MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘contos da carochinha’

Sobre o aquecimento global.

10 de fevereiro de 2010

O Celsiusman era um personagem de HQ criado para combater o terrível vilão monofásico Zyonic, conhecido como Aquecedor Global.

A idéia foi por água abaixo quando os censores denotaram como “objecto fálico” o  grande termômetro que o herói empunhava em sua pélvis. E também porque o herói morria já no primeiro Gibi. Mas isso é outra história.

Abaixo, a ilustração original da capa, feita a lápis de cor Labra e o trecho final do embate:

Celsius Man: "Pega no meu termômetro e balança!"

…Celsiusman toma impulso do parapeito da ponte e atinge seu antagonista com um chute no peito.

“Tremei câes vis”.

Os últimos remanescentes da quadrilha de Zyonic sacam suas pistolas de plasma, mas a um gesto de Celsiusman a porção líquida do sangue dos bandidos se solidifica e os faz emitir gritos de dor.

Peculiar o poder de nosso herói, consegue alterar a temperatura da água contida em qualquer objeto. Envaidecido, como sempre fica a cada demonstração de seu poder, não percebe alguns fascínoras restantes às suas costas, apenas encontra tempo de levantar um escudo de gelo para bloquear parte das rajadas. Escorrega para trás, bate no parapeito e principia a cair da ponte.

A queda é enorme, mais de cem metros; sempre leu que a esta altura e fluida água do rio embaixo se converte em uma dura placa de concreto. A natureza reproduzindo seu poder facilmente, e inconscientemente, basta darem-lhe tempo e/ou distância.

Humilhado, sentindo-se pequeno, menos que o mais sumário mortal, Celsiusman entrega-se à morte. Um segundo depois resiste e decide vaporizar a água embaixo para que passe incólume. Sucumbe o desgraçado. Seu corpo ferve quando atinge a camada de vapor.

(Pequeno trecho da edição de tiragem única e piloto, censurada: Celsiusman: hermético e calculista – Ed. Copenhaga, 1999 pg. 32 / Ilustrado por R.V.)

Ernesto Hemingway, (1899–1961).

26 de janeiro de 2010

Ernesto Hemingway

Ernesto Hemingway (1899 – 1961), célebre escritor estadounidense suicidado por R.Valentino. O incidente foi motivado por recusa do artista em receber o nosso co-editor em seu país (Leia o imbróglio completo aqui). A resposta do rapagão ao acinte tomou forma de carta com críticas veementes, fato que culminou com Ernesto atravessando uma bala de rifle para elefantes pelo bestunto.

A volta do ICQ

22 de janeiro de 2010

Desde a época em que o MSN passou a perna no ICQ e aos poucos todos os usuários migraram para a plataforma Microsoft, meu ICQ morreu.

Praticamente todos os meus contatos trocaram de comunicador: de uma hora para outra o ICQ ficou cheio de UIN´s desconectados para sempre. E isso aconteceu para todos ao meu redor.

Não sei se tudo isso foi a pressão da Microsoft em empurrar o MSN no sistema operacional ou se foi a Aol LLC que matou o ICQ com as milhares de tranqueiras que o deixaram assustadoramente feio, pesado e lento.

O mérito agora é que existe uma versão 7 da brincadeira. Limpa, sem aquela penteadeira de puta velha que era antes. Comunica com um monte de comunidades 2.0, feeds, twitter, coisa e tal. E eu não sei até onde (e como) essa ressurreição pode chegar.

O tal do UIN

O UIN do ICQ Significa Universal Internet Number. Talvez o ICQ fosse convencido igual à Swatch (com aquela piração do @ beat Internet Time) e quisesse rotular TODOS os usuários de internet por números. No final do século passado, ainda no tempo em que a internet era movida à lenha no Brasil, uma das formas nerds de você avaliar o tempo de internet de uma pessoa — que convenhamos, era um status quo indubitável — era a numeração UIN do ICQ. Quanto menor o número, mais reputação o geek tinha.

É ai que meu problema começa. Eu tinha um UIN de seis dígitos (#299069), registrado no final de 1996. Esses números baixos  eram tão cobiçados que se você não tivesse uma senha com 16 dígitos, era fácil perder o UIN para algum hacker. Hoje um UIN registrado está na casa dos 500 milhões.

