Arquivos da categoria ‘contos da carochinha’
sexta-feira, 1 de agosto de 2008 | 3:15 pm
Uma quantidade extraordinária de e-mails e ligações ocupou nossas telefonistas após a menção discreta de que eu havia tido contato com o vigarista-sênior e trompetista nas horas vagas, Chet Baker. Nossos atentos leitores não deixaram o fato passar em brancos cirros e solicitaram maiores esclarecimentos sobre o assunto.
Estamos aqui pra isso. A melódia deu-se assim, segundo a elocubração que ainda perita em meus cornos.
Após uma
petit tournet armada pelos ressalvos de guerra, resolvi largar o emprego de pescador assistente em um barco em Delacroix e parti para a Costa Leste. Vagabundeei por um tempo pelo baixo meretrício de Tampa, sempre a procura de uma bela mulher para fotos sem-vergonha com uma RolleiFlex.
Encontrei, por acaso, em um
topless place um velho comparsa de corriqueiras brasileiras, chamado
Eliseé Becquet. Não lembro ao certo, mas tudo indicava que ele era belga. O sotaque franco-germânico não negava.
Ofereceu prontamente um drinque
(”Paguez-vous, Valentin.”). Aceitei, pelos velhos tempos. Becquet indica um sujeito no outro canto do balcão. Antigo desafeto, qual seja
Chet Baker, um sujeito branco de nariz pequeno que vestia um suéter cinza com gola rolê.
Aproximei sorrateiramente para dar — a pedidos do meu amigo (e pelos velhos tempos) — um desmoralizante petardo de mão aberta no pavilhão auricular, mas interrompi imediatamente o telequete quando percebi que a desavisada vítima portava um estojo preto de couro esgarçado, em formato de trompete.
Pensei um segundo e perguntei se o rapaz saberia tocar
“You go to my head” e o pedido foi prontamente atendido.
“Of course, buddy wait´a min.”
Becquet saiu do ambiente em passos pesados. Meu tabéfe nunca estalou.
Assim conheci Baker, longa amizade, que culminou em desgraça no episódio de Amsterdã, aquele em que extraí 8 dentes do trumpetista com o bico do meu Torello Berluti Scaratta, lavado à champagne.
Aqui transcrevo a letra da música composta pela dupla Mercer & Kern, gravada por Baker em 1958:
I’M OLD FASHIONED
I’m old fashioned
I love the moonlight
I love the old fashioned things
The sound of rain
Upon a window pane
The starry song that April sings
This year’s fancies
Are passing fancies
But sighing sighs holding hands
These my heart understands
I know I’m old fashioned
But I don’t mind it
That’s how I want to be
As long as you agree
To stay old fashioned with me
terça-feira, 22 de julho de 2008 | 9:52 am
Heitor e Isabela, amantes, complementares, ela destra, ele canhoto.
Unidos, acreditam que o compartilhamento de tarefas prosaicas é item fundamental do futuro de uma relação.
Abrem latas de atum ao mesmo tempo, ele por um lado, ela por outro, tarefa na metade do tempo, cada um fazendo sua meia-lua.
Acabam derrubando a tampa na lata, cada um culpa o outro pelo descuido. Reconciliam-se e recomeçam com outra lata para abrandar as mágoas.
Heitor e Isabela. Um belo palíndromo assimétrico do faz-de-conta-alguma-coisa.
quarta-feira, 25 de junho de 2008 | 2:50 pm
Sabado passado lembrei de um fato sem muita importância dos meus áureos tempos de caserna. Naquela época havia muita gente querendo destaque nesta vida de fama e apareciam pessoas de todos os tipos, dos obstinados aos cultos, passando pelos indecisos e influenciáveis, sem esquecer os talentosos e os dissimulados.
Havia um cabo taifeiro muito esquisitão, que vez por outra, vinha me mostrar uns escritos obscuros e depressivos, falando de safáris, ilhas e essas coisas que dão mal-estar logo de cara. Dizia que apreciava meu ponto de vista e que estava realmente interessado em se tornar escritor. Pedia opinião e eu era honesto, falando que ele devia pegar mais leve se quisesse vender alguma coisa. Na verdade eu não me dava ao trabalho de ler os manuscritos e dizia que ele era um escritor regular. Até que descobri que aquele bendito cabo tinha parentes nos EEUU.
A coisa mudou de figura e passai a ser mais camarada nas críticas, dizendo que ele havia evoluído muito, etc e tal. Tudo visando uma chance de ser convidado para conhecer os EEUU. Minha bajulação durou exatos 8 meses, quando o cabo foi transferido pra outro destacamento. Perdemos contato com o cabo e soubemos, tempos depois, que ele havia ganho um bom dinheiro com todos aqueles escritos tristonhos.
Tornou-se ninguém menos que Ernesto Hemingway, escritor sobejamente conhecido naquelas paragens. Pois bem, para encurtar a conversa, fiquei fulo com o sucesso do cabo E.Miller e mandei uma carta a ele, falando que ele devia ser mais fluente se quisesse ser realmente um escritor completo. Deixei essa história para lá e esqueci o cabo. Até saber que ele arrebentou os miolos com um rifle de liquidar paquidermes logo após ler minha missiva.
Ainda hoje, não tenho nem um pingo de remorso, afinal o cabo frustrou meu desejo de conhecer os EEUU.
quarta-feira, 5 de março de 2008 | 2:54 pm
Sentado no jardim, caíam-lhe as últimas idéias trazidas pelos ventos do bom senso. Eram imagens estranhas de fatos que misturavam pessoas, lugares e tempos. Não lembrava se conhecia tudo aquilo. Na hipótese mais aceitável, eram apenas fantasmas trancafiados e clamantes dentro d´alguma gaiola do pensamento. Estendiam os braços, comprimiam as faces através das barras enferrujadas e escuras, pedindo algo na língua das multidões. Chegava mais perto e a corja quase o segurava pelo colarinho, pedindo ajuda ou propondo revide.
