MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘ensaios’

Insensato e Vil

8 de janeiro de 2008

O desespero sempre entrega algo importante. O fluxo progressivo das sensações corporais deve diminuir pra dar lugar à dança desordenada das idéias livres: soldados carregam uma bandeira americana semi-transparente; uns grossos nervos despolarizam-se fazendo longo caminho entre o estímulo e o reflexo; uma vontade de arrastar as mãos molhadas pelos azulejos brancos do banheiro, pra sentir os limites retos entre cada superfície lisa; o ardor e a sensação trêmula de um choque elétrico do fio desemcapado entre os dedos; uma farpa que penetra a pele e a conseqüente pressão do aperto dos dedos para sair a primeira gota de sangue; o medo de ter perdido a carteira e a sofreguidão de tentar lembrar o que tinha dentro, enfim, imagens e impulsos que ora se mesclam e ora se repelem rapidamente.

Do deserto tem de sair alguma coisa. Um lagarto, um torrão de sal ou bastante sede.

Do desterro sai quem volta aliviado pro país, casa ou cidade.

O desespero sai um estigma de dor e alívio: afinal, o desespero é rápido e intenso.

O susurro da canção em baixa frequência no ouvido denuncia o joguete:

I heard her say over my shoulder

‘we’ll meet again someday on the avenue’:

tangled up in blue

Voe bem, infiel!

18 de dezembro de 2007

Chegou a hora camarada! E graças ao seu esforço e seu sucesso profissional, pela primeira vez na vida você viajará de avião. Fantástico! No entanto, imprima este guia anti-jequice e siga rigorosamente todos os passos para não pagar de caipira ao alçar vôo pela primeira vez!

Manual básico da viagem de avião

Três metades

17 de dezembro de 2007

Uma metade minha anda feliz. Com sapatos que brilham e refletem a vida em uma angular distorcida. Longe de mim e feliz.

Outra metade, contemporiza de um lado. Bebe um vermute e fuma cigarrilha de folha de parreira.

A terceira metade, essa sim, insiste na regra dos terços: não toma partido; não se mete nessa de bipolaridade existencial. Insiste que comiseração e auto-piedade não vão servir de ajuda. Culpa a felicidade — tal e qual uma borboleta filha da puta — que sempre se evade de quem a busca com assombro.

E por mais que esse terço realista espere e saiba do vôo errôneo do inseto, ela não pousará no seu ombro.

Personificando F.Pessoa

12 de novembro de 2007

Hoje, como d´outras amargas vezes, recordei do passado perdido que escapou das minhas mãos.

Uma bela época que agora fita-me por um belo espelho d´água vertical, por olhos de um outro que fui e que agora há de me escarnecer.

Chacoalha a cabeça em tom de repreensão enquanto me olha da cabeça aos pés. São as roupas que uso agora, não é? É o corpo cansado e a melancolia que me escapa pelos movimentos e olhos, reações e consentimentos. E isso é uma bela de uma intimidação perante um ragazzo altivo e forte — lobo de seu destino.

Vitoria e derrota da própria essência, pelos céus e infernos terrestres. Simples competição vivencial, por assim dizer. Diluo inveja com tristeza e percebo os limites exactos do seu desapontamento primordial. Tento me desculpar, polido, mas ambos sabemos que é desnecessário por ser em vão. Sinto um profundo mal-estar de um banzo por uma terra que não existe mais, pois ele sabe de todos os meus pensamentos obscuros e de tudo pelo que passei e cedi para estar aqui, apenas existindo, sobrevivendo em um ritmo cada vez mais difícil, porém compulsório. Minhas loucuras são hoje medíocres e meu élan transformou-se em conformismo denso, moroso e sufocante.

E aí a me pergunto onde estou e o que realmente preciso fazer para respirar. Encontro-me no meio de um caminho que desmorona atrás de mim, e então sou obrigado a correr para não ceder junto, meu Eu amigo.

Sei que a tua alegria definhou em mim, mas vaga nos limites demarcados pelo que fiz, pelo que fui. E é essa a beleza da reconstrução de um passado perfeito: fica intacto e cristalino como a memória que me trai reiteradamente; não pela falha, mas pela clareza e precisão em me mostrar um claustro que eu mesmo ergui à minha volta.

Não tenho uma fração da minha coragem de outrora: tenho medos multiplicados, receios infindáveis.

Assusto-me até com o que sou, dentro da minha pele de um animal domesticado e à caminho da imolação. O que tenho pela frente, senão uma longínqua esperança de guinar minha marcha e sair pelo prado da liberdade?

