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	<title>MadCap &#187; contos da carochinha</title>
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	<description>A mi no me pagan por pensar.</description>
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		<title>Ladeira das Pedras, 37.</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 16:51:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos da carochinha]]></category>

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		<description><![CDATA[A velha casa da ladeira de pedras, número 37, era um retrato fidedigno da vida que não fluía mais na cidadela: o calçamento era irregular demais para o flanar da liberdade. A parede exibia tintas vermelhas de várias tonalidades e gerações que, pintadas umas sobre as outras, num estrupício relaxo, criaram bolhas e tumores texturados [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A velha casa da ladeira de pedras, número 37, era um retrato fidedigno da vida que não fluía mais na cidadela: o calçamento era irregular demais para o flanar da liberdade. A parede exibia tintas vermelhas de várias tonalidades e gerações que, pintadas umas sobre as outras, num estrupício relaxo, criaram bolhas e tumores texturados que tentavam conter as rachaduras sem base.</p>
<p>Janelas de madeirame empenado. A primeira, mais nova, não abria desde que fôra instalada em 72. Pedreiro escr<strong></strong>óque duma figa. A segunda abria. Abria e era usada pela senhorinha ridícula que ali pairava, plantada por horas, a reclamar da morosidade do vento que não mais assoprava como deveria.</p>
<p>O Tião da barbearia do final da rua, mentiroso que só, dizia que era ela a inspiradora da palavra peitoril, ja que as pelancas muxibentas e as têtas caídas esparramavam-se por toda  a madeira da balaustrada, realçando mais ainda as redondices e suas infindáveis dobras sebentas.</p>
<p>Nada na cidade tinha mais jeito. A diferença de temperatura média caía de maneira constante e chegou ao ponto em que a palavra hermética começava a se incorporar em artigo de previsão do tempo e arranjo climático. Assim não mais existia ali conceito de calor ou frio; o vento — como a velha ali reclamou — de fato parara de assoviar há tempos. Nem uma brisa, quem diria. Nuvens? Só carneirinhos de passagem e sem funções pluviais que as valessem.</p>
<p>Os velhos não geraram novos rebentos. O plantel dos chucros e irriquietos varãos dali se escafederam para novas paragens. O Tião bem que alertara: aquela nota de 10 com um bigodinho no bução da princesa passou em sua mão por mais de 4 vezes naquela semana.</p>
<p>A vida estaqueara e ninguém percebera; a cidade estava isolada em si mesma, em um passado que todo dia não deixava de se repetir.</p>
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		<title>O comedor de pepinos.</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 19:04:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos da carochinha]]></category>

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		<description><![CDATA[Magro, cenhos franzidos e dedões ossudos como uma pederneira de pistola pirática, Humberto era uma ossadinha branquela e desnutrida que perambulava pelos cantos de uma repartição pública cafifenta em um prédio público decadente dos anos 60. Auxiliar de serviços gerais — e xerocador — orgulho de sua familia de vendedores e mascates. &#8220;Betinho é servidor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Magro, cenhos franzidos e dedões ossudos como uma pederneira de pistola pirática, Humberto era uma ossadinha branquela e desnutrida que perambulava pelos cantos de uma repartição pública cafifenta em um prédio público decadente dos anos 60.</p>
<p>Auxiliar de serviços gerais — e xerocador — orgulho de sua familia de vendedores e mascates. &#8220;Betinho é servidor do serviço público, olha só&#8221; e assim ele sustentava sua audácia pela familiagem toda. Problema é que seu ordenado residual era porco demais para sustentar qualquer mentira mais papeloenta. Não podia se dar luxos. Carro era transporte público, chave-canivete era o cartão do vale-transporte. Cinema? Em casa, com filmes comprados no camelô, que filmou no cinema qualquer. Jantar fora? Quintal.</p>
<p>Aliás, o parasimpático Betinho era avesso à alimentação saudável. Contraiu o mal do vegetarianismo ainda 0cedo, e assim restringiu-se a poucas frutas e verduras para o sustento diário. A razão, ninguém sabia, óbvia: carne era ítem fora do ordenado mercantil.</p>
<p>Dessa mesquinhez nutricional Betinho sofreu: atacou-lhe a anemia, sua pleura fraquejou, a pele — elástica como a de uma bribinha — era branqueada e fria. Olhos fundos e avessados por olheiras cheias de cafiaspirinas mordulentas que amainavam sua dor-de-cabeça constante.</p>
<p>Betinho parecia um velho ranzinza, mas sua juventude aturdida escondia apenas poucos quarenta anos.</p>
<p>Morreu, sabia?</p>
<p>Enveneado, olha só. E por cianureto, aquele veneno bonito das estórias do Sheldon e da Agatha. Cianeto de Potássio. Descobriram ele desfalecido da língua roxa e então investigaram que não morreu de morte morrida, e sim matado. A família quase bailou com esse entrevero todo e o velório foi atacação e chororô.</p>
<p>Niguém sabia ao certo quem poderia ter feito tal desfeita com Betinho. ele era um cara tão ruéla e fracassado que não havia razão singela de aniquilar o bocó. Mulher não tinha. Família era mais alçada no sucesso e prosperidade do que ele jamais sonhara.</p>
<p>A história esfriou, todo mundo acabou seguindo a vida e Betinho foi sumindo nas lembranças poucas que ainda, vez ou outra alguém atiçava no brasil de lenha leve.</p>
<p>O que ninguém suspeitou foi na dieta falha de Betinho, o vegetariano murrinha. Ele comia pepinos e maçãs. Mas das maçãs ele debulhava até as sementes.</p>
<p>E, no final das contas, ninguém estava nem aí que semente de maçã é um demoniozinho cianético, carregado do veneno da baba do cão, ali, a milímetros da sua boca.</p>
<p>Comer as sementes, todo dia, aos pouquinhos, o fez sucumbir sem nem dar um tchau para a Cidinha, a moçoila do facsímile que ele gostava. E assim a seleção natural dos carnívoros prosperou em cima de um aficcionado por insistir que vacas e frangos tinham almas.</p>
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		<title>Azeitona recheada com pimenta</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2010 02:58:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos da carochinha]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje eu descobri como são feitas as azeitonas recheadas com pimenta: Este é um pé de azeitona-preta-recheada-com-pimenta. Não é uma oliveira, porque é original do cerrado. E sim, as azeitoninhas estão pequenas porque não amadureceram direito.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje eu descobri como são feitas as <a href="http://www.zaeli.com.br/tabloides/azeitona_recheada_170g.png" target="_blank">azeitonas recheadas com pimenta</a>:</p>
<p><a href="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/azeitonas.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2411" title="Pé de azeitona preta recheada com pimenta" src="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/azeitonas.jpg" alt="" width="678" height="678" /></a></p>
<p>Este é um pé de azeitona-preta-recheada-com-pimenta. Não é uma oliveira, porque é original do cerrado. E sim, as azeitoninhas estão pequenas porque não amadureceram direito.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O Antônio José Custódio.</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Sep 2010 03:57:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos da carochinha]]></category>