Punha as mãos ao rosto e o máximo efeito conseguido era o de clarões na escuridão, quando se comprimem as órbitas. E era isso o que realmente havia feito por longo tempo, Tentaou encurtar o percurso. Achatou o caminho e conseguiu o efeito dos bólidos que caem na noite. Um traço entre as estrelas, um risco na infinitude. Riscar o infinito era viver, saborear os caprichos do tempo, nada mais. A idealização decepa a realidade e martela na oficina do juízo as fôrmas das asas de metal.
Para quê essas idéias agora?
Precisava parar de pensar, precisava parar de cair daquela imensidão de onde o choque era questão de espera. E tinha a mesma sensação de aguardar um prato feito com o próprio fígado.
Mesmo com a mudança seria a águia do próprio martírio, acorrentado ao cáucaso da verdade. “Encara-me!, encara-me!”, dizia a realidade de dentro das flores, pelo grito das aves, pelo som da água. O que era inanimado confirmava em silêncio.
Ergueu-se como se levantasse o peso de um homem viril. Deu de costas para um cenário qualquer e caminhou em direção ao veículo. Atravessou o túnel de bambus e avistou o carro escuro. Já podia ver um corpo encostado à porta, braços cruzados à espera de uma resposta — que via o homem que se aproximava pelo caminho de bambus e o olhava indiferente.
Descruzou os braços quando o projetou a três passos de distância. Moveu alguns músculos da face antes de afirmar:
— Sabemos que foi você.
O outro engoliu em seco à espera do tempo para pronunciar alguma coisa. Qualquer palavra que dissesse não alteraria o curso dos acontecimentos. Estava tudo feito, tudo consumado, tudo agora trancafiado no passado. Sim, trancafiado! Podia lembrar de algumas coisas. Começava a reconhecer alguns rostos, escutava as vozes com uma nitidez estonteante, os rostos contraídos começavam a fazer algum sentido. Fazer sentido não é exatamente a idéia que as pessoas geralmente têm. Abstraiu-se novamente ao pensar no que se fazia de original, de novo, na vida de cada uma das pessoas que conhecia. Espremia-se o sumo do dia e encontrava apenas a rotina e o lugar comum. Repetições que giravam como um carrossel, tocados por um sádico ensandecido.
Expirou ruidosamente, tentando exibir, em vão, algum sinal de vitalidade.
— O que você quer?
— Confirmações.
Confirmações eram conformações da realidade, pensou num trocadilho rasteiro. Puxou a cigarreira e ofereceu-a, apenas para ouvir uma negação fria. Não negou para si mais uns tragos, esvaecimento que lhe era tão familiar de uns tempos para cá.
Acendeu e aspirou.
— A uma altura dessas, os fatos falam por mim. Não preciso fazer nada além de assistir como todos, confortável em uma cadeira na sala de estar.
Percebia-se uma mistura forçada de cinismo e ironia.
—Não teria tanta certeza.
Cortou o julgamento com um pergunta.
— Você gosta de caçadas?
— Qual parte?
— Como qual parte? — Riu-se curioso.
— A caçada só tem um lado, meu caro. A caça o caçador são cúmplices da mesma encenação. Não daria o menor prazer se a presa se mostrasse aos algozes naquele momento de preparação, sem que ninguém houvesse adentrado na mata, ouvido a própria respiração e sentido a palpitação de ser o senhor da morte. De beber o sangue, de queimar o mais fraco pelo sabor agridoce da destruição. E por que não o faz? Porque a própria presa tem um pacto prazeroso de apostar que pode vencer o duelo. O êxtase impera dos dois lados. Falo alguma impropriedade?
As vozes tornavam-se cada vez mais nítidas, porém não conseguia, ainda, delimitar os interesses.
— Alegorias fazem parte da caçada, então?
— Como queira — respondeu após notar que se envolvia num raciocínio que era já sabido ser do outro. E todo esse entendimento de nada serve agora. Via-o estender o braço em direção à fechadura do veículo e percebia mesmo que abria caminho a isso. Viu também quando a porta foi aberta e sentiu-se desconfortável ao perceber que tudo diante daquele homem era inevitável, um magnetismo que só fazia dizer e executar o sim por quem tivesse ao redor. Enquanto engolia a presença, ficava imóvel na calçada a ver seu interlocutor distanciar-se sob as sombras das árvores. A presa havia se atirado diante de seus perseguidores antes mesmo do início da caçada.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007 | 3:03 pm
Na pequena mesa do barzinho legal, os seis amigos degustam chopp lavado e torresmo com fiapinhos de pêlos. A loira — com o braço peludo do Amaral atravessado em seu ombro — tem uma pinta no rosto que mais parece um bezourinho: “Katrielly, dois éle e ípsolan.” tá.
O Bezerra, ruivão metido do carro importado, leva um papo com uma indiazinha que achou na mesa 3: “Comprar carro novo? Pff. Bom mesmo é essa bê-eme antigona. Luxo e sofisticação por preço de popular.”
A loira da pinta-bezourinha sorri para Bezerra. O clima esquenta, os ânimos avançam 3 pontos na bolsa.
Ruivão pigarreia e se pôe a declamar um sonetinho da sua nova safra desapegada:
O que sôis então a carne em si mesma, encimesmada?