A minha senha tinha tanto caractere especial que, quando se pedia o reenvio de senha, os browsers só imprimiam quadrados (algo como: □□□□□)

Meu e-mail daquela época já não existe mais, era um finado spegel@usa.net da Amex americana.

E agora fiquei com vontade de reavivar uma coisa que não tem como. Rever contatos antigos, que há 14 anos não converso. Sim, é tempo. Uma amiga de Hong Kong que adorava poesias de Fernando Pessoa, traduzidas; a australiana ruiva que ficou minha amiga porque achei metade dos tios-avôs dela por aqui.

Coisas pitorescas do tempo em que a internet era cultural e semântica, sem a cauda-monga que a destrói todos os dias.

A australiana

O ICQ era legal, porque toda vez que algum novo usuário aparecia, você sabia que era mais um adido cultural na sua lista de experiências virtuais. E não existia tanta privacidade, um UIN conversava com o outro sem a necessidade de adicionar ou pedir permissão (Isso mudou em 1999 com a neurótica Aol LLC).

Uma dessas conversas foi com uma garota australiana. Ela era toda bonitinha, eu era um salafrário cafajeste, então já viu. Conversávamos por muito tempo — eu na madruga e ela no entardecer — amenidades, diferenças culturais, gírias aussies pra cá, inglês macarrônico pra lá.

Até que eu contei que meu avô era imigrante aqui no Brasil. Ela confidenciou que o avô dela também era alemão e refugiado da segunda guerra, mas que tinha perdido dois irmãos pelo mundo quando fugiram, talvez para a américa. Solícito que sou, disse que aqui na América do sul era fácil achar gente (era nada), e que faria uma pesquisa mais complexa para ela.

A minha idéia era passar os nomes para um amigo que trabalhava na antiga operadora de telefonia que a TIM comprou. Por ali ele conseguiria abranger o Brasil inteiro e, se os dois chucrutes estivesse nas terras tupiniquins, eu teria assunto para mais uns anos com a ruivinha.

Acontece que eu tinha duas listas telefônicas embaixo do meu monitor (gambiarra de nivelamento de vídeo avançado) e resolvi folheá-las. Era muita coincidência: tinha 9 sobrenomes que batiam. Destes dois eram os primeiros nomes indicados. Aí já fiquei com a pulga atrás da orelha e resolvi ligar para o primeiro.

— Seu Walfried?

— Ja vohl!

— O senhor é o irmão mais velho do Günter?

— …

— Alôuuu?

— Como você sabe!?

Desliguei na cara. Liguei para o Manfried. Mesma reação atônita.

Mandei um e-mail para a garota australiana (naquele tempo a gente usava o ICQ para amenidades e e-mails para coisas importantes), com os dados dos dois velhos: telefone, endereço, CEP, tudo.

O que se sucedeu foi uma coisa inacreditável, relatado por e-mail pelo pai da down under: Eles contataram os velhos aqui no Brasil; Os dois não sabiam que o irmão estava vivo, nem o irmão sabia que os dois ainda estavam na ativa; reuniram os três, 50 anos depois, em uma grande festa em Melbourne, onde os primos, netos, familiares e agregados se conheceram pela primeira vez.

A garota achava que eu era um herói, eu achava que nunca ia dar uns pegas nela. Ela achou namorado, eu virei metaleiro, ela casou e eu comprei uma bicicleta.

Depois disso só ficou a lembrança de ter feito uma coisa extremamente fenomenal para alguém que eu nunca, de fato, conheci.

A Ópera do Malandro.

