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Arquivos da categoria ‘ensaios’

O existencialismo otimista.

22 de fevereiro de 2011

Keeping an eye on the world going by my window

Taking my time, lying there and staring at the ceiling

Waiting for a sleepy feeling

Talvez a humanidade não tenha sido feita pra felicidade.

Como um antigo que sempre dizia que não “portávamos a informação genética” para aceitar a idéia do infinito, talvez tal pricípio se aplique à idéia que temos do bonheur.

Infindável tristeza.

Para alcançar a prática da felicidade uma pequenina mudança passa a pôr em jogo a própria existência do espírito. Para ascender ao estado final das coisas, uma tal saturação de contentamento e de prazer força toda a inquietude abolida.

O que se tem hoje é apenas uma idéia vaga, imprecisa e, principalmente, nociva desse elemento vital.

E a impossibilidade da existência infinita é o fim de toda a imortalidade. É o materialismo, rôto, escarnecido. O ateu que sofre da crise de menosprezo, da amargura da solidão. O sentimento de alma que o corrói e expele o gozo de que algo mais existe e o atormenta. O próprio corpo, preciso, forte, lúcido e preparado, independente que se faz, sente essa presença coexistente.

É o desespero de ter que acreditar que um Deus exista.

E aí toda a felicidade que dantes esquadrinhada a se alcançar, solito e independente, molda-se em pedacinhos de fé indissolúveis. Chama essa força sei-lá-de-onde de qualquer coisa: alma jamais. Deus, criador ou outra coisa, jamais.

E o corpo materialista e cético se odeia por esses lapsos piscantes de alma etérea.

Desespera-se.

E você nem imagina o quanto.

A herança do tradicionalismo que nunca tive.

17 de fevereiro de 2011

Minha família é relativamente nova aqui no Brasil. Uma dessas levas imigratórias loucas européias, com um pouco de guerra, fome, miséria e brigas pontuais. Nada de glamour ou esperteza no processo; a coisa era subsistência e sobrevivência pura.

Acontece que nesse período curto de Brasil, a família, de um modo geral, passou por poucas e boas. Desde o auge das fazendas, extrativismos, comércio, marcenarias e beneficiamentos até a mais simples e usual bancarrota da mão na frente e atrás,  a vida passou da mesma forma calma e sorrateira.

D’além mar quase não veio nada, apenas uma canastra ou outra com roupas, meia dúzia de ferramentas e algum superfluo que se perdeu com o tempo.

Não sobraram lembranças materiais. Apenas histórias recontadas, fotos surrupiadas e lendas fermentadas com o tempo.

Dia desses tuitei uma frase que resume toda esta reação à praticidade:

Sempre gostei de velharias. Tenho um rádio Pioneer antigo de 1940, de baquelite, micromatic, com ondas curtas. Ganhei do meu avô, que barganhou com outrem e que, no final das contas, tornou-se parte desta herança adquirida e figurada.

A mesma coisa funciona com um tankard alemão de cerveja, feito de estanho, prata e cerâmica queimada. Encontrei na marcenaria do meu avô paterno, cheio de trapos e sujo de betume de madeira. Na época eu nunca tinha visto um caneco com tampa, achei muito legal e ele me deu. Disse que era um utensílio qualquer, que tinha ganhado de alguém e que nunca viu um uso para o mesmo.

É uma herança sem importância histórica, mesmo porque tem gravado no estanho o nome da familia do antigo dono da peça. Em alemão gótico antiquíssimo.

Minha capacidade de coleção de coisas antigas aumenta a cada dia. Tentei, tempos atrás, negociar uma Luger P08 em uma loja de quinquilharias no meio do Goiás. Quase consegui. Pena que o velho era louco.

Hoje não me é estranho surtar por um passado que não existiu.

Apenas tento sanar essa ausência com um materialismo relevante.

Acho que está funcionando.

Os rastros químicos em Brasília.

2 de fevereiro de 2011

Dia desses um monte de gente importante trouxe à tona um problema seríssimo que os ianques estão semeando nos países de terceiro mundo: os “rastros químicos”, ou em inglês, ChemTrails.

Muito conspirador já culpou a tragédia que acomedeu a região serrana do Rio com base nessa conspiração, e não tem nem que duvidar.