Poder-nos-emos regozijá-la e sorver alhures desgostos
Ou vê-la-emos ébria tropegada num corrégo
Ou desfalecida-nuda jaz
O mundo retém o mundaréu carnal
Tal e qual a vitrina do fetil abatedouro
Brilho de velas em tardio inverno
Da mais rôta que carregada em casa
Acesa a brilhar
Dela podemos nos confortar em prazer.
Katrielly faz rom-rom de gatinha. O braço do Amaral pressiona com imponência. Estalos de dedos. Alargamento da fensa labial em bons 3 centímetros.
O gordinho pandu da cadeira mais afastada, qual o nome dele… Emoeb! Egípcio, adendum. Emoeb bebe um bom gole de chopp quente e sem espuma, suspira, tremilica a boca:
“Não é seu.”
“Como!?”
“Tá no filme do Godard, aquele que Sarney fudeu.
Je Vous Suis Marie. Quer dizer, nem sei se é esse o nome mesmo, e nem sei se a poesia é do Godard. Mas tá la no filme. É que de francês só sei falar
beaucoup e
ô, que significa agosto. ”
Amaral despassa o braço por volta da mocinha e tamborila um quaisquarigudum na mesa. Um fusca canta pneu na esquina, todos se assustam. A loira passeia dois dedinhos pela borda da tulipa. Silêncio.
“O certo é
Je Vous Salue Marie.” Seco. Bezerra tenta resguardar um reconhecimento. Cenho franzido do Emoeb. Novamente um longo silêncio.
Bezerra lambe os lábios e olha para o amarelo lavado do chopp. Merda de dia. Desça logo, ingrato.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 11:48 am
Sempre que podia lá ia eu e meu vizinho da casa da frente para sua chácara. Seu pai ia a serviço, coordenar e ver a quantas a empreitada do pessoal rendia. Já eu e o Zizinho ficávamos saracoteando pelas matas ao redor. Como bons desbravadores, no auge dos nossos onze anos, achamos uma espingarda de fogo, na sede da chácara. Não sei como se chama essa arma, mas eu a conhecia como Flobé calibre 22. E achamos uma caixinha de munição, uns cem projéteis.
Meia duzia de tiros certeiros em uma lata de óleo foi a deixa para uma saída de caça. Eufóricos como deveria, qualquer coisa que cruzasse nosso caminho levaria bala. Até galinha.
Achamos uma clareira no meio de um capão de embuias e pinheiros. Armamos tocaia. A flobé era nova, tinha um monte de firulas. Mas o melhor de tudo era uma mira telescópica herdada de algum rifle do quartel, uma vez que o pai do Zizinho era militar reformado. A mira era muito precisa e tinha um alcance de aumento gradual.
Eu estava com a espingarda em punho. Senti-me o próprio atirador de elite. Quinze minutos depois pousa em um pinheiro, à média distância, um casal de curucacas. Para quem não sabe, a curucaca é um pássaro de grande porte, bico fino e alongado, muito bonito. Lembro-me que fechei a mira, firmei a coronha, pisquei rapidamente umas duas vezes, prendi a respiração.
O primeiro disparo do dia, para valer.
Certeiro.
O estampido seco do projétil está marcado para sempre em minha memória. Primeiro disparo, último disparo. Corremos, como dois predadores irracionais para ver a caça. O petardo atingiu abaixo da cabeça e quebrou o pescoço do pássaro.
O medíocre e insensato ar de superioridade imediatamente cessou, ao ver o animal agonizando seus últimos suspiros. Peguei-o no colo, ainda quente, mexia-se vagarosamente. Morreu em menos de um minuto. Zizinho estava aterrorizado. Eu, atônito, não conseguia pensar em nada. Deixei a carcaça do animal ali, ao pé daquele pinheiro. Voltamos os dois, sem conversar.
Fiquei a semana inteira ruim. Não conseguia dormir à noite. Imaginava, ainda como uma criança, se aquele pássaro era fêmea, se tinha família para cuidar. Pensava na saudade do pássaro que o acompanhava, se eram casados.
Aquele maldito momento em que eu acabei com uma vida, fez-me raciocinar por longos anos. E percebi, infelizmente, que um bom naco de minha inocência havia se perdido, para sempre.
Como a vida da curucaca.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 11:27 am
Odeio cortar o cabelo. Quando ainda criança eu achava que doía. Tinha aquela impressão materialista de que, cortar partes do corpo, como o cabelo e a unha, era como cortar um pedaço da gente. Apesar de não totalmente errada a teoria, acabei me conformando com os constantes escalpes cabelísticos.
O que me fez mudar de idéia foi uma barbearia muito legal, onde ainda, até hoje, existem aquelas magníficas e cromadas cadeiras Ferrante, com regulagem em tudo quanto é lugar e forrada de um couro vermelho um tanto quanto artificial.
O mais interessante nesta barbearia era que toda a rapaziada da minha escola cortava o cabelo lá. E o seu Geno, malandro como era, sabia exatamente como manter a clientela jovem: tinha um armário negro, opaco, com uma coleção invejável de revistas pornôs. Eram Playboys inúmeras, creio que se eu falasse que era uma coleção completa, não estaria mentindo. Penthouses, Hustlers americanas originais. O arsenal proibido ali era muito complexo. Existia os gibis de Carlos Zéfiro, com seus nanquims, algumas revistas alemãs de sexo explícito.
Eu gostava realmente de ler as figuras de um livrão japonês, de umas seissentas páginas, completíssimo, com fotos coloridas e tudo mais, que explicava na totalidade sobre todas as áreas de prazer, ilustrava posições sexuais e, de lambuja, como xavecar e perceber se a mulher estava caindo ou não no seu papo-aranha.
Um manual completo de como funciona o relacionamento sexual e suas diretivas.