		<category><![CDATA[carochinha]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[guarapuava]]></category>
		<category><![CDATA[Intelectual]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo domingo por volta das oito horas da manhã a campainha lá de casa tocava duas vezes. Domingo para mim era um dia daqueles que não se podia perder um segundo. Totalmente carregado de brincadeiras, diversões, bicicletadas e artes não muito ortodoxas. Na frente do portão lá estava ele, vestido sempre de um jeito muito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo domingo por volta das oito horas da manhã a campainha lá de casa tocava duas vezes. Domingo para mim era um dia daqueles que não se podia perder um segundo. Totalmente carregado de brincadeiras, diversões, bicicletadas e artes não muito ortodoxas.</p>
<p>Na frente do portão lá estava ele, vestido sempre de um jeito muito peculiar: camiseta branca, básica, sobreposta por uma camisa de fazenda qualquer, sempre muito colorida e um casaco mais tricotado. Na cabeça um chapéu de palha trançada dos índios caingangues, em estilo <em>cowboy</em>, que eu não sabia se era de abas quebradas propositadas ou se a palha simplesmente enveredou as ponteiras.</p>
<p>Seu Antônio carregava sempre uma sacola trançada de nylon, que não lembro se era azul ou verde. Um fio tão grosso que eu poderia jurar que era linha de pesca. Dentro, uma meia-dúzia de hortaliças, doações e um radinho à pilhas que nunca ouvi chiar.</p>
<p>Não tenho nem como precisar de que época são essas lembranças. Desde que tenho noção de que o mundo é mundo o velho Antônio buzinava a campainha de casa. E acredito eu que ainda o vi uns pares de vezes quando eu tinha vinte e poucos.</p>
<p>Ele passara do século de idade há tempos. Sempre me troçava quando dizia que tinha o dobro da minha idade: eu mostrava meus cinco dedos esquerdos mais o indicador direito. E eram, de fato, os doze anos duplicados dos meus seis. Mais um século de bônus.</p>
<p>Seu Antônio era a antítese de um velho centenário: lúcido e suficientemente forte para andar uns bons cinco ou seis quilômetros diários, visitar amigos e conhecidos, como a minha família, que eu não sei ao certo o motivo da cordialidade semanal que era nutrida por nós.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Na frente do portão lá estava ele. De olhar vago e distante da porta ou até mesmo da casa, em que havia um permanente e curioso fito devaneístico, como se tudo, afinal de contas, não fosse essas coisas todas que a gente tenta confabular e ele fingia não perceber. Seu rosto expressivo sempre mo era murcho e pergaminhado, de olhos fundos e brilhosos, que quase não combinava com o couro curtido e acabrunhado da sua caricatura.</p>
<p>Eu não tinha muita paciência com ele, confesso. Sua fala mansa e leve, carregada em saudações e eruditismos flanavam como um idioma irreconhecível. Não compreendia o <em>vossa mercê</em> e o <em>sinhozinho</em> que me tratava. <em>Voismecê</em> para mim, naquela época, era apenas jacuzices dos do mato.</p>
<p>À parte disso, outra coisa me encafifava as idéias; ele jamais punha o pé dentro de casa. Era apenas uma cadeira que eu levava lá na porta, a qual ele se sentava para conversar. Degustava uma boa bolacha de maizena com um copo de leite morno enquanto contava suas prosápias epopéias.</p>
<p>Interessante era que, mesmo impaciente e sem atenção alguma, eu escutava suas lendas históricas. Como bom guarapuavano, ele me contou detalhadamente o causo da cobra gigante que tem o rabo na lagoa das lágrimas e a cabeça na catedral. O pároco alimentava o bichão com crianças pagãs não batizadas.  Eu achava essa história uma invencionisse descabida caducada, mas é uma lenda tão conhecida e famosa na cidade que o velhinho ou a inventou e a semeou no vento, ou pior, fez parte da implantação do bicho lânguido.</p>
<p>E assim fiquei sabendo das presepadas do nosso Visconde de Guarapuava; de quando os escravos realmente começaram a circular pela cidade, livre; da comemoração da república e da sacanagem em terem chutado as ancas do império brasileiro pra&#8217;lém mar.</p>
<p>O primeiro carro da cidade, um Fordinho 29 que parecia uma besta-fera; o fonógrafo, as cavalhadas, a instalação da sede da cavalaria para defender a fronteira do município, que era às margens das sete quedas com os castelhanos malditos.</p>
<p>Eu náo colocava juízo na questão. Mas realmente naquela época minha cidade era — territorialmente falando — a metade ocidental do Paraná.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Assim que acabavam seus dois ou três biscoitos de maizena e o copo de lente, que ele agradecia com um suave Deus -que-ajude, levantava-se solícito e rumava para o centro da cidade.</p>
<p>Eu voltava para minha rotina hiperativa qualquer, e nem ao menos digeria direito o que havia escutado.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/SeuAntonio.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2274" title="Seu Antonio" src="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/SeuAntonio.jpg" alt="" width="330" height="462" /></a><em><strong>Seu Antônio, por supuesto.</strong></em></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Tempos atrás encontrei no <a href="http://web.archive.org/web/20030823065302/http://www.tampagov.net/dept_museum/collections/photography/index.asp" target="_blank">Museu virtual de Tampa</a> um retrato do Seu Antônio, clicado por Valdir Cruz. Não acreditei quando vi aquele semblante munchauseano imortalizado em uma chapa de gelatina de prata sepiada por selênio e exposta em um museu norte-americano.</p>
<p>O velhinho era foda mesmo.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Descobri que <a href="http://www.valdircruz.com" target="_blank">Valdir Cruz</a> é um fotógrafo de mão cheia. Retrata com uma câmera que 99% dos fotógrafos digitais por ai jamais imaginariam que existe. E que faz fotos tão realistas e perfeitas. Prazer, é o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Large_format_(photography)" target="_blank">grande formato</a>.</p>
<p>É no site dele que encontrei uma galeria sobre Guarapuava. Foi uma viagem incrível, mesmo porque aquela cidade não muda.</p>
<p>O Valdir saiu de Guarapuava para o mundo no mesmo ano em que eu nasci. E, conversando com ele, percebemos que a cidade não mudou nada.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Acredito que só escrevi esse texto meio sem nexo porque estou lendo O Retrato, primeiro tomo da segunda coleção do O Tempo e o Vento, do Veríssimo.</p>
<p>E algumas coisas ali batem com as histórias do come;o da primeira década do século XX que o velho Antônio contava. E coincide com algumas campanhas publicitárias de alguns periódicos velhos que achei pelo mundo.</p>
<p>Pena.</p>
<p>Seu Antônio hoje, com um gravadorzinho desses de 16gb daria um belíssimo livro de contos da carochinha.</p>
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		<title>A Copa do Mundo de 2010 segundo R.Valentino.</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jun 2010 14:18:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos da carochinha]]></category>
		<category><![CDATA[animação]]></category>
		<category><![CDATA[crítica]]></category>
		<category><![CDATA[ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[reclamando]]></category>

