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A DESTAMPAGEM SONICA


quinta-feira, 8 de maio de 2008 | 12:23 pm

Muito ainda irá se discutir sobre onde surgiu a prática da “destampagem sônica”. A escola suiça advoga que seu início ocorreu em 1976, na subida automotiva dos Alpes, na época em que rápidas auto-pistas foram contruídas nas grandes montanhas. Evander Moolwind defende seu pioneirismo dirigindo seu Galaxie 500 pelas Rochosas em 1975; no entanto registros confiáveis dão conta de que — agradando as matronas ufanistas — R. Valentino já dava mostras de técnicas DS´s na subida do Clube Serrano Ubajarense do Ceará nos idos de 1973.

Análise sintética e preliminar
A destampagem é definida como uma transformação no órgão vestíbulo-coclear proveniente da recepção de músicas, com o objetivo da redescoberta da canção em uma expectativa pessimista; a epifania em uma expectativa mais otimista.

O pentagrama de mudança sonora em uma DS
O pentagrama tonal de mudança sonora em uma DS


O praticante deve selecionar algum disco e tocar no som do carro, enquanto parte de uma altitude baixa e vai trafegando por uma rota em que haja elevação de altitude. Pouco a pouco vai ocorrendo uma “tampagem” da audição em virtude da altitude, e quando o praticante se vê preparado espiritualmente, deve efetuar a “destampagem” momento em que o som retoma sua clareza numa nova ótica. Enfatiza-se a abordagem espiritual, e muitos praticantes levam isso muito a sério, procurando realmente um vislumbre de uma revelação cósmica.

A metafísica em torno da DS
A destampagem tem como premissa básica a equalitação paramétrica das ondas sonoras espiraladas com a amplitude coclear. Conforme o gráfico abaixo, toda onda sonora que atinge a orelha tende a se espiralar em uma escala fibonática, tornando o fluxo sonoro mais intenso e vívido.

ds-schema.jpg


A “tampagem” é um fenômeno simples que ocorre na membrana timpânica (firmemente fixada ao conduto auditivo externo por um anel de tecido fibroso, chamado anel timpânico). Ao submetermos o organismo a um ambiente pressurizado, a Lei de Boyle exerce a inversibilidade bárica, forçando o deslocamento da membrana para dentro do ouvido.

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Este gráfico mostra a eficácia da destampagem sônica em um veículo com atores preparados para o evento. Note que a curva modular tende ao silêncio e equaliza-se em uma zona convergente antes de flanar no píncaro da DS.

A “destampagem” ocorre quando se realiza a manobra de Valsalva: um fluxo de ar previamente inspirado migra pelo canal de Eustáquio até o ouvido médio. Essa equalização elastiza o tímpano e o reverte à forma original, realçando novamente toda a sensibilidade auditiva.

Equipos Tecnossónicos
Há pessoas que praticam com bicicletas; outras, de carroça. Realmente não existe incentivos desta metodologia, uma vez que o ouvido se adapta aos poucos à altitude e não há como “tampar”. Outrem tentam de moto com fones acoplados em tocadores portáteis, porém a pressão não atua bem nos ouvidos tampados e o próprio barulho do atrito com o ar dificulta a apreciação do ponto mágico. A orientação é para que subam de carro e com os vidros semi-cerrados.

A DS Music
Eis uma contribuição da tecnologia que veio para ajudar a prática. A Ds Music seria uma derivação catalã da new age de Kitsumi Hanara experimentada nos Pirineus.

Movimentos de uma orchestra
Os movimentos de uma orchestra são fontes de comparação científica da DS


A audição estática dos discos não evoca grandes emoções, pois são músicas exatamente projetadas para uma destampagem de velha escola. Em determinado trecho dos discos há interlúdios permeados de ruídos cibernéticos que retomam movimentos caóticos coincidindo com o momento que os ouvidos são destampados. O praticante pode treinar para engulir determinada quantidade de saliva no momento apropriado ou deixar a natureza e a habilidade do compositor docemente abrir caminho para a mágica entrar na tuba auditiva.

A escolha científica de uma DS Music influencia no gráfico ALTVEL
A escolha científica de uma DS Music influencia no gráfico ALTVEL


Para facilitar existe a divisão ALTVEL em que, através de uma tabela e computando a velocidade média de seu veículo, altitude e inclinação do trecho rodado, tem-se o exato momento de iniciar o CD a partir da faixa 1 ou 6. Alguns experimentam gravar o CD em fita ao contrário e assimilar o que dizem ser novas epifanias, mas francamente ainda não há comprovação.

A indústria cultural e os MCM
O mercado sempre encontra um meio de cooptar determinado movimento alternativo, reembalar e vender com uma embalagem mais atrativa e desvirtuada do conceito original. Esse é um ponto delicado e contracensual.

A velha-guarda da DS oprime reclames televisivos que enunciam galanteios como: “Fiat Sonic! Sua aceleração e mecanismo interno de pressão modular garante uma “destampagem” que é um barato!”. (in Fiat comercialis completum, 1992) ou então “Novo Daewoo Destam-P: agora com um computador eletrónico que contabiliza o exato momento da DS coletiva, regulando os falantes individualmente.” (in Daewoo comercialis completum, 1993)

Estes aprimoramentos são válidos e pesquisas mostram que muitos novos adeptos da DS iniciaram-se com estes comodismos. A discussão que ainda está longe de se acalentar tem a mesma retórica da linha que dividiu a fotografia análogo-manual da fotografia eletro-digital. “Um fotógrafo digitalista jamais chegará ao nível de um análogico. Nunca um byte se assemelhará com um grão de prata” (Hermenciano Filho, fotógrafo analógico: in Fotografia química: processos e segredos. 1995)

A “destampagem” é uma propriedade natural, que deve ser preservada e referida como tal. Algo muito íntimo e sutil que nenhuma companhia automotiva pode apreender através de uma linha de montagem uniformizada. Um veículo, por si só, é apenas uma ferramenta. A arte, antes de tudo, necessita de um artista.

Mito ou verdade?
A Destampagem Sónica pode causar danos no tímpano.
Mito. A DS é um efeito estudado há décadas. Os únicos relatos de DS danosos foram emitidos em formação experimental de mergulhadores autônomos que praticaram DS com nitrogênio inalável em grandes profundidades (vide normatizaçoes e proibições de DS subaquáticas). A DS aéroviária e a DS rodoviária são inócuas e totalmente inofensivas.

O barulho do motor do carro influencia na qualidade da DS.
Em termos. Após a introdução do Chevrolet Volt, o primeiro carro hibrido-elétrico em 1993, uma nova modalidade de DS foi introduzida: a DS por elevação elétro-acústica. Carros movidos por motores à combustão emitem ondas sonoras de redundância cíclica que neutralizam quaisquer interferências sonoras exteriores, conforme o gráfico abaixo compara. As DS são atribuídas — por estudo e padronagens — com o farfalhar dos cílios de um dente de leão, em cíclos de vôo.
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DS vicia.
Mito. O único modo de um DSesser viciar é a partir do prazer aliado à prática. Não existem estudos que comprovem que a DS vicia quimicamente o organismo. O que se associa por erro é o vício psicológico — o mesmo do sexo — que em nada tem a ver com a DS.