E assim eu aprendi que, com o martírio do corte do cabelo, a minha vida ia tomando ares de graça.
sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 12:46 pm
Feijão era catador de latas. Descendente de algum quilombo, estirpe negra, rapagão forte e alto.
Diariamente juntava uma carriola completa, a qual lhe rendia algumas lascas ao final do expediente. Com o tempo aprendeu a ficar amigo de donos de bares, os quais preferencialmente lhe davam latas já amassadas, facilitando o seu trabalho. Sabia até quais bares eram mais generosos, quais lhe serviam sobras graciosas de petiscos e afrescos diversos.
Sua labuta diária era rotineira. Sempre o mesmo trajeto, os mesmos barezinhos, a comida, generosamente granjeada. Uma vida bem pacata e morosa, por assim dizer.
Dona Fifi, uma ascendida social, residente de uma das finas coberturas que faziam contraste com a orla, interessara-se por Feijão. Todo dia observava o esbelto corpo delineado pelo braçal serviço. Sabia o horário em que aquela lenta carriola, carcomida pelo desgaste, religiosamente trafegava em frente ao seu caminho. Fifi, ansiosa, precisava parar aquele negrão. A cada dia que passava, maior e mais intensa era a sua vontade de possuir aquele conjunto!
Dia desses, chamou seus seguranças. Explicou-lhes o que deveriam fazer. Sem pestanejar, agarraram Feijão. É claro que os dois homens de terno, formados em alguma escola de segurança, renderam prontamente o gari que, sem pestanejar, foi levado junto de sua carriola à imensa garagem, entre luxuosos carros. Atônito e sem saber o que dizer, Feijão paciente esperava no que aquilo daria. Seqüestro, óbvio que não era. Tentava lembrar se havia flertado com alguma moçoila da região. Sabia que isso era perigoso. Não estava, no momento, devendo dinheiro à ninguém. Suas apostas no bicho eram religiosamente pagas em dia. Estava perdido, não sabia realmente o que acontecia ali.
Dona Fifi surge dentre os carros. Encara Feijão. Saca uma luva de pelica branca, nova. Com certo esforço consegue virar a carriola, despejando as inúmeras latas amassadas, ao chão. Começa vagarosamente a retirar o anel de alumínio de uma lata. Joga-a em um canto, o anel em uma caixa. E assim repetidamente foi, durante algumas horas. No final havia separado mais de cinco mil anéis prateados. Soltou Feijão, que sem nada entender, juntou as latinhas e foi embora.
Dona Fifi queria trocar os anéis de alumínio por uma computador.
sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 12:38 pm
Barão ganhou o apelido pelo duvidoso gosto em manter um bigodão fio-de-arame, com voltinha e tudo mais. E o que realmente fez a sua fama era a diversidade de mulheres as quais lhe acompanhavam. Mulheres sempre impecáveis, bonitas, de uma finesse e educação invejável.
Barão era figurinha carimbada em todo o tipo de evento, convescote ou festa. Com um jeito bonachão, seu sorriso era cativante. Sua presença, obrigatória: seus disparates, aterradores e únicos.
O que intrigava todos seus amigos era o fato de, um sujeitinho pequeno, feio e com um bigode encardido e carcomido pelo cigarro, pudesse fazer par com belas damas. E olha que vez passada até houve diálogo em francês com uma de suas divas. É claro que a curiosidade aflorava toda vez que o galanteador passava. Mas a hombridade e os culhões impediam todos de lhe perguntar o segredo da fama. Insinuações apenas o faziam soltar uma deliciosa gargalhada. Mas falar das mulheres, nunca.
E não era dinheiro, nem fama, tampouco a beleza. O barão era simples, funcionário de um armazém de secos e molhados. Poucos conheciam sua intimidade.
Vez passada não me contive e perguntei o seguredo das “baronesas”. Surpreendeu-me na resposta, após a já esperada gargalhada homérica. Ele simplesmente sanou a já desconfiada asserção: na zona. Sim, barão era costumaz freqüentador de casas de burlesco. Apesar do irônico comentário, que fez com que ninguém acreditasse na resposta, ele foi sincero. As mulheres o conheciam, e conheciam também a sua fama de arroz-de-festa. Elas brigavam para escoltá-lo. E Barão divertia-se. As putas divertiam-se. A finesse das raparigas advinham da excentricidade dos bons pagadores de serviços. A casa era fina.
E o Barão sussurrou, algum tempo depois, só para mim:
– Puta que não cobra, quer gozar.
Barão estava certo. Sempre de bom humor, sempre com mulheres espetaculares. Muito mais jovem que muito jovem gagá. Feliz na sua essência de ser.
sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 12:25 pm
Augustão era um pacato cidadão rural. Descendente de Alemães, tinha a pele avermelhada do sol, o que atenuava seu vasto bigodão loiro. Havia adquirido com muito gosto uma Variant amarela novinha. Como todo bom colono, instalara franjinhas no teto, bolinhas massageadoras no banco e trocou a bola do câmbio por uma de caranguejo, a do seu signo. Diariamente levava verduras para a cidade, subindo a serra vagarosamente. Acompanhado de sua esposa, Augustão fazia de seu estimado carro, sua forma de incrementar as vendas de suas verduras.
No começo do verão, sua produção de legumes bateu recorde. Vez ou outra precisava de duas viagens por dia para escoar todas as leguminosas, tamanho o fluxo vegetal. É claro que com esta fartura, Augustão pôde comprar um toca-fitas para a Variant, o que na época era capricho dos valiosos e velozes SP2.
E em uma dessas idas e vindas da cidade ao campo, Augustão, com toda a sua pompa, trafegava feliz por sua rota habitual. Dona Fifi, sua mulher, feliz por estar passeando, cantarolava baixinho a música do rádio. Neste sutil e raro momento, uma mosquinha-da-banana que estava no veículo, zanzou e entrou de forma estranha no ouvido direito de Augustão. Desesperado pelo zunir das asinhas, mas sem perder a calma, retirou do contato a chave, desligando o carro, que continuou em movimento, para assim catucar a intrusa entrincheirada.