Assista o vídeo abaixo e saiba o que é essa nova batalha mundial:

Ontem eu tirei estas duas fotos aqui em Brasília. A primeira aconteceu segundos depois de que alguns aviões estranhos sobrevoaram o skyline candango; a segunda, no começo da tarde. A previsão (e a condição climática no momento) não falava nada sobre tempo parcialmente nublado:

Foto logo pela manhã: atente aos rastros químicos deixados por ianques enfurecidos.

Foto logo à tarde: veja como apareceu uma nuvem totalmente atípica os céus. Ianques malditos!

Estão disseminando a desgraça nos ares brasileiros! Não podemos ficar quietos, amigos! Este é só o começo da nova ordem mundial, em breve teremos poucas linhagens sangüíneas dominando o mundo e o pior, preparando o ninho de podridões para o satânico anti-cristo.

Conheça a repercussão mundial que o assunto está tomando nos links abaixo:

http://infinitoaldoluiz.blogspot.com/2010/11/e-o-golpe-da-mudanca-climatica-continua.html

http://infinitoaldoluiz.blogspot.com/2010/11/conectando-os-pontos.html

http://soubem.forumais.com/t55-chemtrails-existem-nos-ceus-do-brasil

http://www.anovaordemmundial.com/2010/10/voce-ja-viu-chemtrails-no-brasil-mande.html

http://orgonio.com/explicando-chemtrails

Viu como é fácil plantar a sementinha da discórdia e o terror mundial com apenas meia dúzia de letras?

A arte do anonimato na internet.

