arquivos da categoria ‘ensaios’
O pessimismo desconcertante
17 de agosto de 2007
Tem um monte de gente que acha que sou um babaca egocentrista ou um pessimista inveterado, um sujeito baixo e descriterioso que não gosta dos humanos só por não gostar mesmo. Birrento.
Então vou contar porque sou o cinismo em pessoa.
A verdade? Eu não me importo — e estou sendo o mais sincero possível — com o mundo cotidiano. O dólar subiu ou desceu? Não sei. O presidente conseguiu a reeleição? Parabéns para ele. Não quero saber se o governo boliviano roubou a Petrobras. Ela não é minha, não tenho ações dela. Não me interessa se o terror está deixando os americanos mais neuróticos. Pouco me importa se morrem 80 ou 120 pessoas em Bagdad, por dia, porque explodiu dois carros-bomba. A amazônia está sumindo em uma proporção incrível. Meus pêsames para ela. Fico apenas com dó dos orangotangos, elefantes e girafas que por lá moram.
Tentei, por dez anos, mudar o mundo. Juro! Fiz de tudo. Fui bonzinho, caridoso, atencioso, protestante, ativista, grevista, petista, comunista, vanguardista, causista, greenpeacisista, filantropo e atônito. E de nada resolveu. O mundo continuou cruel! Os muçulmanos continuaram a guerra santa. A fome aumentou. A AIDS matou mais do que deveria. Ajudei, bem ajudado, umas 30 pessoas, uns 5 cachorros, 12 árvores que nasceram dentro de um saco e invariavelmente morreriam sem minha intervenção. E quer saber? De nada adiantou.
O Brasil está uma merda. O povo brasileiro é a raça mais desgraçada que poderia existir. Odeiam a terra em que vivem. Mijam nos monumentos, apodrecem a pátria. Pasmem: alguns sabem cantar o “Star Spangled Banner” mas não sabem o que é o lábaro que ostentas estrelado. São americanos em pele de latinos. Veneram RBD, JayZ, J.Lo, 50Cent e desconhecem o maracatu atômico ou o cordel do fogo encantado.
É a placa ali no semáforo, mais cínica do que eu, que diz: “Esmola não dá futuro!” mais abaixo, em letrinhas miudas: “Não alimente o narcotráfico, o comércio ilegal de armas, o tráfico de escravos” “Não alimente os animais indigentes”
É o mendigo que não sabe seu próprio nome, data de nascimento, o que é, realmente.
É a mulher nojenta que ostenta a soberba incrível ao xingar o vendedor de panos alvejados na janela do seu carro blindado.
Hoje não tolero muita coisa, mas dou R$10 para um mendigo no sinal. Aliás, dei meu guarda-chuva bonitão, escocês, que me acompanhava há 10 anos, para um menino que estava na chuva. A cara de felicidade dele valeu muito mais do que qualquer sorriso humanitário que já existiu.
O mundo é marginal, meu filho.
Está caótico. Os bandidos são muito mais malvados do que você imagina. Não acreditam mais em Deus. Acreditam em um canela-seca enferrujado que botam na cintura. Os ladrões abrem seu carro em 3 segundos. Os larápios da internet secam sua conta bancária em 12 segundos. Os seqüestradores-relâmpagos passeiam a noite inteira contigo dentro do seu próprio carro e você não vai saber, ao certo, se sairá vivo ou queimado dessa merda toda.
Orkut para ver a desgraça que a vida das pessoas que conheci em um passado remoto se tornou. Aliás, como tem gente que não evoluiu patavina nenhuma!
Aliás, o Orkut tem uma comunidade que coleciona perfis de pessoas que morrerram. E quanta gente está lá, como urubus, esperando o próximo morto para desejar um “descanse em paz”!
As pessoas gostam de ver tragédias. Gostam de ver carros batendo. Gostam de ver gente morta. Curtem jornais-carnificina.
Pornografia. Putaria desenfreada. Sexo, drogas e rock no sentido mais lascivo e promíscuo. Mulheres-objeto, fotografias amadoras com as câmeras digitais em motéis furrépas de R$5 a hora.
Quanto mais, melhor.
Maconha e pinga para ficar doidão. E perder a realidade que pinica as ventas.
Essa é a humanidade de hoje.