É claro que o voltante travou, o freio acabou e o carro saiu da pista. O que se sucedeu foi inacreditável: A desgovernada perua invadiu o pasto vizinho à estrada, descida da serra.
Augustão, pedindo calma à dona Fifi, que com todas as suas forças agarrara-se ao console do painel e no putaoqueospariu, tentava em vão controlar a bendita Variant. A chave já havia caído metros atrás, no meio da balaiada. Com o volante travado, nada podia ser feito. O carro atravessou um pasto, recolheu as vacas na mangueira, passeou por mais umas plantações e estacionou em frente à casa do compadre Guilhermino. Por incrível que pareça, Nada acontecera de grave. Augustão, com toda sua pompa inatingível, desceu do carro, abriu o porta-malas e retirou duas cabeças de alface.
- Presente compadre Guilhermino. Estava descendo a serra e resolvi cortar caminho.
sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 12:19 pm
O Baltazar mora em um daqueles condomínios fechados onde cada um constrói a sua casa como mais lhe apetece. E como o estilo é americano, as casas não têm muros ou separações aparentes. Solteiro, simples, mas de carreira invejável, mora sozinho e desfruta das singelas sutilezas de uma vida a sós.
E o vizinho de Baltazar tem um mulher muito gostosa.
Ela sempre toma sol na piscina da casa do Baltazar. O marido, na estranheza de ser, nunca quis contruir uma para ela. E a cena sempre se repetia: Baltazar acordava, abria as cortinas de seu quarto e lá estava aquele monumento, tostando ao sol matinal.
É claro que as peças de banho ínfimas que ela usava tinham um descarado propósito provocativo. Sempre que ela se abaixava, fosse para pegar alguma revista, um creme, insinuava as maliciosas formas dos seios redondamente perfeitos. Passava branzeador de uma forma suave e insensata, apetecendo até olhos mais frígidos.
Baltazar surtava. Só não atacava aquela beldade pelo mínimo respeito que ainda restava ao seu vizinho.
Domingão desses, Baltazar curtia uma ressaca homérica. Deitado no chão, ao lado da piscina, resmungava baixinho, enquanto sua cabeça latejava, evaporando ao sol o álcool sorvido.
A vizinha surgiu do nada, sentou-se ao seu lado. Perguntara-lhe se poderia besuntá-lo de bronzeador. Ali, meu amigo, toda a relutância em não atacá-la fora água abaixo hora que ela encostou-lhe a mão com o óleo.
Os dois entregaram-se aos prazeres mundanos e carnais de uma forma espetacular. A vida de bon-vivant que Baltazar levava fez com que a mulher explodisse em um gozo intenso e imoral. Ficou bem evidente que ela estava há tempos na seca.
Baltazar ganhou a deliciosa vizinha. A Vizinha ganhou um amante insaciável. E o corno do vizinho continua a arrumar o computador do Baltazar de graça. Acha que assim não precisará construir uma piscina para sua tarada mulher. Tão cedo.
sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 11:32 am
Zé Palminha era louco.
Formado em filosofia, Zé Palminha adotava, desde os áureos tempos de faculdade a singela ideologia diogenesiana. Diógenes, para quem não sabe, fazia tão pouco caso dos confortos dessa vida, que optou por morar em uma grande tina de barro, em um templo de Atenas. Seu ascetismo ostensivo e a indiferença pela crítica alheia ficaram associados à doutrina cínica. ZP assim como Diógenes, era conhecido como cão. Cão porque fazia festa quando lhe davam alguma coisa, rosnava para quem o rejeitasse, cravava os dentes nos crápulas.
E ZP era muito inteligente. Guardava carros em uma pacata rua comercial. Já fora visto com gerentes, diretores, donos de empresas. Ele palpitava, aconselhava e não muito raro dava broncas homéricas nestes homens. E mesmo assim às vezes precisavam marcar hora para poder conversar em paz com o louco. O apelido “Palminha” advinha de sua mania compulsiva de andar batendo palmas. E isso ninguém sabia o porquê.
Com um cabelão rasta, roupas marrons de sujeira e uma barbicha engraçada, faraônica e mal cortada, Zé Palminha era constantemente intimado à almoços informais no quilo do Fernandes, um português bonachão de bigodes majestosos. Era interessante a cena: Alguns homens impecáveis, com suas alvas camisas engomadas, divertindo-se às pampas com um maltrapilho escondido atrás de um prato de saladas diversas. Sim ZP era vegetariano.
Dia desses um importantíssimo advogado de uma dessas empresas da rua de ZP saiu do carro, esbravejando em seu pequenino celular. ZP, que não tinha nada para fazer, acompanhava com os olhos, sentado no muro da esquina, o impaciente homem, que esperava uma brecha entre os carros para poder atravessar a rua. Ele esbravejava ao celular, queria lembrar o nome daquela abordagem psíquica em que se estuda alguma coisa de percepção visual, pensamentos, raciocínio e solução de problemas.
- Gestalt! - Grita Zé Palminha.
O advogado virou rapidamente e meteu-lhe um tiro nas ventas de ZP. Estava assutado, achou que ZP gritou “assalto”.
E o imcompreensível cínico diogenesiano morrera. Pela espada, que fora mais forte que a pena.
quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:52 pm
O Xiru era um ranhentinho órfão de pai e mãe, indigente na vida. Morava em uma cidadezinha do interior, chegou ali de carona de uma capital qualquer. O que chamava a atenção nele era o polidactilismo. Seis dedos em cada mão. Ele era muito sagaz. E agressivo.