13 de janeiro de 2010

Eu sou um sujeito extremamente envolvido com o JET SET nacional e estrangeiro. Já tomei umas geladas com Toquinho e Vinícius (vede episódio narrado pelo biógrafo Becker na edição de aniversário d’”O CRUZEIRO” de 1977), já hospedei José Saramago em minha casa de campo em Bilbao, já dei carona a Pedro Juan Gutiérrez de Vladivostok a Saigon em plena Guerra das Seis Horas (Episódio Bélico de 1983 na Guerra Fria, completamente abafado pela imprensa). Enfim, sou habituado a conviver com personalidades de evidência.
Assim, estava em minha casa consertando uns mandolins quando o telefone toca:
-Alô? – pergunto
-Jorge?- uma voz amigável me reconhece
-Pois não? O que desejas? – é assim que atendo a pessoas que ligam para minha residência
-(Risos) É o Chico.
-Qual? –perguntei- o Francisco Buarque de Hollanda?- (este é o nome completo do Chico Buarque)
-(Gargalhadas) Isso mesmo. (Tosse)
-Fala, F.B.H.- – (às vezes o chamo por essa sigla)
-(Redobra a gargalhada) >-Diz aí.- falei
- Rapaz… (se recompondo) você me mata de tanto rir…
-Que você ordena?
-Jorge… escuta… – (ajustando o telefone no ouvido)- estava arrumando uma gavetas aqui em casa (ele mora no Rio, antigo Estado da Guanabara) e encontrei uma música que eu fiz para você..
-Qual? “Copo Vazio”?
-(Risos novamente) Não, não, essa não… Aquela outra com o teu nome…
-“Vai trabalhar vagabundo”? – arrisquei
-( A gaitada era sonora apesar de Chico Buarque tapar o bocal do telefone com a mão). Cara, “Jorge Maravilha”!
-Ah… lembrei. Tava todo mundo -(Nara, Tom, Paulinho, Cláudio Monte(pai da Marisa), Elis, Belchior, Caetano Veloso, Ednardo, João Bosco, Chico, Betânia e eu)- lá no Transa (bar em Copacabana), naquela tarde…
-Pois é.. 1974…
-Essa garotada aí nem era nascida ainda, hein Chico…
-Pois é… Sim, eu vou te mandar a música por mail e você publica aí no “In-Cubos”pro pessoal matar a saudade.
-Claro, Chicowski (nome que eu inventei= Chico+Bukowski) … Por você quebro qualquer galho
-Até mais Valente.
-Até mais, mano velho.
E assim, para vocês, “Homenagem ao Malandro” de Chico Buarque de Hollanda. 1974
Homenagem Ao Malandro
Chico Buarque
Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem não existe mais.
Agora já não é normal, o que dá de malandro
regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central

Eu sou um sujeito extremamente envolvido com o JET SET nacional e estrangeiro. Já tomei umas geladas com Toquinho e Vinícius (vide episódio narrado pelo biógrafo Becker na edição de aniversário d’”O CRUZEIRO” de 1977), já hospedei José Saramago em minha casa de campo em Bilbao, já dei carona a Pedro Juan Gutiérrez de Vladivostok a Saigon em plena Guerra das Seis Horas (Episódio Bélico de 1983 na Guerra Fria, completamente abafado pela imprensa).

Enfim, sou habituado a conviver com personalidades de evidência.

Assim, estava em minha casa consertando uns mandolins com ula nova técnica de aviltamento de madeiras, quando o telefone toca:

— Pois sim? — pergunto

— Érre Vê? — uma voz amigável me reconhece

— Pois não? O que desejas? — é assim que atendo a pessoas que ligam para minha residência

— (Risos) É o Chico.

— Qual?  — perguntei — o Francisco Buarque de Hollanda? — (este é o nome completo do Chico Buarque)

— (Gargalhadas) Isso mesmo. (Tosse)

— Fala, FBH. — (às vezes o chamo por essa alcunha)

— (Redobra a gargalhada) — Diz aí. — falei

— Rapaz… (recompondo-se) — você me mata de tanto rir…

— O que você ordena, capitão?

— O Valente… escuta… — (ajustando o telefone no ouvido) — estava arrumando uma gavetas aqui em casa (ele mora no Rio, antigo Estado da Guanabara) e encontrei uma música que eu fiz para você…

— Qual? “Copo Vazio”?

— (Risos novamente) Não, não, essa não… Aquela outra, malandragem…

— “Vai trabalhar vagabundo”? —  arrisquei

(A gaitada era sonora apesar de Chico Buarque tapar o bocal do telefone com a mão) — Cara, “Homenagem ao Malandro”!

