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O FLATO REAL


quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 1:02 pm

O reinado francês antigo tinha uma peculiaridade muito grande: um mini-auditório de seis, no máximo oito cadeiras nos aposentos do rei. Basicamente era para a plebeuzada assistir ao magnífico “despertar real”, facto este que consistia em chegar cedo, antes da alvorada solar, sentar-se nas cadeirinhas e ficar ali em silêncio meditativo até que o grotão acordasse. Aí era simplesmente aplaudir e debandar.

E isso era uma consagração para a sociedade plebéia!

Esse espetáculo do despertar cessou-se para sempre na fatídica Noite de São Bartolomeu, um fato histórico que se sucedeu no dia 24 de agosto de 1572. Essa noite foi conhecida por marcar as sangrentas lutas religiosas que atrasaram a consolidação do absolutismo francês.

E sabe como tudo isso aconteceu?

Pois bem, um protestante chamado Henrique de Navarra fora assistir este magnífico “despertar real”, a convite de sua senhora a futura rainha Margot. Sentou-se ao lado de alguns plebeus xexelentos e ficou a observar a cena do todo-poderoso dormindo. Carlos IX, rapagão vigoroso e saudável, havia se esbaldado de tanto comer no jantar. Devorara javali, batata-doce, mandioquinha, repolho-roxo, rollmops, escabeche e até sagú na sobremesa. Tomou caipirinha, cervejinha e tubaína.

E isso o deixou um tanto quanto flatulento.

Quando os suditos, Henrique de Navarra e sua esposa Margot entraram no quarto, aquele ar ácido e causticante corroeu-lhes os narizes. Henrique estava indignado! ficou reclamando baixinho o tempo inteiro. Não entrava em sua cabeça que um ânus real como o de Carlos IX pudesse desferir tamanhos venenos pestilentos!

E o rei rolava para cá e… Bufa! Rolava para lá e outro traque lhe escapava. Como os castelos naquela época eram nada ventilados, alguns súditos desmaiaram. Quando Carlos IX acordou, os remanescentes que apresentavam consciência aplaudiram. Cínico como sempre foi, reclamou e esbravejou, insinuando que aqueles súditos podres e insossos peidaram em seu aposento real.

É claro que Henrique de Navarra ficou ensandecido com a agressão. Retrucou na hora. E retrucar um rei cínico, mal-humorado e recém-despertado era assinar o obtuário. O embate que se desencadeou depois disso gerou tamanho conflito e ódio que não deu outra: mais de três mil protestantes foram dizimados naquela noite infeliz. O rei pegara ódio daqueles pagãos reclamões.

Alguns conselheiros franceses — com o consentimento real do rei — proíbiram desde aquela data fatídica os infelizes alvoresceres reais assistidos.

O BARITONO DA CATEDRAL MENOR


quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:47 pm

Quando criança, sua educação religiosa era extremamente severa: todas as quartas, catequese, todos os sábados, ensaio no coral e domingo, missa. Aquele menino raquítico ao contrário de seus amigos, gostava dessa vida espiritual e religiosa. Sempre se esforçava ao máximo para afinar sua voz com o coral.

E sua vida era graciosamente bela. Certa vez o ministro que cuidava das leituras bíblicas requisitou alguns jovens do coral para a leitura na missa dominical. Seria a consagração do menino! Ele prostrou-se diante do microfone, encheu os pulmões de ar e recitou todo o parágrafo. Seu discurso foi certeiro. Não gaguejou, não comeu acentuações nem pontuações.

— Tua voz é muito feia, moleque. Volte para seu lugar.

Aquelas palavras do ministro rasgaram-lhe a alma! Como alguém poderia falar assim? Como alguém, dentro de uma igreja, poderia fazer algo assim?

Ninguém percebeu, mas aquilo mudou o menino para sempre. O tempo passou, ele continuou se dedicando a música. Seu corpo magricela acabou por virar um grande homem. Morou na Itália, aprendeu latim, conheceu o canto gregoriano. Tornou-se barítono. Acompanhou por alguns anos a Orquestra de Berlim, sagrou-se primoroso.

Gozando férias em sua cidade natal, descobriu que o ministro que lhe feriu a alma estava em vias de bater as botas. Sem pestanejar, conversou com o pároco e encomendou-lhe uma missa especial, com trechos cantados por ele, em latim. No dia da missa, casa lotada, o ministro em sua cadeira de rodas na primeira fila. O barítono iniciou a Missa Benedicta. Era cantada em latim. E naquele momento, somente ele e o ministro entendiam a língua.