A vida passou, Xiru cresceu. Virou aviãozinho. Tinha um canela-seca, escafote brilhava no olho. Carregava uma farinha para lá, uns boca-de-ferro pra cá. Deu brecha, rodou com os gambé. Já era conhecido, miliano. O deléga foi fichar, a folha só tinha 5 lugares para digitais de cada mão.
Cortou-lhe os sextos dedos, sem titubear. Xiru era um homem normal, “agora arrumado para a vida” o delegado falou. Não chorou, não gritou e nem fez cara feia. Apenas jurou, em pensamentos, arrancar-lhe os culhões e enfiar-lhe goéla abaixo.
quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:32 pm
O Tateto não tinha nada para fazer. Resolveu visitar o Cabeção, que tinha Odissey e cartucho do Didi na serra pelada.
Apertou a campainha, ninguém atendeu. Pulou o muro e bateu na porta. Ninguém atendeu. Fez meia-volta, ia na casa de outro amigo. Ao pular o muro para fora, achou a chave da casa que o Cabeção sempre escondia embaixo de um tijolo.
Não deu outra: pegou a chave, entrou na casa e começou. Virou todos os quadros de cabeça para baixo, colocou todas as cúpulas de abajures de trás pra frente. Deixou as estatuetas de enfeite de cara para a parede. Ligou o rádio em uma AM de igreja sensacionalista.
Fechou a porta, devolveu a chave embaixo do tijolo e foi embora.
A mãe do Cabeção chegou em casa e surtou. Encontrara abóboras em cima das camas, padres exorcisando capetas no rádio, quadros de cabeça para baixo. Até a estatueta do São Jorge, imponente, olhando para a parede. Chamou Dona Filandrinha, a benzedeira. E benzedeira boa que era, assustou a mãe do Cabeção: disse que era obra de alguma entidade.
E o Tateto, atentado que era, nunca contou para ninguém.
quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:01 pm
A rua estava deserta.
De paralelepípedos desgastados e polidos, dividindo a cena com majestosos prédios residenciais, uma iluminação amarelada e algumas árvores pingadas. Aquela rua era monótona e simples.
Noite escura, nevoeiro fino, quase garoa. O silêncio fôra quebrado por um melodioso som, esparso, delicado como uma flauta. Toda a atenção de todos os prédios estava voltada para aquela música. Um homem alto, cabelos grisalhos, bigode e costeletonas, passeava despreocupadamente pelo meio da rua. Sua melodia era perfeitamente assoviada. O timbre e a potência de seu assovio era impressionante: ecoava pelas paredes de concreto, despertando a atenção de todos!
E vinham pessoas às janelas. Aquele homem não sabia, mas havia quebrado a velha e cansada rotina daquela rua. Passos despreocupados. A expressão surpreendente no rosto de cada um que prostrava-se para ver o homem passar era a prova definitiva de que aquele gesto havia transcendido a frígida barreira da morosidade.
Ele caminhou até o final da rua. Entrou na padaria. Todos esperavam nas janelas, ansiosos.
O homem saiu em silêncio. Aquele vácuo infinito torturava a todos.
Ele não assoviou nada. Simplesmente começou a cantarolar uma opereta em italiano. Era passos lentos, despreocupados. Sua voz era enebriante. A potência daquele som ecoava pelas paredes de concreto. Ao chegar perto da esquina, alguém começou a aplaudir. Segundos depois, todos que estavam às janelas batiam palmas. O momento era de arrepiar. O homem, parado na esquina estava assustado com o inusitado fato.
Ele não sabia, mas tinha transformado aquele mágico momento em uma das mais singelas lembranças de uma noite extática daquelas pessoas.
quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 1:33 pm
O menino morava em uma casa afastada da cidade. E como toda vida simples daquele tempo, ninguém na sua casa comprava lâmpada de mais de 40 velas. Aquela casinha ficava com uma iluminação murcha, engolida pelo silêncio. Perfeita para ele.
Já conhecia bem ciências, tinha até livro de astronomia. Adorava ver estrelas. Toda noite pesquisava no almanaque o nome de uma constelação. É claro que era preciso ter muita imaginação para descobrir, no meio de todos aqueles astros, quem era quem. E ele achava, apesar do livro americano ter somente o hemisfério norte em suas páginas.
Seu ritual era prático: contava calmamente as estrelas, esquadrinhando em imaginação lotes de astros para facilitar. Outras vezes apenas olhava para a lua, e imaginava o dia em que poderia passear por aqueles terrenos com uma luneta.
Seu sonho era ter uma luneta.
Sua contagem diária era de seis mil e poucas estrelas com lua cheia, às vezes sete mil em dia de lua nova.
Uma noite ele atrasou-se para jantar. A sua mãe, impaciente foi chamá-lo. Escutou ele falar um pouco as balelas de sempre sobre corpos celestes. Apontou convicto para um punhado de estrelas e disse que era o cruzeiro do sul. Sua mãe deu um tapa ardido em sua mão, disse que apontar para estrelas fazia brotar berrugas nos dedos.
Aquilo marcou o menino para sempre. Tacou fogo em seu livro de astronomia. Ficou com ódio daquelas estrelas traidoras, das estrelas que fizeram nascer uma pequenina verruga em seu dedo. Agora entendera como aquela protuberância aparecera em sua mão. Ódio da lua, dos cometas, da noite. Ódio da Prima Estela. Raiva dos brinquedos de mesmo nome.
Tempo passou, enriqueceu, esqueceu a raiva. Até fez poesias para estrelas e namoradas:
Contando imagens
olho para o céu,
desenho nas estrelas
contorno expressões
aponto e aponto.
pronto, mais uma verruga no dedo.