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		<description><![CDATA[Antigamente eu era um visigodo contrarista e torcia para outras nações. O soldo disso é uma coleção de camisetas alemãs, italianas, inglesas e holandesas. Do Brasil mesmo, tive apenas uma, que ganhei quando tinha uns 6 anos de idade. E lembro muito bem o que aconteceu com ela. Era &#8217;86, copa do México — aquela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antigamente eu era um visigodo contrarista e torcia para outras nações. O soldo disso é uma coleção de camisetas alemãs, italianas, inglesas e holandesas. Do Brasil mesmo, tive apenas uma, que ganhei quando tinha uns 6 anos de idade. E lembro muito bem o que aconteceu com ela.</p>
<p>Era &#8217;86, copa do México — aquela do mascote pimentito, que era para ser na Colômbia, mas foi espantada para o Brasil porque as milícias colombianas melaram tudo e, por incrível que pareça, nosso Sarneyzão subditatorial renegou sediar aqui os jogos por motivos desprezíveis, e que fez com que a FIFA desovasse o mundial para o México.</p>
<p>Pois bem, essa copa foi marcada pela &#8220;Mano de Dios&#8221;, Maradona, em um confronto épico e histórico entre uma Argentina malvinada e um Reino Unido falklandeado.</p>
<p>Mas o que me deixou puto da vida foi justamente o jogo Brasil e França, pelas quartas. Era um churrascão na casa de um colega do meu pai. Tinha muita gente lá, tv grande, muita cerveja e muita festa. O jogo foi minguado e correu para os penais. Lembro muito bem que Sócrates bateu e o goleiro defendeu. Cara, aquilo ali foi um desespero em minha volta. Tinha gente já gorando o Brasil naquele momento, gente levantando, cenhos fechados, enfim, um clima putiado.</p>
<p>Um francês errou e com isso voltou o clima de já ganhou. Na sequência uma trave brasileira e a vaca foi para o brejo.</p>
<p>Brasil rodou, a festa acabou, o clima pesou, o povo levantava meio sem jeito, uns tios mais exaltados começaram a tirar as camisetas de algodão com as três estrelinhas e arremeçavam na churrasqueira. A molecada fez o mesmo, todos revoltados; eu? eu adorava a minha, ela era de alguma copa passada, de algodão penteado, com a Jules Rimet ainda no Brasão (ou era a logomarca do café, não lembro). O problema é que saquearam-na do meu corpo e tacaram na fogueira amarela.</p>
<p>Mermão, pense em um moleque que chorou. Eu não entendia o porquê dessa revolta toda, desse descarte idiota das belíssimas camisetas amarelas, dessa raiva incontida. Era uma das melhores seleções que o Brasil já teve, Zico, Sócrates, Silas.</p>
<p>Voltei para casa descamisado e puto. Lembro que eu perguntei, ainda com os olhos mareados e no banco de trás do carro, para meus pais, porque tudo isso. Eu não lembro da resposta, mas nada, naquele momento, poderia me consolar.</p>
<p>Desde então eu via a copa com a futilidade existencial que ela sempre foi. Italia&#8217;90 não lembro. Aliás, lembro sim: eu tinha montado um arsenal de bombinhas amarradas com fita adesiva e todas as pólvoras ignitoras juntas. Era um jogo qualquer do brasil, todos na sala principal de casa e eu no quartinho da bagunça conferindo o jogo na Telefunken velha, com a bomba na direita e o isqueiro na esquerda.</p>
<p>Eu fui treinar como seria a ignição e uma centelha da pedra pulou na pórva toda e aquela bomba desgraçada começou a pegar fogo. Levei um susto, ela caiu no tapete verde que tinha na sala, começou a pipocar os petardos e eu já devia estar em cima do pé de ameixa lá do quintal. O soldo foi uns buracos no tapete, a casa empestiada de fumaça de pólvora e eu de castigo.</p>
<p>As outras copas eu já não estava nem aí para o mundialito, queria mesmo era sair com amigos, olhar as cocotinhas e bebericar muito etanol.</p>
<p>Muito tempo depois retorno com esse negócio da copa. Amigos vão se reunir daqui a pouco, as TV´s de mais de 50 poelgadas mostrarão tudo em <em>highdef</em> e eu — quiçá oxalá — comprarei uma camiseta amarela novamente, para fazer parte de uma torcida que eu nunca mais me senti integrante.</p>
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		<title>Hugs, nerd; Hugs.</title>
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		<pubDate>Fri, 21 May 2010 14:49:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos da carochinha]]></category>
		<category><![CDATA[ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Intelectual]]></category>
		<category><![CDATA[invencionices]]></category>
		<category><![CDATA[você sabia?]]></category>

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		<description><![CDATA[Você já se perguntou o que significa []´s no final das mensagens? Eu já. A primeira vez que vi esse símbolo na ArpaNet, fiquei encafifado com o grafismo e resolvi perguntar ao SysOp o real significado. Ele rebateu na hora: Abraços, brow. Como ninguém jamais poderia duvidar de um SysOp na época, dado seu grau [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Você já se perguntou o que significa <strong>[]´s</strong> no final das mensagens? Eu já. A primeira vez que vi esse símbolo na ArpaNet, fiquei encafifado com o grafismo e resolvi perguntar ao SysOp o real significado. Ele rebateu na hora: <em>Abraços, brow.</em></p>
<p>Como ninguém jamais poderia duvidar de um SysOp na época, dado seu grau de importância, integridade e vicissitude alheia, tomei como verdade absoluta.</p>
<p>A vida seguiu até o dia que, em uma troca singela de e-mails com o amigo Robert Cailliau, perguntei o por quê d&#8217;ele usar colchetes para finalizar e-mails.</p>
<p>A resposta foi histórica e acredito ser uma das primeiras razões etmológicas verdadeiras do simbologismo codificado (tradução livre por nosso imberbe colaborador L33t-w33K:</p>
<p><code>
<p>Message-ID: &lt;020a01c5d41c$de175110$5a14a8c0@northrop&gt;<br />
From: "rcailliau &lt;rcailliau@cern.ch&gt;"<br />
To: "rvalentino at North &lt;rcc344rval@northrop.com&gt;"<br />
Date: Fri, 23 Dec 1994 17:48:09 -0200</p>
<p>RV,</p>
<p>Na verdade eu sempre finalizei minhas comunicações com o Tim <em>(N.E.: Tim Berners-Lee, um dos pioneiros virtuais)</em> com um singelo abraço. Coisa de família, então a saudação surgia normalmente para finalizar a missiva. Em dada ocasião, e na pressa de finalizar um DDCo para o Tim, escrevi rapidamente duas chaves {} <em>(braces, en inglês)</em>. Ele entendeu e na contra-resposta  arrematou um "apóstrofo S", finalizando com {}'s <em>(embraces)</em></p>
<p>A chave mudou para colchete por comodidade. Muita codificação e operação telefônica comunicativa na época transitava entre colchetes. Inclusive um projeto visionário de IPv era atribuído em colchetes, como esse ldap://[2001:db8:3c4d:15::abcd:ef12]. A facilidade e praticidade de não ter que subir a caixa para escrever []´s foi tamanha que a gente migrou para os colchetes sem perceber. Nossos protótipo de IPv eram limitados por colchetes, então melhoramos a dialética e simplificamos o óbvio. E essa saudação contagiou nossos amigos que, como em um ritual secreto nosso, recebiam o entendimento da codificação.</p>
<p>O abraço foi a melhor forma de despedida, uma vez que a comunicação à distância sempre delimitava qualquer forma de cumprimento, como um aperto de mão ou qualquer saudação corporal.</p>
<p>[]´s</p>
</p>
<p></code><br />
<em> [<strong>N.E.:</strong> Em inglês, existem duas formas de descrever um abraço: </em>embrace<em> (mais formal) e </em>hug<em> (mais informal)]</em></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Ernesto Hemingway, (1899–1961).</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jan 2010 15:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-1856" title="Ernesto Hemingway" src="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/Ernesto-Hemingway.jpg" alt="Ernesto Hemingway" width="678" height="811" /></p>
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		<title>A volta do ICQ</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jan 2010 17:14:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