Aprendi que lonjuras são vencidas até com a fraqueza do ânimo, e a minha distância para a mudança tem agora o tempero da minha vontade. Ouço ao longe os tambores de um novo combate que se anuncia. O combate entre a inércia e a vida. Vida, vida, prepare casa que estou de volta! Com todos os sons e com toda a energia que agora mostra faíscas dentro dos meus olhos e centelhas que esbaforam ao meu ofegar.

Do velho espelho de água que me refletiu, nada me importará o passado, do reflexo que fez dobrar meu medo sobre si mesmo.

A Telefunken dos olhos amendoados

10 de outubro de 2007

Eu preciso de um pouquinho de paciência. Da sua paciência, para ser bem exato. Preciso que você se acomode, relaxe e se acostume. Sossegue sua alma, sua busca frenética por algo que nem você sabe direito o que é.

Aliene-se.

Quero que você aceite essa bela reprentação de época, bem em seu focinho.

Com a prática tudo fica mais fácil: aceitar a não-ficção da realidade bestial? Pôxa vida, que tranquilidade! Seus pais jamais reclamaram quando o cinzento dos antigos televisores imperava; estavam maravilhados demais com o que tinham, jamais julgavam possível um arco-íris eletrônico.

Agora as caixetas plásmicas teimam em capturar as paisagens, pintam com pincéizinhos colorizantes e embrulham em diversificadas estações para um belo motivo: acalmar você, que, por obséquio, deveria estar acomodado lá na poltrona do papai, semi-babante.

Acalme-se. Acabe por se iludir e considere que essa atual sofisticação de revolução visual como sua própria realidade fielmente transportada.

Ao menos esta convicção fará com que você interrompa este intrépido viver e deixe intacto um bom pedaço de mundo para os que colhem a realidade com retinas de carne. Leve as plásticas flores artificiais achando que colheu genuínos jasmins do campo, perfumados, perfeitos.

Mesmo porque cada flor real colhida do nosso jardim secreto, cheiroso e verdadeiro é um televisor a mais no mundo.

Desligado, é claro.

Cuidado ao criar alter-egos

6 de outubro de 2007

Etelvino criou um alter-ego louco. O personagem é metade do que já foi — seja lá o que tenha sido — e que, no final das contas, não era muita coisa. O novo-alter se intitula franzino e se projeta como um homúnculo, com um coração do tamanho de uma semente de pau-mulato e dois rins de feijão carioquinha. Esse alter-homenzinho veste um terno Allain Brenauldt todo abrancalhado e com um vistoso lenço vermelho no bolso. Gravata de um grená de flandres e ornado de flores-de-liz em fio de penteado dissonante. O personagem-ego atribui sua miséria e desgraça existencial ao estranho fato de ter nascido num dia primo de um mês ímpar em um longíquo ano bissexto secular.

O avatar tem umas duas ou três músicas que repete obsessivamente na memória, e mesmo assim, só alguns trechos. Ele também tem pensamentos paranóides mas não os assume nem fodendo. Está na fina linha entre F:2.8 e F:22. O personagem-aquém anda se misturando com gente má. E Etelvino nem se dá conta.

Esse alter-dominante acorda pela manhã já pensando na noite, em duas hipotéticas verves: um, na hora em que vai voltar pra casa e dormir ou, dois, nas vagabundas do bar, que insistem em rejeitar suas propostas de sexo porco.

A infelicidade tragicômica é que Etelvino pensa que sabe o que está acontecendo, ou melhor, tem certeza.

E todos os outros-egos alter-rejeitados outrora se dão conta de uma infeliz coincidência: a cada alter-criado, um perfeito-ego mais forte e preciso domina o oco Etelvino.

A poesia do clique

4 de outubro de 2007

Dr. Ralph Spegel, M.S.C., emérito surrupião alvino, em artigo publicado na edição de Setembro de 2007 do periódico científico cibernético Divergentes Fronteiras Virtuais foi bem elucidativo ao enumerar as estratégias dos blogs legíveis em duas belíssimas categorias:

  • Os blogs com posts muito curtos, que não entediem o leitor, ávido por percorrer várias outras páginas, adepto da leitura frenética, acólito do culto à barra de rolagem, compulsivo da rodinha scroller-mouseana, investigando tópicos e os tomando como síntese da informação completa. Entregue-os o que melhor apetece à suas pressas: a velocidade da absorção visual é a síncope do escorreito saber.
  • Os Blogs com posts enormes, épicos em que, após um minuto de cronómetro analógico, não se consegue chegar ao final do post esfregando o mouse no paninho. Tal grupo de leitores não é adepto da compreensão absoluta, mas sim fragmentada, assim mesmo não pulando, lendo o texto por completo, sintetizando palavras, sorvendo conceitos, elucidando abnegações e disparidades, em um lúgubre exercício de desconcetração até o exato ponto em que as palavras lidas tanto-fez-como-tanto-faz e ele se joga num devaneio ébrio absorto. Ás vezes se cansam — é verdade — e saltam para uma outra página qualquer. Alguns clicam no “Continue lendo” e varam de onde pararam, para cima ou para baixo, não importa a ordem.