Comprou a luneta mais avançada. Tinha gps, rastreador automático de estrelas e planetas. Magnitude óptica perfeita.
Mas o belíssimo encanto de sua infância fôra extirpado na micro-cirurgia dermatológica, tempos atrás, quando deu adeus à verruga inconveniente.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 1:13 pm
Reza a lenda corporativa que em uma multinacional russa havia uma cara muito engraçado e carismático: o Fagundinho. Ele era diretor de arte e tinha costumes estranhos. Apesar das singelas características up2date e well-fashioned o cara era todo boa-pinta e por onde passava arrancava suspiros das mulheres da empresa.
Acontece que Fagundinho tinha uma mania muito peculiar e constrangedora. Aliás, alguns achavam que aquilo era doença. Toda vez que o infeliz ia ao banheiro evacuar, executava uma sessão “mania pessoal”: desabotoava o paletó, tirava a gravata, arrancava a camisa, despia-se da calça e cueca, tirava as meias. Até o relógio. Ficava completamente nu. Deixava todas as roupas e acessórios alinhados na parede que contornava a sanita. Roupas dobradas nos vincos para não amassar. Relógio equilibrado para não cair. A mochila cheia de parafernálias no canto. Meias ao lado esquerdo, sapatos na porta, metade fora, metade dentro.
Ele dizia que aquilo o deixava livre para pensar enquanto prostrava-se ao trono oco para soltar o rabão de macaco.
E todo mundo que entrava naquele imenso banheiro já estava acostumado com a cena surreal. Mas ninguém se importava com aquelas doidivanices.
Até que o pessoal da logística resolveu sacanear.
Entraram sorrateiramente no banheiro. Cada um apontou para a peça de roupa que iria pegar. Contagem regressiva nos dedos e pimba! Cataram todas as roupas e se escafederam! Não deu nem chance do Fagundinho terminar o palavreado chulo que emanava com voz gutural.
A empresa era grande e era final de expediente. Muita gente zanzando pelos corredores do prédio, muita gente indo embora e ele precisava voltar ao trabalho, pelo menos para enviar um relatório atrasado e procurar suas roupas. Contabilizou o estrago: ficou com uma meia, o relógio, a gravata e os dois sapatos. E sua mochila.
Não restou-lhe dúvidas: vestiu a gravata, deu um nó duplo, colocou a única meia, os dois sapatos e viu que tinha que agir. Sacou da mochila umas folhas sulfites, um grampeador e uma fita adesiva. Dobrava as folhas, grampeava as emendas, fita adesiva nas partes críticas e de dobras corporais. Cinco minhutinhos e já tinha uma camiseta. Mais uns dez minutos, para ajustes de barra e comprimento do vinco e sua calça-sulfite estava pronta.
E não é que o Fagundinho sai do banheiro socialmente vestido? O desgraçado tinha feito até gola para assentar a gravata!
Chegou no seu setor. No promeiro momento, ninguém prestou muita atenção, mesmo porque ele sempre tinha umas roupas meio doidas mesmo. Até gravata de crochê o indecente usava.
Sentou-se lentamente, para assegurar-se de que os fundilhos não cederiam. Digitou umas coisas, enviou o relatório e esperou pacientemente.
Não deu outra: o boy apareceu meia hora depois, com um caixote lacrado. Era da logística. O bilhete em anexo admitia que Fagundinho 1 x Logística 0.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 1:02 pm
O reinado francês antigo tinha uma peculiaridade muito grande: um mini-auditório de seis, no máximo oito cadeiras nos aposentos do rei. Basicamente era para a plebeuzada assistir ao magnífico “despertar real”, facto este que consistia em chegar cedo, antes da alvorada solar, sentar-se nas cadeirinhas e ficar ali em silêncio meditativo até que o grotão acordasse. Aí era simplesmente aplaudir e debandar.
E isso era uma consagração para a sociedade plebéia!
Esse espetáculo do despertar cessou-se para sempre na fatídica Noite de São Bartolomeu, um fato histórico que se sucedeu no dia 24 de agosto de 1572. Essa noite foi conhecida por marcar as sangrentas lutas religiosas que atrasaram a consolidação do absolutismo francês.
E sabe como tudo isso aconteceu?
Pois bem, um protestante chamado Henrique de Navarra fora assistir este magnífico “despertar real”, a convite de sua senhora a futura rainha Margot. Sentou-se ao lado de alguns plebeus xexelentos e ficou a observar a cena do todo-poderoso dormindo. Carlos IX, rapagão vigoroso e saudável, havia se esbaldado de tanto comer no jantar. Devorara javali, batata-doce, mandioquinha, repolho-roxo, rollmops, escabeche e até sagú na sobremesa. Tomou caipirinha, cervejinha e tubaína.
E isso o deixou um tanto quanto flatulento.
Quando os suditos, Henrique de Navarra e sua esposa Margot entraram no quarto, aquele ar ácido e causticante corroeu-lhes os narizes. Henrique estava indignado! ficou reclamando baixinho o tempo inteiro. Não entrava em sua cabeça que um ânus real como o de Carlos IX pudesse desferir tamanhos venenos pestilentos!
E o rei rolava para cá e… Bufa! Rolava para lá e outro traque lhe escapava. Como os castelos naquela época eram nada ventilados, alguns súditos desmaiaram. Quando Carlos IX acordou, os remanescentes que apresentavam consciência aplaudiram. Cínico como sempre foi, reclamou e esbravejou, insinuando que aqueles súditos podres e insossos peidaram em seu aposento real.
