MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘contos da carochinha’

Micro-contos

10 de julho de 2007

O Homem solteirão e sozinho trabalha na sala 8233 da torre comercial número quatro. A sala féde cigarro e os móveis são da década passada. A porta permanece sempre aberta.

Ele baixou arquivos mp3. Descobriu o PCSpeakers. Ligou Vivaldi e deitou-se no chão. Sozinho. Queria meditar ou descansar. É que parecia uma coisa moderna.

Uma mulher passou pelo corredor. A música atraiu seu olhar. Ela o viu caído no chão. Entrou preocupada.

Salvou a vida dele, seja lá o que ela tenha dito.

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O matuto do quiosque de sorvetes multi-étnicos era ignorante.

Todos os dias lia a embalagem do preparado para não errar os sabores na máquina.

Continuava insistindo na mesma tonguice: “Tem de chocolate, morango e paumilha”.

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O matador de homens era de fino trato.

Não matava mulheres e crianças (viu isso no filme).

Tinha na escusa de consciência uma máxima intoxicante: “Eu faço os furos. Quem puxa o cabra pro andar de cima é Deus.”

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Ela tinha curiosidade em beijar outra garota.

Então ficaram frente a frente, olho no olho. Uma sabia exatamente o que a outra queria. O que sentia. Ela aproximou-se. Lábios trêmulos, olhar ora lascivo, ora medroso.

Pôs em xeque sua feminilidade heterogênica.

Aproximaram-se, lábio-a-lábio.

Beijo gelado, gosto de vidro.

Não gostou de beijar o espelho.

Como o velho Chianffredo fez

10 de julho de 2007

Chiaffredo Cippa Lippa Vacastelli era um italiano carcamano muito inteligente. Bonachão, adorava salchichas de todos os tamanhos, modelos e índoles. Sempre degustava rodelas de salaminhos chourizzos crus, os clássicos calibres 40, curtidos apenas em raízes diversas. Adorava as morcelhas gordurentas, apelidadas por ele de murxilhas. Lambusava-se de mostarda escura ao devorar wienerwurst. Abusava até da sobriedade galante ao mordiscar tirinhas de salsiccias napolitanas (escondidas no bolso do fraque) em valsas no baile dos veteranos.

E isso era uma coisa que incomodava Chiaffredo. Sempre que devorava tirinhas de salsiccias, seus dedos se engorduravam. E não havia outra escapatória senão limpar os dedos catinguentos e besuntados nas costas do vestido da dona Abbondanzia, uma coróla de costas largas e braçuda-polenteira que sempre valsaveava com o velho pelo salão.

É claro que ele se sentia culpado por ver a pobre Abbondanzia gastar suas minguadas liras em saponáceos desengraxantes. Decidiu fabricar uma versão de menor calibre das salsiccias que adorava trafegar em seus bolsos. Arquitetou toda a receita, remexendo proporções e testaviando a condimentação. Foram meses confinados na pequenina fiambreria de fundo de quintal, auxiliado pelo algoz magarefe do açougue do Gennaro.

Chiaffedo criara o Salameto Trançado Culebra. Uma obra-prima finamente inspirada nos exóticos e raros charutos cubanos culebra. Abriu uma fabriqueta muito movimentada: Salames, Salsiccias e Fiambreria Vacastela. E a fabriqueta tinha produção exclusiva e única dos trançados. Sem variações, sem produtos alternativos. E era sempre o mesmo sucesso.

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A sociedade local de Palermo mudou muito depois da “reinvenção do salami” como um jornaléco local noticiou. Chiaffredo não mais sujava as vestes de Abbondanzia; Abbondanzia não gastava mais em saponáceos desengraxantes; o magarefe do açougue do Gennaro tornou-se chefe de produção. O Próprio Gennaro contratou 4 carneadores a mais!

E os tablóides sensacionalistas engordaram os cofres ao descobrir os passos de fabricação da escandalizzacione salsichiatta!