O homem do cabelo grisalho

24 de setembro de 2007

“Você precisa ter conhecimento de uma coisa, nessa sua vida de merda que vive, meu caro.”

“Pois fale, homem!”

“Saiba que a velhice nunca é um processo individualista.”

“Entendi nada.”

“Quando você envelhece, o mundo te acompanha como um cão sarnento. E é nessa convivência de mendigo que você se dá conta — tardiamente — da formação cíclica que a sociedade toma.”

“Boa.”

“Quando jovem — como você é, agora — Tua idéia de mundo é bela demais. Tudo o que é novo para você passa a impressão de que é uma novidade para todos. E uma novidade como essa acaba por se tornar uma jóia rara em seus dedos, um bem valioso que vale a pena portar como uma insígne dos tempos. Problema é quando você está em um período da vida em que sua próle ou os amigos dos seus bambinos reviram e remexem o entulho poeirento e prendem nos paletózinhos de escola uma insígnia amassada e sem brilho, de um metal nodoso e oxidado. É nesse momento em que você, velhaco que é, olha para a felicidade deles e percebe, tardio e doloroso, que os invisíveis oxidados outrora eram, erroneamente, o ouro mais brilhoso que você tinha visto.”

“Prolixo demais.”

“Veja, meu caro: nada me surpreende, sendo eu, coerente. Nem aquelas luzinhas piscapiscantes dos efeitos dos filmes incríveis de Hollywood. Por mais ignóbil que eu possa ser, já reconheci toda essa rebuscada previsão da previsível evolução técnica que abundaria ali; Os efeitos especiais da minha infância fizeram meu queixo bater no chão, tamanha surpresa que me acomedeu. E por ter batido no chão, não tem como descer mais. E a cada mentira bem-feita e contada, sabendo eu que era toda embuste, meu queixo sobe um degrau.”

“Uma constante incredulidade, presumo?”

“Sim. A remota e solitária possibilidade para deslumbrar o velho aqui bate justamente com a decadência física, que mostrando um mundo estranho à minha rotina adulta, plena e capaz, ainda assim não há do que se maravilhar. Ainda mais se o velho aqui gozar dessa boa memória que ainda me há de pregar peças. Ela vai me avisar, tenho certeza, de que já enfrentei essa mesma seqüência idiotizada na minha juventude deslumbrada, porém em um sentido inverso e que me mostrará, ó céus, um final desconhecido já conhecido da vivência esmiuçada, e é por isso que velho algum, como eu, é feliz. ”

“Por que?”

“O meu mundo, um mundo velho de um velho qualquer já deixou de existir faz tempo. Sinto-me exilado em um território aquém. Um lugar sem anistia qualquer que me perdoe. Minha dispnéia dizimou meu passeio pela carreiro do campo; minha miopia embaralhou as luzinhas de vitrines que piscam como vagalumes despreocupados; aquela marchinha que eu cantava, hoje nem assovio mais: minha mente pregou uma peça e não tenho idéia do que era. Nada do meu rosto se inturgescer de suor da minha amante vespertina: agora, só espreito a brisa, que encaixota minhas rugas pelo bafo de um vento alísio.”

“Uma vida morta, acredito então.”

“Há! Longe disso, meu caro. Eu ainda regozijo por minhas fendas mentais, em um abismo secreto — como jamais poderia deixar de ser. Não quero assustar jovem algum com os horrores antecipados. Mas a certeza de que minhas memórias se deleitarão em trocar meu insígne estandarte de vilipendiosas vivências por um casaquilho rígido e impossível de desafiar. Um guardião de lembranças eternas e monótonas. Frias, como qualquer silêncio tem de ser.”

divisor

O homem de cabelos grisalhos levantou da bancadinha de concreto. O rapaz, que até então não conseguiu achar um desfecho cético para o embate filosofal, ajudou-o com um puxão ríspido e seco.

“Deslumbrante sua força. Quase arrancou meu braço, brutamontes.”

“Velho ingrato.”

“Vislumbrado.”

“Nefasto.”

“Alienado.”

“Cético.”

“Cagão.”

E assim foram, por uma descida irregular de paralelepípedos, os dois novos-amigos-odiosos. O velho, bravio e estregueta, por saber justamente que estava… velho. O jovem, apavorado e ansioso, por saber que, fazendo tudo ou não fazendo nada, no fim, estaria a abotoar o paletó rígido e amadeirado do esquecimento.

“A vida é uma merda, catzo.”

“Deveras.”