— Ah… lembrei. Tava todo mundo — [Nara, Tom, Paulinho, Cláudio Monte (pai da Marisa), Elis, Belchior, Caetano Veloso, Ednardo, João Bosco, Chico, Betânia e eu] — lá no Transa (bar em Copacabana), naquela tarde…

— Pois é… 1974… Todos vocês me ajudando a musicar a peça Ópera do Malandro… que tempestade de idéias, meu amigo!

— Essa garotada aí nem era nascida ainda, hein Chico…

— Pois é… Sim, eu vou te mandar a música por e-mail e você publica aí no “Madcap” pro pessoal matar a saudade!

— Claro, Chicowski — (nome que eu inventei = Chico+Bukowski) — Por você quebro qualquer galho!

— Até mais Valente.

— Até mais, mano velho.

E assim, para vocês, “Homenagem ao Malandro” de Chico Buarque de Hollanda. 1974

Homenagem Ao Malandro

Chico Buarque

Eu fui fazer um samba em homenagem

à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.

Eu fui à Lapa e perdi a viagem,

que aquela tal malandragem não existe mais.

Agora já não é normal, o que dá de malandro

regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,

malandro candidato a malandro federal,

malandro com retrato na coluna social;

malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.

Mas o malandro para valer, não espalha,

aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.

Dizem as más línguas que ele até trabalha,

Mora lá longe chacoalha, no trem da central

Nikola Litvinenko

18 de novembro de 2009

Os demiurgos deste periódico brindam seus freqüentadores com imagem rara, real e verdadeira, captada por uma anônima Rolleiflex na última fête de famille daquêle bom-anno de 41, realizado por ocasião do anúncio de enlace de Nikola Litvinenko à trupe familiar. Para fácil identificação, acompanha legenda explanatória (Nikola, todavia, é facilmente reconhecido pela famosa posição da capanga prensada ao corpo e inclinação viril de cortejador, escoltando minha tia-avó de terceiro grau).

Nikola Valentino

Nikola Litvinenko era um russo que se afirmava escondido da milícia russa bolchevista no Brasil. Na época, todos acreditavam na ingenuidade ideológica. Descobriu-se, tempos depois, que o vermelho era tio de segundo grau do famoso expião Alexander Litvinenko (que só ficou famoso porque foi pego).

Nikola era costumaz de uma longínqua e demorada viagem no meio do ano para uma cidade no sertão central, baldeada hora por cerrado, ora por caatinga, dentro de uma imensa semi-cratera, fundeada, abrigada de quaisquer interpéries, inexistente em mapa algum, onde não ocorria variação de temperatura atmosférica e completamente sem vento. Segundo um barômetro de mercúrio kastaque, até a altura da cidade era nivelada pelo mar. Um verdadeiro laboratório CNTP. A percepção da temperatura variava de acordo com o ritmo circadiano. “Essa cidade não tem nome e não existe”, replicavam os incrédulos.

“Existe, visitem-na”, devolvia Nikola. “A entradinha de terra depois de Mombaça não achei”. “Eu mesmo mostro”. Nikola levava apoucados amigos e familiares pela única bifurcação da rodovia que só ele conhecia até a entrada de uma cidade com gente pacata e afável. “Veja o asfalto, ele nunca vai rachar, sempre viverá na mesma dilatação em que foi depositado”. “Não dá pra viver num lugar que não notamos o quente ou o frio”. “E o azul do céu que sempre foi azul, você já não se acostumou? E nem por isso!”

Nikola mostrava, com uma ingenuidade cirílica, projetos e parafernálias russas engenhosas. Militarismos, triquetraques espaciais, macacos e cachorros de raça laika, tudo acomodado em pequenas caixas metálicas ou grandes contâineres aluminizados, com inscrições indecifráveis, sob cuidado dos locais, muito bem remunerados para os padrões da região.

Mas voltemos às origens: o abastado marxista adentrou na familia por razões inovidáveis até então, mas que geraram um motim existencial nos patriarcas, que o expulsaram anos mais tarde, a golpes de florete e ricochetes de Luger. Não foi por amor à nonna da foto, isso era óbvio. Acontece que minha família negociava muito com empresas teuto-batavo-cipriotas, que por sua vez repassavam congêneres para os alemães pré-segunda-guerra.