24 de agosto de 2010

Desde quando a internet era internet eu gostava de fazer experiências sociais constrangedoras. Era um pouco de anarquismo sem fronteiras moderadas e também uma lasca de anonimato literal.
Lembro-me da vez em que um colega de trabalho resolveu agitar uma lista de discussão em que participávamos, a famosa e d’outrora reconhecidíssima WDMasters, hospedada na 10′Minutos. A lista tinha virado uma babação de ovo infernal e meu colega mandou ver uma foto escatológica, sem pudores e malícias, de uma mulher qualquer fazendo um No.º 2 aguado.
Lembro que aquilo gerou moderação instantânea, gente surtou e alvoroçamos a lista de uma maneira que ela nunca mais voltou ao normal. MEu amigo, em sua essência, era um umbundsman que falava o que ninguém tinha coragem ali. E, tempos depois, descobri que muita gente importante e histórica da internet gostou do que ele aprontou.
***
Mas não era essa a questão.
***
Depois disso continuei com os vários conceitos experimentais e sociais virtuais. A internet virou minha alcova de frankenstenezices até o dia em que resolvi, com o mesmo mentecapto ali da estória acima, criar um email fake, desses que todos repassam.
Eu não lembro direito o conteúdo — mesmo porque era lorota braba — mas o email foi bem diagramado, escrito e disparado. Em questão de horas ele começou a voltar para a caixa de entrada. Na semana seguinte, praticamente todos do meu meio virtual tinham me repassado o email ou uma variante dele. Foi um sucesso viral incrível e o seu ponto de glória foi quando a empresa (não sei se era microsoft ou icq, que o valha) escreveu uma pequena nota no site dizendo que aquilo era bullshit.
***
Era 2001 isso. Naquela época eu vi o quão feroz e monstruosa a internet poderia ser. E nunca mais mexi com os grandes.
***
voltei minhas atenções na rede humana individualista. Criei sites, personagens, gente em foruns, omunicadores instantâneos e tudo mais.
A coisa não era mais tão legal, mesmo porque a massa e a cauda monga estavam ficando menos massivas e mongas.
Até o dia em que eu recebi um convite do Orkut.
***
Mermão, pense na porteira de um infinito sem lei que me fôra aberta! Orkut, a primeira e mais monstruosa rede social mundial nas minhas mãos.
Criei Três personagens inolvidáveis: um bastardo milionário, um nobre parente da realeza brasileira e um faveladinho de oratória invejável. Todos, com alguma interação intersocial e finamente monitorados em seus passos e indicações.
***
Como você e eu temos tempo sobrando, vou contar a história desses camaradas, um a um.
***
O faveladinho foi fácil de construir: meia dúzia de fotos, algumas comunidades carniceiras, uns amigos vidaloka e os truta correria e sepam, mil hora mil grau o maluko entrou na lombra de conversar nivelado em comunidades inteligentes.
Comunidades do tipo “Devaneios de Nietzsche”, “A alcobaça Freudiana” e “Literatos doutrém” nunca mais foram a mesma. Os demiurgos e babacobaços irritavam-se com a qualidade intelectual do ranhento. Ficavam furiosos quando o faveladinho os destamancavam com pensamentos inteligentes e quebrativos. Não apelava, não chuleava, não brigava. Eram palavras que os desferiam na eteriedade.
A muleta desses comunas era fácil, segregadora e racista. Tratamento escravocrata e gritos de ordem do tempo dos grilhões avermelhavam vossos olhos.
E assim eu fazia, vez ou outra a veia de algum sociólogo mofento, angionar.
***
O nobre era cômico demais! Tinha sobrenome que não cabia no campo devido no cadastro. Eram cerca de 12 familias reais que o compunham. Suas comunidades variavam de Monarquia e impérios, passando por realeza e Bourbons até principados europeus e o bom costume cultural.
Fez amigos inimagináveis. Travou conversas calorosas com alguns membros famosos reais brasileiros (sim, a nobreza no Brasil é uma força que nunca acabou, pode pesquisar). Ganhou convites para banquetes “reais”, fez amizades com outras nobrezas européias internetizadas.
Era um sujeito muito tranquilo.
E tinha um amigo, o bastardo milionário.
***
O bastardo milionário era um porra-louca perdido no mundo da esbórnia maquineísta. Independente, cheio de empresas, casas, carros, barcos, viagens e mulheres.
Arrastava o nobre para todas as festas e putarias. Tomava Romaneé no bico da garrafa e comia caviar com bolacha maria. Não tinha meias palavras, quase um alter-ego do amigo nobre. Completavam-se, Enquanto o MSN do nobre era uma alcova de belas palavras regadas a cordas e vicissitudes, o Messenger do bastardo era o porão do underground lascivo.
***
O faveladinho morreu de bala perdida: era muito difícil conseguir amizades. Os intelectuais — apesar da boa trica de idéias que o franzininho gerava — tinham vergonha de ter um sujeito como ele na lista de amigos.
Assim matei ele sem mais nem menos, cobrindo de remorsos todos que o ignoravam.
***
Matei o nobre em Aspen. Bateu de frente em uma conífera soterrada da mais fina e seca snow powder, torcendo-lhe o pescoço e arrancando daquele esbelto corpo a jovialidade de uma vida inteira.
O cortejo fúnebre deu-se em Monte Carlo, contando até com nota nas comunidades nobres virtuais.
***
O Milionário e bastardo durou muito mais tempo. Como era um putanheiro de marca maior, seu msn e orkut eram a própria filial da Fornication SA. O Libertino era coroínha perto desse monstro egocêntrico.
Um colega meu começou a administrar o perfil. Ele conseguia fazer a mulherada se despir em 5min de conversa na webcam. Era incrível toda a futilidade que ele confrontava. Seus printscreens chegavam com os diálogos anexados. Eu não acreditava que essa putaria explícita fosse tão eficiente.
Caprichei nas fotografias do camarada: quem é da velha guarda virtual e meio nerd vai lembrar daquele gordo alemão intragável, Kim Schmitz, conhecido com Kimble.
Kimble foi a quintessência virtual da internet: um camarada que lucrou muito com a papagaiada toda de segurança, bolsa de valores e internet. Faz viagens maneiras, festar monstruosas e, por incrível que pareça, seus amigos eram quem mais se divertiam.
A receita então era simples, toda a foto que o Kimble não apareceia, ia para o orkut do milionário. Nisso apareceu o cara andando de helicóptero, jatinho particular, em cubas, canáras e fiji, esqui e mulheres estonteantes, ferraris e muita estravagância aturdida. http://en.wikipedia.org/wiki/Kim_Schmitz
Era o ímã de mulheres perdidas ,a perdição em forma de galanteador.
***
Uma das cocotinhas que ele aliciou para seu exército da perdição foi a Besga. A Besga era uma feínha muito marrenta que procurava freneticamente uma alavanca social. Tinha um leve estrabismo e uma cara meio sei lá, Juliana Paes antes da fama. Ela ficou amiga do nobre, antes dele sucumbir nos galhos de Aspen. E sua polipersonalidade era fantástica: um doce de pessoa, amável e culta, afável e verossímil com o nobre. E uma piriguete maliciosa e cheia de mundanices com o nosso putanhesco rico.
***
E assim a poliavatariedade dos personagens resumiu-se no ricasso desapegado. Ele dava uns tocos geniais na menina, que, não sei porque cargas d’água, não sucumbia aos petardos.
Foi quase um ano de coices e tabefes e nada. Nossa idéia aterrorizante foi a mais fria e calculista: criar uma fake gostosa, vagabunda e inteligente para desbancá-la.
E lá vamos nós surrupiar fotos e criar outro monstrinho mulher nota 1000. A Besga surtou. Atacava vorazmente em pvt aquela chinóca, que se deleitava em retribuir as gentilezas.
No final das contas nosso milionário convidou a besguita para um debut hedonista em algum recôncavo europeo. É claro que ela não aceitou e a nossa cocótínha fake assumiu seu lugar. Qubramos corações, cortamos laços e fechamos com chave de ouro a página das redes sociais compartilhadas.
***
Esse meu amigo desgraçado vez ou outra, muito tempo depois disso, religa a máquina dos infernos do msn e chama a besga pro fight. E ela, de pronto, aceita.
***
A questão é que eu não consigo parar de testar os humanos. É uma doença isso. Faço de tudo para não entrar mais nessa barca social, mas é inevitável. Sacanear talvez seja uma atitude biltre e covarde.
Mas a ingenuidade, meu amigo, essa é impagável.