O que ninguém percebeu foi que a letra havia sido trocada. O barítono reescrevera tudo: o Kyrie, a Gloria, o Credo, o Sanctus & Benedictus, o Agnus Dei. Nem o padre, italiano, percebera a troca. O povo delirava com sua voz forte e envolvente. A cada verso maldito, uma punhalada na alma do velho ministro. Eram agressões verbais que estavam encrustradas no âmago da alma daquele vociferador.

Ao final da missa o público extasiado aplaudia em pé, enquando o ministro, atônito, surtava em um ataque cardíaco.

SILVA, MOZUMBO & ASSOCIADOS


quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:06 pm

Muzumbo era um negro grande e forte. Calado, na maioria das vezes, preferia sempre escutar e observar. Diálogos, só imprescidíveis. Roupas impecáveis, muito ouro nos acessórios e um escritório na área nobre comercial. Assim era o Muzumbo, visto por todos.

Silva, do Silva & Associados — um escritório de advocacia que fazia divisa com a sala de Muzumbo — encontrou-se no elevador com a secretária do negão. Começou um diálogo lugar-comum meteorológico. É claro que o advogado, ávido em suas curiosidades, perguntou-lhe qual era o “ramo” daquele escritório, uma vez que não tinha placa alguma na porta. A secretária disse-lhe que o patrão era proxeneta, trabalhava com intermediação e rendas percentuais.

É claro que o advogado ficou mergulhado em suas controvérsias ignóbeis: não sabia o que era um proxeneta.

Voltou, pesquisou o dicionário e descobriu o que seu vizinho aprontava: era um gigolô! Devia ser um notívago dissoluto, bicho-solto, desprezível de quaisquer veleidades de um verdadeiro apego.

Silva era diferente: trazia seu nome na sua empresa, era um homem direito e regrado, tinha princípios, fidelíssimo à sua esposa.

Dia desses Muzumbo bateu-lhe à porta. Precisava resolver algumas pendengas jurídicas. Silva, ávido e sagaz, perguntou para Muzumbo com o que trabalhava. O negrão apurou ser proxeneta, senhorio do sexo descompromissado. Silva negou a ajuda, “feria a consciência e os bons costumes”.

O negrão levantou-se, apoiou as duas mão na mesa de vidro do advogado e prostrou-se mais à frente, quase colando a cara com a de Silva:

— Pago em dinheiro e na hora que o senhor quiser.

Silva, que estava em vias de falência, percebeu que aquele confronto de costumes morais havia cessado na hora. Fecharam negócio.

Muzumbo cuidava dos encargos com suas senhorinhas. Silva livrava Muzumbo das encrencas, com negociatas sociais e propostas que o negão nem imaginava.

É claro que o varão do ébano sempre tentava Silva a participar de suas esbórnias. Apesar de bebericar alguns brandies no escritório de Mozumbo, Silva sempre resistia às solicitações, com um estoicismo sem vacilações. Forjara-se assim uma amizade, feita de respeito pelas diferenças: Muzumbo, um mulherengo nato, em eterno toque-e-foge pelas labaredas do sentimento; Silva, uma figura temperada pela solenidade do seu elo amoroso e fidelidade aplicada.

E esse era o contraste fabuloso que governava a vida dos rapagões: uma conformidade de duas áreas totalmente opostas, com um diferente ponto de vista sobre amor, paixão, sexo e prazer.

Tempo passou, Muzumbo acabou casando com uma mulatinha que tirara da vida fácil. Silva, do Silva & Associados, separou-se de sua mulher e agregou, em seu “Associados”, a lucrativa alcunha oculta de proxeneta.

O HOMEM DO VENTRE VIRADO


quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 11:08 am

O Tatanha era o cara mais criativo daquela rua estreita e pacata. Sempre inventava alguma coisa diferente e original.

Era canhoto. Sua professora dava reguadas nas mãos quando ele usava a esquerda para escrever. No segundo grau aprendeu que o lado esquerdo do cerebro comandava o lado direito do corpo. Ele escrevia com a mão invertida, sabia escrever de cabeça para baixo e ainda por cima sabia falar o alfabeto de tras para frente.

Tatanha era um cara de trás para frente.

Um dia sentiu uma pontada no abdomen. Doía muito, foi ver o doutor Correia. Era apendicite. Correram para o hospital. Doutor Correia era experiente, não mais do que meia hora para lhe abstrair a dor.

Incisão pequenina na barriga, dedos lá para dentro vasculhando. Nada de achar o apêndice. Aumenta a incisão, vasculha mas pra lá, vasculha mais pra cá e nada. E dá-lhe aumento de corte. O rasgo já estava com quase um palmo. Doutor Correia olhou por um instante ali dentro e percebeu: Tatanha tinha o ventre virado.