Existem sons que se assemelham à DS.
Verdade. Muitos pesquisadores inventaram maquinários, câmaras, barricas e parafernálias complexas que simulam com um grau de perfeição uma DS genuína. Mas são aparelhos que em muito passam o valor orçamentário de um veículo, inviabilizando-as na hora. Heric Hobersbaun, um mitômano sagaz, descobriu em 1988, que a DS possui um aliáse comparativo: o espocar de um champagne. Apesar do curto momento, o som surdo e seco do espocar excita os cilios cocleáticos da mesma maneira e intensidade. Goldwin Richards tentou provar com uma arcada de violoncelo em uma taça de cognac VSOP que o assoviar ressonante da fricção simulava com sucesso uma DS. O estudo provou que os cílios não se excitavam como uma DS genuína.
ds-realitumsonidus.jpg


A DS influencia na surdez momentânea da diferença de pressão.
Mito. Uma Destampagem Sônica possui o mesmo espaço de tempo de uma Destampagem Natural. A única diferença está na magnitude e modularização da onda resultante. E no prazer que uma DS proporciona.
ds-graphicum.jpg

Depoimentos

“Aconteceu numa sexta-feira quando subia a Serra do Mar escutando Massive Attack com minha prima. Nossa! Foi muito show! “
Fernanda Magalhães Cerqueira, 17 anos

“Cara, foi muito legal! Eu já tinha tentado antes com Dub, Trip Hop e King Crimson, mas a destampagem escutando a banda Revelation Ear foi um achado! Deve ser a melhor banda DS da atualidade “
Diego Feitosa, 25 anos

“Eu achava que a DS era mais uma daquelas seitas loucas orientais. Descobri em meados de 1980, quando viajei de Londres para Birminham. Quando voltei para o Brasil, fiquei receoso de que carros que não usassem mão inglesa pudessem causar o mesmo impacto. Mas qualquer carro gera o mesmo efeito!”
Paulinho P., 43 anos

“Na realiadade, eu so faço a DS quando estou com uma gata no carro. Elas ficam loucas quando acontecem e nem tem idéia do que foi. Algumas acham que é efeito de tóxicos, outras, que estão tantans!”
Evander H., 42 anos


RELATOS DO CASARIO


quarta-feira, 2 de abril de 2008 | 1:42 pm

Leitor MadCapista,
  • Aceite que o tempo é uma abstração da realidade;

  • Em seguida, perceba que, assim, essa abstração, por ser grandeza subjetiva, é sujeita a variações;

  • Essas variações podem ser levadas para o universo individual e tomadas como parte de um todo;

  • Apesar de individualizada, a parte ainda interage com o todo, de sua forma mesmo que, a exemplo, subliminar;

  • A energia do conjunto não sofre perda alguma e a entropia conhecida é mantida.

Enfim, nós não vos abandonamos; sempre estivemos convosco!

Bem, após esse pequerrucho prolegômeno, vamos à veia do fato. Nossa redação esteve imbuída de percorrer alguns recantos sob essa ionosfera e ficou sujeita a interferências na distribuição do sinal, com delays variáveis (repare que R.Valentino está a cerca de 3 anos sem publicar; seu delay é neuronal, diga-se de passagem).

A vida que ruma no filete esquerdo sugeriu desbravações capiciosas e prosaicas, engolindo um tempo precioso de pensa.

Nesse ínterim, fui surpreendido pelo clamor ofegante e taquivérbico de R.Valentino, que me transmitiu em cabograma a mensagem que se segue:


VOLTO BREVE pt CAI EM CILADA pt NOT GUILTY
POR 6 A 5 pt PJ GUTIERREZ PASSA BEM pt
PRECISO PASSAPORTE DOLAR MALETA ZIPPO
FLAUTA pt CX POSTAL DE SEMPRE pt
CASAMENTO CANCELADO pt MAIS A SEGUIR

Para o leitor menos agudo, vale sublinhar a presença de vocábulos GUTIERREZ, ZIPPO, CASAMENTO, evidenciando para os mais tarimbados o espírito perene de Bukowski abarcando de uma só vez a trapaça, o vício e o escape, este último um continuum na vida dos joviais chefes deste canal. Pois bem, faltou a menção ao nosso finado gênio moderno liverpooliano, aquele adepto do subterfúgio e da virada espetacular; ninguém menos que o germen do harrisonionism (lido em not guilty).

Enfim, leitor assecla de sempre, a verdade é que essa organização já entrou no ciclo do carbono e teima em se revigorar do nada.

Acostumem-se com a virada do rio, com a marola traiçoeira, com a punhalada no bregma/cafongma, com o arsênico imiscuído na vela, com o envenenamento enteral, enfim, com toda a sorte de cautela ante a sorrateirice que representa esta confederação de mafuás chamada MadCap, mais uma vez, tentáculo sufocante da verborragia perene vestal.

Novos boletins em breve.

BOB E OS BESOUROS


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008 | 10:29 am

Dylan: E aí besouros como vai essa “força” [faz sinal de enrolar algo entre os dedos]
Lennon [ignora o gesto]: Tudo beleza, cara. E as novidades?
Dylan: Muuuita coisa, hehehe [bate no bolso da camisa] tudo uma “seda”… [pisca o olho]
Lennon [achando o cara “esquisitão”]: Certo…Olha a gente gosta muito de suas músicas, a poesia, a forma com que você…
Dylan [examinando desconfiado a sala e olhando pra fora do corredor]: Sei, sei, a forma… Vem cá galera, ouvi dizer que o “movimento” britânico é excelente, confere? [lambe os beiços]
Lennon: É, tem umas novas bandas e tal…
Dylan: Hahaha “bandas” eu não conhecia. Mas diz aí, coisa louca colocar aquela frase lá na música…achei muito avant-garde. [ tira uma pacotinho do bolso da camisa e senta-se relaxado no sofá, cruzando as pernas]
Lennon: Que música?
Dylan: Aquela lá que fala “I get high, I get high” [começa a desembrulhar o pacotinho]
Lennon [perplexo]: Não, não, a gente fala é “I can’t hide, I can’t hide”
Dylan [guarda imediatamente o pacote de volta]: É mesmo é? [levanta-se, desconcertado] Mesmo assim é legal e tudo…Olha galera tenho de ir, beleza? Boa sorte aí! [dá uma conferida no corredor e sai apressadamente com a mão sobre o bolso]
Harrisson: Esse Bob é um figurão, mas é gente fina. Só quer o nosso bem…

[continuam a beber o chá]

INSENSATO E VIL


terça-feira, 8 de janeiro de 2008 | 9:12 am

O desespero sempre entrega algo importante. O fluxo progressivo das sensações corporais deve diminuir pra dar lugar à dança desordenada das idéias livres: soldados carregam uma bandeira americana semi-transparente; uns grossos nervos despolarizam-se fazendo longo caminho entre o estímulo e o reflexo; uma vontade de arrastar as mãos molhadas pelos azulejos brancos do banheiro, pra sentir os limites retos entre cada superfície lisa; o ardor e a sensação trêmula de um choque elétrico do fio desemcapado entre os dedos; uma farpa que penetra a pele e a conseqüente pressão do aperto dos dedos para sair a primeira gota de sangue; o medo de ter perdido a carteira e a sofreguidão de tentar lembrar o que tinha dentro, enfim, imagens e impulsos que ora se mesclam e ora se repelem rapidamente.