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		<description><![CDATA[Desde a época em que o MSN passou a perna no ICQ e aos poucos todos os usuários migraram para a plataforma Microsoft, meu ICQ morreu. Praticamente todos os meus contatos trocaram de comunicador: de uma hora para outra o ICQ ficou cheio de UIN´s desconectados para sempre. E isso aconteceu para todos ao meu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desde a época em que o MSN passou a perna no ICQ e aos poucos todos os usuários migraram para a plataforma Microsoft, meu ICQ morreu.</p>
<p>Praticamente todos os meus contatos trocaram de comunicador: de uma hora para outra o ICQ ficou cheio de UIN´s desconectados para sempre. E isso aconteceu para todos ao meu redor.</p>
<p>Não sei se tudo isso foi a pressão da Microsoft em empurrar o MSN no sistema operacional ou se foi a Aol LLC que matou o ICQ com as milhares de tranqueiras que o deixaram assustadoramente feio, pesado e lento.</p>
<p>O mérito agora é que existe uma <a href="http://www.icq.com" target="_blank">versão 7</a> da brincadeira. Limpa, sem aquela penteadeira de puta velha que era antes. Comunica com um monte de comunidades 2.0, feeds, twitter, coisa e tal. E eu não sei até onde (e como) essa ressurreição pode chegar.</p>
<p><strong>O tal do UIN</strong></p>
<p>O UIN do ICQ Significa <strong>U</strong>niversal <strong>I</strong>nternet <strong>N</strong>umber. Talvez o ICQ fosse convencido igual à Swatch (com aquela piração do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Swatch_Internet_Time" target="_blank">@ beat Internet Time</a>) e quisesse rotular TODOS os usuários de internet por números. No final do século passado, ainda no tempo em que a internet era movida à lenha no Brasil, uma das formas <em>nerds</em> de você avaliar o tempo de internet de uma pessoa — que convenhamos, era um <em>status quo</em> indubitável — era a numeração UIN do ICQ. Quanto menor o número, mais reputação o <em>geek</em> tinha.</p>
<p>É ai que meu problema começa. Eu tinha um UIN de seis dígitos (#299069), registrado no final de 1996. Esses números baixos  eram tão cobiçados que se você não tivesse uma senha com 16 dígitos, era fácil perder o UIN para algum hacker. Hoje um UIN registrado está na casa dos 500 milhões.</p>
<p>A minha senha tinha tanto caractere especial que, quando se pedia o reenvio de senha, os browsers só imprimiam quadrados (algo como: □□□□□)</p>
<p>Meu e-mail daquela época já não existe mais, era um finado <em>spegel@usa.net</em> da Amex americana.</p>
<p>E agora fiquei com vontade de reavivar uma coisa que não tem como. Rever contatos antigos, que há 14 anos não converso. Sim, é tempo. Uma amiga de Hong Kong que adorava poesias de Fernando Pessoa, traduzidas; a australiana ruiva que ficou minha amiga porque achei metade dos tios-avôs dela por aqui.</p>
<p>Coisas pitorescas do tempo em que a internet era cultural e semântica, sem a <a href="http://www.blogdeguerrilha.com.br/wiki/index.php5?title=Cauda_Monga" target="_blank">cauda-monga</a> que a destrói todos os dias.</p>
<p><strong>A australiana</strong></p>
<p>O ICQ era legal, porque toda vez que algum novo usuário aparecia, você sabia que era mais um adido cultural na sua lista de experiências virtuais. E não existia tanta privacidade, um UIN conversava com o outro sem a necessidade de adicionar ou pedir permissão (Isso mudou em 1999 com a neurótica Aol LLC).</p>
<p>Uma dessas conversas foi com uma garota australiana. Ela era toda bonitinha, eu era um salafrário cafajeste, então já viu. Conversávamos por muito tempo — eu na madruga e ela no entardecer — amenidades, diferenças culturais, gírias <em>aussies </em> pra cá, inglês macarrônico pra lá.</p>
<p>Até que eu contei que meu avô era imigrante aqui no Brasil. Ela confidenciou que o avô dela também era alemão e refugiado da segunda guerra, mas que tinha perdido dois irmãos pelo mundo quando fugiram, talvez para a américa. Solícito que sou, disse que aqui na América do sul era fácil achar gente (era nada), e que faria uma pesquisa mais complexa para ela.</p>
<p>A minha idéia era passar os nomes para um amigo que trabalhava na antiga operadora de telefonia que a TIM comprou. Por ali ele conseguiria abranger o Brasil inteiro e, se os dois chucrutes estivesse nas terras tupiniquins, eu teria assunto para mais uns anos com a ruivinha.</p>
<p>Acontece que eu tinha duas listas telefônicas embaixo do meu monitor (gambiarra de nivelamento de vídeo avançado) e resolvi folheá-las. Era muita coincidência: tinha 9 sobrenomes que batiam. Destes dois eram os primeiros nomes indicados. Aí já fiquei com a pulga atrás da orelha e resolvi ligar para o primeiro.</p>
<blockquote><p>— Seu Walfried?</p>
<p>— Ja vohl!</p>
<p>— O senhor é o irmão mais velho do Günter?</p>
<p>— &#8230;</p>
<p>— Alôuuu?</p>
<p>— Como você sabe!?</p></blockquote>
<p>Desliguei na cara. Liguei para o Manfried. Mesma reação atônita.</p>
<p>Mandei um e-mail para a garota australiana (naquele tempo a gente usava o ICQ para amenidades e e-mails para coisas importantes), com os dados dos dois velhos: telefone, endereço, CEP, tudo.</p>
<p>O que se sucedeu foi uma coisa inacreditável, relatado por e-mail pelo pai da <em>down under: </em>Eles contataram os velhos aqui no Brasil; Os dois não sabiam que o irmão estava vivo, nem o irmão sabia que os dois ainda estavam na ativa; reuniram os três, 50 anos depois, em uma grande festa em Melbourne, onde os primos, netos, familiares e agregados se conheceram pela primeira vez.</p>
<p>A garota achava que eu era um herói, eu achava que nunca ia dar uns pegas nela. Ela achou namorado, eu virei metaleiro, ela casou e eu comprei uma bicicleta.</p>
<p>Depois disso só ficou a lembrança de ter feito uma coisa extremamente fenomenal para alguém que eu nunca, de fato, conheci.</p>
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		<title>Nikola Litvinenko</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Nov 2009 19:56:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos da carochinha]]></category>

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		<description><![CDATA[Imagem rara, real e verdadeira, captada por uma anônima Rolleiflex na última fête de famille daquêle bom-anno de 41, realizado por ocasião do anúncio de enlace de Nikola Litvinenko à trupe familiar. Para fácil identificação, acompanha legenda explanatória (Nikola, todavia, é facilmente reconhecido pela famosa posição da capanga prensada ao corpo e inclinação viril de cortejador, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Imagem rara, real e verdadeira, captada por uma anônima Rolleiflex na última <em>fête de famille </em>daquêle bom-anno de 41, realizado por ocasião do anúncio de enlace de Nikola Litvinenko à trupe familiar. Para fácil identificação, acompanha legenda explanatória <em>(Nikola, todavia, é facilmente reconhecido pela famosa posição da capanga prensada ao corpo e inclinação viril de cortejador, escoltando minha tia-avó de terceiro grau).</em></p>
<p><em></em><img class="alignnone size-full wp-image-1756" title="Nikola Litvinenko" src="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/nikola_valentino.jpg" alt="Nikola Valentino" width="678" height="957" /></p>
<p><em><strong>Nikola Litvinenko</strong></em> era um russo que se afirmava escondido da milícia russa bolchevista no Brasil. Na época, todos acreditavam na ingenuidade ideológica. Descobriu-se, tempos depois, que o vermelho era tio de segundo grau do famoso expião Alexander Litvinenko (que só ficou famoso porque foi pego).</p>