É claro que esse papo de ventre virado era conversa que sua avó contava, o doutor nunca levou a sério. Mas Tatanha realmente tinha todos os órgãos invertidos: coração que apontava para a direita, figado para a esquerda, baço para a direita, apêndice na direita. Doutor Correia cortou-lhe o outro lado e lá estava o apêndice inchcado, pronto para ser extraído.

Dias depois, em uma consulta, Correia contou para Tatanha sobre a sua inexplicável inversão do ventre virado. Depois disso, Tatanha ficou louco, não queria ser errado na vida, não queria ser gauche, não queria ser o sinistro.

Suicidou-se. Desferiu um tiro nas ventas. Mas dessa vez usou a mão direita.

AGNOSTICO FERVOROSO


quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 10:43 am

A Catifunda insistiu muito para que seu pai fosse à missa. Era sua primeira comunhão, queria a presença do paizão por lá. O velho, por conveniência social se entregou ao desejo sem muita briga e aceitou o convite. Era agnóstico, acreditava em Deus, mas não engolia de jeito nenhum princípios religiosos.

Como combinado, Cacilda adentrou à igreja, com um belíssimo vestido branco rendado, escoltada de pai e mãe. Era cidade de interior, noite sem lua e igreja isolada na vastidão dos campos alhures. Seu sonho estava se realizando! Os três se acomodaram nos bancos. O pai colocou suas botinas no genuflexório. Catifunda o reprovou com severidade. Ele emburrou e cruzou os braços. A cerimônia estava por começar. A mocinha foi à frente junto aos outros catequizandos.

O bispo era peripatético, italiano e falador. Suas histórias intermináveis deixaram o pai da moça completamente entediado. O calor que estava dentro daquela igrejinha, no meio do nada também contribuiu, em partes, para que o velho dormisse em plena cerimônia.

E não é que acabou a luz na igreja? A escuridão com que tomou aquela cena foi de deixar todos em um completo e profundo silêncio. O bispo pediu a todos que cantassem, junto dele, a hosana nas alturas, enquanto a luz não voltasse.

E assim todos cantarolavam, baixinho, embalados pelo escuridão total. A cena era envolvente e harmoniosa. O coro reverberava pelas paredes, aquelas plavras eram enebriantes.

Acontece que o pai de Cacilda começou a roncar. Sua mulher, tentando acalmar a coisa, tascou-lhe um safanão na sua cabeça, que o fez acordar assustado.

Ele não percebera que a luz se apagara, estava completamente perdido: “Caramba! Morri” Pensou de imediato. Arregalou os olhos mas não conseguia ver nada. Só escutava o coro da hosana. “Isso deve ser o purgatório, não vejo nada mesmo com os olhos abertos!” Estava incerto de sua fé-cega.

Uma voz ao longe, vociferou:

— Você pecador, reflita nesta escuridão sobre seus pecados. Abra seu coração à Deus.

Óbvio que era o bispo que falara aquilo no intuito de distrair o povo naquela escuridão. Mas como o pai da menina estava completamente perdido e percebendo-se sozinho no purgatório, começou a falar de seus pecados. Eram intrigas passadas, galinhas roubadas, mulheres profanas, brigas de bar. E quanto mais falava, mais lembrava. Quando terminara de contar o despudorado fato de cobiçar e bulir com a mulher do vizinho, a luz voltou a incandescer as lâmpadas da igreja. Todos estavam rubrorizados com as palavras.

Depois disso o pai da Catifunda deixou de ser agnóstico. Ficou com raiva da igreja e virou ateu.

BINGUEIRO


terça-feira, 24 de julho de 2007 | 4:50 pm

O homem de gravata que cantava as pedras do bingo era famoso naquela paróquia. Famoso em termos: ninguém o conhecia na sociedade, apenas no evento mensal.

As velhas beatas armavam a quermesse com gosto. Toda a comunidade vinha prestigiar. A programação nunca mudava: missa, torneio de futebol com um leitão para primeiro lugar, almoço e bingo. Os prêmios do sorteio eram sempre um fusca ano 71, uma moto velha e móveis do Albino, o marceneiro da região.

E o cantador de pedras de bingo tinha sempre uma tirada engraçada na hora do sorteio: pedra número 6 — Meia Dúzia! Pedra número 13 — Essa vai dar sorte! — Pedra 22 — dois patinhos na lagoa! Pedra 24 — Com essa o Arcebíades dança! Pedra 38 — o calibre do revórve do padre! Pedra 44 — o sapato da Dona Marica! Pedra 51 — Uma boa idéia! Pedra 33 — A idade de Cristo! Pedra 69 — Ai, ai, ai, não vou falar nada, né padre?