Do deserto tem de sair alguma coisa. Um lagarto, um torrão de sal ou bastante sede.

Do desterro sai quem volta aliviado pro país, casa ou cidade.

O desespero sai um estigma de dor e alívio: afinal, o desespero é rápido e intenso.

O susurro da canção em baixa frequência no ouvido denuncia o joguete:


I heard her say over my shoulder
‘we’ll meet again someday on the avenue’:
tangled up in blue



O INTELECTUAL OBTUSO.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2007 | 1:05 pm

O manual da auto-defesa intelectual
O Manual de auto-defesa para o intelectual obtuso brasileiro é uma releitura atualizada do primeiro guia — então publicado originalmente no finado blog em 20 de dezembro de 2002. Desde então, recebemos inúmeros telefonemas e cartas de angustiados intelectuais modernos.

O questionamento, todavia, é uníssono: como deve o indivíduo cult e up-to-dated proteger-se contra horda de hunos que tenta reduzir as dimensões do reino de seu ego e usurpar seu trono em reuniões sociais, happenings e até em redes sociais da teia global, pondo à prova a ciência desses vates a cada minuto?

Com isso em mente, o MadCap reedita gratuitamente para os seus associados e populares, uma espécie de instruções safas, em fasículos reescritos e modernizados. Aqui, o interessado poderá encontrar artifícios que o ajudarão a demarcar seu território, e a se destacar no mais hostis e inóspitos sarais vivenciais.
Sempre discorde em relação à apreciação da obra consagrada de qualquer autor, isto é, mostre sempre preferência por outra obra (de preferência menor, mais obscura), utilizando-se de adjetivos e expressões contumazes nesse tipo de crítica.

Exemplo um:
“Laranja Mecânica” é, com certeza, sua obra-prima…
— Não acho, realmente. Prefiro “Dr. Strangelove”, um filme bem mais orgânico…
Exemplo dois:
— Ah, “O Vermelho e o Negro”! Stendhal não poderia ter sido mais feliz!
— Já leu “Armance”? É uma obra muito mais visceral, de uma força dramática quase cruel…
Divisor
Emita sempre opiniões definitivas, ou seja, transforme suas impressões em conceitos insofismáveis. Não dê qualquer motivo formal, a não ser sua subjetividade. Exagere, desmunheque se for preciso.

Exemplo um:
— O “OK Computer” é o álbum da década de noventa! Um marco na história da música moderna. É tudo na vida de uma pessoa!
Exemplo dois:
— Glauber é Glauber!
Divisor
Elogie figuras controversas ou idéias polêmicas, no intuito de mostrar que você tem uma personalidade forte e é um livre-pensador sem preconceitos (evite Hitler, por demais fácil). O lance é causar celeuma.

Exemplo um:
— Carlos, o Chacal foi o maior gênio do século XX: uma figura a servir de exemplo.
Exemplo dois:
— A teoria de Malthus é esplêndida e seus conceitos, admiráveis.
Divisor
Da mesma forma, diminua elegantemente a importância de artífices consagrados.

Exemplo:
— Borges é repetitivo, seus textos são maçantes e de um estilo insuportavelmente barroco.
Divisor
Cultive hábitos pouco ortodoxos e tente tornar-se conhecido através deles, transformando-os em uma “marca pessoal”. Ademais, eleja preferências obscuras, descartando-as ao primeiro sinal de conhecimento por parte das “massas”.

Exemplo um:
— Na segunda-feira gosto de ir à praia jogar paciência, acompanhado de uma garrafa de cidra Cereser.. É coisa minha mesmo…
Exemplo dois:
— Tenho todos os discos da banda islandesa “Flying Pimp”
— Sério? Eu amo essa banda também!
— Bem, na realidade não gosto muito, acho simplório. Esses discos são de uma fase minha que prefiro esquecer…
Divisor
Nesse espírito, seja nebuloso e reticente em relação às fontes do seu acervo. Jamais revele informações que possam popularizar aquele “material exclusivo”.

Exemplo:
— Cara, onde você conseguiu esse livro do Chomsky?
— Ah, ganhei de uma amiga aí, mas nem curto muito, e tal…
Divisor
Mesmo que não conheça em absoluto o assunto tratado, insira filigranas pouco importantes, todavia curiosas, extraídas de resenhas, matérias de revista, programas de televisão, etc. Exercite a memória.

Exemplo um:
— … Isso fala mais ao pensamento de Nietzsche.
— Sim, sim. Podre-diabo, ficou louco ao ver um cavalo sendo morto em Turim, e assim permaneceu até o fim da vida…
Exemplo dois:
— … e esse foi o real motivo geopolítico da detonação das bombas em Hiroshima e Nagasaki.
— De fato. Tudo isso culmina com o Enola Gay (que era o nome do avião) despejando o Little Boy(nome dado à bomba) sobre as cabeças daqueles infelizes, Ou então o BockScar (outro b-29) que evadiu-se com a Fat Man (a outra bomba) em queda…
Divisor
Nunca, jamais, admita um erro. Sempre que isso acontecer e houver algum cretino para corrigí-lo, cite uma referência que não poderá ser checada no momento e afaste a responsabilidade do erro de si. É famoso o expediente do “Há controvérsias…”

Exemplo:
— Com o início da guerra em 1935…
— Em 1940, você quer dizer.
— Não, 1935 mesmo. Essa é a data considerada pelo historiador Eric Hobsbawm como o início do período beligerante e…
Divisor
Adote uma atitude “sex sucks”. Demonstre dar pouco valor ao amor carnal e execre a pornografia. Se tiver de tomar alguma posição, tenda sempre a um homossexualismo velado, atitude considerada cool nos meios acadêmicos. Vale associar a essa imagem um ar deprimido, constituindo a modalidade “gay triste”, igualmente apreciada. Cite, sempre que possível, Oscar Wilde.
Divisor
Nunca se refira aos seus ídolos pelos dois nomes, o que torna a citação algo forçada. Prefira uma suposta intimidade e aproximação geradas pelo uso do apelido ou apenas um dos nomes artísticos (amiúde o primeiro, no caso de personalidades nacionais, e o segundo para o pessoal de fora). Assim temos: o Chico, o Caetano, o Raul, o Glauber e a Gal; e o Warhol, o Whitman, o Kipling, etc.

