MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘contos da carochinha’

A Variant amarela

27 de julho de 2007

Augustão era um pacato cidadão rural. Descendente de Alemães, tinha a pele avermelhada do sol, o que atenuava seu vasto bigodão loiro. Havia adquirido com muito gosto uma Variant amarela novinha. Como todo bom colono, instalara franjinhas no teto, bolinhas massageadoras no banco e trocou a bola do câmbio por uma de caranguejo, a do seu signo. Diariamente levava verduras para a cidade, subindo a serra vagarosamente. Acompanhado de sua esposa, Augustão fazia de seu estimado carro, sua forma de incrementar as vendas de suas verduras.

No começo do verão, sua produção de legumes bateu recorde. Vez ou outra precisava de duas viagens por dia para escoar todas as leguminosas, tamanho o fluxo vegetal. É claro que com esta fartura, Augustão pôde comprar um toca-fitas para a Variant, o que na época era capricho dos valiosos e velozes SP2.

E em uma dessas idas e vindas da cidade ao campo, Augustão, com toda a sua pompa, trafegava feliz por sua rota habitual. Dona Fifi, sua mulher, feliz por estar passeando, cantarolava baixinho a música do rádio. Neste sutil e raro momento, uma mosquinha-da-banana que estava no veículo, zanzou e entrou de forma estranha no ouvido direito de Augustão. Desesperado pelo zunir das asinhas, mas sem perder a calma, retirou do contato a chave, desligando o carro, que continuou em movimento, para assim catucar a intrusa entrincheirada.

É claro que o voltante travou, o freio acabou e o carro saiu da pista. O que se sucedeu foi inacreditável: A desgovernada perua invadiu o pasto vizinho à estrada, descida da serra.

Augustão, pedindo calma à dona Fifi, que com todas as suas forças agarrara-se ao console do painel e no putaoqueospariu, tentava em vão controlar a bendita Variant. A chave já havia caído metros atrás, no meio da balaiada. Com o volante travado, nada podia ser feito. O carro atravessou um pasto, recolheu as vacas na mangueira, passeou por mais umas plantações e estacionou em frente à casa do compadre Guilhermino. Por incrível que pareça, Nada acontecera de grave. Augustão, com toda sua pompa inatingível, desceu do carro, abriu o porta-malas e retirou duas cabeças de alface.

- Presente compadre Guilhermino. Estava descendo a serra e resolvi cortar caminho.

A mulher do vizinho

27 de julho de 2007

O Baltazar mora em um daqueles condomínios fechados onde cada um constrói a sua casa como mais lhe apetece. E como o estilo é americano, as casas não têm muros ou separações aparentes. Solteiro, simples, mas de carreira invejável, mora sozinho e desfruta das singelas sutilezas de uma vida a sós.

E o vizinho de Baltazar tem um mulher muito gostosa.

Ela sempre toma sol na piscina da casa do Baltazar. O marido, na estranheza de ser, nunca quis contruir uma para ela. E a cena sempre se repetia: Baltazar acordava, abria as cortinas de seu quarto e lá estava aquele monumento, tostando ao sol matinal.

É claro que as peças de banho ínfimas que ela usava tinham um descarado propósito provocativo. Sempre que ela se abaixava, fosse para pegar alguma revista, um creme, insinuava as maliciosas formas dos seios redondamente perfeitos. Passava branzeador de uma forma suave e insensata, apetecendo até olhos mais frígidos.

Baltazar surtava. Só não atacava aquela beldade pelo mínimo respeito que ainda restava ao seu vizinho.

Domingão desses, Baltazar curtia uma ressaca homérica. Deitado no chão, ao lado da piscina, resmungava baixinho, enquanto sua cabeça latejava, evaporando ao sol o álcool sorvido.

A vizinha surgiu do nada, sentou-se ao seu lado. Perguntara-lhe se poderia besuntá-lo de bronzeador. Ali, meu amigo, toda a relutância em não atacá-la fora água abaixo hora que ela encostou-lhe a mão com o óleo.