É claro que Henrique de Navarra ficou ensandecido com a agressão. Retrucou na hora. E retrucar um rei cínico, mal-humorado e recém-despertado era assinar o obtuário. O embate que se desencadeou depois disso gerou tamanho conflito e ódio que não deu outra: mais de três mil protestantes foram dizimados naquela noite infeliz. O rei pegara ódio daqueles pagãos reclamões.
Alguns conselheiros franceses — com o consentimento real do rei — proíbiram desde aquela data fatídica os infelizes alvoresceres reais assistidos.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:47 pm
Quando criança, sua educação religiosa era extremamente severa: todas as quartas, catequese, todos os sábados, ensaio no coral e domingo, missa. Aquele menino raquítico ao contrário de seus amigos, gostava dessa vida espiritual e religiosa. Sempre se esforçava ao máximo para afinar sua voz com o coral.
E sua vida era graciosamente bela. Certa vez o ministro que cuidava das leituras bíblicas requisitou alguns jovens do coral para a leitura na missa dominical. Seria a consagração do menino! Ele prostrou-se diante do microfone, encheu os pulmões de ar e recitou todo o parágrafo. Seu discurso foi certeiro. Não gaguejou, não comeu acentuações nem pontuações.
— Tua voz é muito feia, moleque. Volte para seu lugar.
Aquelas palavras do ministro rasgaram-lhe a alma! Como alguém poderia falar assim? Como alguém, dentro de uma igreja, poderia fazer algo assim?
Ninguém percebeu, mas aquilo mudou o menino para sempre. O tempo passou, ele continuou se dedicando a música. Seu corpo magricela acabou por virar um grande homem. Morou na Itália, aprendeu latim, conheceu o canto gregoriano. Tornou-se barítono. Acompanhou por alguns anos a Orquestra de Berlim, sagrou-se primoroso.
Gozando férias em sua cidade natal, descobriu que o ministro que lhe feriu a alma estava em vias de bater as botas. Sem pestanejar, conversou com o pároco e encomendou-lhe uma missa especial, com trechos cantados por ele, em latim. No dia da missa, casa lotada, o ministro em sua cadeira de rodas na primeira fila. O barítono iniciou a Missa Benedicta. Era cantada em latim. E naquele momento, somente ele e o ministro entendiam a língua.
O que ninguém percebeu foi que a letra havia sido trocada. O barítono reescrevera tudo: o Kyrie, a Gloria, o Credo, o Sanctus & Benedictus, o Agnus Dei. Nem o padre, italiano, percebera a troca. O povo delirava com sua voz forte e envolvente. A cada verso maldito, uma punhalada na alma do velho ministro. Eram agressões verbais que estavam encrustradas no âmago da alma daquele vociferador.
Ao final da missa o público extasiado aplaudia em pé, enquando o ministro, atônito, surtava em um ataque cardíaco.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:06 pm
Muzumbo era um negro grande e forte. Calado, na maioria das vezes, preferia sempre escutar e observar. Diálogos, só imprescidíveis. Roupas impecáveis, muito ouro nos acessórios e um escritório na área nobre comercial. Assim era o Muzumbo, visto por todos.
Silva, do Silva & Associados — um escritório de advocacia que fazia divisa com a sala de Muzumbo — encontrou-se no elevador com a secretária do negão. Começou um diálogo lugar-comum meteorológico. É claro que o advogado, ávido em suas curiosidades, perguntou-lhe qual era o “ramo” daquele escritório, uma vez que não tinha placa alguma na porta. A secretária disse-lhe que o patrão era proxeneta, trabalhava com intermediação e rendas percentuais.
É claro que o advogado ficou mergulhado em suas controvérsias ignóbeis: não sabia o que era um proxeneta.
Voltou, pesquisou o dicionário e descobriu o que seu vizinho aprontava: era um gigolô! Devia ser um notívago dissoluto, bicho-solto, desprezível de quaisquer veleidades de um verdadeiro apego.
Silva era diferente: trazia seu nome na sua empresa, era um homem direito e regrado, tinha princípios, fidelíssimo à sua esposa.
Dia desses Muzumbo bateu-lhe à porta. Precisava resolver algumas pendengas jurídicas. Silva, ávido e sagaz, perguntou para Muzumbo com o que trabalhava. O negrão apurou ser proxeneta, senhorio do sexo descompromissado. Silva negou a ajuda, “feria a consciência e os bons costumes”.
O negrão levantou-se, apoiou as duas mão na mesa de vidro do advogado e prostrou-se mais à frente, quase colando a cara com a de Silva:
— Pago em dinheiro e na hora que o senhor quiser.
Silva, que estava em vias de falência, percebeu que aquele confronto de costumes morais havia cessado na hora. Fecharam negócio.
Muzumbo cuidava dos encargos com suas senhorinhas. Silva livrava Muzumbo das encrencas, com negociatas sociais e propostas que o negão nem imaginava.
É claro que o varão do ébano sempre tentava Silva a participar de suas esbórnias. Apesar de bebericar alguns brandies no escritório de Mozumbo, Silva sempre resistia às solicitações, com um estoicismo sem vacilações. Forjara-se assim uma amizade, feita de respeito pelas diferenças: Muzumbo, um mulherengo nato, em eterno toque-e-foge pelas labaredas do sentimento; Silva, uma figura temperada pela solenidade do seu elo amoroso e fidelidade aplicada.
E esse era o contraste fabuloso que governava a vida dos rapagões: uma conformidade de duas áreas totalmente opostas, com um diferente ponto de vista sobre amor, paixão, sexo e prazer.
Tempo passou, Muzumbo acabou casando com uma mulatinha que tirara da vida fácil. Silva, do Silva & Associados, separou-se de sua mulher e agregou, em seu “Associados”, a lucrativa alcunha oculta de proxeneta.