Não escrevo mais como deveria. Talvez porque fiquei velho. Todas minhas histórias eram reais demais, e eu não sei mentir. Nunca menti. Sempre vivi da realidade crucial que beirava a verdade. E isso me matou justamente porque acabou minha experiência de vida. Apenas alguns pequeninos trechos cotidianos sobreviveram.
Meu videogame é mais expressivo. Minha coleção de DVD´s é mais expressiva. Meus desenhos morreram, minha criatividade espreita melhores dias. E espera com paciência.

Bah, esqueça. Eu minto, e minto muito. A base da literatura é a mentira. A falácia, o desencontro real da vida presencial.
Eu escrevo muito. Adoro escrever, e isso é um processo bem desencadeado.
O problema é a realidade.
É a falta de discernimento entre o certo e o errado. Entre avançar e esperar a hora.
É a teimosia de tentar escrever ou desenhar coisa belas e inteligentes, enquanto a massa anda na contra-mão disso tudo, à sotavento, enquanto eu teimo barlavento.
Meu mundo é muito grande. Conheço toda a escuridão podre e fétida. conheço o feio, o subversivo, a morte que ronda todos, a corrupção, o suborno, os sete pecados capitais, os maconheiros, os traficantes. E conheço a luz, a seda, a alvura, o brilho do cabelo sedoso, a paz, o cheiro de banho tomado, a música compassada, a inteligencia, os bons costumes, o respeito e a ternura.
Ainda assim, gosto mais da bela vida justa e sincera.
Tenho esperanças, tenho fé, o que são, no fim das contas, coisas boas.
Filosofia barata
30 de julho de 2007
Viajando um pouco na condição humana e na concepção metafísica do homem, hegemonismos e diferenças: o homem é um ser racional porque toma atitudes inteligentes, tem a capacidade de abstração e resgate de passado, condicionando o pensamento.
Tudo isso faz com que o homem tenha a condição adquirida de ser humano. Platão mostra a realidade material fundamentando a explicação além da natureza. Apresenta suas duas realidades, mundo físico versus mundo de idéias.
A essência humana é a razão.
O corpo humano é o cárcere da alma, a punição.
Paixão é tudo que ofusca a razão.
Por que há transcendência da alma pura do mundo de idéias, perfeito, original e pleno, para sua cópia imperfeita, o mundo físico limitado e imperfeito?
Morosidade e poesia
26 de julho de 2007
Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer comentários e imagens as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha idéia de os achar belos.
Só não lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam.
Eu nao me queixo pelo mundo. Não sou pessimista. Sou apenas triste.
Voyeurismo
26 de julho de 2007
Moro em um apartamento onde as janelas dos banheiros são grandes e envidraçadas. Gosto de tomar banho de luz apagada, por dois motivos: um é que relaxa muito e outro é que eu posso deixar as janelas completamente abertas, o que permite contemplar toda a vizinhança e as ruas em volta.
Na frente da janela do banheiro tem um prédio. Deve ficar a uns 30 metros de distância, o que já limita meu campo focal. E uns 5 andares abaixo, tem uma vizinha muito bonitinha. Todo dia eu a observo, enquanto a água gelada salpica na minha cabeça. Mora com os pais, tem um irmão, veste-se impecável, tem pijamas feitos de camisetas velhas. E tem um computador em seu quarto.
Aquele prédio tem muitos outros vizinhos, mas todos muito comuns. Só aquela janela, daquele quarto, com aquela moça, interessa minha observação diária. Diria que sua idade beira os 20 anos, estuda à noite.
Hoje achei um binóculo velho, caído em um canto qualquer. Relembrei o porquê dele estar esquecido: era vesgo. Limpei a lente, mirei em cheio com o instumento em posição “monóculo”, naquela única janela que me interessava. Invadi sua privacidade. Li as palavras que estavam escritas em seu mousepad. Naveguei lentamente pelo seu quarto, cama, estantes. Fiquei observando-a, enquanto ela digitava constantemente. Devia ser algum chat ou instant messenger. Ela esboçava um olhar sério, triste. Raros momentos em que sorria de canto de boca para a tela. Algumas vezes inclinava-se para frente. Outras, ficava imóvel, deixando apenas seu indicador rolar a rodinha do mouse.