Desde quando a internet era internet eu gostava de fazer experiências sociais constrangedoras. Era um pouco de anarquismo sem fronteiras moderadas e também uma lasca de anonimato literal.

Lembro-me da vez em que um colega de trabalho resolveu agitar uma lista de discussão em que participávamos, a famosa e d’outrora reconhecidíssima WDBrasil, hospedada na 10′Minutos. A lista tinha virado uma babação de ovo infernal e o ilustre mandou ver uma foto escatológica, de uma mulher fazendo um No.º 2 aguado.

Lembro que aquilo gerou moderação instantânea, gente surtou e alvoroçamos a lista de uma maneira que a dita nunca mais voltou ao normal. O infeliz, em sua essência, era um umbundsman que falava o que ninguém tinha coragem ali. E, tempos depois, descobri que muita gente importante e histórica da internet gostou do que ele aprontou.

***

Mas não era essa a questão.

***

Depois disso continuei com os vários conceitos experimentais e sociais virtuais. A internet virou minha alcova de frankenstenezices até o dia em que resolvi, com o mesmo mentecapto ali da estória acima, criar um e-mail fake, desses que todos repassam.

Eu não lembro direito o conteúdo — mesmo porque era lorota braba — mas o e-mail foi milimetricamente diagramado, escrito e disparado. Em questão de horas ele começou a voltar para a caixa de entrada. Na semana seguinte, praticamente todos do meu meio virtual tinham me repassado o e-mail ou uma variante dele. Foi um sucesso viral incrível e o seu ponto de glória foi quando a empresa (não sei se era Microsoft ou icq, que o valha) escreveu uma pequena nota no site dizendo que aquilo era bullshit.

***

Era 2001 isso. Naquela época eu vi o quão feroz e monstruosa a internet poderia ser. E nunca mais mexi com os grandes.

***

Voltei minhas atenções na rede humana individualista. Criei sites, personagens, gente em fóruns, comunicadores instantâneos e tudo mais.

A coisa não era mais tão legal, mesmo porque a massa e a cauda monga estavam ficando menos massivas e mongas.

Até o dia em que eu recebi um convite do Orkut.

***

Mermão, pense na porteira de um infinito sem lei que me fôra aberta! Orkut, a primeira e mais monstruosa rede social mundial nas minhas mãos.

Criei Três personagens inolvidáveis: um bastardo milionário, um nobre parente da realeza brasileira e um faveladinho de oratória invejável. Todos, com alguma interação intersocial e finamente monitorados em seus passos e indicações.

***

Como você e eu temos tempo sobrando, vou contar a história desses camaradas, um a um.