Chiaffredo, o azzogueiro fatali — como ficou conhecido — utilizava-se de ingredientes e metodologias de fabricação dos salametos que deixaram a azzura nacionalista embasbacada: tripinhas de preás parmos, para ensacar de forma fina e precisa o conteúdo; carnes bovinas, caprinas, suínas, eqüinas (incluindo miolos desmiolados) maturadas em um misto de sangue de marreco com sangue de pequerruchos bambinos. O velho sangüinário trocava salametos por uma bombeadinha do sangue das crianças para vidrinhos numerados. Era pouquinha coisa, menos de 200ml, mas que já aditivava a receita sem escassez. E olha que os bambinos nem reclamavam mais das picadas venais! Outras escabrozidades menores nem repercuritam tanto quanto o uso do sangue infantil, mas que mereceram notinhas repudiantes: Asinhas de barejeiras verdes, falangetas amaciadas de galináceos, gotinhas de veneno de cobras víboras que retardavam a coagulação — e a fermentação dissecante — do sangue ensalamado; uma pitadinha minúscula de cianureto para amortecer a língua. Um tablóide sensacionalista até reportou a nano-dosagem de ácidos lisérgico, o que nunca fôra provado.

O velho Chiaffredo passou o resto da vida preso. Viveu na Penintenciaria Agrícola de Galleazzo, como chef de cuisine e mestre fiambreiro dos presídios regionais. E nunca mais se ouviu falar na fabriqueta Vacastela.

Segredos plenos

9 de julho de 2007

Eu era amigo de um radialista muito frustrado. Ele trabalhava em uma rádio católica e interiorana. Imagina você o perrengue que o infeliz passava: seis da manhã e seis da noite, ave-maria cantada. Inserção de músicas do padre Zequinha nos picos de audiência? Deu brecha, pimba! Disk-sucesso com pelo menos uma participação fake pedindo uma música religiosa: o sotaque italiano de padre importado era infalível, fazer o quê. Tinha também censura pesada em músicas de roqueiros encapetados, mas isso era coisa de praxe.

E por aí seguia-se, dia-a-dia, a peleia radiotransmitida.

O playback da rádio ainda era baseado nos rolões e nos clássicos LP´s. Nada de mp3 e programas automáticos, subentenda-se. Isso significava uma coisa bem interessante: a editoração era em tempo real, com um disk jockey ativo o tempo todo.

E esse meu amigo infeliz era o cara que pegava muitos turnos infelizes da madrugada solitária e friorenta. E pelo fato de ser solitária, sempre que ele podia, convidava um ou outro amigo para tomar uma cerveja lá no estúdio (“Venha aqui, mas passa ali no Popi´s e cata umas béras!”). Era uma forma de quebrar o nosso tédio.

O interessante da rádio é que a discoteca continha álbuns muito bizarros para uma rádio católica: Desde Danzig, Manoar e Gwar, até os clássicos Black Sabbath e velharias encapetadas.

“Quer ver um segredo mortal dos profissionais de radiodifusão jamais revelado?” Perguntou-me com um olhar amedrontador e lunático?

Não esperou minha resposta: “Siga-me.” Ele andava como um lider de alguma seita misteriosa e encafifada nos cafundós daquele estoicismo magistral. Adentramos na discoteca. Ele pegou o primeiro disco da primeira coluna da primeira prateleira. Legião Urbana. Estava fora da ordem alfabética. Fora da ordem de importância, Fora da ordem das ++ (mais-mais). Sobrepujava até a redenção dos discos religiosos. Acima de tudo e de todos, para resumir bem.

Retornamos ao estúdio, ele paciente, esperava o outro disco terminar. Rodou o rolão de reclames, posicionou o LP na picape, Entrou ao vivo: ” Madalena, da vila Pequena pediu, cá tocamos: Faroeste Caboclo. Com vocês Legião!”

Ele desceu a agulha, cortou o áudio do mic, levantou-se, acendeu um cigarro, enrolou uma revista embaixo do braço e declarou, na maior naturalidade e com uma cara de superioridade monumental que só um momento tal e qual permitiria: “A melhor música para uma radialista cagar sem ser incomodado. Oito minutos de paz no trono.”

Josias, o propedeuta amoroso

9 de julho de 2007

Era assim que eu assinava uma coluna de relacionamentos amorosos no jornal O Plausível, da cidade de Itaiacóca, em 1968. O anonimato causado pelo pseudônimo imponente era deveras significativo, uma vez que eu sempre recebia e-mails, telex, mimeografias e cantadas calorentas por cartinhas.