<p>Nikola era costumaz de uma longínqua e demorada viagem no meio do ano para uma cidade no sertão central, baldeada hora por cerrado, ora por caatinga, dentro de uma imensa semi-cratera, fundeada, abrigada de quaisquer interpéries, inexistente em mapa algum, onde não ocorria variação de temperatura atmosférica e completamente sem vento. Segundo um barômetro de mercúrio kastaque, até a altura da cidade era nivelada pelo mar. Um verdadeiro laboratório <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Condi%C3%A7%C3%B5es_Normais_de_Temperatura_e_Press%C3%A3o" target="_blank">CNTP</a>. A percepção da temperatura variava de acordo com o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ritmo_circadiano" target="_blank">ritmo circadiano</a>. &#8220;Essa cidade não tem nome e não existe&#8221;, replicavam os incrédulos.</p>
<p>&#8220;Existe, visitem-na&#8221;, devolvia Nikola. &#8220;A entradinha de terra depois de Mombaça não achei&#8221;. &#8220;Eu mesmo mostro&#8221;. Nikola levava apoucados amigos e familiares pela única bifurcação da rodovia que só ele conhecia até a entrada de uma cidade com gente pacata e afável. &#8220;Veja o asfalto, ele nunca vai rachar, sempre viverá na mesma dilatação em que foi depositado&#8221;. &#8220;Não dá pra viver num lugar que não notamos o quente ou o frio&#8221;. &#8220;E o azul do céu que sempre foi azul, você já não se acostumou? E nem por isso!&#8221;</p>
<p>Nikola mostrava, com uma ingenuidade cirílica, projetos e parafernálias russas engenhosas. Militarismos, triquetraques espaciais, macacos e cachorros de raça laika, tudo acomodado em pequenas caixas metálicas ou grandes contâineres aluminizados, com inscrições indecifráveis, sob cuidado dos locais, muito bem remunerados para os padrões da região.</p>
<p>Mas voltemos às origens: o abastado marxista adentrou na familia por razões inovidáveis até então, mas que geraram um motim existencial nos patriarcas, que o expulsaram anos mais tarde, a golpes de florete e ricochetes de Luger. Não foi por amor à <em>nonna</em> da foto, isso era óbvio. Acontece que minha família negociava muito com empresas teuto-batavo-cipriotas, que por sua vez repassavam congêneres para os alemães pré-segunda-guerra.</p>
<p>A contra-espionagem era tão somente um meio de conhecimento para reportar aos vermelhos sobre as áreas de comércio brasileiras, uma vez que eles tinham como certa a <a href="http://www.brasilcultura.com.br/historia/a-revolta-comunista-marco-de-1935/" target="_blank">inclusão do Brasil nos moldes comunistas</a>.</p>
<p>Qual foi a dele! Era da ativa da espionagem russa! Nos clichês amplamente carimbados da cinemateca espionista americana, por sinal. Chapéu, terno completo e sapato reluzente em um calor tropical o marcavam bem. Aquele capote bege, comprido, atado por um cinto de fivela quadrada carregava uma legítima pistola Tula-Tokarev 33, com projéteis afiadíssimos 7.62 milimetrados.</p>
<p>Não revidou os petardos na bunda por honrarias. Mas, ainda em fuga, falou mal do borscht de beterraba da nonna, o que a fez choramingar pelos cantos por anos a fio.</p>
<p>Desde então nunca mais foi visto. A cidade interiorana, que ele tanto falava, fôra esquecida com o tempo. Dizem as más línguas que ele virou um abastado comerciante de secos e molhados.</p>
<p>Comércio!?</p>
<p>Que afronta ao <em>comunism way of life, red kamarade!</em></p>
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		<title>O perfume da mulher</title>
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		<pubDate>Wed, 13 May 2009 12:11:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<category><![CDATA[contos]]></category>
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		<category><![CDATA[perfume]]></category>

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		<description><![CDATA[É dela. É dela o perfume adocicado que achincalhou meus inocentes devaneios como uma música clássica, allegro non troppo, palpitando em minhas ventas. Estávamos ambos parados, na praça central. Minha casa era a terceira, amarela das janelas brancas. A praça sempre foi minha, por direito. E por vontade pessoal, o que não exime meus achismos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É dela. É dela o perfume adocicado que achincalhou meus inocentes devaneios como uma música clássica, <em>allegro non troppo</em>, palpitando em minhas ventas.</p>
<p>Estávamos ambos parados, na praça central. Minha casa era a terceira, amarela das janelas brancas. A praça sempre foi minha, por direito. E por vontade pessoal, o que não exime meus achismos inúteis. Ela fitava algumas crianças a brincar. Seu olhar era vago e gostoso. Esperava alguém, suponho. E eu simplesmente observava aquela mulher. Culpa do vendo, fique claro: contrário à ela, favorável à mim, trouxe-me as frutadas notas adocicadas ao meu olfato furtivo.</p>
<p>Ela se aproximou, perguntou as horas. Oi, tudo bem? Respondi. Ela sorriu. Um sorriso daqueles significava um &#8220;tudo bem&#8221; todos os dias, acredite. Só podia ser. E você, como vai? Ah, se ela deixasse eu dizer a verdade, falaria a plenos pulmões o que aquele sorriso momentâneo representava para mim. Mas era apenas uma saudação casual, um  pedido de horas de uma desconhecida, apesar de vir precedido de um sorriso e de uma leveza descomunal.</p>
<p>Disse as horas. Emendei um elogio fajuto ao extremo: disse que seu sorriso era bonito, que seu cabelo sabia dançar deliciosamente com a brisa gelada, que seus olhos eram magnificos-intrigantes. Enquanto conversávamos, um jazz leve tocava em minha cabeça. Ah, isso é um dom! Quiçá com um volume tão alto que até ela poderia ouvir. Sorriu e me agradeceu as sentimentalidades.</p>
<p>Ana Claudia, ela disse. Percebi que ela perdeu fôlego ao sussurrar seu nome. Um olhar cruzado quando escutei seu nome, e tudo girou em uma velocidade estonteante. Eram fatos antigos, lembranças, adolescência e descobertas. Rápido, rápido. Aquela mulher à minha frente fôra uma antiga namorada de colégio. Não pode ser!</p>
<p>Disse-lhe meu nome. Sua expressão também a deixou pasma. Crescemos, sumimos daquela cidade, cada um construiu um pequeno começo de futuro. Éramos apenas adolescentes. Eu amei aquela mulher no passado. Ah não, era o primeiro amor inesquecível!</p>
<p>Eu toquei em seu rosto. Ela acariciou a minha minguada e escanholada barba. Entendeu e me abraçou. Eu precisava dela mais do que tudo. Não, precisei, não preciso mais. Ah sentimentalidades! Confundem-me e gargalham. Aproximamo-nos, olhos nos olhos. Por um longo espaço atemporal.</p>
<p>Afastou-se. A música em minha cabeça parou. Disse estar casada, teve uma filha &#8220;aquela com roupinha rosa&#8221;. Despediu. Eu disse que entendia e que iria embora, era um compromisso inventado de imediato. Era a razão, como sempre.</p>
<p>Aquele abraço deixou resquícios de um doce perfume maravilhoso. Fez-me crescer um fino sorriso pelo rosto.</p>
<p>No caminho desconexo ao compromisso imaginário, entendi como a vida sabe pregar peças. Minha vida mudou naquele momento. Coisa boba, pensei. Mas logo notei que troco a roupagem dos meus sentimentos a cada encontro ou desencontro vivencial. Imagina quantos desavisados — sortudos — que se apaixonam subitamente por uma mesma pessoa, duas vezes, existem nesse mundo? Blasfemo a sorte. Sorte? Nunca existiu. Isso são pequeninos milagres vivenciais que recebemos diariamente, e que nunca percebemos ao certo, que de fato, existem.</p>
<p>Cantarolei a música que tocava no rádio do carro. Era o único final feliz encontrado.</p>
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		<title>Recuerdos de 43</title>