***

O faveladinho foi fácil de construir: meia dúzia de fotos, algumas comunidades carniceiras, uns amigos vidaloka e os truta correria e sepam, mil hora mil grau o maluko entrou na lombra de conversar nivelado em comunidades inteligentes.

Comunidades do tipo “Devaneios de Nietzsche”, “A alcobaça Freudiana” e “Literatos doutrém” nunca mais foram a mesma. Os demiurgos e babacobaços irritavam-se com a qualidade intelectual do ranhento. Ficavam furiosos quando o faveladinho os destamancavam com pensamentos inteligentes e quebrativos. Não apelava, não chuleava, não brigava. Eram palavras que os desferiam na eteriedade.

A muleta desses comunas era fácil, segregadora e racista. Tratamento escravocrata e gritos de ordem do tempo dos grilhões avermelhavam vossos olhos.

E assim eu fazia, vez ou outra a veia de algum sociólogo mofento, angionar.

***

O nobre era cômico demais! Tinha sobrenome que não cabia no campo devido no cadastro. Eram cerca de 12 familias reais que o compunham. Suas comunidades variavam de Monarquia e impérios, passando por realeza e Bourbons até principados europeus e o bom costume cultural.

Fez amigos inimagináveis. Travou conversas calorosas com alguns membros famosos reais brasileiros (sim, a nobreza no Brasil é uma força que nunca acabou, pode pesquisar). Ganhou convites para banquetes “reais”, fez amizades com outras nobrezas européias internetizadas.

Era um sujeito muito tranquilo.

E tinha um amigo, o bastardo milionário.

***

O bastardo milionário era um porra-louca perdido no mundo da esbórnia maquineísta. Independente, cheio de empresas, casas, carros, barcos, viagens e mulheres.

Arrastava o nobre para todas as festas e putarias. Tomava Romaneé no bico da garrafa e comia caviar com bolacha Maria. Não tinha meias palavras, quase um alter-ego do amigo nobre. Completavam-se, Enquanto o MSN do nobre era um convescote de belas palavras regadas a cordas e vicissitudes, o Messenger do bastardo tornara-se o porão do underground lascivo.

***

O faveladinho morreu de bala perdida: era muito difícil conseguir amizades. Os intelectuais — apesar da boa troca de idéias que o franzininho gerava — tinham vergonha de ter um sujeito como ele na lista de amigos.

Assim matei ele sem mais nem menos, cobrindo de remorsos todos que o ignoravam. Acho que até foi de bala perdida em alguma CDD da vida quotidiana.

***

Matei o nobre em Aspen. Bateu de frente, esquiando, com uma conífera soterrada na mais fina e seca snow powder, torcendo-lhe o pescoço e arrancando daquele esbelto corpo a jovialidade de uma vida inteira.

O cortejo fúnebre deu-se em Monte Carlo, contando até com nota nas comunidades nobres virtuais.

***

O Milionário e bastardo durou muito mais tempo. Como era um putanheiro de marca maior, seu msn e orkut eram a própria filial da Fornication SA. O Libertino era coroínha perto desse monstro egocêntrico.

Um colega meu começou a administrar o perfil. Ele conseguia fazer a mulherada se despir em 5min de conversa na webcam. Era incrível toda a futilidade que ele confrontava. Seus printscreens chegavam com os diálogos anexados. Eu não acreditava que essa putaria explícita fosse tão eficiente.

Caprichei nas fotografias do camarada: quem é da velha guarda virtual e meio nerd vai lembrar daquele gordo alemão intragável, Kim Schmitz, conhecido com Kimble.

Kimble foi a quintessência virtual da internet: um camarada que lucrou muito com a papagaiada toda de segurança, bolsa de valores e internet. Faz viagens maneiras, festar monstruosas e, por incrível que pareça, seus amigos eram quem mais se divertiam.

A receita então era simples, toda a foto que o Kimble não aparecia, automaticamente era selecionada para o orkut do milionário. Nisso apareceu o cara andando de helicóptero, jatinho particular, em Cuba, Canárias e Fiji, no meio das peitólas de européias lascivas estonteantes, Ferraris e muita estravagância aturdida.

Era o ímã de mulheres ninféticas, a perdição em forma de um galanteador abastado.