A contra-espionagem era tão somente um meio de conhecimento para reportar aos vermelhos sobre as áreas de comércio brasileiras, uma vez que eles tinham como certa a inclusão do Brasil nos moldes comunistas.

Qual foi a dele! Era da ativa da espionagem russa! Nos clichês amplamente carimbados da cinemateca espionista americana, por sinal. Chapéu, terno completo e sapato reluzente em um calor tropical o marcavam bem. Aquele capote bege, comprido, atado por um cinto de fivela quadrada carregava uma legítima pistola Tula-Tokarev 33, com projéteis afiadíssimos 7.62 milimetrados.

Não revidou os petardos na bunda por honrarias. Mas, ainda em fuga, falou mal do borscht de beterraba da nonna, o que a fez choramingar pelos cantos por anos a fio.

Desde então nunca mais foi visto. A cidade interiorana, que ele tanto falava, fôra esquecida com o tempo. Dizem as más línguas que ele virou um abastado comerciante de secos e molhados.

Comércio!?

Que afronta ao comunism way of life, red kamarade!

O perfume da mulher

13 de maio de 2009

É dela. É dela o perfume adocicado que achincalhou meus inocentes devaneios como uma música clássica, allegro non troppo, palpitando em minhas ventas.

Estávamos ambos parados, na praça central. Minha casa era a terceira, amarela das janelas brancas. A praça sempre foi minha, por direito. E por vontade pessoal, o que não exime meus achismos inúteis. Ela fitava algumas crianças a brincar. Seu olhar era vago e gostoso. Esperava alguém, suponho. E eu simplesmente observava aquela mulher. Culpa do vendo, fique claro: contrário à ela, favorável à mim, trouxe-me as frutadas notas adocicadas ao meu olfato furtivo.

Ela se aproximou, perguntou as horas. Oi, tudo bem? Respondi. Ela sorriu. Um sorriso daqueles significava um “tudo bem” todos os dias, acredite. Só podia ser. E você, como vai? Ah, se ela deixasse eu dizer a verdade, falaria a plenos pulmões o que aquele sorriso momentâneo representava para mim. Mas era apenas uma saudação casual, um  pedido de horas de uma desconhecida, apesar de vir precedido de um sorriso e de uma leveza descomunal.

Disse as horas. Emendei um elogio fajuto ao extremo: disse que seu sorriso era bonito, que seu cabelo sabia dançar deliciosamente com a brisa gelada, que seus olhos eram magnificos-intrigantes. Enquanto conversávamos, um jazz leve tocava em minha cabeça. Ah, isso é um dom! Quiçá com um volume tão alto que até ela poderia ouvir. Sorriu e me agradeceu as sentimentalidades.

Ana Claudia, ela disse. Percebi que ela perdeu fôlego ao sussurrar seu nome. Um olhar cruzado quando escutei seu nome, e tudo girou em uma velocidade estonteante. Eram fatos antigos, lembranças, adolescência e descobertas. Rápido, rápido. Aquela mulher à minha frente fôra uma antiga namorada de colégio. Não pode ser!

Disse-lhe meu nome. Sua expressão também a deixou pasma. Crescemos, sumimos daquela cidade, cada um construiu um pequeno começo de futuro. Éramos apenas adolescentes. Eu amei aquela mulher no passado. Ah não, era o primeiro amor inesquecível!

Eu toquei em seu rosto. Ela acariciou a minha minguada e escanholada barba. Entendeu e me abraçou. Eu precisava dela mais do que tudo. Não, precisei, não preciso mais. Ah sentimentalidades! Confundem-me e gargalham. Aproximamo-nos, olhos nos olhos. Por um longo espaço atemporal.

Afastou-se. A música em minha cabeça parou. Disse estar casada, teve uma filha “aquela com roupinha rosa”. Despediu. Eu disse que entendia e que iria embora, era um compromisso inventado de imediato. Era a razão, como sempre.

Aquele abraço deixou resquícios de um doce perfume maravilhoso. Fez-me crescer um fino sorriso pelo rosto.