E a velharada se partia de rir. Lá pelas tantas algum batia cartela e acabava a brincadeira.

O que ninguém sabia era que aquela gravata do cantador de pedras de bingo era seda inglesa, o terno francês, sapatos de cromo alemão. Até o relógio, que brilhava como ouro, era de ouro. O cantador de pedras de bingo era um executivo muito rico. E que morava bem longe dali.

Mas desde a infância sonhava com o dia em que satirizaria os números das bolinhas sorteadas.

A DIFUSORA DO INTERIOR


terça-feira, 24 de julho de 2007 | 4:36 pm

A rádio era pequenina, mas a audiência, enorme. E isso porque o radialista era muito carismático. Dia desses, preparou-se para a previsão do tempo. Como sempre fazia, olhou o “galinho do tempo” que mudava de cor de acordo com a umidade, aferiu o termômetro de mercúrio vermelho que nunca se mexia e deu uma espiadinha pela janela:

— E você que vai sair de casa hoje, prepare o guarda-chuva e as galochas: dezoito graus, muita umidade no ar e chove torrencialmente na cidade! — Falava puxando os dois érres do “torrencialmente”, parecendo carro velho enroscando a marcha.

Deixou tocar uma música, preparou o café e o telefone tocou insistentemente.

Terminou a música, o radialista entrou:

— Ratificando minha gente: calorzinho lá fora, sol de rachar. A chuva era a Zulmira, lavando a janela.

O INFELIZ


terça-feira, 24 de julho de 2007 | 4:13 pm

O infeliz era da época áurea da internet, onde pessoas boas de coração usavam o meio de comunicação para se conhecer em um modo simples e verdadeiro. Ele não conversava muito, é verdade. Tinha poucos amigos. Acabou a solidão dia em que conhecera as mensagens instantâneas.

O infeliz agora tinha amigos virtuais. Conversava com mulheres, pessoas do outro lado do mundo. Suas noites — e porque não falar algumas madrugadas — eram regadas por conversas variadas, inclusive em outros idiomas. Conhecia segredos de pessoas que viu sequer uma foto. Contava segredos tão escondidos que jamais falaria para algum vivente.

Mas o infeliz tinha uma rotina diária, onde encontrava pessoas reais. E estas pessoas não eram nada parecidas com seus amigos perfeitos virtuais. E isso o deixava infeliz.

O infeliz era uma pessoa comunicativa. Conversava alegremente no silêncio ínfimo do bater das teclas. Até se apaixonou uma vez, puramente por uma mulata do Suriname. Ninguém se importava mesmo.

Duas vidas completamente diferentes.

O MENINO DO COLONO


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:12 am

O menino do colono era polaquinho de olho azul. Pele sardenta e andava de pé no chão. Dia desses encontrou um estranho à beira do lago de águas claras. O estranho estava cutucando um galho de cedro vermelho. Chegou mais perto, curioso que era. Viu, das mãos do homem o galho de cedro vermelho tornar-se uma escultura minúscula de cervo, com a ajuda de um pequenino canivete. Acompanhou em silêncio a escultura.

Ao terminar, os olhos do menino do colono brilharam.

O estranho viu que era dele a escultura. Presenteou-o com o delicado e diminuto cervo. O menino sacou de um de seus bolsos uma pequenina pedra branca, calcárea e retribuiu. Foi embora correndo, feliz.

E os dois não trocaram sequer uma palavra.

Nem precisou.

SANCTI BENEDICTI


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:10 am

O padre bonachão estava por finalizar sua missa. Adorava rezar cantadinho. Antes da benção final, sentou todos os presentes, dirigiu-se ao púlpito. “Vamos aos avisos da paróquia.” Folheou o livrinho, silêncio de todos. Folheou e folheou, voltou algumas páginas, forçou os olhos já cansados. “A paróquia avisa que não temos avisos hoje.”

FORMIGAS EM CONSERVA


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 10:50 am

“Formigas tem formol em sua composição química, sabia?” Assim começou a pequenina aula de ciências. O fato é que formigas possuem uma grande quantidade de formol em seus abdomenes, principalmente formigas aladas chamadas “aleluias”, que do nada aparecem voando por aí e do nada somem. As formiguinhas aladas utilizam o formol de seu corpo como combustível para asas.

E o que mais intriga é que a formiga tem seu nome originado de uma fusão do seu corpo com seu combustivel. Aldo Severiano (in Bothanicæ ab incunabulis, 1943) explica que o botânico Oswaldo Schoröeder, maravilhado com tanajuras e saúvas brasileiras ao estudar gramíneas, chamou-as de formiga, usando o prefixo “formi” da palavra formol mais o sufixo “iga” de barriga, assim sendo, “barriga de formol“.

