MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘contos da carochinha’

Nikola Litvinenko

18 de novembro de 2009

Imagem rara, real e verdadeira, captada por uma anônima Rolleiflex na última fête de famille daquêle bom-anno de 41, realizado por ocasião do anúncio de enlace de Nikola Litvinenko à trupe familiar. Para fácil identificação, acompanha legenda explanatória (Nikola, todavia, é facilmente reconhecido pela famosa posição da capanga prensada ao corpo e inclinação viril de cortejador, escoltando minha tia-avó de terceiro grau).

Nikola Valentino

Nikola Litvinenko era um russo que se afirmava escondido da milícia russa bolchevista no Brasil. Na época, todos acreditavam na ingenuidade ideológica. Descobriu-se, tempos depois, que o vermelho era tio de segundo grau do famoso expião Alexander Litvinenko (que só ficou famoso porque foi pego).

Nikola era costumaz de uma longínqua e demorada viagem no meio do ano para uma cidade no sertão central, baldeada hora por cerrado, ora por caatinga, dentro de uma imensa semi-cratera, fundeada, abrigada de quaisquer interpéries, inexistente em mapa algum, onde não ocorria variação de temperatura atmosférica e completamente sem vento. Segundo um barômetro de mercúrio kastaque, até a altura da cidade era nivelada pelo mar. Um verdadeiro laboratório CNTP. A percepção da temperatura variava de acordo com o ritmo circadiano. “Essa cidade não tem nome e não existe”, replicavam os incrédulos.

“Existe, visitem-na”, devolvia Nikola. “A entradinha de terra depois de Mombaça não achei”. “Eu mesmo mostro”. Nikola levava apoucados amigos e familiares pela única bifurcação da rodovia que só ele conhecia até a entrada de uma cidade com gente pacata e afável. “Veja o asfalto, ele nunca vai rachar, sempre viverá na mesma dilatação em que foi depositado”. “Não dá pra viver num lugar que não notamos o quente ou o frio”. “E o azul do céu que sempre foi azul, você já não se acostumou? E nem por isso!”

Nikola mostrava, com uma ingenuidade cirílica, projetos e parafernálias russas engenhosas. Militarismos, triquetraques espaciais, macacos e cachorros de raça laika, tudo acomodado em pequenas caixas metálicas ou grandes contâineres aluminizados, com inscrições indecifráveis, sob cuidado dos locais, muito bem remunerados para os padrões da região.

Mas voltemos às origens: o abastado marxista adentrou na familia por razões inovidáveis até então, mas que geraram um motim existencial nos patriarcas, que o expulsaram anos mais tarde, a golpes de florete e ricochetes de Luger. Não foi por amor à nonna da foto, isso era óbvio. Acontece que minha família negociava muito com empresas teuto-batavo-cipriotas, que por sua vez repassavam congêneres para os alemães pré-segunda-guerra.

A contra-espionagem era tão somente um meio de conhecimento para reportar aos vermelhos sobre as áreas de comércio brasileiras, uma vez que eles tinham como certa a inclusão do Brasil nos moldes comunistas.

Qual foi a dele! Era da ativa da espionagem russa! Nos clichês amplamente carimbados da cinemateca espionista americana, por sinal. Chapéu, terno completo e sapato reluzente em um calor tropical o marcavam bem. Aquele capote bege, comprido, atado por um cinto de fivela quadrada carregava uma legítima pistola Tula-Tokarev 33, com projéteis afiadíssimos 7.62 milimetrados.

Não revidou os petardos na bunda por honrarias. Mas, ainda em fuga, falou mal do borscht de beterraba da nonna, o que a fez choramingar pelos cantos por anos a fio.

Desde então nunca mais foi visto. A cidade interiorana, que ele tanto falava, fôra esquecida com o tempo. Dizem as más línguas que ele virou um abastado comerciante de secos e molhados.

Comércio!?

Que afronta ao comunism way of life, red kamarade!

O perfume da mulher

13 de maio de 2009

É dela. É dela o perfume adocicado que achincalhou meus inocentes devaneios como uma música clássica, allegro non troppo, palpitando em minhas ventas.

