MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘contos da carochinha’

Vicissitude

15 de julho de 2007

Era um final de tarde qualquer em que o menino escrevia sua redação. Entregaria sem falta, dia seguinte, no grupo escolar. Esmerava-se em escrever com letra nédia, caligrafia impecável. Mas seu texto borrava! Também canhoto, quer o quê? É que tal capricho na hora de redigir tinha um motivo muito especial: a professora era graciosamente perfeita. Lábios carnudos, olhos verdes, grandes, brilhantes.

Ouvira dia desses no sermão da missa dominical a palavra vicissitude. Não prestou atenção no sermão em si, apenas na palavra, que circulou livremente por seus devaneios. Resolveu aplicá-la. Era a deixa para impressionar a bela professora!

Escreve daqui, rabisca de lá. Não tinha idéia do significado vicissitudeano. Sem dicionário em casa. Fragmenta a palavra: prefixo deve ser vida. Sufixo? Fácil: atitude. Pronto, vicissitude era adjetivo que enalteceria o ego da professora!

Escreveu, caprichou muito. Leu em voz alta, arrumou redundâncias. O discurso estaria impecável, leitura obrigatória à frente de todos na classe.

E o amanhã chegou, suas palavras pairaram majestosas fronte aos carismáticos e envolventes olhos verdes da professora. Ela leu silenciosamente. Seus olhos saltavam palavra a palavra, balbuciando imperceptivelmente. Ao terminar, esboçou um inédito sorriso, prontamente memorizado aos vastos sorrisos já colecionados. Ela docemente explicou ao menino que vicissitude não era um adjetivo grandioso, apenas contratempos ou problemas que ocorrem durante uma ação.

Apesar de surpreso com a nova significância, o menino estava feliz e pensativo. Sabia que a palavra que tanto gostava acabou tornando-se a própria ação. A contradição de um belo texto, com uma linda palavra causou o sorriso inédito. E para ele isso foi a melhor recompensa.

O homem do bistrot ao entardecer de quinta qualquer.

15 de julho de 2007

Na viela que beira o riacho de pedras escuras do vilarinho que agora resido há uma pequena livraria que denominei de “casamata cultural”. Escura talvez pela natureza literária dos romances alemães que povoam aquelas prateleiras prumadas à esquadro, tem um feitio decente e preços justos (não que sejam bons) para a cultura que a cerca. Na sobreloja do meio andar acima encontro uma casa de cafés, bistrô de internet, mesas literárias e rodas livres de poetas desmedidos da infante milícia cultural.

Sempre vazio às tardes de dia de semana, apenas a mulher dos olhos brilhosos e o careca (face desinteressada de um apago) do terno surrado o frequentam. E eu ali a observar tudo.

O careca quase nada me interessava. Era franzino, pouco alto pouco baixo, o típico sumidouro masculino. Do seu recostado no balcão, uma das pernas no sopé do banqueto outra esticada, punha-se a ler um livro clássico, páginas fedorentas de uma velharia invejável. Fumava um tabaco qualquer e bebericava café-pelado-de-grão.

A mulher dos cilios longos e olhos brilhantes dos reflexos amadeirados do abajur fazia periódicas anotações manuscritas. Supus um diário pessoal, desses que raras mulheres escrevem passagens importantes e cruciais. Ela escrevia com a alma, e isso era claro na feição do rosto e movimentos labiais de um sussurro imperceptivel. E a vontade de ler aquelas páginas me fez vê-la melhor a cada dia no bistrô. Na verdade notei que um certo ar de inteligência influenciava as diversas expressões da bela mulher. Meu Deus! Eu estava obcecado por aquelas pequeninas nuances detalhistas que nem ela devia notar!

Do careca sabia pouca coisa: ele estava ali como contrabalanço de uma beleza feminina perfeita.

Dela? Ah, quase nada, acredita? O barzeiro não a conhecia muito bem. Tinha até medo da moçoila!

Já o bistrô da internet punha-se à nossa disposição com uma maravilhosa máquina computacional que combinava perfeitamente com o lugar: velha, lenta e embolorada. E nela escrevo este diário virtual há algum tempo.