***

Uma das cocotinhas que ele aliciou para seu exército da perdição foi a Besga. A Besga era uma feínha muito marrenta que procurava freneticamente uma alavanca social. Tinha um leve estrabismo e uma cara meio sei lá, Juliana Paes antes da fama. Ela ficou amiga do nobre, antes dele sucumbir nos galhos de Aspen. E sua polipersonalidade era fantástica: um doce de pessoa, amável e culta, afável e verossímil com o nobre. E uma piriguete maliciosa e cheia de mundanisses com o nosso putanhesco rico.

***

E assim a poliavatariedade dos personagens resumiu-se no ricasso desapegado. Ele dava uns tocos geniais na menina, que, não sei porque cargas d’água, não sucumbia aos petardos.

Foi quase um ano de coices e tabefes e nada. Mulher de malandro na mais ínfima e sutil essência. Nossa idéia aterrorizante foi fria e calculista: criar uma fake gostosa, vagabunda e inteligente para desbancá-la.

E lá vamos nós surrupiar fotos e criar outro monstrinho mulher nota 1000. A Besga surtou. Atacava vorazmente em pvt aquela chinóca, que se deleitava em retribuir as gentilezas.

No final das contas nosso milionário convidou a besguita para um debut hedonista em algum recôncavo europeo. É claro que ela não aceitou e a nossa cocótínha fake assumiu seu lugar na viagem. Fotos não faltaram depois. Quebramos corações, cortamos laços e fechamos com chave de ouro a página das redes sociais compartilhadas.

***

Esse meu amigo desgraçado vez ou outra, muito tempo depois disso, religa a máquina dos infernos do msn e chama a besga pro fight. E ela, de pronto, aceita.

***

A questão é que eu não consigo parar de testar os humanos. É uma doença isso. Faço de tudo para não entrar mais nessa barca social, mas é inevitável.

Sacanear talvez seja uma atitude biltre e covarde.

Mas a ingenuidade, meu amigo, essa é impagável.

O valioso tempo dos maduros.

15 de junho de 2010

(…)
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário de Andrade
(1893-1945)
Furtado daqui.

Filme 135-35mm

20 de abril de 2010

Essas duas fotos que ilustram este post foram tiradas com uma máquina fotográfica mecânica, de filme, totalmente manual. Do rolo de 24 poses, perdi 3 para tentar ajustar o filme na câmera, 2 por problemas de fotometria e diafragma e uma por problema de focagem no escuro. As que sobraram foram apenas testes técnicos, sem importãncia documental.

Fotografar por filmes é apenas um hobby. É como colecionar discos de vinil: não é prático, não é fácil. Mas tem quem goste e isso não é forma alguma de status ou não significa que você é melhor. É apenas outra forma de fazer a mesma coisa.

O vinil foi substituido pelo compact disc em apenas 4 anos. A praticidade de não ter que virar um disco ou procurar uma faixa com a agulha por si só já o matou. Tem gente que ainda defende os antigos LP´s, pela qualidade, curvas harmônicas sonoras analógicas e pela forma “quente” que a agulha exerce ao entrar em contato.

A mesma coisa é a fotografia. Quer coisa mais complicada para um cidadão comum do que comprar um filme, ter que escolher o número de poses, o ISO e a marca, ajustar o filme, ajustar a máquina, tirar apenas 36 fotos no máximo e ainda ter que pagar e esperar para revelar (e ver que no final das contas as fotos saíram ridiculas e meio borradas)?

A fotografia digital é linda, perfeita, irretocável e imediatista. Errou? Apaga e bate outra. Está escuro? o ISO automático resolve. Autofocus para não borrar, identificação de rostos, sorrisos e até do nome da pessoa. Prioridade de foco nisso.

Não tem mais mistério, com a digital. Filme, só serve para quem gosta da velharia, do barulho do obturador batendo no espelho, do réco da alavanca manual de avanço de filme, da fotometria e dos ajustes de velocidade e abertura de diafragma, do cálculo de ponto quando quer puxar e granular uma foto.

É legalzinho apenas para quem curte. E nem por isso consegue ser melhor ou pior.