No caminho desconexo ao compromisso imaginário, entendi como a vida sabe pregar peças. Minha vida mudou naquele momento. Coisa boba, pensei. Mas logo notei que troco a roupagem dos meus sentimentos a cada encontro ou desencontro vivencial. Imagina quantos desavisados — sortudos — que se apaixonam subitamente por uma mesma pessoa, duas vezes, existem nesse mundo? Blasfemo a sorte. Sorte? Nunca existiu. Isso são pequeninos milagres vivenciais que recebemos diariamente, e que nunca percebemos ao certo, que de fato, existem.

Cantarolei a música que tocava no rádio do carro. Era o único final feliz encontrado.

Recuerdos de 43

6 de maio de 2009

No pátio do então 6º Regimento de Artilharia de Campanha de Curitiba, um quebra-nozes:

marreteiro

Mindlog Systems

16 de fevereiro de 2009

A revolucionária técnica desenvolvida pela Universidade Cambridge promete deixar no limbo da net invencionices como o Blog e o Fotolog.

Frank Moongoose Chapman, professor de Lógica Computacional Aplicada à I.A. notadamente ficou envadeicido na sessão de imprensa, na qual mandamos um de nossos colaboradores prescutar um pouco da avant-garde tecnológica.

Pois como não!

O instrumento mais pertinente do chamado Mindlog Systems™ chama-se Captador de Ondas:

MindLog Systems™
Esse curioso aparelhinho com o aspecto e funcionalidade de um headphone adorna a cabeça do dono do Mindlog e, sem que ele precise digitar ou inserir alguma foto, já que o apetrecho registra as experiências deste ao decorrer do dia-a-dia.

Basta que o usuário se concentre e aquela pre-púbere que tem o seu blog verá transmutada em letras digitadas suas impressões em tempo real da festa de sua amiga de sala; Basta que o fã de Korn — que fundou um fotolog para seu fã-clube — pisque de determinada maneira frente aos seus amigos para que aquela imagem recebida pela retina seja inserida automaticamente no fotolog!

Quão admirável é a tecnologia! Soberba!

Não esqueçam que acabou a era dos posts estáticos. Assim um post inserido pela pré-púbere dona do blog inicialmente detratando um potencial galanteador da outra mesa pode, no decorrer da festa, transformar-se em animosidade, elogios ou ressentimentos ao rapaz, presenciado por todos, bastando que se clique no botão de refresco do seu browser, desde é claro que seja postado com as ondas de consentimento de sua dona.

Os Mindlogs continuam tão longe de serem verdadeiramente confidenciais como são os blogs.

A equipe de editores-chefe do MadCap chegou a cogitar uma versão de nosso mui distanciado periódico no formato Mindlog, mas aparentemente declinamos da proposta.

Se os posts estáticos já são desgastados pelo tempo, que dirá do efêmero vil dos infames Mindlogs!

Recuerdos de 42

19 de janeiro de 2009

Minha avó me chamou para ver uma caixa de fotografias antigas que ela guarda em cima do armário. São histórias longas e interessantes em cada pedaço de papel. Não resisti e digitalizei montanhas de fotogramas interessantes.

Um deles é esse postal abaixo, do momento em que o Brasil foi estuprado por um submarino nazi e acabou por recrutar meia dúzia de regimentos brasileiros.

Meu avô estava em um deles, e por pouco não embarcou para a Itália. Chegou a entrar no avião e esperar sentado a decolagem, mas abortaram a missão por algum milagre de outrora.

Ai um figurinha da foto acabou dedicando a lembrança para meu avô. A dedicatória — inocente e escrita por um moleque de 18 anos — mostra que eles não tinham muita esperança de voltar vivo da incursão.

O interessante é que ele nao se identificou. Não assinou seu nome.

E só meu avô sabia quem ele era.

Galeria de personæ inolvidáveis

1 de dezembro de 2008


Chet Baker (1929 – 1988)
Ex-marine, crooner e trompetista. Gravou, entre outras, “I’m old fashioned” (a pedido de d’Valentino, diga-se), embalando os sonhos dos brotinhos baby-boomers da América. A partir de 1966 passou a cantar menos, depois de perder todos os dentes (rapidamente esmiuçado aqui) numa surra. Mudou-se pra Amsterdão, terra da heroína, onde deu cabo da própria vida.