Poderia ser formabdômene, mas o nome seria muito feio.

O INDISCRETO REINADO PECULIAR


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 12:38 pm

Lá no Reino-de-Não-Sei-Onde existia um rei muito excêntrico. Ele adorava suas posses, prezava pelo poder absolutista e ainda por cima detinha um peculiar harém de 128 mulheres ruivas. Sua vida era muito tranqüila. Matou todos os inimigos que atravessaram sua frente. Tinha uma agenda cultural elitista e bailes nunca faltaram em sua corte.

Agora uma coisa que era segredo muito bem guardado era a fonte de juventude de sua majestade, o rei do Reino-de-Não-Sei-Onde.

Todo dia o majestático rei — de posse de seu cálice de ouro maciço — visitava suas ninfas ruivas. Olhava nos olhos de cada uma, por minutos. Um olhar forte e intenso que inusitadamente vertiam algumas lágrimas, colhidas no cálice.

Ninfa-a-ninfa, tete-a-tete. Aquele rei enchia meia taça de lágrimas de mulheres ruivas em pouquiíssimos quartos de horas.

E essa era sua fonte de juventude, um ritual de inigualável prazer, a degustação das lágrimas das suas ruivas.

Tempo se passou e o rei morreu. As lágrimas eram elixir da juventude, não proviam uma vida eterna, oras!

Velando seu corpo no grandioso salão das abóbodas doiradas, as 128 mulheres.

Estavam chorando.

DEVANEIOS — BILAC


segunda-feira, 16 de julho de 2007 | 1:51 pm

Aos doze anos recebi a agoniante missão da belíssima professora de literatura: fazer um trabalho sobre o Parnasianismo.

É claro que como todo bom aluno apaixonado pelos belíssimos olhos amendoados daquela esvoaçante russa erradicada, o trabalho deveria ser perfeito. Aprofundei-me aos devaneios poéticos-literários, conheci Parnaso, o deus mitológico. Soube de relance que a poesia parnasiana devia pintar objetivamente as coisas, sem demonstrar a emoção, o que era feito caracteristico do romantismo.

Dificil era a leitura de Olavo Bilac. Desvendar as complicadas expressões de Raimundo Correia então! E noites afora biografias, poemas, enciclopédias de literatura caiam em minhas leituras. Emprestei de uma tia o livreto de normas para apresentação de trabalhos técnicos e científicos. Aprendi com a ABNT a defender uma tese e como seguir uma linha de pensamento lógico.

Ao final de duas semanas, a obra estava pronta: Serigrafia com o auxilio do pai gráfico de um colega uma caricatura colorida de Bilac na capa do trabalho. Redigi cuidadosamente as 14 páginas introdutórias burocráticas, dentro das normas.

E o dia tão esperado chegou. Vi colegas que apresentariam trabalhos sobre barroco, romantismo e arcadismo com míseras páginas grampeadas porcamente. Assisti pacientemente a apresentação dos tolos que sequer sabiam o que falavam. Apenas liam textos insossos e decorados.

A vez de apresentar encheu-me de ansiendade. Deixei a proposição do teorema ao colo da belíssima professora. O volume era de se impressionar: mais de cem páginas compunham a obra que apresentava uma chamativa e bem elaborada capa semi-transparente, caricaturada.

Quinze minutos destinados ao parnasianismo. A professora, incrédula, folheava o trabalho, sem prestar atenção ao descurso sólido. Interrompera, queria saber o que significava aquela frase estranha na dedicatoria do livro:

“Aos beócios humanos que não entendem a imane arte mordaz.”

Sorri, é claro! Disse-lhe que era referencial aos colegas de classe que passariam a vida rindo, sem nunca entender o que se passara.

A professora sorriu. Sabia o que significava. E o meu escarnecedor sorriso fez perceber que naquele ambiente o conhecimento havia sobrepujado toda a horda de colegas infinitamente inferiores ao conhecimento adquirido. E de lá para cá cada vez mais alguns textos meus vêm supridos de um trágico - mas glorioso vício - de enxertar doces devaneios tolos por tudo que se escreve.

VICISSITUDE II


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:32 pm

A vida é sempre — normalmente — vicissitudinária e, quem percebe esta realidade dinâmica e maravilhosa não fica aborrecido. Vicissitude é dinamismo. Não existe nada equilibrado. A realidade não pára. Quando as coisas páram, cessa a vida, acabam as possibilidades. Vicissitude é possibilidade e quem percebe, como o menino do texto abaixo, pode sintonizá-la para desenvolver um mundo próprio. Quem sente medo do desequilíbrio tenta fugir da realidade. A fuga da vicissitude é fatal, mas quem a enfrenta, corrigindo sempre o itinerário, pode encontrar seu processo vital.