Exemplo:
— A Clarice (Lispector) mostra profundas influências do Joyce (, James)
Divisor
Sempre que possível, cite o nome das obras em sua língua original. Você não precisa dominar o idioma, apenas pergunte a alguém que o faça e treine bastante em casa.
Coringas de bom grado: L’Etranger (O Estrangeiro), Der Prozess (O Processo), Preštupleine ï Nakåzanie (Crime e Castigo), Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray)
Divisor

Seja pós-moderno. Comece por preferir coisas atuais aos clássicos embolorados. Sempre que possível escolha as versões novas ou revisitadas, também chamadas releituras (decorar esse termo), de obras antigas.

Exemplo:
— É claro que prefiro a versão minimalista de Hamlet do Peter Brook! A do Shakespeare é deveras naïve…
Divisor
O bom intelectual está sempre à frente. Tudo seu é mais e melhor. Assim, opta sempre por movimentos e expressões artísticas precedidos por “neo-” e “pós-”. Não importa o quão recente seja o ‘oba-oba’, o simples uso dessa técnica propicia sua superação imediata e a colocação no plano do passado antiqüíssimo. Mais: use termos superlativos antes do nome, o que tende a aumentar o hermetismo e, de quebra, melhorar a sonoridade.

Exemplo um:
— …superior a De Kooning?
— Sim, falo da descoberta do neo-expressionismo e a transvanguarda na década de 80.
Exemplo dois:
— Não sei se considero isso pós-moderno…
— O quê?! O hiper-realismo desses filmes suscita ambivalências ultra-passionais.
Divisor

Você não tem que necessariamente gostar das coisas que idolatra publicamente. Como já foi explanado nos tópicos iniciais, suas preferências devem ser guiadas por fatores como obscuridade, capacidade de gerar polêmica, efeito dramático, etc. Não havendo, igualmente, necessidade de entender as obras por completo…Para ser franco, você não precisa nem conhecer essas coisas!

Exemplo um:
“Finnegan’s wake” é meu livro de cabeceira…
Exemplo dois:
— Gostas de música atonal?
— Se gosto? Ouço Stockhausen diariamente enquanto escrevo minhas resenhas para o jornal…
Divisor
Compareça aos seletos círculos culturais. Mas não faça amizades íntimas (nunca empreste livros), vá apenas para sondar, sacar o que o “pessoal” anda lendo e fazendo. Mantenha sempre o ar circunspecto e o laconismo dos grandes gênios. Compareça também (mesmo sem ser convidado) às rodas de artistas. Mantenha a quietude até ser solicitada, por educação, sua opinião a respeito do trabalho do grupo. Nesse momento, não hesite em ser cruel e pedante nas críticas. Continue firmemente até ser expulso ou vaiado.
Divisor
Tenha sempre à manga empreendimentos fictícios com os quais esteja supostamente envolvido. Use-os quando não estiver fazendo nada de especial (o que não é raro), para mostrar-se sempre na ativa. Apresente-se comumente com o cenho franzido, como se tivesse alguma preocupação insuportável; saque sempre seu bloquinho de notas e escreva qualquer coisa nele.

Exemplo um:
— Está ocupado no momento?
— Nada demais, estou trabalhando de freela* pra uma editora holandesa que quer publicar uma biografia sobre Eckhout.
Exemplo dois:
— Que está escrevendo aí?
— Nada, não…coisas minhas (guardando o bloquinho). Uma idéia que tive pra colocar no meu ensaio sobre os erros conceituais de Leibniz…
(*) “freela” é corruptela do anglicismo “freelancer”
Divisor
Durante sessões de cinema, teatro ou recitais, mantenha atenção constante, ar meditativo e posição corporal adequada. Nunca ria de situações constrangedoras (principalmente do teatro). Guarde o riso para as piadas mais sofisticadas, quando a maioria dos expectadores se mantém calada. Não esqueça do cenho franzido!
Escolha uma dessas posições ao sentar:

Posição A:
Ângulo agudo entre o plano do corpo e o plano das pernas (sinal de interesse), polegar da mão direita sob o mento, indicador sobre os lábios.A mão esquerda repousa sobre coxa esquerda.

Posição B:
Pernas cruzadas. A cabeça repousa sobre os dedos da mão direita em L (indicador sobre a lateral da face direita e polegar sob a maxila inferior). Braço esquerdo sobre descanso da cadeira.
Divisor
Em sites de redes sociais modernas, onde seu ego será moldado de acordo com gostos e normas pessoais, a forma de expressão mais segura e redomática é a da imposição pelo desconhecido.

Campos pessoais íntimos são ignorados.

Você não terá sentimentos.

Descritivos como “Quem sou eu:” deve, por obrigação, suprimir qualquer informação relevante sobre você. Jogue com aspectos importantes em campos delicados: “Filhos: vários. (Varie: ‘alguns’, ‘não tenho idéia’)”. Ignore “Idioma:”, uma vez que não existe peso social algum. Seja cínico na “Religião:” Nada de “tenho um lado espiritual independente de religiões”. “Humor:”, seco e rude. “Visão politica:” pede extremismo.

Atenção aos campos em que os hunos te trucidarão: Livros, cinema, culinária, programas de TV e música. Escreva títulos no idioma original, sempre que puder, conforme a cláusula “11″ deste manual.

Curingas para filmes de cinema: Sommaren med Monika, Ansiktet, Persona, Sason I em spegel, Satyricon, Saló, Pierrot le Fou, Tristana, L’age d’or, A idade da Terra, Terra em Transe, Barravento, Habla con ella, Hiroshima Mon Amour, Citzen Kane; Aurora; Deus e o Diabo na Terra do Sol; Amarcord; Acossado; Vidas Secas; Cinema Paradiso; Monella; Volver; Koyanisqatsy; Trois Couleurs: Rouge, Bleu, Blanc; Metrópolis.

Curingas para livros: Grande Gatsby (Fitzgerald); Demian (Hesse); 1984 (Orwell); No Caminho de Swann, Em busca do tempo perdido (ambos de Proust); Crime e Castigo, Os Irmaos Karamazov, O Idiota (ambos de Dostoiévski); O vermelho e o negro (Stendhal); Marcas da alma (Gafni); A montanha mágica (Mann); Tempos interessantes (Hobsbawn); O segredo das colinas eternas (Cahil); A aldeia aérea, Três russos e três ingleses (Verne); A Ideologia Alemã (Marx & Engels); Huckleberry Finn, Tom Sawyer, O Príncipe e o Mendigo (ambos de Twain); O Cão dos Baskervilles (Doyle); O Desespero Humano (Kierkegaard); As fores do mal (Baudelaire); Grandes Esperanças (Dickens); Histórias Extraordinárias (Allan Poe); A Letra Escarlate (Hawthorne); O Lobo do Mar (London); Memorial de Aires (Assis); Miséria da Filosofia (Marx); O Morro dos Ventos Uivantes (Brontë); Matafísica do Amor (Schopenhauer); Noite na Taverna (Azevedo); Orgulho e Preconceito (Austen); Para Além do Bem e do Mal (Nietzsche); Primo Basílio (Queiros); Sonetos (Bocage); Tartufo (Molière); A Utopia (More).
Divisor