É apenas diferente.

divisor

fotos

A foto dos galhos foi um teste: 50mm f:1.4 1/500s com um filme Kodak ProImage. Ultimos raios de sol. A segunda foto, é de uma placa aqui de Brasília que foi atropelada por um carro e ficou apenas o suporte dela. Algum genioso conseguiu reavivá-la de forma descomprometida e original. 50mm f:1.4 1s na mão. Borrou porque estava escuro e sem apoio.

Dos capitães do Hápax.

4 de março de 2010

Toda vez que o capitão do navio grego Hápax de bandeira de cabotagem Loyd Britâin descia às docas, senhoritas de vida mundana amontoavam-se no costil de atraque para afofalhá-lo de denguisses.

Todos os marulhos, práticos e baixas-patentes o invejavam. “Esse homem é o puro mel do incrustado, não tem razão de ser essa quereção toda!” E assim seguia o capitão com três escolhidas e uma garrafa de champanha escambada por rapé argelino no Port d’Lion.

Os urros, gemidos e grotejos dos quatros puerís fornicadores libertinos arrepiavam o veludo bolorento do quarto do hotel fuleiro em cima da casa de tolerância mais blasé da região.

O capitão só se entregava na alvorada seguinte, quando o primeiro raio fustigado amarelecido de sol o rasgava as vistas. Ainda assim, prometia revancha na próxima ribalta. As mulheres o acompanhavam na volta ao navio, mesmo já tendo quitado a esbórnia, como que enfeitiçadas pelo jeito trôpego convalescente do capitão de fardamento outrora aprumado à goma. Despediam-se com um beijo breveta nas bochechas barbudas e assim ele seguia sorridente e cambalecido rumo à tripulação.

Assim fez nome em todos os burlescos de todos os portos onde o Loyd que servia alcançava. Contam por aí que ele deflorou três gerações de mulheres-fáceis em uma mesma alcova escura, durante seus quarenta e tantos anos de bobagisses mundanas. Sua lenda era tão grande que começou a ser contada de bar em bar, por homens anônimos que o tinham como uma perfeita reputação do galanteador pueril.

Seu segredo? Bom, como todo mágico, revelou apenas para seu imediato — Rembrandt Rufino  — em herança fechada, ao sucumbir por um petardo de chumbo pederneirado de pistolete, no único bar portuário e arredio da ilha de Tristão da Cunha. O imediato, incrédulo, entendeu tudo:

Rembrandt,

Descrevo sucintamente o destrave que fez do Hápax o navio de cabotagem mais esperado em todos os portos mercantes que visitamos.

Seu capitão deverá ser regido por uma lenda de costumes tradicionais e secretas deste navio, que me foi passada como oitava geração e que pretendemos perseverar por tanto quanto for possível.

[...]

A virilidade e charme de todos os capitães do Hápax é nativo e isso não tem como passar. Mas a queredeira do mulherio é notado por todos e aqui entra a dica do escorte viril, que nada mais é do que duas ou três besuntadas de um insumo exótico pastrificado e manipulado na incólume gabina de químios deste navio.

De cada cais aportado, assegure-se de colher as seguintes especiarias:

[...]

Após pastificar todos os insumos, pingue, com extremo cuidado 35 gotas da peçonha da víbora do aquário exótico da sala de refugos. Atente para que o veneno seja gotejado diretamente das presas inoculadoras em cima do pastiche. O segredo de toda o comichão feminino está nesta toxina vípera, que gera caloração, formigamento e enrigecimento atemporal, seguido de espasmos rápidos e intermitentes e uma leve sensação de embriaguez e alucinações pitorescas.

Ao terminar de ler esta missiva testamental, depois do desmasque, o qual fará segredo a outrens, queime-a.

E a carta foi incendiada ali mesmo, no candelabro de 8 velas da mesa central do convés. E o imediato Rembrandt — agora promovido à Capitão de longo Curso — Sorriu de canto de boca. Seu fomento ricamente herdado geraria ainda muita esbórnia para os anais da história do Hápax.