As mulheres me achavam charmoso. Elas exacerbavam o tipico complexo do radialista de voz de barítono galeão. E olha que nunca ninguém descobriu minha real identidade ou viu minha foto. Talvez fosse uma forma de proteger a carência afetiva delas, sei lá.

O bom de tudo isso era que eu, na ingenuidade da leiguisse psicológica, conseguia solidificar (ou destruir por completo) relacionamentos amorosos cheios de dúvidas e precipitações vivenciais. Escrevia opiniões solidárias, citava dicas românticas para ogros pézudos e demonstrava a complexidade do amor em traições desmedidas.

Sim, eu desafiava os apaixonados!

Mostrava que a paixão cegava, que o amor sufocava. Salvo raras situações onde o casalzinho era realmente feito um para o outro, todos os relacionamentos descambavam para a baixaria.

Muita gente escrevia para mim, dizendo que apostara tudo em um amor fatídico, com alguns detalhezinhos que ignoravam e achavam que não implicaria em nada, mas que crescera como um tumor maligno e cancerizava a base real do relacionamento.

Pequeninos detalhes, ínfimas pelotinhas vítreas que de tão pequerruchas e desapercebidas, nem coçavam a ostra. E acabaram por virar pérolas carrancudas.

Aí descobri a medonha síndrome do desespero de gente que tentava moldar a personalidade para uma relação que não daria certo de jeito maneira.

E essa síndrome fez Josias — o propedeuta amoroso — especializar-se em saber se um relacionamento que estava começando teria — ou não – a durabilidade necessária para se tornar amor propriamente dito.

Tudo primoroso e direto. Faca-na-bóta mesmo.

Dia 13 de junho de 1969, segunda-feira, a Junta Comercial de Itaiacóca pressionou o editor-chefe para desmascarar, demitir e escarnecer Josias, um maldito propedeuta que arruinou a venda de presentes, flores e contraceptivos da comarca Itaiacoquiense.

Desde então migrei minha carteira de conhecimentos para este site, unica instituição que aceitou-me de bom grado. Um site mecenas por assim dizer. E sempre que posso, exercito o vai-não-vai dos relacionamentos.

Agora sem o brilhantismo vil de outrora.

Champagne

2 de julho de 2007

Minha fantasia na adolescência era levar uma mulher para uma cabana nas montanhas, com lareira, ambiente insinuante, som tranqüilo e a penumbra ideal.

Alimentei essa idéia por muito tempo. E já que eu era adolescente, sempre rolava as famosas variantes “agentes-secretos”, “ninfetas taradas” e “carrões esportivos”. E esses sonhos distantes geralmente ficam arquivados e desbotam com o tempo, como as belas pernas da modelo do pôster.

Interessante é que surgiu uma oportunidade dessas.

Campos do Jordão, aquele frio gostoso de inverno, névoa sugestiva lá fora. Cabana grande, madeira escura, lareira de pedras brilhantes. Levei aquela mulher para dentro, paletó nas costas para protegê-la do frio. Deixei o ínfimo aparelho de som tocando um jazz muito tranqüilo, antes de sair. Ela gostou. Na verdade sempre gostava de chegar comigo em casa. A privacidade nos deixava completamente insinuantes e perigosos. Sentou-se no sofá, enquanto eu fui pegar um vinho para fechar a noite. Olhei para a lareira acesa, para o sofá à sua frente e para aquela mulher perfeita.

Era a minha própria fantasia de adolescente, lapidada em muitos devaneios do passado!

Na geladeira nada de vinho, apenas um Grand Damme comprado no mercado. E quer uma coisa mais abusada que um mercado que vende champagne francês? Deixei a garrafa ao lado do sofá. Sorrateiro, roubei um longo e delicioso beijo. Deixei-a nua em câmera lenta. Penumbra, janelas grandes para o nada, madeira por todo o lado, lua quase cheia, amarelecida pelo nevoeiro inconstante.

Espoquei a champagne. Fitei-a com a garrafa aberta. Sem taças! Com um canto de boca arqueado ela sorriu: sabia que aquilo era tara de adolescente espinhoso.

O vinho leve frisava sua boca. Ela sorria. Olhos fechados. Ela estava encabulada, oras! Mui raro uma mulher virar fantasia, não é? Um pouco da espuma adocicada desceu delineando seu pescoço. Mais champagne. Outro tanto desceu mais além, contornando suas curvas em todas as direções. E é claro que minha boca seguia cada uma daquelas trilhas geladas.