Estávamos ambos parados, na praça central. Minha casa era a terceira, amarela das janelas brancas. A praça sempre foi minha, por direito. E por vontade pessoal, o que não exime meus achismos inúteis. Ela fitava algumas crianças a brincar. Seu olhar era vago e gostoso. Esperava alguém, suponho. E eu simplesmente observava aquela mulher. Culpa do vendo, fique claro: contrário à ela, favorável à mim, trouxe-me as frutadas notas adocicadas ao meu olfato furtivo.

Ela se aproximou, perguntou as horas. Oi, tudo bem? Respondi. Ela sorriu. Um sorriso daqueles significava um “tudo bem” todos os dias, acredite. Só podia ser. E você, como vai? Ah, se ela deixasse eu dizer a verdade, falaria a plenos pulmões o que aquele sorriso momentâneo representava para mim. Mas era apenas uma saudação casual, um  pedido de horas de uma desconhecida, apesar de vir precedido de um sorriso e de uma leveza descomunal.

Disse as horas. Emendei um elogio fajuto ao extremo: disse que seu sorriso era bonito, que seu cabelo sabia dançar deliciosamente com a brisa gelada, que seus olhos eram magnificos-intrigantes. Enquanto conversávamos, um jazz leve tocava em minha cabeça. Ah, isso é um dom! Quiçá com um volume tão alto que até ela poderia ouvir. Sorriu e me agradeceu as sentimentalidades.

Ana Claudia, ela disse. Percebi que ela perdeu fôlego ao sussurrar seu nome. Um olhar cruzado quando escutei seu nome, e tudo girou em uma velocidade estonteante. Eram fatos antigos, lembranças, adolescência e descobertas. Rápido, rápido. Aquela mulher à minha frente fôra uma antiga namorada de colégio. Não pode ser!

Disse-lhe meu nome. Sua expressão também a deixou pasma. Crescemos, sumimos daquela cidade, cada um construiu um pequeno começo de futuro. Éramos apenas adolescentes. Eu amei aquela mulher no passado. Ah não, era o primeiro amor inesquecível!

Eu toquei em seu rosto. Ela acariciou a minha minguada e escanholada barba. Entendeu e me abraçou. Eu precisava dela mais do que tudo. Não, precisei, não preciso mais. Ah sentimentalidades! Confundem-me e gargalham. Aproximamo-nos, olhos nos olhos. Por um longo espaço atemporal.

Afastou-se. A música em minha cabeça parou. Disse estar casada, teve uma filha “aquela com roupinha rosa”. Despediu. Eu disse que entendia e que iria embora, era um compromisso inventado de imediato. Era a razão, como sempre.

Aquele abraço deixou resquícios de um doce perfume maravilhoso. Fez-me crescer um fino sorriso pelo rosto.

No caminho desconexo ao compromisso imaginário, entendi como a vida sabe pregar peças. Minha vida mudou naquele momento. Coisa boba, pensei. Mas logo notei que troco a roupagem dos meus sentimentos a cada encontro ou desencontro vivencial. Imagina quantos desavisados — sortudos — que se apaixonam subitamente por uma mesma pessoa, duas vezes, existem nesse mundo? Blasfemo a sorte. Sorte? Nunca existiu. Isso são pequeninos milagres vivenciais que recebemos diariamente, e que nunca percebemos ao certo, que de fato, existem.

Cantarolei a música que tocava no rádio do carro. Era o único final feliz encontrado.

Recuerdos de 43

6 de maio de 2009

No pátio do então 6º Regimento de Artilharia de Campanha de Curitiba, um quebra-nozes:

marreteiro

Recuerdos de 42

19 de janeiro de 2009

Minha avó me chamou para ver uma caixa de fotografias antigas que ela guarda em cima do armário. São histórias longas e interessantes em cada pedaço de papel. Não resisti e digitalizei montanhas de fotogramas interessantes.

Um deles é esse postal abaixo, do momento em que o Brasil foi estuprado por um submarino nazi e acabou por recrutar meia dúzia de regimentos brasileiros.