Pena Branca & Xavantinho

9 de fevereiro de 2010

Uma das primeiras coisas que eu aprendi — sem ser obrigado — foi escutar música honesta. Eu escutava música clássica direto dos LP´s do meu pai, motown e disco do meu tio cabeludo, rock e metal do meu irmão e outros tios que tinham coletâneas completas, desde Pink Floyd a Led Zeppelin e Rush e um pouco de gauchesca, que era o folk que todo mundo devia praticar.
Eu gostava basicamente de clássico, rock normal e um pouco de Blues.
Em 1999 fiz dupla de criação com um redator fodão em uma agência de publicidade interativa. Ele tinha algumas manias engraçadas, como copiar VHS de filmes clássicos de uma locadora cult qualquer. Era cópia fiel, inclusive com a caixa, rótulos e xepas das fitas escaneados e impressos à laser colorida.
Ele queria trocar o Curso de Publicidade e Propaganda por Letras. Eu achava, naquela época, que publicidade e propaganda seria um curso que daria mil vezes mais visibilidade para ele, um redator próspero, do que aquele curso merréca de Letras.
Mas voltemos: A questão era a música.
Ele apareceu, um belo dia, com um CD “Renato Teixeira e Pena Branca & Xavantinho: Ao vivo em Tatuí” da Quarup discos. Cara, eu dei muita risada dele. “Pronto, surtou de vez!”
Relutei e coloquei o disco na bandeja do computador, com os fones de ouvido e cara de desconfiado. Na época eu tinha um fone Sehnheiser de amplitude fenomenal.
Quando terminei de escutar, percebi que meu preconceito musical era muito forte. Eu me senti traído, pois tinha gostado da xexelentice sertaneja roots. Eu comprei aquele disco, alguns dias depois. Conheci muita música boa com aquele mentecapto avassalador de preconceitos.
Aprendi a escutar jazz. E do jeito certo, cronologicamente e por complexidade.
E meu horizonte musical foi se expandindo de uma forma monstruosa, com setlists de música eletrônica vindos diretamente da europa, achados raros de gravações de sinfônicas, downloads experimentais de discografias completas e não oficiais, gêneros e formas atonais.
E no final das contas, hoje eu trocaria minha graduação, de publicidade e propaganda, pela de Letras. E tudo por uma bela gramática.
A vida é foda, né?

Uma das primeiras coisas que eu aprendi — sem ser obrigado — foi escutar música honesta. Eu escutava música clássica direto dos LP´s do meu pai, motown e disco do meu tio cabeludo, rock e metal do meu irmão e outros tios que tinham coletâneas completas, desde Pink Floyd a Led Zeppelin e Rush e um pouco de gauchesca, que era o folk que todo mundo devia ter para gostar de seu lugar roots.

Eu praticava basicamente o clássico e o rock.

Em 1999 fiz dupla de criação com um redator fodão em uma agência de publicidade interativa. Ele tinha algumas manias engraçadas, como copiar VHS de filmes clássicos de uma locadora cult qualquer. Era cópia fiel, inclusive com a caixa, rótulos e xêpas das fitas escaneadas e impressas à laser colorida.

Ele queria trocar o Curso de Publicidade e Propaganda por Letras. Eu achava, naquela época, que publicidade e propaganda seria um curso que daria mil vezes mais visibilidade para ele, um redator próspero, do que um curso merréca de Letras.

Mas voltemos: A questão era a música.

Ele apareceu, um belo dia, com um CD “Renato Teixeira e Pena Branca & Xavantinho: Ao vivo em Tatuí” da Quarup discos. Cara, eu dei muita risada dele. “Pronto, surtou de vez!”

Relutei e coloquei o disco na bandeja do computador, com os fones de ouvido e cara de desconfiado. Na época eu tinha um fone Sehnheiser de amplitude fenomenal, totalmente isolado.

Quando terminei de escutar, percebi que meu preconceito musical era muito forte. Eu me senti traído, pois tinha gostado da xexelentice sertaneja. Eu comprei aquele disco, alguns dias depois. Conheci muita música boa com aquele mentecapto avassalador de preconceitos.

Aprendi a escutar jazz. E do jeito certo, cronologicamente e por complexidade.

E meu horizonte musical foi se expandindo de uma forma monstruosa, com setlists de música eletrônica vindos diretamente da europa, achados raros de gravações de sinfônicas, downloads experimentais de discografias completas e não oficiais, gêneros e formas atonais.

E no final das contas, hoje eu trocaria minha graduação, de publicidade e propaganda, pela de Letras. E tudo por uma bela gramática.

A vida é foda, né?