MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘ensaios’

Escrita canhóta

16 de julho de 2007

O menino canhoto vive na literatura que o cerca. Adora palavras inconstantes, permeia capítulos de livros e só o faz pela mania estranha de falar de escrita nativa e não da literatura em si.

O menino canhoto adora a escrita e suas inconstâncias. Esta adoração lhe dá mordomia como o lampejo de escrever possibilidades únicas de histórias fantásticas e realistas. O menino usa algumas palavras velhas de sua vastidão vocabulárica, mortas em poeirentas páginas de rusgados dicionários imaginários. Verbetes frios, cadavéricos e com toques fúnebres de um desuso eterno.

O menino canhoto acredita que as palavras — assim como as pessoas — podem ser amadas mesmo depois de mortas. E esta escrita torta, repleta de escapes e nuances imperfeitas combinam com os ares abstratos e assim o seduzem. Palavras instigadoras que ora afagam, outrora afogam o âmago da eloquência canhota.

O menino canhoto às vezes perde a noção do realismo e obcessivo, talvez por medo ou pavor da incapacidade, exagera no método. É um medo tolo, podes tu falar. Mas de medos tolos o menino canhoto apura a mão e o gesto, relacionando sempre alguns milimetros à frente d’alma pensamentos esparsos à tempos alheios.

O menino canhoto não sabe, mas essa vida atroz de querer escrever o que não é, vai acabar enlouquecendo-o.

Vida de pressa

15 de julho de 2007

Aquele homem ali tem na pressa a razão de viver. Morre de fome todos os dias. Fecha os olhos em atalhos de sentimentos ou respira à manivelas. Os olhos, os risos e a preguiça não convêm.

Ao homem que tem na pressa a razão de viver, boa-sorte.

Vive uma vida de merda.

Louco das Paineiras

15 de julho de 2007

O poeta louco apenas fitava velhas paineiras tortas fronte a fonte seca de um rio volúvel. Não tinha a filosofia nem a perspicácia de um pensador. E as paineiras tortas fronte a fonte apenas as eram… paineiras! Não as chamava de utopias nem ideias sentimentalistas.

O poeta louco sabia que aquelas paineiras vistas por lindos olhos azuis de uma mulher aquém não seriam nunca, paineiras. O “nunca” é o que se vê quando a lucidez tormenta o louco das paineiras tortas, rôtas paineiras.

O mundo a cada minuto

15 de julho de 2007

Mudei. Nada do que era familiar em um mundo de desatinos e incoerências fazem a vida ziguezaguear por laços e escapes. Cansa-me tudo isso e o que é mais interessante: dessa cafonice de tentar sempre embasar minha coragem por desafios, não cedo mais. Não cedo mesmo, acredite.

De nada adianta repousar as mãos em um colo adornado das belas pérolas. Não é mais conhecido e isso pode machucar em primeiro plano. Mas é assim para sempre e o sempre não cede mudanças.

Vê, pois, que passam meus breves anos e eu caminho por uma vereda pela qual não voltarei. E entenda que eu não quero voltar. Porque voltar seria ceder a minha vida ao que nego agora por natureza.

Mesmo porque anjos carregados de um ímpeto de racionalidade extrema rondeiam esses novos caminhos e com sabres resplandecentes mo festejam cada passo acertado.

Anjos não cedem a erros, acredite.

Homem simples

15 de julho de 2007

De simplório, o homem cafajeste podia rir sempre. Não que a vida lhe fosse felicidade desmedida, isso não era mesmo. A vida dura o golpeava a cada instante, mas ele apresentava a falsa felicidade de não a pensar. Vivia a vida com a liberdade que imaginava. Nada de doutrinas, porque é assim que o homem moderno crê a liberdade. Felicidade cada homem moderno constrói de vicíos, medos e sonhos.

E assim o simplório tinha a vida: para contar a felicidade das chapuletadas constantes e poucos mimos exteriorizados.

Pensar na vida é apenas decompor o imaginário incerto. É a própria vida quem indica mandatórios de um certo rigor de idéias certeiras. Basta apenas um tempo para si. Basta apenas conhecer as suas relações imaginárias de bem e mal. Pecado e perdão. Graça e desgraça. Coisinhas ínfimas na mão do simplório, mas de validade espiritual imensa. É que as coisas são assim, não há como escapar.

E quer saber mesmo? O homem simplório sofre e sofre muito. Ah, se soubesse um pouquinho apenas do que lhe espia. Mas não, finge que o mundo é apenas essas crendices e disparates sociais. E pior: reza a bem-aventurança de que amor é a resposta de um algo lógico e racional.

Ah, homem, não te posso mudar, bem sei. Mas de idéias somos levados, não é mesmo?