Ela conversava com alguém que não a via, mas sabia o que ela estava dizendo. Talvez esta pessoa nunca a tivesse visto antes, apenas desenhava em pensamentos seu semblante imaginário perfeito.
Eu a via, mas não sabia o que ela estava pensando ou escrevendo. Não sabia sequer o seu nome, mas já estive passeando pelo seu quarto, por sua intimidade.
Uma invasão inocente. Incoerente. Imagino quantas pessoas estão agora empoleiradas, observando-me enquanto escrevo. Deixei a janela aberta, o outro prédio vizinho pode ter alguém me visitando neste instante.
Alguém pode estar te vigiando agora
Voyeurismo hoje em dia é moda. Reality Shows estão aí para provar. O mundo tornou-se voyeur porque as pessoas vivem cada vez mais isoladas.
A nossa sociedade é muito curiosa. O ser humano é curioso. Isola-se, mas tem a necessidade de conviver. Então trava um telecontato, só do olhar. Só que o isolamento leva ao empobrecimento afetivo, é um convívio egoísta. A pessoa se sente segura porque acha que pode se desligar daquele contato a hora que quiser, mas continua isolada.
E essa curiosidade extende-se mais ainda: fico imaginando você aí, lendo este blog: quem são essas 5 pessoas online no site? De que parte do mundo estão acessando? O que estão comendo, o que estão escutando?
A curiosidade cria situações fantásticas, como sempre. E nunca vamos saber, ao certo, o que se passa ao nosso redor.
Mentiras
26 de julho de 2007
Mentiras e curruptelas são apaziguadores sociais e sem elas a vida seria um verdadeiro inferno social. Estamos cercados de mentiras. Estamos cercados de mentirosos. A mentira é a nossa harmonia relacional. A mentira construiu a base social da civilização, criou conceitos abstratos. Igrejas criaram a fé em situações improváveis, criaram mitos e heróis invencíveis.
A mentira é o equilíbrio em uma sociedade íntima.
Animais irracionais mentem. Animais irracionais fingem.
O homem não existiria racionalmente se todos os sorrisos esboçados fossem de felicidade, nem se todas as lágrimas fossem de tristezas. Conformismo e expressionismo são equilíbrios que nos estabilizam e confortam.
A mulher patológica
25 de julho de 2007
O telefone tocou e ele não atendeu. Tocou novamente. Sabia quem era, sabia o porquê daquela ligação. Na terceira vez, atendeu com uma voz fria. Ela queria vê-lo, queria conversar. Ele apenas respondia suas questões.
Ela estava carente. Carente e tarada — mais precisamente. E sua súplica quase o convencera.
Ceder uma visita à ela seria voltar-se contra seus princípios. Ceder seu corpo novamente para aquela mulher seria amargurar sua vida já amargurada.
Negou. Venceu-a com sua lábia descabida. Simulou um mal-estar, desconversou-a. Despediram-se.
Ela percebeu que ele não era mais tolo, usável e fútil. Ele percebeu que estava ficando forte. Estava ficando, não era ainda.
Se fosse forte não lamentaria, pensativo e impaciente. Sua vontade de possuí-la ainda o carcomia por dentro. Mas por hoje a batalha havia se encerrado.
A mulher ciumenta
25 de julho de 2007
A mulherzinha era ciumenta e possessiva. Desconfiava da mulherenguice do seu marido. Chamou a amiga, tramaram um plano: ela daria em cima do canalha.
É claro que para aquela mulher, seu conjuge era culpado, até que se provasse o contrário.
Dia desses ele estava sozinho em casa. Era tarde da noite, calor insuportável, futebol na televisão. Ele estava tomando uma cerveja. A campainha tocou, era a amiga gostosona da sua esposa.
Ela entrou, ele fechou a porta. Ela insinuou, ele se fez de desentendido. Sentaram-se no sofá. Ela pousou a mão sutilmente na coxa do homem. Ele a olhou, beijaram-se vorazmente.
— Canalha! Sua mulher tinha razão! — Disse ela, interrompendo
bruscamente o beijo.— Razão? — Ele retrucou, na esquiva, tentando entender.
— Ela tinha razão… Seu beijo é quente! Vem cá que vou arrancar sua roupa.
A amiga e o mulherengo viraram amantes.