Foi uma longa e demorada degustação: grand damme avec une belle damme. E a fragância que pairava no ar enebriava-me de um jeito jamais sentido. Era o ápice de um desejo, de um fetiche, de uma fantasia há tempos amadurecida na adega de sonhos especiais.

A plenitude disso tudo foi quando os dois corpos caíram extasiados ao chão, depois de um embate intenso e único. Ela dormira em meus braços. Eu apenas contemplava aquelas curvas, que por muito confundiam-se com a sombra que o fogo trêmulo formava.

Naquela noite não consegui dormir.

A casa de campo

18 de maio de 2007

Ainda é entardecer de novembro. Pôr-do-sol de domingo. Sol das cinco da tarde, perfeito para um dia de espera. Dia com cores quentes. Saudade de você. Banho tomado, sabonete de erva-doce para acalmar. Perfume dispersado em uma névoa sobre o corpo.

Roupa leve. Levemente maior para provocar. Tecido cru, decote delicioso, cabelo molhado, comprido e cheiroso.

A mesa de chá está no pequeno mezanino de madeira. Toalha branquíssima e rendada. Vaso de flores diversas, bem campezinas. Hum, dois guardanapos de linho branco com uma aliança de ouro em cada um. Alianças de ouro? É pedido de casamento então!

Ele chega exausto. Ainda gosta das meninices de bicicletas, trilhas e barro. Banho demorado, direito à barba feita e roupas brancas? Sim, combinaram até nas roupas!

Xícara de porcelana fina. Chá de maçã que embaça a baixela. alguns croutons recém saídos do forno. Guarnição leve para um fim de tarde amarelecido pelo sol.

Era a felicidade em uma brisa deliciosa pela grande janela envidraçada.

Chá? Sim, adoro seu chá. E falava isso como se aquele chá fosse inédito. Era maçã, apenas. Pequeninas torradinhas, um naco aqui, como foi seu passeio de bicicleta?

Ah, como contava com empolgação! Menino ainda, sem dúvidas. Descuidou, deixou uma pequenina gota de chá escorrer do canto da boca. E aí aquele guardanapo de linho, até então intocado, parou-o no tempo.

Alianças? Sim, seu nome dentro desta aqui. Meu nome nesta aqui.

E não foi o guardanapo que secou aquela gota de chá, não se engane. Foram os lábios mais suculentos e sedentos de um amor que, delicados, passearam por toda a boca. Lábios de uma dama recatada e cheia de boas maneiras, não esqueça.

Alianças que ele planejara comprar há tempos. Atônito. Mais chá, meu amor? Caramba, era para eu comprar essas alianças!

E aquele momento foi descrito como um vinho de bom rótulo e excelente aroma, frutado, de notas almiscaradas, sem freios nem pudor. Vinho sem freios nem pudor? Goût de tapis ainda vai, mas despudorado? Outro beijo inevitável, sabor maçã. Notas amendoadas?

Um perfeito chá das cinco que nunca teve um fim ao certo. Colocou a aliança no dedo de sua amada. Casa comigo? Sim e você? Colocou aliança no dedo daquele homem.

Ela cerra os olhos, aspira longamente o momento e sucumbe aos desejos explícitos daquele amor indelével. Perceba que uma mulher assim, toda delicada, quando sucumbe aos seus puros desejos mais íntimos, transforma-se em uma perfeita deusa sedutora. Nada a impede. Tudo conspira à favor.

Perderam os freios. E aquelas roupas branquinhas agora fazem parte da decoração de um piso de madeira do mezanino de chá. No sofá dois amantes vulneráveis aos sentidos mais quentes. Ainda eram beijos carregados. Mãos comportadas. Não por muito tempo.

Pele deliciosa e aromas, ora perfume, ora tez de uma mulher ávida. E o que fizeram naquele sofá, naquele final de tarde de um novembro adomingado pelo sol, só ele e ela, que aparentemente estavam sem freios, lembrarão. Ele se recordará da insensatez e da volúpia que tomou conta daquela acatada fêmea. Ela, de como um homem tão recatado pode ser devasso e viril. Sonhos para lembrar, por supuesto.

Quem sabe viver um sonho seja uma arte. L’art de mise en scène, l’art de recevoir?