MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘contos da carochinha’

A difusora do interior

24 de julho de 2007

A rádio era pequenina, mas a audiência, enorme. E isso porque o radialista era muito carismático. Dia desses, preparou-se para a previsão do tempo. Como sempre fazia, olhou o “galinho do tempo” que mudava de cor de acordo com a umidade, aferiu o termômetro de mercúrio vermelho que nunca se mexia e deu uma espiadinha pela janela:

— E você que vai sair de casa hoje, prepare o guarda-chuva e as galochas: dezoito graus, muita umidade no ar e chove torrencialmente na cidade! — Falava puxando os dois érres do “torrencialmente”, parecendo carro velho enroscando a marcha.

Deixou tocar uma música, preparou o café e o telefone tocou insistentemente.

Terminou a música, o radialista entrou:

— Ratificando minha gente: calorzinho lá fora, sol de rachar. A chuva era a Zulmira, lavando a janela.

O infeliz

24 de julho de 2007

O infeliz era da época áurea da internet, onde pessoas boas de coração usavam o meio de comunicação para se conhecer em um modo simples e verdadeiro. Ele não conversava muito, é verdade. Tinha poucos amigos. Acabou a solidão dia em que conhecera as mensagens instantâneas.

O infeliz agora tinha amigos virtuais. Conversava com mulheres, pessoas do outro lado do mundo. Suas noites — e porque não falar algumas madrugadas — eram regadas por conversas variadas, inclusive em outros idiomas. Conhecia segredos de pessoas que viu sequer uma foto. Contava segredos tão escondidos que jamais falaria para algum vivente.

Mas o infeliz tinha uma rotina diária, onde encontrava pessoas reais. E estas pessoas não eram nada parecidas com seus amigos perfeitos virtuais. E isso o deixava infeliz.

O infeliz era uma pessoa comunicativa. Conversava alegremente no silêncio ínfimo do bater das teclas. Até se apaixonou uma vez, puramente por uma mulata do Suriname. Ninguém se importava mesmo.

Duas vidas completamente diferentes.

O menino do colono

19 de julho de 2007

O menino do colono era polaquinho de olho azul. Pele sardenta e andava de pé no chão. Dia desses encontrou um estranho à beira do lago de águas claras. O estranho estava cutucando um galho de cedro vermelho. Chegou mais perto, curioso que era. Viu, das mãos do homem o galho de cedro vermelho tornar-se uma escultura minúscula de cervo, com a ajuda de um pequenino canivete. Acompanhou em silêncio a escultura.

Ao terminar, os olhos do menino do colono brilharam.

O estranho viu que era dele a escultura. Presenteou-o com o delicado e diminuto cervo. O menino sacou de um de seus bolsos uma pequenina pedra branca, calcárea e retribuiu. Foi embora correndo, feliz.

E os dois não trocaram sequer uma palavra.

Nem precisou.

Sancti Benedicti

19 de julho de 2007

O padre bonachão estava por finalizar sua missa. Adorava rezar cantadinho. Antes da benção final, sentou todos os presentes, dirigiu-se ao púlpito. “Vamos aos avisos da paróquia.” Folheou o livrinho, silêncio de todos. Folheou e folheou, voltou algumas páginas, forçou os olhos já cansados. “A paróquia avisa que não temos avisos hoje.”

Formigas em conserva

19 de julho de 2007

“Formigas tem formol em sua composição química, sabia?” Assim começou a pequenina aula de ciências. O fato é que formigas possuem uma grande quantidade de formol em seus abdomenes, principalmente formigas aladas chamadas “aleluias”, que do nada aparecem voando por aí e do nada somem. As formiguinhas aladas utilizam o formol de seu corpo como combustível para asas.

E o que mais intriga é que a formiga tem seu nome originado de uma fusão do seu corpo com seu combustivel. Aldo Severiano (in Bothanicæ ab incunabulis, 1943) explica que o botânico Oswaldo Schoröeder, maravilhado com tanajuras e saúvas brasileiras ao estudar gramíneas, chamou-as de formiga, usando o prefixo “formi” da palavra formol mais o sufixo “iga” de barriga, assim sendo, “barriga de formol“.

Poderia ser formabdômene, mas o nome seria muito feio.

O indiscreto reinado peculiar

18 de julho de 2007

Lá no Reino-de-Não-Sei-Onde existia um rei muito excêntrico. Ele adorava suas posses, prezava pelo poder absolutista e ainda por cima detinha um peculiar harém de 128 mulheres ruivas. Sua vida era muito tranqüila. Matou todos os inimigos que atravessaram sua frente. Tinha uma agenda cultural elitista e bailes nunca faltaram em sua corte.