Os dois entregaram-se aos prazeres mundanos e carnais de uma forma espetacular. A vida de bon-vivant que Baltazar levava fez com que a mulher explodisse em um gozo intenso e imoral. Ficou bem evidente que ela estava há tempos na seca.

Baltazar ganhou a deliciosa vizinha. A Vizinha ganhou um amante insaciável. E o corno do vizinho continua a arrumar o computador do Baltazar de graça. Acha que assim não precisará construir uma piscina para sua tarada mulher. Tão cedo.

ZP

27 de julho de 2007

Zé Palminha era louco.

Formado em filosofia, Zé Palminha adotava, desde os áureos tempos de faculdade a singela ideologia diogenesiana. Diógenes, para quem não sabe, fazia tão pouco caso dos confortos dessa vida, que optou por morar em uma grande tina de barro, em um templo de Atenas. Seu ascetismo ostensivo e a indiferença pela crítica alheia ficaram associados à doutrina cínica. ZP assim como Diógenes, era conhecido como cão. Cão porque fazia festa quando lhe davam alguma coisa, rosnava para quem o rejeitasse, cravava os dentes nos crápulas.

E ZP era muito inteligente. Guardava carros em uma pacata rua comercial. Já fora visto com gerentes, diretores, donos de empresas. Ele palpitava, aconselhava e não muito raro dava broncas homéricas nestes homens. E mesmo assim às vezes precisavam marcar hora para poder conversar em paz com o louco. O apelido “Palminha” advinha de sua mania compulsiva de andar batendo palmas. E isso ninguém sabia o porquê.

Com um cabelão rasta, roupas marrons de sujeira e uma barbicha engraçada, faraônica e mal cortada, Zé Palminha era constantemente intimado à almoços informais no quilo do Fernandes, um português bonachão de bigodes majestosos. Era interessante a cena: Alguns homens impecáveis, com suas alvas camisas engomadas, divertindo-se às pampas com um maltrapilho escondido atrás de um prato de saladas diversas. Sim ZP era vegetariano.

Dia desses um importantíssimo advogado de uma dessas empresas da rua de ZP saiu do carro, esbravejando em seu pequenino celular. ZP, que não tinha nada para fazer, acompanhava com os olhos, sentado no muro da esquina, o impaciente homem, que esperava uma brecha entre os carros para poder atravessar a rua. Ele esbravejava ao celular, queria lembrar o nome daquela abordagem psíquica em que se estuda alguma coisa de percepção visual, pensamentos, raciocínio e solução de problemas.

- Gestalt! – Grita Zé Palminha.

O advogado virou rapidamente e meteu-lhe um tiro nas ventas de ZP. Estava assutado, achou que ZP gritou “assalto”.

E o imcompreensível cínico diogenesiano morrera. Pela espada, que fora mais forte que a pena.

O piazinho dos dedos a mais

26 de julho de 2007

O Xiru era um ranhentinho órfão de pai e mãe, indigente na vida. Morava em uma cidadezinha do interior, chegou ali de carona de uma capital qualquer. O que chamava a atenção nele era o polidactilismo. Seis dedos em cada mão. Ele era muito sagaz. E agressivo.

A vida passou, Xiru cresceu. Virou aviãozinho. Tinha um canela-seca, escafote brilhava no olho. Carregava uma farinha para lá, uns boca-de-ferro pra cá. Deu brecha, rodou com os gambé. Já era conhecido, miliano. O deléga foi fichar, a folha só tinha 5 lugares para digitais de cada mão.

Cortou-lhe os sextos dedos, sem titubear. Xiru era um homem normal, “agora arrumado para a vida” o delegado falou. Não chorou, não gritou e nem fez cara feia. Apenas jurou, em pensamentos, arrancar-lhe os culhões e enfiar-lhe goéla abaixo.

Tateto, o atentado

26 de julho de 2007

O Tateto não tinha nada para fazer. Resolveu visitar o Cabeção, que tinha Odissey e cartucho do Didi na serra pelada.

Apertou a campainha, ninguém atendeu. Pulou o muro e bateu na porta. Ninguém atendeu. Fez meia-volta, ia na casa de outro amigo. Ao pular o muro para fora, achou a chave da casa que o Cabeção sempre escondia embaixo de um tijolo.