Apresentamos aqui mais uma mãozinha para os cultivados leitores destas esquivas linhas. São títulos que podem ser utilizados indiscriminadamente, para um sem-número de resenhas, críticas, ensaios, artigos, notas, diatribes, apologias e correlatos, em cadernos culturais, revistas alternativas, suplementos especiais et cetera:

“Vestígios do real”
“A inovação do improviso”
“O canibalismo da consagração”
“Relações Vacilantes”
“Elogio da pureza”
“A geografia do sublime”
“A outra luz da realidade”
“Registros do efêmero”
“A arte na crise”
“Além da forma”
“A fagocitação efêmera”
“O sincronismo dúbio”
“Predator autófago”
“Síncope elitista”
“Profícuo mentalizador”
“Vanguardista”
“A celebração da…”
“Dicotomia de valores”
“Vã conceitualista”
“Beligerante”

Outrossim, e mais à mão, o escritor mais prático pode valer-se da combinação aleatória da pequena tabela que se segue:

Entre  e 

VOE BEM, INFIEL.


terça-feira, 18 de dezembro de 2007 | 3:42 pm

Chegou a hora camarada! E graças ao seu esforço e seu sucesso profissional, pela primeira vez na vida você viajará de avião. Fantástico! No entanto, imprima este guia anti-jequice e siga rigorosamente todos os passos para não pagar de caipira ao alçar vôo pela primeira vez!

Manual básico da viagem de avião

TRES METADES


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007 | 8:57 am

Uma metade minha anda feliz. Com sapatos que brilham e refletem a vida em uma angular distorcida. Longe de mim e feliz.

Outra metade, contemporiza de um lado. Bebe um vermute e fuma cigarrilha de folha de parreira.

A terceira metade, essa sim, insiste na regra dos terços: não toma partido; não se mete nessa de bipolaridade existencial. Insiste que comiseração e auto-piedade não vão servir de ajuda. Culpa a felicidade — tal e qual uma borboleta filha da puta — que sempre se evade de quem a busca com assombro.

E por mais que esse terço realista espere e saiba do vôo errôneo do inseto, ela não pousará no seu ombro.

PERSONIFICANDO F.PESSOA


segunda-feira, 12 de novembro de 2007 | 2:10 pm

Hoje, como d´outras amargas vezes, recordei do passado perdido que escapou das minhas mãos.

Uma bela época que agora fita-me por um belo espelho d´água vertical, por olhos de um outro que fui e que agora há de me escarnecer.

Chacoalha a cabeça em tom de repreensão enquanto me olha da cabeça aos pés. São as roupas que uso agora, não é? É o corpo cansado e a melancolia que me escapa pelos movimentos e olhos, reações e consentimentos. E isso é uma bela de uma intimidação perante um ragazzo altivo e forte — lobo de seu destino.

Vitoria e derrota da própria essência, pelos céus e infernos terrestres. Simples competição vivencial, por assim dizer. Diluo inveja com tristeza e percebo os limites exactos do seu desapontamento primordial. Tento me desculpar, polido, mas ambos sabemos que é desnecessário por ser em vão. Sinto um profundo mal-estar de um banzo por uma terra que não existe mais, pois ele sabe de todos os meus pensamentos obscuros e de tudo pelo que passei e cedi para estar aqui, apenas existindo, sobrevivendo em um ritmo cada vez mais difícil, porém compulsório. Minhas loucuras são hoje medíocres e meu élan transformou-se em conformismo denso, moroso e sufocante.

E aí a me pergunto onde estou e o que realmente preciso fazer para respirar. Encontro-me no meio de um caminho que desmorona atrás de mim, e então sou obrigado a correr para não ceder junto, meu Eu amigo.

Sei que a tua alegria definhou em mim, mas vaga nos limites demarcados pelo que fiz, pelo que fui. E é essa a beleza da reconstrução de um passado perfeito: fica intacto e cristalino como a memória que me trai reiteradamente; não pela falha, mas pela clareza e precisão em me mostrar um claustro que eu mesmo ergui à minha volta.

Não tenho uma fração da minha coragem de outrora: tenho medos multiplicados, receios infindáveis.

Assusto-me até com o que sou, dentro da minha pele de um animal domesticado e à caminho da imolação. O que tenho pela frente, senão uma longínqua esperança de guinar minha marcha e sair pelo prado da liberdade?

Aprendi que lonjuras são vencidas até com a fraqueza do ânimo, e a minha distância para a mudança tem agora o tempero da minha vontade. Ouço ao longe os tambores de um novo combate que se anuncia. O combate entre a inércia e a vida. Vida, vida, prepare casa que estou de volta! Com todos os sons e com toda a energia que agora mostra faíscas dentro dos meus olhos e centelhas que esbaforam ao meu ofegar.

Do velho espelho de água que me refletiu, nada me importará o passado, do reflexo que fez dobrar meu medo sobre si mesmo.

O EXISTENCIALISMO OTIMISTA


quinta-feira, 1 de novembro de 2007 | 4:36 pm



Keeping an eye on the world going by my window
Taking my time, lying there and staring at the ceiling
Waiting for a sleepy feeling



Como se o lobo comesse inteiro o homem que em si cohabitava. Talvez a humanidade não tenha sido feito pra felicidade.

Como um antigo que sempre dizia que não “portávamos a informação genética” para aceitar a idéia do infinito, talvez tal pricípio se aplique à idéia que temos do bonheur.

Infindável tristeza.

Para alcançar a prática da felicidade, o homem deve — sem dúvidas — transformar-se fisicamente. Tal mudança passa a pôr em jogo a própria existência do espírito. Para ascender ao estado final das coisas, o corpo deve estar saturado de contentamento e de prazer, na qual toda inquietude é abolida.

O que se tem hoje é apenas uma idéia vaga, imprecisa e, principalmente, nociva desse elemento vital.

E a impossibilidade da existência carnal infinita é o fim de toda a imortalidade. É o materialismo, rôto, escarnecido. O ateu que sofre da crise de menosprezo, da amargura da solidão. O sentimento de alma que o corrói e expele o gozo de que algo mais existe e o atormenta. O próprio corpo, preciso, forte, lúcido e preparado, independente que se faz, sente essa presença coexistente.

É o desespero de ter que acreditar que um Deus exista.

E aí toda a felicidade que dantes esquadrinhada a se alcançar, solito e independente, molda-se em pedacinhos de fé indissolúveis. Chama essa força sei-lá-de-onde de qualquer coisa: alma jamais. Deus, criador ou outra coisa, jamais.

E o corpo materialista e cético se odeia por esses lapsos piscantes de alma etérea.

Desespera-se.

E você nem imagina o quanto.