Acontece que publiquei algumas palavras, entreguei a chave com a calota para o barzeiro, sentei-me à mesa costumaz. Não percebi a tela do computador. Deixei este diário aberto na janela! O barzeiro desceu para a livraria. Sem teclado não pude desligá-lo. E reiniciar o computador? Nada! a máquina ficava trancafiada no bauzinho abaixo do monitor. Nem fonte de energia eu consegui achar! Era minha vida exposta na tela. Algum tempo depois a mulher tomou a chaveta com calota, ligou o teclado da banheira digital e começou a rolar pelas páginas do diário. Qual! Ficou bem alguns minutos lendo! Postou um comentário. E a dicotomia dos sentimentos os quais meus pulsantes pensamentos abrigam entraram em um belíssimo confronto. Era a voz trêmula da inexperiência do leve esperar versus a baça e morimbunda vontade do “é meu”.

E então ela acessou o diário virtual no dia seguinte. Fitei de canto de olho. Gravou o nome, qual! E não sei realmente o porquê, mas desse dia em diante nossos olhares cruzaram-se de leve e cumprimentamo-nos com sorrisos leves. Quinta-feira qualquer entramos os três juntos na casamata cultural. Eu, o careca e a mulher dos olhos brilhantes. Conversamos algumas coisas usuais, afinal era um interlóquio coletivo. O coiso sentou-se no balcão, como sempre fez. Eu na mesinha usual e ela perto da janela, com o diário que escrevia sempre sussurrando.

Mais computador, mais textos, e-mails, firulas fúteis. A mulher sentou-se ao meu lado. Perguntou se eu escrevia. E respondi que sim, fazer o que? Ela retrucou sobre o escrever para não morrer. Falei do diário que mantinha, ela disse desconfiar muito que era meu. Elogiou as palavras, fotos. Palpitou minha imaginação fértil. E ela não sabia que daquelas palavras a realidade do meu passado extático infiltrava-se sem pestanejar!

De tardes e tardes no bistrô-café nossas fronteiras intercalaram a realidade de alguns atos. Já sabia o nome dela, o que me era um avanço. Disparates e retrucas eram o óbvio para ver que eu resistia à ela e ela — quem diria! – resistia a mim!

A cidade nos era a vida e de alguns momentos percebíamos claramente que nossas almas eram complementares. Sim parece conversa de boi velho, sei bem disso. Mas quem senão dois perfeitos um-para-o-outro compadeceriam assim?

Assim a conheci, vilarejo pequeno do rio de águas límpidas em pedregosas escuras. Viela beirante com pequenas lojas entroncadinhas. Livraria do alemão de dedos longos e bigode queimado de cachimbo. Um bistrô “quem diria” e o amor ali, sentado na cadeira de perto da janela, só matutando a melhor estratégia de nos atacar pelos flancos. E atacou.

Mas uma coisa confesso e adoro pensar nisso:

Eu nem sequer consegui ler um parágrafo do diário da mulher dos olhos brilhantes e cílios longos.

A cruviana

14 de julho de 2007

cruviana.jpg

O caixeiro catinguento do eslaque listra de giz atardeceu na comunidade sem ter para onde ir. Da sua vemaguete três-tempos não conseguiria viajar sem antes comprar alguns galães de gasolina no recôncavo do coronel. Mas fecha cedo e cadê os culhões para importuná-lo essa hora da noite?

Resolveu pedir arrego a um tal João Cacheado, cabroche pernóstico e contador de histórias antigas, da Vila Desperado. Vendeu a João revórve, espuleta e radinho caboclo, não o daria pouso? João era sagaz e matrecolejante, tinha salinha de estudo com numerosas estantes tortas da meia-cana, abarrotadas de livros certamente preciosos, com admiráveis encardenações de lombada em relevo americano. E falava pelos catovelos astúcias de contos letrados que de vida os formavam.