Agora uma coisa que era segredo muito bem guardado era a fonte de juventude de sua majestade, o rei do Reino-de-Não-Sei-Onde.

Todo dia o majestático rei — de posse de seu cálice de ouro maciço — visitava suas ninfas ruivas. Olhava nos olhos de cada uma, por minutos. Um olhar forte e intenso que inusitadamente vertiam algumas lágrimas, colhidas no cálice.

Ninfa-a-ninfa, tete-a-tete. Aquele rei enchia meia taça de lágrimas de mulheres ruivas em pouquiíssimos quartos de horas.

E essa era sua fonte de juventude, um ritual de inigualável prazer, a degustação das lágrimas das suas ruivas.

Tempo se passou e o rei morreu. As lágrimas eram elixir da juventude, não proviam uma vida eterna, oras!

Velando seu corpo no grandioso salão das abóbodas doiradas, as 128 mulheres.

Estavam chorando.

Devaneios — Bilac

16 de julho de 2007

Aos doze anos recebi a agoniante missão da belíssima professora de literatura: fazer um trabalho sobre o Parnasianismo.

É claro que como todo bom aluno apaixonado pelos belíssimos olhos amendoados daquela esvoaçante russa erradicada, o trabalho deveria ser perfeito. Aprofundei-me aos devaneios poéticos-literários, conheci Parnaso, o deus mitológico. Soube de relance que a poesia parnasiana devia pintar objetivamente as coisas, sem demonstrar a emoção, o que era feito caracteristico do romantismo.

Dificil era a leitura de Olavo Bilac. Desvendar as complicadas expressões de Raimundo Correia então! E noites afora biografias, poemas, enciclopédias de literatura caiam em minhas leituras. Emprestei de uma tia o livreto de normas para apresentação de trabalhos técnicos e científicos. Aprendi com a ABNT a defender uma tese e como seguir uma linha de pensamento lógico.

Ao final de duas semanas, a obra estava pronta: Serigrafia com o auxilio do pai gráfico de um colega uma caricatura colorida de Bilac na capa do trabalho. Redigi cuidadosamente as 14 páginas introdutórias burocráticas, dentro das normas.

E o dia tão esperado chegou. Vi colegas que apresentariam trabalhos sobre barroco, romantismo e arcadismo com míseras páginas grampeadas porcamente. Assisti pacientemente a apresentação dos tolos que sequer sabiam o que falavam. Apenas liam textos insossos e decorados.

A vez de apresentar encheu-me de ansiendade. Deixei a proposição do teorema ao colo da belíssima professora. O volume era de se impressionar: mais de cem páginas compunham a obra que apresentava uma chamativa e bem elaborada capa semi-transparente, caricaturada.

Quinze minutos destinados ao parnasianismo. A professora, incrédula, folheava o trabalho, sem prestar atenção ao descurso sólido. Interrompera, queria saber o que significava aquela frase estranha na dedicatoria do livro:

“Aos beócios humanos que não entendem a imane arte mordaz.”

Sorri, é claro! Disse-lhe que era referencial aos colegas de classe que passariam a vida rindo, sem nunca entender o que se passara.

A professora sorriu. Sabia o que significava. E o meu escarnecedor sorriso fez perceber que naquele ambiente o conhecimento havia sobrepujado toda a horda de colegas infinitamente inferiores ao conhecimento adquirido. E de lá para cá cada vez mais alguns textos meus vêm supridos de um trágico – mas glorioso vício – de enxertar doces devaneios tolos por tudo que se escreve.

Vicissitude II

15 de julho de 2007

A vida é sempre — normalmente — vicissitudinária e, quem percebe esta realidade dinâmica e maravilhosa não fica aborrecido. Vicissitude é dinamismo. Não existe nada equilibrado. A realidade não pára. Quando as coisas páram, cessa a vida, acabam as possibilidades. Vicissitude é possibilidade e quem percebe, como o menino do texto abaixo, pode sintonizá-la para desenvolver um mundo próprio. Quem sente medo do desequilíbrio tenta fugir da realidade. A fuga da vicissitude é fatal, mas quem a enfrenta, corrigindo sempre o itinerário, pode encontrar seu processo vital.

Vicissitude é simultaneidade. Só isso: uma palavra bonita e simultaneidade.