A TELEFUNKEN DOS OLHOS AMENDOADOS


quarta-feira, 10 de outubro de 2007 | 1:30 pm

Eu preciso de um pouquinho de paciência. Da sua paciência, para ser bem exato. Preciso que você se acomode, relaxe e se acostume. Sossegue sua alma, sua busca frenética por algo que nem você sabe direito o que é.

Aliene-se.

Quero que você aceite essa bela reprentação de época, bem em seu focinho.

Com a prática tudo fica mais fácil: aceitar a não-ficção da realidade bestial? Pôxa vida, que tranquilidade! Seus pais jamais reclamaram quando o cinzento dos antigos televisores imperava; estavam maravilhados demais com o que tinham, jamais julgavam possível um arco-íris eletrônico.

Agora as caixetas plásmicas teimam em capturar as paisagens, pintam com pincéizinhos colorizantes e embrulham em diversificadas estações para um belo motivo: acalmar você, que, por obséquio, deveria estar acomodado lá na poltrona do papai, semi-babante.

Acalme-se. Acabe por se iludir e considere que essa atual sofisticação de revolução visual como sua própria realidade fielmente transportada.

Ao menos esta convicção fará com que você interrompa este intrépido viver e deixe intacto um bom pedaço de mundo para os que colhem a realidade com retinas de carne. Leve as plásticas flores artificiais achando que colheu genuínos jasmins do campo, perfumados, perfeitos.

Mesmo porque cada flor real colhida do nosso jardim secreto, cheiroso e verdadeiro é um televisor a mais no mundo.

Desligado, é claro.

CUIDADO AO CRIAR ALTER-EGOS


sábado, 6 de outubro de 2007 | 7:36 pm

Etelvino criou um alter-ego louco. O personagem é metade do que já foi — seja lá o que tenha sido — e que, no final das contas, não era muita coisa. O novo-alter se intitula franzino e se projeta como um homúnculo, com um coração do tamanho de uma semente de pau-mulato e dois rins de feijão carioquinha. Esse alter-homenzinho veste um terno Allain Brenauldt todo abrancalhado e com um vistoso lenço vermelho no bolso. Gravata de um grená de flandres e ornado de flores-de-liz em fio de penteado dissonante. O personagem-ego atribui sua miséria e desgraça existencial ao estranho fato de ter nascido num dia primo de um mês ímpar em um longíquo ano bissexto secular.

O avatar tem umas duas ou três músicas que repete obsessivamente na memória, e mesmo assim, só alguns trechos. Ele também tem pensamentos paranóides mas não os assume nem fodendo. Está na fina linha entre F:2.8 e F:22. O personagem-aquém anda se misturando com gente má. E Etelvino nem se dá conta.

Esse alter-dominante acorda pela manhã já pensando na noite, em duas hipotéticas verves: um, na hora em que vai voltar pra casa e dormir ou, dois, nas vagabundas do bar, que insistem em rejeitar suas propostas de sexo porco.

A infelicidade tragicômica é que Etelvino pensa que sabe o que está acontecendo, ou melhor, tem certeza.

E todos os outros-egos alter-rejeitados outrora se dão conta de uma infeliz coincidência: a cada alter-criado, um perfeito-ego mais forte e preciso domina o oco Etelvino.

A POESIA DO CLIQUE


quinta-feira, 4 de outubro de 2007 | 10:43 am

Dr. R. Valentino, M.S.C., emérito surrupião alvino, em artigo publicado na edição de Setembro de 2007 do periódico científico cibernético Divergentes Fronteiras Virtuais foi bem elucidativo ao enumerar as estratégias dos blogs legíveis em duas belíssimas categorias:


  • Os blogs com posts muito curtos, que não entediem o leitor, ávido por percorrer várias outras páginas, adepto da leitura frenética, acólito do culto à barra de rolagem, compulsivo da rodinha scroller-mouseana, investigando tópicos e os tomando como síntese da informação completa. Entregue-os o que melhor apetece à suas pressas: a velocidade da absorção visual é a síncope do escorreito saber.


  • Os Blogs com posts enormes, épicos em que, após um minuto de cronómetro analógico, não se consegue chegar ao final do post esfregando o mouse no paninho. Tal grupo de leitores não é adepto da compreensão absoluta, mas sim fragmentada, assim mesmo não pulando, lendo o texto por completo, sintetizando palavras, sorvendo conceitos, elucidando abnegações e disparidades, em um lúgubre exercício de desconcetração até o exato ponto em que as palavras lidas tanto-fez-como-tanto-faz e ele se joga num devaneio ébrio absorto. Ás vezes se cansam — é verdade — e saltam para uma outra página qualquer. Alguns clicam no “Continue lendo” e varam de onde pararam, para cima ou para baixo, não importa a ordem.


O HOMEM DO CABELO GRISALHO


segunda-feira, 24 de setembro de 2007 | 5:43 pm

“Você precisa ter conhecimento de uma coisa, nessa sua vida de merda que vive, meu caro.”

“Pois fale, homem!”

“Saiba que a velhice nunca é um processo individualista.”

“Entendi nada.”

“Quando você envelhece, o mundo te acompanha como um cão sarnento. E é nessa convivência de mendigo que você se dá conta — tardiamente — da formação cíclica que a sociedade toma.”

“Boa.”

“Quando jovem — como você é, agora — Tua idéia de mundo é bela demais. Tudo o que é novo para você passa a impressão de que é uma novidade para todos. E uma novidade como essa acaba por se tornar uma jóia rara em seus dedos, um bem valioso que vale a pena portar como uma insígne dos tempos. Problema é quando você está em um período da vida em que sua próle ou os amigos dos seus bambinos reviram e remexem o entulho poeirento e prendem nos paletózinhos de escola uma insígnia amassada e sem brilho, de um metal nodoso e oxidado. É nesse momento em que você, velhaco que é, olha para a felicidade deles e percebe, tardio e doloroso, que os invisíveis oxidados outrora eram, erroneamente, o ouro mais brilhoso que você tinha visto.”

“Prolixo demais.”

“Veja, meu caro: nada me surpreende, sendo eu, coerente. Nem aquelas luzinhas piscapiscantes dos efeitos dos filmes incríveis de Hollywood. Por mais ignóbil que eu possa ser, já reconheci toda essa rebuscada previsão da previsível evolução técnica que abundaria ali; Os efeitos especiais da minha infância fizeram meu queixo bater no chão, tamanha surpresa que me acomedeu. E por ter batido no chão, não tem como descer mais. E a cada mentira bem-feita e contada, sabendo eu que era toda embuste, meu queixo sobe um degrau.”

“Uma constante incredulidade, presumo?”

“Sim. A remota e solitária possibilidade para deslumbrar o velho aqui bate justamente com a decadência física, que mostrando um mundo estranho à minha rotina adulta, plena e capaz, ainda assim não há do que se maravilhar. Ainda mais se o velho aqui gozar dessa boa memória que ainda me há de pregar peças. Ela vai me avisar, tenho certeza, de que já enfrentei essa mesma seqüência idiotizada na minha juventude deslumbrada, porém em um sentido inverso e que me mostrará, ó céus, um final desconhecido já conhecido da vivência esmiuçada, e é por isso que velho algum, como eu, é feliz. ”

“Por que?”