Não deu outra: pegou a chave, entrou na casa e começou. Virou todos os quadros de cabeça para baixo, colocou todas as cúpulas de abajures de trás pra frente. Deixou as estatuetas de enfeite de cara para a parede. Ligou o rádio em uma AM de igreja sensacionalista.

Fechou a porta, devolveu a chave embaixo do tijolo e foi embora.

A mãe do Cabeção chegou em casa e surtou. Encontrara abóboras em cima das camas, padres exorcisando capetas no rádio, quadros de cabeça para baixo. Até a estatueta do São Jorge, imponente, olhando para a parede. Chamou Dona Filandrinha, a benzedeira. E benzedeira boa que era, assustou a mãe do Cabeção: disse que era obra de alguma entidade.

E o Tateto, atentado que era, nunca contou para ninguém.

A rua, deserta.

26 de julho de 2007

A rua estava deserta.

De paralelepípedos desgastados e polidos, dividindo a cena com majestosos prédios residenciais, uma iluminação amarelada e algumas árvores pingadas. Aquela rua era monótona e simples.

Noite escura, nevoeiro fino, quase garoa. O silêncio fôra quebrado por um melodioso som, esparso, delicado como uma flauta. Toda a atenção de todos os prédios estava voltada para aquela música. Um homem alto, cabelos grisalhos, bigode e costeletonas, passeava despreocupadamente pelo meio da rua. Sua melodia era perfeitamente assoviada. O timbre e a potência de seu assovio era impressionante: ecoava pelas paredes de concreto, despertando a atenção de todos!

E vinham pessoas às janelas. Aquele homem não sabia, mas havia quebrado a velha e cansada rotina daquela rua. Passos despreocupados. A expressão surpreendente no rosto de cada um que prostrava-se para ver o homem passar era a prova definitiva de que aquele gesto havia transcendido a frígida barreira da morosidade.

Ele caminhou até o final da rua. Entrou na padaria. Todos esperavam nas janelas, ansiosos.

O homem saiu em silêncio. Aquele vácuo infinito torturava a todos.

Ele não assoviou nada. Simplesmente começou a cantarolar uma opereta em italiano. Era passos lentos, despreocupados. Sua voz era enebriante. A potência daquele som ecoava pelas paredes de concreto. Ao chegar perto da esquina, alguém começou a aplaudir. Segundos depois, todos que estavam às janelas batiam palmas. O momento era de arrepiar. O homem, parado na esquina estava assustado com o inusitado fato.

Ele não sabia, mas tinha transformado aquele mágico momento em uma das mais singelas lembranças de uma noite extática daquelas pessoas.

Contar estrelas

26 de julho de 2007

O menino morava em uma casa afastada da cidade. E como toda vida simples daquele tempo, ninguém na sua casa comprava lâmpada de mais de 40 velas. Aquela casinha ficava com uma iluminação murcha, engolida pelo silêncio. Perfeita para ele.

Já conhecia bem ciências, tinha até livro de astronomia. Adorava ver estrelas. Toda noite pesquisava no almanaque o nome de uma constelação. É claro que era preciso ter muita imaginação para descobrir, no meio de todos aqueles astros, quem era quem. E ele achava, apesar do livro americano ter somente o hemisfério norte em suas páginas.

Seu ritual era prático: contava calmamente as estrelas, esquadrinhando em imaginação lotes de astros para facilitar. Outras vezes apenas olhava para a lua, e imaginava o dia em que poderia passear por aqueles terrenos com uma luneta.

Seu sonho era ter uma luneta.

Sua contagem diária era de seis mil e poucas estrelas com lua cheia, às vezes sete mil em dia de lua nova.

Uma noite ele atrasou-se para jantar. A sua mãe, impaciente foi chamá-lo. Escutou ele falar um pouco as balelas de sempre sobre corpos celestes. Apontou convicto para um punhado de estrelas e disse que era o cruzeiro do sul. Sua mãe deu um tapa ardido em sua mão, disse que apontar para estrelas fazia brotar berrugas nos dedos.