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		<pubDate>Wed, 06 May 2009 17:31:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No pátio do então 6º Regimento de Artilharia de Campanha de Curitiba, um quebra-nozes:]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No pátio do então 6º Regimento de Artilharia de Campanha de Curitiba, um quebra-nozes:</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-786" title="marreteiro" src="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/marreteiro.jpg" alt="marreteiro" width="678" height="449" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Recuerdos de 42</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Jan 2009 15:03:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<category><![CDATA[carochinha]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Minha avó me chamou para ver uma caixa de fotografias antigas que ela guarda em cima do armário. São histórias longas e interessantes em cada pedaço de papel. Não resisti e digitalizei montanhas de fotogramas interessantes. Um deles é esse postal abaixo, do momento em que o Brasil foi estuprado por um submarino nazi e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Minha avó me chamou para ver uma caixa de fotografias antigas que ela guarda em cima do armário. São histórias longas e interessantes em cada pedaço de papel. Não resisti e digitalizei montanhas de fotogramas interessantes. </p>
<p>Um deles é esse postal abaixo, do momento em que o Brasil foi estuprado por um submarino nazi e acabou por recrutar meia dúzia de regimentos brasileiros. </p>
<p>Meu avô estava em um deles, e por pouco não embarcou para a Itália. Chegou a entrar no avião e esperar sentado a decolagem, mas abortaram a missão por algum milagre de outrora. </p>
<p>Ai um figurinha da foto acabou dedicando a lembrança para meu avô. A dedicatória — inocente e escrita por um moleque de 18 anos — mostra que eles não tinham muita esperança de voltar vivo da incursão. </p>
<p>O interessante é que ele nao se identificou. Não assinou seu nome. </p>
<p>E só meu avô sabia quem ele era.</p>
<p><img src="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/cartao_postal.jpg" alt="" title="cartao_postal" width="678" height="895" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Galeria de personæ inolvidáveis</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Dec 2008 12:44:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Chet Baker (1929 – 1988) Ex-marine, crooner e trompetista. Gravou, entre outras, “I’m old fashioned”, embalando os sonhos dos brotinhos baby-boomers da América.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img title="chet-baker" src="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/chet-baker.jpg" alt="" /></p>
<p><strong>Chet Baker (1929 – 1988)</strong></p>
<p>Ex-marine, crooner e trompetista. Gravou, entre outras, “I’m old fashioned”, embalando os sonhos dos brotinhos baby-boomers da América.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Otto &#8221;Scarface&#8221; Camarasa</title>
		<link>http://www.madcap.com.br/2008/contos-da-carochinha/otto-scarface-camarasa/</link>
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		<pubDate>Fri, 03 Oct 2008 14:11:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos da carochinha]]></category>

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		<description><![CDATA[Agiota, campeão sul-americano de natação (’32), escroque e ás da aviação. Foi o piloto designado à transportar Eva Péron na viagem que fez à Suiça em 1947. A tão famosa jornada começou com a festejada chegada de ‘Evita’ na Espanha, dali ao Vaticano com o beijo no anel do papa Pio XII e culminou com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><center><img title="Otto \'Scarface\' Camarasa e Alphonse Capone in 1931." src="http://www.madcap.com.br/wp-content/uploads/camarasa-e-capone.jpg" alt="" /><br />
<strong><em>Agiota, campeão sul-americano de natação (’32), escroque e ás da aviação.</em></strong></center></p>
<p>Foi o piloto designado à transportar Eva Péron na viagem que fez à Suiça em 1947. A tão famosa jornada começou com a festejada chegada de ‘Evita’ na Espanha, dali ao Vaticano com o beijo no anel do papa Pio XII e culminou com um <em>séjour</em> nos famosos alpes suíços. Por trás dos rumores à respeito de déposito ilegal de marcos e ouro alemães em troca de asilo nazista nas terras de Gardel, revelemos um fato curioso na genealogia de R.Valentino: Otto seria seu tio-abavúnculo (irmão de segunda ordem do bisavô), uma vez que um livro cartorário da família havia relatado a existência de um Otto ‘Guapo’ Camarasa em sua linha genealógica.</p>
<p>Nascido na pobre região de Misiones, norte da Argentina, filho de pai vaqueano e mãe trambiqueira, Otto desde cedo desenvolveu uma certa propensão a tramas de ordem pecuniária. Tentou vida fácil com os malfadados carcamanos americanos. Apadrinhado por Alphonse Capone em 31, desistiu da vida mitónoma com a grande quebra.</p>
<p>Em 39 — já em terras portenhas — conhece em Los Toldos uma jovem pretendente à atriz chamada María Eva Ibarguren. As juras (claramente falsas) de amor e uma oportunidade, também pérfida, de estrelato na Buenos Aires irascível dos anos 40 levam María Eva a mais completa ruína moral.</p>
<p>Quatro anos mais tarde, Otto desaparece com a pequena fortuna feita com o concubinato e Eva segue o caminho traçado por Juan Perón.</p>
<p>Os detratores de Otto afirmam que mesmo casada, Eva ainda concedia visitas furtivas a Otto. Não se sabe como Otto chegou aos altos escalões do exército argentino. No entanto, afirma-se que ele foi indicado pelo proprio Juan Perón. Os relatos são feitos por George Hodel em seu <em>Evita, the Swiss and the Nazis</em>:</p>
<blockquote><p>&#8220;As a mistress to other army officers, she caught the eye of handsome military strongman Juan Peron. After a public love affair, they married in 1945. As Peron&#8217;s second wife, Evita fashioned herself as the &#8216;queen of the poor&#8217;, the protector of those she called<em> mis descamisados</em> — &#8216;my shirtless ones&#8217;. She created a foundation to help the poor buy items from toys to houses. But her charity extended, too, to her husband&#8217;s Nazi allies. In June 1947, Evita left for post-war Europe. A secret purpose of her first major overseas trip apparently was pulling together the many loose ends of the Nazi relocation.</p>
<p>(…)</p>
<p>While in Spain, Evita reportedly met secretly with Nazis who were part of the entourage of Otto Camarasa, the dashing argentine commando leader known as <strong>Scarface</strong> because of a dueling scar across his left cheek.&#8221;</p></blockquote>
<p>A figura misteriosa de Otto ficou presente no imaginario popular até recentemente quando a ele — mesmo falecido — foi atribuído a explosão que destruiu completamente o prédio da embaixada israelense em Buenos Aires em 1992, deixando um saldo de 29 mortos.</p>
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		<title>Arma de fogo</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Aug 2007 14:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sempre que podia lá ia eu e meu vizinho da casa da frente para sua chácara. Seu pai ia a serviço, coordenar e ver a quantas a empreitada do pessoal rendia. Já eu e o Zizinho ficávamos saracoteando pelas matas ao redor. Como bons desbravadores, no auge dos nossos onze anos, achamos uma espingarda de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que podia lá ia eu e meu vizinho da casa da frente para sua chácara. Seu pai ia a serviço, coordenar e ver a quantas a empreitada do pessoal rendia. Já eu e o Zizinho ficávamos saracoteando pelas matas ao redor. Como bons desbravadores, no auge dos nossos onze anos, achamos uma espingarda de fogo, na sede da chácara. Não sei como se chama essa arma, mas eu a conhecia como Flobé calibre 22. E achamos uma caixinha de munição, uns cem projéteis. </p>