“O meu mundo, um mundo velho de um velho qualquer já deixou de existir faz tempo. Sinto-me exilado em um território aquém. Um lugar sem anistia qualquer que me perdoe. Minha dispnéia dizimou meu passeio pela carreiro do campo; minha miopia embaralhou as luzinhas de vitrines que piscam como vagalumes despreocupados; aquela marchinha que eu cantava, hoje nem assovio mais: minha mente pregou uma peça e não tenho idéia do que era. Nada do meu rosto se inturgescer de suor da minha amante vespertina: agora, só espreito a brisa, que encaixota minhas rugas pelo bafo de um vento alísio.”

“Uma vida morta, acredito então.”

“Há! Longe disso, meu caro. Eu ainda regozijo por minhas fendas mentais, em um abismo secreto — como jamais poderia deixar de ser. Não quero assustar jovem algum com os horrores antecipados. Mas a certeza de que minhas memórias se deleitarão em trocar meu insígne estandarte de vilipendiosas vivências por um casaquilho rígido e impossível de desafiar. Um guardião de lembranças eternas e monótonas. Frias, como qualquer silêncio tem de ser.”

divisor

O homem de cabelos grisalhos levantou da bancadinha de concreto. O rapaz, que até então não conseguiu achar um desfecho cético para o embate filosofal, ajudou-o com um puxão ríspido e seco.

“Deslumbrante sua força. Quase arrancou meu braço, brutamontes.”

“Velho ingrato.”

“Vislumbrado.”

“Nefasto.”

“Alienado.”

“Cético.”

“Cagão.”

E assim foram, por uma descida irregular de paralelepípedos, os dois novos-amigos-odiosos. O velho, bravio e estregueta, por saber justamente que estava… velho. O jovem, apavorado e ansioso, por saber que, fazendo tudo ou não fazendo nada, no fim, estaria a abotoar o paletó rígido e amadeirado do esquecimento.

“A vida é uma merda, catzo.”

“Deveras.”

JAZZ IS COLD.


terça-feira, 4 de setembro de 2007 | 11:17 am



O PESSIMISMO DESCONCERTANTE


sexta-feira, 17 de agosto de 2007 | 12:24 pm

Tem um monte de gente que acha que sou um babaca egocentrista ou um pessimista inveterado, um sujeito baixo e descriterioso que não gosta dos humanos só por não gostar mesmo. Birrento.

Então vou contar porque sou o cinismo em pessoa.

A verdade? Eu não me importoe estou sendo o mais sincero possível com o mundo cotidiano. O dólar subiu ou desceu? Não sei. O presidente conseguiu a reeleição? Parabéns para ele. Não quero saber se o governo boliviano roubou a Petrobras. Ela não é minha, não tenho ações dela. Não me interessa se o terror está deixando os americanos mais neuróticos. Pouco me importa se morrem 80 ou 120 pessoas em Bagdad, por dia, porque explodiu dois carros-bomba. A amazônia está sumindo em uma proporção incrível. Meus pêsames para ela. Fico apenas com dó dos orangotangos, elefantes e girafas que por lá moram.

Tentei, por dez anos, mudar o mundo. Juro! Fiz de tudo. Fui bonzinho, caridoso, atencioso, protestante, ativista, grevista, petista, comunista, vanguardista, causista, greenpeacisista, filantropo e atônito. E de nada resolveu. O mundo continuou cruel! Os muçulmanos continuaram a guerra santa. A fome aumentou. A AIDS matou mais do que deveria. Ajudei, bem ajudado, umas 30 pessoas, uns 5 cachorros, 12 árvores que nasceram dentro de um saco e invariavelmente morreriam sem minha intervenção. E quer saber? De nada adiantou.

O Brasil está uma merda. O povo brasileiro é a raça mais desgraçada que poderia existir. Odeiam a terra em que vivem. Mijam nos monumentos, apodrecem a pátria. Pasmem: alguns sabem cantar o “Star Spangled Banner” mas não sabem o que é o lábaro que ostentas estrelado. São americanos em pele de latinos. Veneram RBD, JayZ, J.Lo, 50Cent e desconhecem o maracatu atômico ou o cordel do fogo encantado.

É a placa ali no semáforo, mais cínica do que eu, que diz: “Esmola não dá futuro!” mais abaixo, em letrinhas miudas: “Não alimente o narcotráfico, o comércio ilegal de armas, o tráfico de escravos” “Não alimente os animais indigentes”

É o mendigo que não sabe seu próprio nome, data de nascimento, o que é, realmente.

É a mulher nojenta que ostenta a soberba incrível ao xingar o vendedor de panos alvejados na janela do seu carro blindado.

Hoje não tolero muita coisa, mas dou R$10 para um mendigo no sinal. Aliás, dei meu guarda-chuva bonitão, escocês, que me acompanhava há 10 anos, para um menino que estava na chuva. A cara de felicidade dele valeu muito mais do que qualquer sorriso humanitário que já existiu.

O mundo é marginal, meu filho.

Está caótico. Os bandidos são muito mais malvados do que você imagina. Não acreditam mais em Deus. Acreditam em um canela-seca enferrujado que botam na cintura. Os ladrões abrem seu carro em 3 segundos. Os larápios da internet secam sua conta bancária em 12 segundos. Os seqüestradores-relâmpagos passeiam a noite inteira contigo dentro do seu próprio carro e você não vai saber, ao certo, se sairá vivo ou queimado dessa merda toda.

Orkut para ver a desgraça que a vida das pessoas que conheci em um passado remoto se tornou. Aliás, como tem gente que não evoluiu patavina nenhuma!

Aliás, o Orkut tem uma comunidade que coleciona perfis de pessoas que morrerram. E quanta gente está lá, como urubus, esperando o próximo morto para desejar um “descanse em paz”!

As pessoas gostam de ver tragédias. Gostam de ver carros batendo. Gostam de ver gente morta. Curtem jornais-carnificina.

Pornografia. Putaria desenfreada. Sexo, drogas e rock no sentido mais lascivo e promíscuo. Mulheres-objeto, fotografias amadoras com as câmeras digitais em motéis furrépas de R$5 a hora.

Quanto mais, melhor.

Maconha e pinga para ficar doidão. E perder a realidade que pinica as ventas.

Essa é a humanidade de hoje.

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Não escrevo mais como deveria. Talvez porque fiquei velho. Todas minhas histórias eram reais demais, e eu não sei mentir. Nunca menti. Sempre vivi da realidade crucial que beirava a verdade. E isso me matou justamente porque acabou minha experiência de vida. Apenas alguns pequeninos trechos cotidianos sobreviveram.

Meu videogame é mais expressivo. Minha coleção de DVD´s é mais expressiva. Meus desenhos morreram, minha criatividade espreita melhores dias. E espera com paciência.