Meu avô estava em um deles, e por pouco não embarcou para a Itália. Chegou a entrar no avião e esperar sentado a decolagem, mas abortaram a missão por algum milagre de outrora.

Ai um figurinha da foto acabou dedicando a lembrança para meu avô. A dedicatória — inocente e escrita por um moleque de 18 anos — mostra que eles não tinham muita esperança de voltar vivo da incursão.

O interessante é que ele nao se identificou. Não assinou seu nome.

E só meu avô sabia quem ele era.

Galeria de personæ inolvidáveis

1 de dezembro de 2008

Chet Baker (1929 – 1988)

Ex-marine, crooner e trompetista. Gravou, entre outras, “I’m old fashioned”, embalando os sonhos dos brotinhos baby-boomers da América.

Otto ”Scarface” Camarasa

3 de outubro de 2008


Agiota, campeão sul-americano de natação (’32), escroque e ás da aviação.

Foi o piloto designado à transportar Eva Péron na viagem que fez à Suiça em 1947. A tão famosa jornada começou com a festejada chegada de ‘Evita’ na Espanha, dali ao Vaticano com o beijo no anel do papa Pio XII e culminou com um séjour nos famosos alpes suíços. Por trás dos rumores à respeito de déposito ilegal de marcos e ouro alemães em troca de asilo nazista nas terras de Gardel, revelemos um fato curioso na genealogia de R.Valentino: Otto seria seu tio-abavúnculo (irmão de segunda ordem do bisavô), uma vez que um livro cartorário da família havia relatado a existência de um Otto ‘Guapo’ Camarasa em sua linha genealógica.

Nascido na pobre região de Misiones, norte da Argentina, filho de pai vaqueano e mãe trambiqueira, Otto desde cedo desenvolveu uma certa propensão a tramas de ordem pecuniária. Tentou vida fácil com os malfadados carcamanos americanos. Apadrinhado por Alphonse Capone em 31, desistiu da vida mitónoma com a grande quebra.

Em 39 — já em terras portenhas — conhece em Los Toldos uma jovem pretendente à atriz chamada María Eva Ibarguren. As juras (claramente falsas) de amor e uma oportunidade, também pérfida, de estrelato na Buenos Aires irascível dos anos 40 levam María Eva a mais completa ruína moral.

Quatro anos mais tarde, Otto desaparece com a pequena fortuna feita com o concubinato e Eva segue o caminho traçado por Juan Perón.

Os detratores de Otto afirmam que mesmo casada, Eva ainda concedia visitas furtivas a Otto. Não se sabe como Otto chegou aos altos escalões do exército argentino. No entanto, afirma-se que ele foi indicado pelo proprio Juan Perón. Os relatos são feitos por George Hodel em seu Evita, the Swiss and the Nazis:

“As a mistress to other army officers, she caught the eye of handsome military strongman Juan Peron. After a public love affair, they married in 1945. As Peron’s second wife, Evita fashioned herself as the ‘queen of the poor’, the protector of those she called mis descamisados — ‘my shirtless ones’. She created a foundation to help the poor buy items from toys to houses. But her charity extended, too, to her husband’s Nazi allies. In June 1947, Evita left for post-war Europe. A secret purpose of her first major overseas trip apparently was pulling together the many loose ends of the Nazi relocation.

(…)

While in Spain, Evita reportedly met secretly with Nazis who were part of the entourage of Otto Camarasa, the dashing argentine commando leader known as Scarface because of a dueling scar across his left cheek.”

A figura misteriosa de Otto ficou presente no imaginario popular até recentemente quando a ele — mesmo falecido — foi atribuído a explosão que destruiu completamente o prédio da embaixada israelense em Buenos Aires em 1992, deixando um saldo de 29 mortos.

Arma de fogo

27 de agosto de 2007

Sempre que podia lá ia eu e meu vizinho da casa da frente para sua chácara. Seu pai ia a serviço, coordenar e ver a quantas a empreitada do pessoal rendia. Já eu e o Zizinho ficávamos saracoteando pelas matas ao redor. Como bons desbravadores, no auge dos nossos onze anos, achamos uma espingarda de fogo, na sede da chácara. Não sei como se chama essa arma, mas eu a conhecia como Flobé calibre 22. E achamos uma caixinha de munição, uns cem projéteis.