Vicissitude é simultaneidade. Só isso: uma palavra bonita e simultaneidade.

VICISSITUDE


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:31 pm

Era um final de tarde qualquer em que o menino escrevia sua redação. Entregaria sem falta, dia seguinte, no grupo escolar. Esmerava-se em escrever com letra nédia, caligrafia impecável. Mas seu texto borrava! Também canhoto, quer o quê? É que tal capricho na hora de redigir tinha um motivo muito especial: a professora era graciosamente perfeita. Lábios carnudos, olhos verdes, grandes, brilhantes.

Ouvira dia desses no sermão da missa dominical a palavra vicissitude. Não prestou atenção no sermão em si, apenas na palavra, que circulou livremente por seus devaneios. Resolveu aplicá-la. Era a deixa para impressionar a bela professora!

Escreve daqui, rabisca de lá. Não tinha idéia do significado vicissitudeano. Sem dicionário em casa. Fragmenta a palavra: prefixo deve ser vida. Sufixo? Fácil: atitude. Pronto, vicissitude era adjetivo que enalteceria o ego da professora!

Escreveu, caprichou muito. Leu em voz alta, arrumou redundâncias. O discurso estaria impecável, leitura obrigatória à frente de todos na classe.

E o amanhã chegou, suas palavras pairaram majestosas fronte aos carismáticos e envolventes olhos verdes da professora. Ela leu silenciosamente. Seus olhos saltavam palavra a palavra, balbuciando imperceptivelmente. Ao terminar, esboçou um inédito sorriso, prontamente memorizado aos vastos sorrisos já colecionados. Ela docemente explicou ao menino que vicissitude não era um adjetivo grandioso, apenas contratempos ou problemas que ocorrem durante uma ação.

Apesar de surpreso com a nova significância, o menino estava feliz e pensativo. Sabia que a palavra que tanto gostava acabou tornando-se a própria ação. A contradição de um belo texto, com uma linda palavra causou o sorriso inédito. E para ele isso foi a melhor recompensa.

O HOMEM DO BISTROT AO ENTARDECER DE QUINTA QUALQUER.


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:03 pm

Na viela que beira o riacho de pedras escuras do vilarinho que agora resido há uma pequena livraria que denominei de “casamata cultural”. Escura talvez pela natureza literária dos romances alemães que povoam aquelas prateleiras prumadas à esquadro, tem um feitio decente e preços justos (não que sejam bons) para a cultura que a cerca. Na sobreloja do meio andar acima encontro uma casa de cafés, bistrô de internet, mesas literárias e rodas livres de poetas desmedidos da infante milícia cultural.

Sempre vazio às tardes de dia de semana, apenas a mulher dos olhos brilhosos e o careca (face desinteressada de um apago) do terno surrado o frequentam. E eu ali a observar tudo.

O careca quase nada me interessava. Era franzino, pouco alto pouco baixo, o típico sumidouro masculino. Do seu recostado no balcão, uma das pernas no sopé do banqueto outra esticada, punha-se a ler um livro clássico, páginas fedorentas de uma velharia invejável. Fumava um tabaco qualquer e bebericava café-pelado-de-grão.

A mulher dos cilios longos e olhos brilhantes dos reflexos amadeirados do abajur fazia periódicas anotações manuscritas. Supus um diário pessoal, desses que raras mulheres escrevem passagens importantes e cruciais. Ela escrevia com a alma, e isso era claro na feição do rosto e movimentos labiais de um sussurro imperceptivel. E a vontade de ler aquelas páginas me fez vê-la melhor a cada dia no bistrô. Na verdade notei que um certo ar de inteligência influenciava as diversas expressões da bela mulher. Meu Deus! Eu estava obcecado por aquelas pequeninas nuances detalhistas que nem ela devia notar!

Do careca sabia pouca coisa: ele estava ali como contrabalanço de uma beleza feminina perfeita.

Dela? Ah, quase nada, acredita? O barzeiro não a conhecia muito bem. Tinha até medo da moçoila!

Já o bistrô da internet punha-se à nossa disposição com uma maravilhosa máquina computacional que combinava perfeitamente com o lugar: velha, lenta e embolorada. E nela escrevo este diário virtual há algum tempo.