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Bah, esqueça. Eu minto, e minto muito. A base da literatura é a mentira. A falácia, o desencontro real da vida presencial.

Eu escrevo muito. Adoro escrever, e isso é um processo bem desencadeado.

O problema é a realidade.

É a falta de discernimento entre o certo e o errado. Entre avançar e esperar a hora.

É a teimosia de tentar escrever ou desenhar coisa belas e inteligentes, enquanto a massa anda na contra-mão disso tudo, à sotavento, enquanto eu teimo barlavento.

Meu mundo é muito grande. Conheço toda a escuridão podre e fétida. conheço o feio, o subversivo, a morte que ronda todos, a corrupção, o suborno, os sete pecados capitais, os maconheiros, os traficantes. E conheço a luz, a seda, a alvura, o brilho do cabelo sedoso, a paz, o cheiro de banho tomado, a música compassada, a inteligencia, os bons costumes, o respeito e a ternura.

Ainda assim, gosto mais da bela vida justa e sincera.

Tenho esperanças, tenho fé, o que são, no fim das contas, coisas boas.

FILOSOFIA BARATA


segunda-feira, 30 de julho de 2007 | 1:48 pm

Viajando um pouco na condição humana e na concepção metafísica do homem, hegemonismos e diferenças: o homem é um ser racional porque toma atitudes inteligentes, tem a capacidade de abstração e resgate de passado, condicionando o pensamento.

Tudo isso faz com que o homem tenha a condição adquirida de ser humano. Platão mostra a realidade material fundamentando a explicação além da natureza. Apresenta suas duas realidades, mundo físico versus mundo de idéias.

A essência humana é a razão.

O corpo humano é o cárcere da alma, a punição.

Paixão é tudo que ofusca a razão.

Por que há transcendência da alma pura do mundo de idéias, perfeito, original e pleno, para sua cópia imperfeita, o mundo físico limitado e imperfeito?

MOROSIDADE E POESIA


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:27 pm

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer comentários e imagens as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha idéia de os achar belos.

Só não lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam.

Eu nao me queixo pelo mundo. Não sou pessimista. Sou apenas triste.

VOYEURISMO


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 1:47 pm

Moro em um apartamento onde as janelas dos banheiros são grandes e envidraçadas. Gosto de tomar banho de luz apagada, por dois motivos: um é que relaxa muito e outro é que eu posso deixar as janelas completamente abertas, o que permite contemplar toda a vizinhança e as ruas em volta.

Na frente da janela do banheiro tem um prédio. Deve ficar a uns 30 metros de distância, o que já limita meu campo focal. E uns 5 andares abaixo, tem uma vizinha muito bonitinha. Todo dia eu a observo, enquanto a água gelada salpica na minha cabeça. Mora com os pais, tem um irmão, veste-se impecável, tem pijamas feitos de camisetas velhas. E tem um computador em seu quarto.

Aquele prédio tem muitos outros vizinhos, mas todos muito comuns. Só aquela janela, daquele quarto, com aquela moça, interessa minha observação diária. Diria que sua idade beira os 20 anos, estuda à noite.

Hoje achei um binóculo velho, caído em um canto qualquer. Relembrei o porquê dele estar esquecido: era vesgo. Limpei a lente, mirei em cheio com o instumento em posição “monóculo”, naquela única janela que me interessava. Invadi sua privacidade. Li as palavras que estavam escritas em seu mousepad. Naveguei lentamente pelo seu quarto, cama, estantes. Fiquei observando-a, enquanto ela digitava constantemente. Devia ser algum chat ou instant messenger. Ela esboçava um olhar sério, triste. Raros momentos em que sorria de canto de boca para a tela. Algumas vezes inclinava-se para frente. Outras, ficava imóvel, deixando apenas seu indicador rolar a rodinha do mouse.

Ela conversava com alguém que não a via, mas sabia o que ela estava dizendo. Talvez esta pessoa nunca a tivesse visto antes, apenas desenhava em pensamentos seu semblante imaginário perfeito.

Eu a via, mas não sabia o que ela estava pensando ou escrevendo. Não sabia sequer o seu nome, mas já estive passeando pelo seu quarto, por sua intimidade.

Uma invasão inocente. Incoerente. Imagino quantas pessoas estão agora empoleiradas, observando-me enquanto escrevo. Deixei a janela aberta, o outro prédio vizinho pode ter alguém me visitando neste instante.

Alguém pode estar te vigiando agora

Voyeurismo hoje em dia é moda. Reality Shows estão aí para provar. O mundo tornou-se voyeur porque as pessoas vivem cada vez mais isoladas.

A nossa sociedade é muito curiosa. O ser humano é curioso. Isola-se, mas tem a necessidade de conviver. Então trava um telecontato, só do olhar. Só que o isolamento leva ao empobrecimento afetivo, é um convívio egoísta. A pessoa se sente segura porque acha que pode se desligar daquele contato a hora que quiser, mas continua isolada.

E essa curiosidade extende-se mais ainda: fico imaginando você aí, lendo este blog: quem são essas 5 pessoas online no site? De que parte do mundo estão acessando? O que estão comendo, o que estão escutando?

A curiosidade cria situações fantásticas, como sempre. E nunca vamos saber, ao certo, o que se passa ao nosso redor.

MENTIRAS


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 12:26 pm

Mentiras e curruptelas são apaziguadores sociais e sem elas a vida seria um verdadeiro inferno social. Estamos cercados de mentiras. Estamos cercados de mentirosos. A mentira é a nossa harmonia relacional. A mentira construiu a base social da civilização, criou conceitos abstratos. Igrejas criaram a fé em situações improváveis, criaram mitos e heróis invencíveis.

A mentira é o equilíbrio em uma sociedade íntima.

Animais irracionais mentem. Animais irracionais fingem.

O homem não existiria racionalmente se todos os sorrisos esboçados fossem de felicidade, nem se todas as lágrimas fossem de tristezas. Conformismo e expressionismo são equilíbrios que nos estabilizam e confortam.

A MULHER PATOLOGICA


quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:00 pm

O telefone tocou e ele não atendeu. Tocou novamente. Sabia quem era, sabia o porquê daquela ligação. Na terceira vez, atendeu com uma voz fria. Ela queria vê-lo, queria conversar. Ele apenas respondia suas questões.

Ela estava carente. Carente e tarada — mais precisamente. E sua súplica quase o convencera.

Ceder uma visita à ela seria voltar-se contra seus princípios. Ceder seu corpo novamente para aquela mulher seria amargurar sua vida já amargurada.

Negou. Venceu-a com sua lábia descabida. Simulou um mal-estar, desconversou-a. Despediram-se.

Ela percebeu que ele não era mais tolo, usável e fútil. Ele percebeu que estava ficando forte. Estava ficando, não era ainda.

Se fosse forte não lamentaria, pensativo e impaciente. Sua vontade de possuí-la ainda o carcomia por dentro. Mas por hoje a batalha havia se encerrado.