<p>Meia duzia de tiros certeiros em uma lata de óleo foi a deixa para uma saída de caça. Eufóricos como deveria, qualquer coisa que cruzasse nosso caminho levaria bala. Até galinha. </p>
<p>Achamos uma clareira no meio de um capão de embuias e pinheiros. Armamos tocaia. A flobé era nova, tinha um monte de firulas. Mas o melhor de tudo era uma mira telescópica herdada de algum rifle do quartel, uma vez que o pai do Zizinho era militar reformado. A mira era muito precisa e tinha um alcance de aumento gradual.</p>
<p>Eu estava com a espingarda em punho. Senti-me o próprio atirador de elite. Quinze minutos depois pousa em um pinheiro, à média distância, um casal de curucacas. Para quem não sabe, a curucaca é um pássaro de grande porte, bico fino e alongado, muito bonito. Lembro-me que fechei a mira, firmei a coronha, pisquei rapidamente umas duas vezes, prendi a respiração.</p>
<p>O primeiro disparo do dia, para valer.</p>
<p>Certeiro. </p>
<p>O estampido seco do projétil está marcado para sempre em minha memória. Primeiro disparo, último disparo. Corremos, como dois predadores irracionais para ver a caça. O petardo atingiu abaixo da cabeça e quebrou o pescoço do pássaro.</p>
<p>O medíocre e insensato ar de superioridade imediatamente cessou, ao ver o animal agonizando seus últimos suspiros. Peguei-o no colo, ainda quente, mexia-se vagarosamente. Morreu em menos de um minuto. Zizinho estava aterrorizado. Eu, atônito, não conseguia pensar em nada. Deixei a carcaça do animal ali, ao pé daquele pinheiro. Voltamos os dois, sem conversar.</p>
<p>Fiquei a semana inteira ruim. Não conseguia dormir à noite. Imaginava, ainda como uma criança, se aquele pássaro era fêmea, se tinha família para cuidar. Pensava na saudade do pássaro que o acompanhava, se eram casados. </p>
<p>Aquele maldito momento em que eu acabei com uma vida, fez-me raciocinar por longos anos. E percebi, infelizmente, que um bom naco de minha inocência havia se perdido, para sempre. </p>
<p>Como a vida da curucaca.</p>
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		<title>Agenor´s barbearia e sorveteria II</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Aug 2007 14:27:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Odeio cortar o cabelo. Quando ainda criança eu achava que doía. Tinha aquela impressão materialista de que, cortar partes do corpo, como o cabelo e a unha, era como cortar um pedaço da gente. Apesar de não totalmente errada a teoria, acabei me conformando com os constantes escalpes cabelísticos. O que me fez mudar de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Odeio cortar o cabelo. Quando ainda criança eu achava que doía. Tinha aquela impressão materialista de que, cortar partes do corpo, como o cabelo e a unha, era como cortar um pedaço da gente. Apesar de não totalmente errada a teoria, acabei me conformando com os constantes escalpes cabelísticos. </p>
<p>O que me fez mudar de idéia foi uma barbearia muito legal, onde ainda, até hoje, existem aquelas magníficas e cromadas cadeiras Ferrante, com regulagem em tudo quanto é lugar e forrada de um couro vermelho um tanto quanto artificial. </p>
<p>O mais interessante nesta barbearia era que toda a rapaziada da minha escola cortava o cabelo lá. E o seu Geno, malandro como era, sabia exatamente como manter a clientela jovem: tinha um armário negro, opaco, com uma coleção invejável de revistas pornôs. Eram Playboys inúmeras, creio que se eu falasse que era uma coleção completa, não estaria mentindo. Penthouses, Hustlers americanas originais. O arsenal proibido ali era muito complexo. Existia os gibis de Carlos Zéfiro, com seus nanquims, algumas revistas alemãs de sexo explícito.</p>
<p>Eu gostava realmente de ler as figuras de um livrão japonês, de umas seissentas páginas, completíssimo, com fotos coloridas e tudo mais, que explicava na totalidade sobre todas as áreas de prazer, ilustrava posições sexuais e, de lambuja, como xavecar e perceber se a mulher estava caindo ou não no seu papo-aranha. </p>
<p>Um manual completo de como funciona o relacionamento sexual e suas diretivas.</p>
<p>E assim eu aprendi que, com o martírio do corte do cabelo, a minha vida ia tomando ares de graça.</p>
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		<title>Ah, Dona Fifi</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jul 2007 15:46:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Feijão era catador de latas. Descendente de algum quilombo, estirpe negra, rapagão forte e alto. Diariamente juntava uma carriola completa, a qual lhe rendia algumas lascas ao final do expediente. Com o tempo aprendeu a ficar amigo de donos de bares, os quais preferencialmente lhe davam latas já amassadas, facilitando o seu trabalho. Sabia até [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Feijão era catador de latas. Descendente de algum quilombo, estirpe negra, rapagão forte e alto. </p>
<p>Diariamente juntava uma carriola completa, a qual lhe rendia algumas lascas ao final do expediente. Com o tempo aprendeu a ficar amigo de donos de bares, os quais preferencialmente lhe davam latas já amassadas, facilitando o seu trabalho. Sabia até quais bares eram mais generosos, quais lhe serviam sobras graciosas de petiscos e afrescos diversos. </p>
<p>Sua labuta diária era rotineira. Sempre o mesmo trajeto, os mesmos barezinhos, a comida, generosamente granjeada. Uma vida bem pacata e morosa, por assim dizer.</p>
<p>Dona Fifi, uma ascendida social, residente de uma das finas coberturas que faziam contraste com a orla, interessara-se por Feijão. Todo dia observava o esbelto corpo delineado pelo braçal serviço. Sabia o horário em que aquela lenta carriola, carcomida pelo desgaste, religiosamente trafegava em frente ao seu caminho. Fifi, ansiosa, precisava parar aquele negrão. A cada dia que passava, maior e mais intensa era a sua vontade de possuir aquele conjunto!</p>
<p>Dia desses, chamou seus seguranças. Explicou-lhes o que deveriam fazer. Sem pestanejar, agarraram Feijão. É claro que os dois homens de terno, formados em alguma escola de segurança, renderam prontamente o gari que, sem pestanejar, foi levado junto de sua carriola à imensa garagem, entre luxuosos carros. Atônito e sem saber o que dizer, Feijão paciente esperava no que aquilo daria. Seqüestro, óbvio que não era. Tentava lembrar se havia flertado com alguma moçoila da região. Sabia que isso era perigoso. Não estava, no momento, devendo dinheiro à ninguém. Suas apostas no bicho eram religiosamente pagas em dia. Estava perdido, não sabia realmente o que acontecia ali.</p>
<p>Dona Fifi surge dentre os carros. Encara Feijão. Saca uma luva de pelica branca, nova. Com certo esforço consegue virar a carriola, despejando as inúmeras latas amassadas, ao chão. Começa vagarosamente a retirar o anel de alumínio de uma lata. Joga-a em um canto, o anel em uma caixa. E assim repetidamente foi, durante algumas horas. No final havia separado mais de cinco mil anéis prateados. Soltou Feijão, que sem nada entender, juntou as latinhas e foi embora.</p>
<p>Dona Fifi queria trocar os anéis de alumínio por uma computador.</p>