É claro que dessa conversaiada toda o tempo comeu dois quintos da noite adentro. O catinguento caixeiro assoprou o fio de luz do candeeiro com o boa-noite de João. Cresceu a noite, e a vigília dos olhos do caixeiro cada vez mais acesa; sem dormir, sonhou as letradas palavras viventes do homem que o contara.

Vento dali, cruviana que assobia em riba das telhas, catucou o caixeiro de fianco pelas tramas da rede balangandã. E cruviana não se vê, se sente. Era já a terceira ou quarta cantata de galos e o ventil o beliscou as bochechas.

Amanheceu, o caixeiro acordou com as juntas ardidas de frio, tremelequento que só ele. João Cacheado, que levantou cedo para o café coar, encontrou o caixeiro picando fumo na mão: “Cedo, caixero?” “Nada, cruviana me atacou.” “Cruviana tava é presa!” “Nada! no solsaio da baticum lá veio ela e crau nas minhas ventas!” “Machucou?” “Nem, só gelou minha espinhéla.” “Vou descer de pau essa vagabunda!”

Para o caixeiro, a cruviana era só um soprão frio — desses que vem do sul — que o catou de supetão. Para João Cacheado, apenas uma cadela desdentada e descaderada de briga de cio.

Tanto fez, tanto faz, desta desencontrura de informações, nem caixeiro, nem Cacheado fizeram-se entender.

O Ansemo

12 de julho de 2007

Ali na rua quinta que sobe do porto, casa do Zé, das janelas grandes e caiadas de um branco de doer os olhos estava o Anselmo, flho mais velho.

Sempre foi perrengueiro e meio vagabundo esse filho mais velho do Zé. As janelas grandes e caiadas eram vagarosas, como as lentas horas de calor daquela enseada de mulatos curtidos do sal.

Aí passa na frente do Anselmo um carro estrangeiro e vermelho. Desses de abaixar o telhado e deixar a cachôpa para fora. Lento e de ronco barulhento. A rua quinta do porto, essa da casa do Zé, tem um calçamento irregular e torto, como tudo ali ao redor.

Passa o carro, Anselmo o desdenha. Anselmo o inveja, Anselmo o deseja. “Ah, um carro desses, hein anselmo?” fala para si mesmo e pensa em quantas meninas poderia carregar ali. “Mas você é vagabundo mesmo, hein Anselmo! Não faz nada o dia inteiro. Não trabalha nem ajuda teu pai. Só curtindo a carraspana.”

O carro vai, Anselmo acompanha em pensamento.

No carro o homem fita aquele Anselmo estático e sonolento. Pensou na beleza que seria ter uma vida desregrada e livre. Mas o celular vibrou no bolso e o despertou do pensamento viciante.

Desgraceira

12 de julho de 2007

Eram três guris. Um polaquinho e dois sararás. Achavam-se — como qualquer menino de época — invencíveis. Zombeteiros, aporrinhavam os caboclos da vila de baixo, um distrito de 300 gentes.

Perto dali a BR-zero-alguma-coisa passava rente. Tinha rio com poço fundo, ponte de altura boa. E era ali que os três guris ganhavam dinheiro. Pulavam da murada, juntavam as mãos cruzadas no peito e os pés em forma de punção, para estourar a água.

No dia três do mês quatro do ano cinco, o polaquinho pulou meio torto e bateu a cachôpa na água. Sabe que o tonguinho morreu? O pior é que sempre pulavam em formato de gente morrida, lembra? Braços cruzados, zóio bem fechado para não cair a bola pra fora. Ca força que ele caiu, ficou boiando que parecia gente morta.

E era.

Foi a morte que ficou na história da vila de baixo, daquelas que o vô conta pra netaiada e serve de regulador doidológico para amainar os ânimos da criançada sem limites. Sobraram os dois sararás. Foram puxar saco de batata. Perderam a coragem e a invencibilidade.

Ou os cuião, whatever.

Assombrosidades

12 de julho de 2007

Todos têm fantasmas atormentadores. Lá na fazendinha onde o Arcebides é peão com requintes de capataz, visagens. Na água-fria, lobisóme e a noiva de branco que morreu de a cavalo. Tem o piazinho que subiu na árvore, caiu do galho e quebrou a espinhéla. Tem escravo torto que morreu queimado no barbaquá e vem chiar na olaria toda lua cheia. São medos irrefutáveis. Nunca ninguém viu. Mas conhece gente que viu ou gente que conhece gente que viu. Fantasmas fantasmas. Fantasmas que assustam de verdade.