Acontece que publiquei algumas palavras, entreguei a chave com a calota para o barzeiro, sentei-me à mesa costumaz. Não percebi a tela do computador. Deixei este diário aberto na janela! O barzeiro desceu para a livraria. Sem teclado não pude desligá-lo. E reiniciar o computador? Nada! a máquina ficava trancafiada no bauzinho abaixo do monitor. Nem fonte de energia eu consegui achar! Era minha vida exposta na tela. Algum tempo depois a mulher tomou a chaveta com calota, ligou o teclado da banheira digital e começou a rolar pelas páginas do diário. Qual! Ficou bem alguns minutos lendo! Postou um comentário. E a dicotomia dos sentimentos os quais meus pulsantes pensamentos abrigam entraram em um belíssimo confronto. Era a voz trêmula da inexperiência do leve esperar versus a baça e morimbunda vontade do “é meu”.

E então ela acessou o diário virtual no dia seguinte. Fitei de canto de olho. Gravou o nome, qual! E não sei realmente o porquê, mas desse dia em diante nossos olhares cruzaram-se de leve e cumprimentamo-nos com sorrisos leves. Quinta-feira qualquer entramos os três juntos na casamata cultural. Eu, o careca e a mulher dos olhos brilhantes. Conversamos algumas coisas usuais, afinal era um interlóquio coletivo. O coiso sentou-se no balcão, como sempre fez. Eu na mesinha usual e ela perto da janela, com o diário que escrevia sempre sussurrando.

Mais computador, mais textos, e-mails, firulas fúteis. A mulher sentou-se ao meu lado. Perguntou se eu escrevia. E respondi que sim, fazer o que? Ela retrucou sobre o escrever para não morrer. Falei do diário que mantinha, ela disse desconfiar muito que era meu. Elogiou as palavras, fotos. Palpitou minha imaginação fértil. E ela não sabia que daquelas palavras a realidade do meu passado extático infiltrava-se sem pestanejar!

De tardes e tardes no bistrô-café nossas fronteiras intercalaram a realidade de alguns atos. Já sabia o nome dela, o que me era um avanço. Disparates e retrucas eram o óbvio para ver que eu resistia à ela e ela — quem diria! – resistia a mim!

A cidade nos era a vida e de alguns momentos percebíamos claramente que nossas almas eram complementares. Sim parece conversa de boi velho, sei bem disso. Mas quem senão dois perfeitos um-para-o-outro compadeceriam assim?

Assim a conheci, vilarejo pequeno do rio de águas límpidas em pedregosas escuras. Viela beirante com pequenas lojas entroncadinhas. Livraria do alemão de dedos longos e bigode queimado de cachimbo. Um bistrô “quem diria” e o amor ali, sentado na cadeira de perto da janela, só matutando a melhor estratégia de nos atacar pelos flancos. E atacou.

Mas uma coisa confesso e adoro pensar nisso:

Eu nem sequer consegui ler um parágrafo do diário da mulher dos olhos brilhantes e cílios longos.

A CRUVIANA


sábado, 14 de julho de 2007 | 1:24 pm

cruviana.jpg

O caixeiro catinguento do eslaque listra de giz atardeceu na comunidade sem ter para onde ir. Da sua vemaguete três-tempos não conseguiria viajar sem antes comprar alguns galães de gasolina no recôncavo do coronel. Mas fecha cedo e cadê os culhões para importuná-lo essa hora da noite?

Resolveu pedir arrego a um tal João Cacheado, cabroche pernóstico e contador de histórias antigas, da Vila Desperado. Vendeu a João revórve, espuleta e radinho caboclo, não o daria pouso? João era sagaz e matrecolejante, tinha salinha de estudo com numerosas estantes tortas da meia-cana, abarrotadas de livros certamente preciosos, com admiráveis encardenações de lombada em relevo americano. E falava pelos catovelos astúcias de contos letrados que de vida os formavam.

É claro que dessa conversaiada toda o tempo comeu dois quintos da noite adentro. O catinguento caixeiro assoprou o fio de luz do candeeiro com o boa-noite de João. Cresceu a noite, e a vigília dos olhos do caixeiro cada vez mais acesa; sem dormir, sonhou as letradas palavras viventes do homem que o contara.

Vento dali, cruviana que assobia em riba das telhas, catucou o caixeiro de fianco pelas tramas da rede balangandã. E cruviana não se vê, se sente. Era já a terceira ou quarta cantata de galos e o ventil o beliscou as bochechas.

Amanheceu, o caixeiro acordou com as juntas ardidas de frio, tremelequento que só ele. João Cacheado, que levantou cedo para o café coar, encontrou o caixeiro picando fumo na mão: “Cedo, caixero?” “Nada, cruviana me atacou.” “Cruviana tava é presa!” “Nada! no solsaio da baticum lá veio ela e crau nas minhas ventas!” “Machucou?” “Nem, só gelou minha espinhéla.” “Vou descer de pau essa vagabunda!”