Aquilo marcou o menino para sempre. Tacou fogo em seu livro de astronomia. Ficou com ódio daquelas estrelas traidoras, das estrelas que fizeram nascer uma pequenina verruga em seu dedo. Agora entendera como aquela protuberância aparecera em sua mão. Ódio da lua, dos cometas, da noite. Ódio da Prima Estela. Raiva dos brinquedos de mesmo nome.

Tempo passou, enriqueceu, esqueceu a raiva. Até fez poesias para estrelas e namoradas:

Contando imagens
olho para o céu,
desenho nas estrelas
contorno expressões
aponto e aponto.
pronto, mais uma verruga no dedo.

Comprou a luneta mais avançada. Tinha gps, rastreador automático de estrelas e planetas. Magnitude óptica perfeita.

Mas o belíssimo encanto de sua infância fôra extirpado na micro-cirurgia dermatológica, tempos atrás, quando deu adeus à verruga inconveniente.

O diretor de arte

25 de julho de 2007

Reza a lenda corporativa que em uma multinacional russa havia uma cara muito engraçado e carismático: o Fagundinho. Ele era diretor de arte e tinha costumes estranhos. Apesar das singelas características up2date e well-fashioned o cara era todo boa-pinta e por onde passava arrancava suspiros das mulheres da empresa.

Acontece que Fagundinho tinha uma mania muito peculiar e constrangedora. Aliás, alguns achavam que aquilo era doença. Toda vez que o infeliz ia ao banheiro evacuar, executava uma sessão “mania pessoal”: desabotoava o paletó, tirava a gravata, arrancava a camisa, despia-se da calça e cueca, tirava as meias. Até o relógio. Ficava completamente nu. Deixava todas as roupas e acessórios alinhados na parede que contornava a sanita. Roupas dobradas nos vincos para não amassar. Relógio equilibrado para não cair. A mochila cheia de parafernálias no canto. Meias ao lado esquerdo, sapatos na porta, metade fora, metade dentro.

Ele dizia que aquilo o deixava livre para pensar enquanto prostrava-se ao trono oco para soltar o rabão de macaco.

E todo mundo que entrava naquele imenso banheiro já estava acostumado com a cena surreal. Mas ninguém se importava com aquelas doidivanices.

Até que o pessoal da logística resolveu sacanear.

Entraram sorrateiramente no banheiro. Cada um apontou para a peça de roupa que iria pegar. Contagem regressiva nos dedos e pimba! Cataram todas as roupas e se escafederam! Não deu nem chance do Fagundinho terminar o palavreado chulo que emanava com voz gutural.

A empresa era grande e era final de expediente. Muita gente zanzando pelos corredores do prédio, muita gente indo embora e ele precisava voltar ao trabalho, pelo menos para enviar um relatório atrasado e procurar suas roupas. Contabilizou o estrago: ficou com uma meia, o relógio, a gravata e os dois sapatos. E sua mochila.

Não restou-lhe dúvidas: vestiu a gravata, deu um nó duplo, colocou a única meia, os dois sapatos e viu que tinha que agir. Sacou da mochila umas folhas sulfites, um grampeador e uma fita adesiva. Dobrava as folhas, grampeava as emendas, fita adesiva nas partes críticas e de dobras corporais. Cinco minhutinhos e já tinha uma camiseta. Mais uns dez minutos, para ajustes de barra e comprimento do vinco e sua calça-sulfite estava pronta.

E não é que o Fagundinho sai do banheiro socialmente vestido? O desgraçado tinha feito até gola para assentar a gravata!

Chegou no seu setor. No promeiro momento, ninguém prestou muita atenção, mesmo porque ele sempre tinha umas roupas meio doidas mesmo. Até gravata de crochê o indecente usava.

Sentou-se lentamente, para assegurar-se de que os fundilhos não cederiam. Digitou umas coisas, enviou o relatório e esperou pacientemente.

Não deu outra: o boy apareceu meia hora depois, com um caixote lacrado. Era da logística. O bilhete em anexo admitia que Fagundinho 1 x Logística 0.