Aqui na cidade grande, onde o fedor no ar é de bosta e o chão é bem mais duro, têm fantasmas. E dos grandes. Assombrosos, medonhos e meticulosos. Fantasma de dar medo. Medo de assalto, da cornisse. Medo medonho de ser atropelado, perder o emprego, não pagar as contas. Medo do Fantasma de Canterville, das instituições, da internet. Medo da amizade de aparência, medo de perder a compostura, briga de gangue, assalto (opa essa eu já falei). Então é medo de tiro no meio dos cornos, do carro que bate na sua porta de carro à 321cáeme. Medo da vizinha te esfaquear, do síndico ligar para reclamar do som alto. Medo de ter aids, medo da camisinha estoirar. Medo de beber até cair, boa-noite cinderela. Medo de ser atropelada e descobrirem que sua calcinha está rasgada, com furos ou uma freiadéla. Medo da morte (mas esse é pra todos).

Sentiu a diferença? Você escolhe seu fantasma. Ele escolhe seu dilema e te olha de canto de olho. Ignora, mas é teu amiguinho.

Pequeno conto do assaz-sagaz

11 de julho de 2007

Na cidade velha, em um catre mequetréfe, descendo as vias escuras do porão do bar do Nêgo, tem um velho quismeqüique que bate a lata no chão. Grita uma zombaria funesta, sem eira nem beira.

Chama mulata de mulata, viado de baitôla e criança de pestelhôca.

Dia desses Orlindo jogou moeda na lata. Tomou-lhe a pataca nas ventas. “Minha lata é pra comida, lazarento!”

O velho era chato de todo tempo. Sem graça até. Não mereceria mais do que 2 linhas de crédito em túmbalo.

O que conta foi o baião que o cunhépe cantou dia desses:

Tem massa de mandioca, batata assada, tem ovo cru.
Banana, laranja e manga, batata-doce, queijo e caju.
Cenoura, jabuticaba, guiné, galinha, pato e peru.
Tem bode, carneiro e porco, e se duvidar inté cururu.
Tem maxixe, cebola verde, tomate, couve e chuchu.
Almoço feito na corda, pirão mexido que nem angu.
Tem súvete de jaú, caldo de cana e mandacaru.
Se te pego minha fofinha, te descabelo, trubufu!

Uma balzaca corpulenta, de sorriso estrábico e olhos esbugalhados sorriu. Sabia que era para ela o disparate.

Foto velha

11 de julho de 2007

foto.jpgSabe a foto ao lado? Foi tirada mais ou menos em 1968. Sou eu. Uniforme da seleção brasileira, camiseta do Rivelino. Tri-campeonato mundial de futebol, taça Rimet.

Não que eu seja dessa época.

divisor

Vê o esparadrapo na testa? A mão na cabeça? Aconteceu depois que eu passei no Agenor´s.

divisor

Agenor´s Cabelos e Sorvetes era, como o nome já denunciava, uma barbearia e sorveteria bem freqüentada pela sociedade local.

Cortava cabelo, vendia sorvetes de massa. Tudo em uma época que não existia vigilância sanitária ou pudor gastronômico. No bolso do jaléco branco, a tesoura afiada, a tesoura de mascar cabelo, toda serrilhadinha, a escova de tirar pelos e uma colher metálica de pegar bolas de sorvetes.

E apesar dos mimos de sorvetes, era o terror das crianças: Adorava o corte piniquinho, deixava todas com aparência de indiozinho.

Cegueta, com uma catarata infeliz, Agenor tinha dois pequenos cães, que dormiam aos pés da majestosa cadeira-trono Ferrante. Eles tinham uma razão bem especial para espreitar ali. Hora ou outra eram acordados no susto, com um grito agudo: mais um pedacinho de orelha caía ao chão.