Viver sozinho

15 de julho de 2007

Percebi claramente que estive impregnado de angústias e desilusões. Viver sozinho era horrível e isso me tornava uma pessoa insegura. Compatilhei minha vida com mulheres e estas mulheres assim me tomaram. Relacionamentos que vivi surgiram errantes e deturpados por uma sede de lamentações murmuriosas das minhas necessidades de presença conjunta.

Resolvi viver como poetas e loucos.

Solidão me afagou a alma e beijou minha testa carinhosamente. Ora, solidão, quem diria que em seu fél de insensatez eu encontraria a inspiração da escrita sentimental e intimista?

Nas longas noites de solidão que seguiram acreditei — na razão de viver — uma completa busca espiritual. Vida que outrora fôra textos reflexivos, poesias melancólicas e desenhos furtivos de uma alma que respirava sem horizontes, mas com paciência e constância intensa.

Viver em solidão não gratificava-me com boa-noite em uma penumbra de névoa espessa fustigada de sorriso qualquer. Abraços devassos de um frio sonolento e esquivo de prazeres mútuos. Intrincava-me sempre as profundezas de um amor que certeiro desacreditei. Amor que fecharia portas para sempre. Caso não o olhasse nos olhos novamente.

Mas olhei-o.

Futuro qualquer

12 de julho de 2007

Os dois meninos sardentos de cabelos polaquinhos de uma etnia lá-de-não-sei-onde eram filhos de pescadores de uma praia outrora desabitada por pândegos aristocratas da barriga cervejenta.

A praia era bela, e isso por si só a condenara. Casas filméricas de ricos turistas a tomaram. O iate clube roubou um náco da faixa de areia e, o que eram bóias de isopor com lona preta vagabunda, agora gabavam-se sinetes florescentes com sensor de presença. Ah, aquelas poucas baleeiras, saveiros e a escuna do Zé Lelé… Deram lugar aos 210, 290, 320.

Enfim, a praínha da comunidade de “Nossa Senhora do Rocio Pesto” virou “Resort Iatch Club Rocco & Summer Village”.

A vida teve a sua sorte-revés
Os dois meninos sardentos de cabelos sarará de uma etnia de-lá-sei-onde vendiam trançados de peixes de folhas de coqueiros amarrados em bambuzinhos. Coisa simples, garantiam patacas poucas e boas para doces na banca do Tino.

Mas o barangandan deles não eram os doces do Tino. Nem peixinhos. O ó era o lambrusco-lusco-fusco. Sabia que os dois montaram uma jangadinha de garrafa pet para visitar lanchas que ancoradas pairavam as noites solitas?

Era batata: escurecia e lá estavam os dois futricando porões, gabinas e cozinhas completas dos barcões chiques de panças importadas.

A incursão era tão inusitada e atrevida que rolava até fornadas de pão de queijo e vitaminas de frutas de fruteira nas noites dos dois serelepes. E não teve um oceânico qualquer que não fôra visitado pelos dois sorrateiros.

E veio o tempo que pula
Aí acabou que os dois cresceram, um virou cozinheiro de bistrô petit-gatô, outro piloteiro de avoadeira para pescadores menos abonados.

Não teve final feliz a estória. Talvez porque era real demais a oportunidade prevista. Talvez porque viver de mascates não enriquecesse ninguém ali. Apenas valeu alimentar-se de passados cada vez maiores e mais distantes. Heróicos, talvez, vai saber o que cada um contará para seus filhotes.

Mesas

12 de julho de 2007

Na mesa 21, um casal discute ruidosamente. Na mesa 04, um homem azedão, desses que nem sombra tem — tamanho azedume disposto — bebe um café amargo e fuma cigarro sem filtro. Mesa 22: duas mulheres belíssimas beijam-se copiosamente. Tanto tanto que nem a mesa 21, aquela do casal brabento, percebeu. Ah, mesa 37, no outro canto do salão: dois adolescentes, de origem duvidosa, enlouquecem com a mesa 22. O garção era anão e a garçonete, Craudete (assim com r). O bar era um restaurante e o restaurante morreu. A estrutura era a brega-sem-saída: dois vagões da refêsa, com pinos-de-centro embaixo dos peneus. Da placa velha e mal-feita, o chamariz chinfrim: Broa boa, bifão no queijo um real. Abre às vinte e uma, fecha sempre quando dá briga. Ou quando alvorada de alvíssaras alegra o antúrio seco, vai saber.

E na mesa 02, aquele mesmo escritor tongão que ainda acha que vai conseguir inspiração em um barzinho podre que diz-se restaurante, que na verdade é um-dois vagão da refêsa. E nada mais que isso.