Para o caixeiro, a cruviana era só um soprão frio — desses que vem do sul — que o catou de supetão. Para João Cacheado, apenas uma cadela desdentada e descaderada de briga de cio.

Tanto fez, tanto faz, desta desencontrura de informações, nem caixeiro, nem Cacheado fizeram-se entender.

O ANSELMO


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 5:22 pm

Ali na rua quinta que sobe do porto, casa do Zé, das janelas grandes e caiadas de um branco de doer os olhos estava o Anselmo, flho mais velho.

Sempre foi perrengueiro e meio vagabundo esse filho mais velho do Zé. As janelas grandes e caiadas eram vagarosas, como as lentas horas de calor daquela enseada de mulatos curtidos do sal.

Aí passa na frente do Anselmo um carro estrangeiro e vermelho. Desses de abaixar o telhado e deixar a cachôpa para fora. Lento e de ronco barulhento. A rua quinta do porto, essa da casa do Zé, tem um calçamento irregular e torto, como tudo ali ao redor.

Passa o carro, Anselmo o desdenha. Anselmo o inveja, Anselmo o deseja. “Ah, um carro desses, hein anselmo?” fala para si mesmo e pensa em quantas meninas poderia carregar ali. “Mas você é vagabundo mesmo, hein Anselmo! Não faz nada o dia inteiro. Não trabalha nem ajuda teu pai. Só curtindo a carraspana.”

O carro vai, Anselmo acompanha em pensamento.

No carro o homem fita aquele Anselmo estático e sonolento. Pensou na beleza que seria ter uma vida desregrada e livre. Mas o celular vibrou no bolso e o despertou do pensamento viciante.

DESGRACEIRA


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 5:06 pm

Eram três guris. Um polaquinho e dois sararás. Achavam-se — como qualquer menino de época — invencíveis. Zombeteiros, aporrinhavam os caboclos da vila de baixo, um distrito de 300 gentes.

Perto dali a BR-zero-alguma-coisa passava rente. Tinha rio com poço fundo, ponte de altura boa. E era ali que os três guris ganhavam dinheiro. Pulavam da murada, juntavam as mãos cruzadas no peito e os pés em forma de punção, para estourar a água.

No dia três do mês quatro do ano cinco, o polaquinho pulou meio torto e bateu a cachôpa na água. Sabe que o tonguinho morreu? O pior é que sempre pulavam em formato de gente morrida, lembra? Braços cruzados, zóio bem fechado para não cair a bola pra fora. Ca força que ele caiu, ficou boiando que parecia gente morta.

E era.

Foi a morte que ficou na história da vila de baixo, daquelas que o vô conta pra netaiada e serve de regulador doidológico para amainar os ânimos da criançada sem limites. Sobraram os dois sararás. Foram puxar saco de batata. Perderam a coragem e a invencibilidade.

Ou os cuião, whatever.

ASSOMBROSIDADES


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 5:01 pm

Todos têm fantasmas atormentadores. Lá na fazendinha onde o Arcebides é peão com requintes de capataz, visagens. Na água-fria, lobisóme e a noiva de branco que morreu de a cavalo. Tem o piazinho que subiu na árvore, caiu do galho e quebrou a espinhéla. Tem escravo torto que morreu queimado no barbaquá e vem chiar na olaria toda lua cheia. São medos irrefutáveis. Nunca ninguém viu. Mas conhece gente que viu ou gente que conhece gente que viu. Fantasmas fantasmas. Fantasmas que assustam de verdade.

Aqui na cidade grande, onde o fedor no ar é de bosta e o chão é bem mais duro, têm fantasmas. E dos grandes. Assombrosos, medonhos e meticulosos. Fantasma de dar medo. Medo de assalto, da cornisse. Medo medonho de ser atropelado, perder o emprego, não pagar as contas. Medo do Fantasma de Canterville, das instituições, da internet. Medo da amizade de aparência, medo de perder a compostura, briga de gangue, assalto (opa essa eu já falei). Então é medo de tiro no meio dos cornos, do carro que bate na sua porta de carro à 321cáeme. Medo da vizinha te esfaquear, do síndico ligar para reclamar do som alto. Medo de ter aids, medo da camisinha estoirar. Medo de beber até cair, boa-noite cinderela. Medo de ser atropelada e descobrirem que sua calcinha está rasgada, com furos ou uma freiadéla. Medo da morte (mas esse é pra todos).

Sentiu a diferença? Você escolhe seu fantasma. Ele escolhe seu dilema e te olha de canto de olho. Ignora, mas é teu amiguinho.