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		<title>As baronesas</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jul 2007 15:38:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Barão ganhou o apelido pelo duvidoso gosto em manter um bigodão fio-de-arame, com voltinha e tudo mais. E o que realmente fez a sua fama era a diversidade de mulheres as quais lhe acompanhavam. Mulheres sempre impecáveis, bonitas, de uma finesse e educação invejável. Barão era figurinha carimbada em todo o tipo de evento, convescote [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Barão ganhou o apelido pelo duvidoso gosto em manter um bigodão fio-de-arame, com voltinha e tudo mais. E o que realmente fez a sua fama era a diversidade de mulheres as quais lhe acompanhavam. Mulheres sempre impecáveis, bonitas, de uma finesse e educação invejável.</p>
<p>Barão era figurinha carimbada em todo o tipo de evento, convescote ou festa. Com um jeito bonachão, seu sorriso era cativante. Sua presença, obrigatória: seus disparates, aterradores e únicos.</p>
<p>O que intrigava todos seus amigos era o fato de, um sujeitinho pequeno, feio e com um bigode encardido e carcomido pelo cigarro, pudesse fazer par com belas damas. E olha que vez passada até houve diálogo em francês com uma de suas divas. É claro que a curiosidade aflorava toda vez que o galanteador passava. Mas a hombridade e os culhões impediam todos de lhe perguntar o segredo da fama. Insinuações apenas o faziam soltar uma deliciosa gargalhada. Mas falar das mulheres, nunca. </p>
<p>E não era dinheiro, nem fama, tampouco a beleza. O barão era simples, funcionário de um armazém de secos e molhados. Poucos conheciam sua intimidade. </p>
<p>Vez passada não me contive e perguntei o seguredo das &#8220;baronesas&#8221;. Surpreendeu-me na resposta, após a já esperada gargalhada homérica. Ele simplesmente sanou a já desconfiada asserção: na zona. Sim, barão era costumaz freqüentador de casas de burlesco. Apesar do irônico comentário, que fez com que ninguém acreditasse na resposta, ele foi sincero. As mulheres o conheciam, e conheciam também a sua fama de arroz-de-festa. Elas brigavam para escoltá-lo. E Barão divertia-se. As putas divertiam-se. A finesse das raparigas advinham da excentricidade dos bons pagadores de serviços. A casa era fina. </p>
<p>E o Barão sussurrou, algum tempo depois, só para mim: </p>
<p><em>– Puta que não cobra, quer gozar. </em></p>
<p>Barão estava certo. Sempre de bom humor, sempre com mulheres espetaculares. Muito mais jovem que muito jovem gagá. Feliz na sua essência de ser.</p>
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		<title>A Variant amarela</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jul 2007 15:25:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Augustão era um pacato cidadão rural. Descendente de Alemães, tinha a pele avermelhada do sol, o que atenuava seu vasto bigodão loiro. Havia adquirido com muito gosto uma Variant amarela novinha. Como todo bom colono, instalara franjinhas no teto, bolinhas massageadoras no banco e trocou a bola do câmbio por uma de caranguejo, a do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Augustão era um pacato cidadão rural. Descendente de Alemães, tinha a pele avermelhada do sol, o que atenuava seu vasto bigodão loiro. Havia adquirido com muito gosto uma Variant amarela novinha. Como todo bom colono, instalara franjinhas no teto, bolinhas massageadoras no banco e trocou a bola do câmbio por uma de caranguejo, a do seu signo. Diariamente levava verduras para a cidade, subindo a serra vagarosamente. Acompanhado de sua esposa, Augustão fazia de seu estimado carro, sua forma de incrementar as vendas de suas verduras.</p>
<p>No começo do verão, sua produção de legumes bateu recorde. Vez ou outra precisava de duas viagens por dia para escoar todas as leguminosas, tamanho o fluxo vegetal. É claro que com esta fartura, Augustão pôde comprar um toca-fitas para a Variant, o que na época era capricho dos valiosos e velozes SP2.</p>
<p>E em uma dessas idas e vindas da cidade ao campo, Augustão, com toda a sua pompa, trafegava feliz por sua rota habitual. Dona Fifi, sua mulher, feliz por estar passeando, cantarolava baixinho a música do rádio. Neste sutil e raro momento, uma mosquinha-da-banana que estava no veículo, zanzou e entrou de forma estranha no ouvido direito de Augustão. Desesperado pelo zunir das asinhas, mas sem perder a calma, retirou do contato a chave, desligando o carro, que continuou em movimento, para assim catucar a intrusa entrincheirada.</p>
<p>É claro que o voltante travou, o freio acabou e o carro saiu da pista. O que se sucedeu foi inacreditável: A desgovernada perua invadiu o pasto vizinho à estrada, descida da serra.</p>
<p>Augustão, pedindo calma à dona Fifi, que com todas as suas forças agarrara-se ao console do painel e no putaoqueospariu, tentava em vão controlar a bendita Variant. A chave já havia caído metros atrás, no meio da balaiada. Com o volante travado, nada podia ser feito. O carro atravessou um pasto, recolheu as vacas na mangueira, passeou por mais umas plantações e estacionou em frente à casa do compadre Guilhermino. Por incrível que pareça, Nada acontecera de grave. Augustão, com toda sua pompa inatingível, desceu do carro, abriu o porta-malas e retirou duas cabeças de alface.</p>
<p>- Presente compadre Guilhermino. Estava descendo a serra e resolvi cortar caminho.</p>
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		<title>A mulher do vizinho</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jul 2007 15:19:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ralph Spegel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Baltazar mora em um daqueles condomínios fechados onde cada um constrói a sua casa como mais lhe apetece. E como o estilo é americano, as casas não têm muros ou separações aparentes. Solteiro, simples, mas de carreira invejável, mora sozinho e desfruta das singelas sutilezas de uma vida a sós. E o vizinho de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Baltazar mora em um daqueles condomínios fechados onde cada um constrói a sua casa como mais lhe apetece. E como o estilo é americano, as casas não têm muros ou separações aparentes. Solteiro, simples, mas de carreira invejável, mora sozinho e desfruta das singelas sutilezas de uma vida a sós. </p>
<p>E o vizinho de Baltazar tem um mulher muito gostosa.</p>
<p>Ela sempre toma sol na piscina da casa do Baltazar. O marido, na estranheza de ser, nunca quis contruir uma para ela. E a cena sempre se repetia: Baltazar acordava, abria as cortinas de seu quarto e lá estava aquele monumento, tostando ao sol matinal.</p>
<p>É claro que as peças de banho ínfimas que ela usava tinham um descarado propósito provocativo. Sempre que ela se abaixava, fosse para pegar alguma revista, um creme, insinuava as maliciosas formas dos seios redondamente perfeitos. Passava branzeador de uma forma suave e insensata, apetecendo até olhos mais frígidos.</p>
<p>Baltazar surtava. Só não atacava aquela beldade pelo mínimo respeito que ainda restava ao seu vizinho.</p>
<p>Domingão desses, Baltazar curtia uma ressaca homérica. Deitado no chão, ao lado da piscina, resmungava baixinho, enquanto sua cabeça latejava, evaporando ao sol o álcool sorvido.</p>
<p>A vizinha surgiu do nada, sentou-se ao seu lado. Perguntara-lhe se poderia besuntá-lo de bronzeador. Ali, meu amigo, toda a relutância em não atacá-la fora água abaixo hora que ela encostou-lhe a mão com o óleo. </p>
<p>Os dois entregaram-se aos prazeres mundanos e carnais de uma forma espetacular. A vida de <em>bon-vivant</em> que Baltazar levava fez com que a mulher explodisse em um gozo intenso e imoral. Ficou bem evidente que ela estava há tempos na seca.</p>
<p>Baltazar ganhou a deliciosa vizinha. A Vizinha ganhou um amante insaciável. E o corno do vizinho continua a arrumar o computador do Baltazar de graça. Acha que assim não precisará construir uma piscina para sua tarada mulher. Tão cedo.</p>
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