Meia duzia de tiros certeiros em uma lata de óleo foi a deixa para uma saída de caça. Eufóricos como deveria, qualquer coisa que cruzasse nosso caminho levaria bala. Até galinha.

Achamos uma clareira no meio de um capão de embuias e pinheiros. Armamos tocaia. A flobé era nova, tinha um monte de firulas. Mas o melhor de tudo era uma mira telescópica herdada de algum rifle do quartel, uma vez que o pai do Zizinho era militar reformado. A mira era muito precisa e tinha um alcance de aumento gradual.

Eu estava com a espingarda em punho. Senti-me o próprio atirador de elite. Quinze minutos depois pousa em um pinheiro, à média distância, um casal de curucacas. Para quem não sabe, a curucaca é um pássaro de grande porte, bico fino e alongado, muito bonito. Lembro-me que fechei a mira, firmei a coronha, pisquei rapidamente umas duas vezes, prendi a respiração.

O primeiro disparo do dia, para valer.

Certeiro.

O estampido seco do projétil está marcado para sempre em minha memória. Primeiro disparo, último disparo. Corremos, como dois predadores irracionais para ver a caça. O petardo atingiu abaixo da cabeça e quebrou o pescoço do pássaro.

O medíocre e insensato ar de superioridade imediatamente cessou, ao ver o animal agonizando seus últimos suspiros. Peguei-o no colo, ainda quente, mexia-se vagarosamente. Morreu em menos de um minuto. Zizinho estava aterrorizado. Eu, atônito, não conseguia pensar em nada. Deixei a carcaça do animal ali, ao pé daquele pinheiro. Voltamos os dois, sem conversar.

Fiquei a semana inteira ruim. Não conseguia dormir à noite. Imaginava, ainda como uma criança, se aquele pássaro era fêmea, se tinha família para cuidar. Pensava na saudade do pássaro que o acompanhava, se eram casados.

Aquele maldito momento em que eu acabei com uma vida, fez-me raciocinar por longos anos. E percebi, infelizmente, que um bom naco de minha inocência havia se perdido, para sempre.

Como a vida da curucaca.

Agenor´s barbearia e sorveteria II

27 de agosto de 2007

Odeio cortar o cabelo. Quando ainda criança eu achava que doía. Tinha aquela impressão materialista de que, cortar partes do corpo, como o cabelo e a unha, era como cortar um pedaço da gente. Apesar de não totalmente errada a teoria, acabei me conformando com os constantes escalpes cabelísticos.

O que me fez mudar de idéia foi uma barbearia muito legal, onde ainda, até hoje, existem aquelas magníficas e cromadas cadeiras Ferrante, com regulagem em tudo quanto é lugar e forrada de um couro vermelho um tanto quanto artificial.

O mais interessante nesta barbearia era que toda a rapaziada da minha escola cortava o cabelo lá. E o seu Geno, malandro como era, sabia exatamente como manter a clientela jovem: tinha um armário negro, opaco, com uma coleção invejável de revistas pornôs. Eram Playboys inúmeras, creio que se eu falasse que era uma coleção completa, não estaria mentindo. Penthouses, Hustlers americanas originais. O arsenal proibido ali era muito complexo. Existia os gibis de Carlos Zéfiro, com seus nanquims, algumas revistas alemãs de sexo explícito.

Eu gostava realmente de ler as figuras de um livrão japonês, de umas seissentas páginas, completíssimo, com fotos coloridas e tudo mais, que explicava na totalidade sobre todas as áreas de prazer, ilustrava posições sexuais e, de lambuja, como xavecar e perceber se a mulher estava caindo ou não no seu papo-aranha.

Um manual completo de como funciona o relacionamento sexual e suas diretivas.

E assim eu aprendi que, com o martírio do corte do cabelo, a minha vida ia tomando ares de graça.