O menino canhoto vive na literatura que o cerca. Adora palavras inconstantes, permeia capítulos de livros e só o faz pela mania estranha de falar de escrita nativa e não da literatura em si.
O menino canhoto adora a escrita e suas inconstâncias. Esta adoração lhe dá mordomia como o lampejo de escrever possibilidades únicas de histórias fantásticas e realistas. O menino usa algumas palavras velhas de sua vastidão vocabulárica, mortas em poeirentas páginas de rusgados dicionários imaginários. Verbetes frios, cadavéricos e com toques fúnebres de um desuso eterno.
O menino canhoto acredita que as palavras — assim como as pessoas — podem ser amadas mesmo depois de mortas. E esta escrita torta, repleta de escapes e nuances imperfeitas combinam com os ares abstratos e assim o seduzem. Palavras instigadoras que ora afagam, outrora afogam o âmago da eloquência canhota.
O menino canhoto às vezes perde a noção do realismo e obcessivo, talvez por medo ou pavor da incapacidade, exagera no método. É um medo tolo, podes tu falar. Mas de medos tolos o menino canhoto apura a mão e o gesto, relacionando sempre alguns milimetros à frente d’alma pensamentos esparsos à tempos alheios.
O menino canhoto não sabe, mas essa vida atroz de querer escrever o que não é, vai acabar enlouquecendo-o.

