MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos da categoria ‘cerrado brasiliense’

O Axolotle de terno Broërs & Söhne

21 de novembro de 2008

O axolotle (Ambystoma mexicanum) é um anfíbio da família dos Ambystomatidae (De anfíbio não tem nada, que fique claro, uma vez que o pequeno neoténico vive na água a vida inteira). Seu nome significa “monstro aquático” e é uma evocação ao deus asteca Xolotl, um pândego musiqueiro.

Gosta de ternos revestidos com tecido DryFit™, sabe-se lá o porquê. Tentou, sem êxito, aplicar tererés nas brânqueas externas. Sentiu desconforto e falta de ar e, desde então, conserva as madeixas ao Deus-dará.

Com um sorrisão cativante e feição esmaileniana, o Axl (redução carinhosa de Axolotl) é chicleteiro, axezeiro e micareteiro de carteirinha. Gosta de competir fêmeas com outros batráquios durante eventos, marcando com uma hidrocor laranja em sua barbatana caudal — tal e qual um piloto de caça que risca a lata do aeroplano — quantas ninfas traçou à beijo.

Dizem as más línguas que um renomado compositor de axé-elétrico fez uma música para os «xolotis», grupo de puladores de axé profissionais de Brasilia, que tiveram o auge existencial em 1994, durante o IV simpósio da APAPA (Associação dos Puladores de Axé Profissionais e Autónomos).

A música se perdeu no espaço-tempo após um desentendimento durante a «Micarecandanga’94» onde o compositor levou uma enveredada de direita de um xoloti ébrio e uma garrafada de Teleco-Teco no contra-golpe de canhoteira. O petardo da garrafa abriu-lhe um talho de ponta-a-ponta no rosto. Desde então jurou silêncio eterno da sua partitura cifrada e letrada.

A alpaca de suite Godot-Merchand

12 de maio de 2008

A Alpaca de suíte Godot-Merchand
A alpaca (Vicugna pacos) tem pescoço longo e delgado: não combina com colarinhas deltóides. Descolore algumas mechas do topetinho escaraminholado, percebendo-se a necessidade de atenção. Rumina hermate e capim-gordura. Mora em um prédio da asa norte, com mais de quatro décadas de idade, banheiros de azulejos verdes, cerámica marron, e espelhinho Itatiaia chumbado na parede. A decoração inca é niemayelista de concreto original.

Gaba-se por ser um feliz morador do altiplano. “É a Manhattan brasileira, conpadre.” Descorre por horas das mordomias e facilidades que encontra em suas cercanias. Gosta de bivaquear por pilotis, mostrando sempre seu cenho sereno e constante. Acredita na ilegalidade e apóia ambulantes. Chama os flanelas pelos nomes. Milita a favor dos puxadinhos das comerciais.

Xenófobo e provinciano, repudia a migração diária de trabalhadores para o plano. Sabe que o trânsito impossível verte dos “sugadores-satélites de empregos-planários”. Complementa suas indagações pessimistas — sempre que lhe cabe a deixa — com um forjado: “E ainda querem construir o Noroeste…”

O Bonobo do Risca-de-giz YSL Haute-Couture

22 de novembro de 2007

O BONOBO DO RISCA-DE-GIZ YSL HAUTE-COUTURE

O bonobo (Pan paniscus) é um chimpanzé muito espertão. Famoso por sua inversabilidade dinâmica de valores, este esguio primata caracteriza-se por manter uma complexa cadeia social aparente.

Apesar da vida silvícola intensa, o bonobo faz questão de trajar rebuscadas griffs — incluindo-se nessa lombarda os acessórios, bengos e traquitanas tecno-piscapiscantes de próxima geração, direto da feira de importados.

De cabeça escaraminholada, poucos tufos capilares e um pescoço curtinho e encorpado, ternos cortados dão os melhores caimentos. Alguns, mesmo assim, preferem modismos estrangeiros e referências rappers yankees, dos bonets de abas retas e mal-assentados e camisetines de ligas esportivas ádvenas.

A peculiaridade maior dos bonobos do cerrado é justamente a ironia social: quanto mais escalonado na margem da ostentação física e situacional, maior é seu grau de pobreza material no ecótone-comum.

Tudo perfeitamente percebivel nos shopping-centers, onde os disparates são mais sutis e os olhares-cruzados, esnobes-fuzilantes.

Formalidade no Cerrado

31 de outubro de 2007

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O Camaleonte de terno Henry Needle & Sons

30 de outubro de 2007

O camaleao de terno Henry Needle & Sons
O camaleão (Chamaeleo chamaeleon), ao contrário do que todo mundo pensa, não é um ser mimético-dinâmico. Apesar do fotocromismo epitelial, não consegue se desenhar em um traje formal, o que o torna um cidadão como outro qualquer. Gosta do corte rigoroso tailor-inglés. Mimetiza com as gravatas: estampas, cores e texturas, ah, estas sim, ele imita com perfeição.

Fidalgo de ministro-desembargador-ajuizado do terceiro prédio espelhado do setor de altarquias sul, o camaleonte inequívoco mostra-se seguro na sagacidade parternal que o cerca. Aplica com êxito danoso a carteirada que o transforma em autoridade-de-caserna.

Tem no repertório as frases claustrofóbicas: “Sabe com quem está falando? / Sabe filho de quem sou eu?”. Exerce seu direito em paz. Até hoje não existiu calango que o peitasse. Fuma tranqüilo uma cigarrilha de filtro de carvão ativo em ambiente fechado. Lambe as costas de mulheres em boates, com sua rápida língua de 23 polegadas. Gosta do salzinho do suor sabor quelque parfum. A lei não é para ele, definitivamente.

O Ferret do costume Hermenegildo Zegna

26 de outubro de 2007

O furão do costume Hermenegildo Zegna
O Furão (Mustela Putorius Furo) tem pescoço fino e é infeliz com golas italianas. Prefere as gravatas pretas, das mais baratas possíveis. De um rosto arredondado e orelhas débeis, possui cabeleira rôta e grandes olheiras tórpes. Mexe o nariz de forma estranha e promíscua. Lembra uma ratazana admoestada.

Prefere carros com bancos anatómicos, pois tem lordose acentuada e cômica. Sente-se confortável com a capa de bolinhas de madeira no costado do assento.

O furão é rápido: de olhos furtivos, procura por brechas e espaços rápidos em vias de pista dupla e tripla. Não demonstra vergonha alguma ao utilizar vias de escape, desaceleração ou acostamento para lograr economia de tempo. Cria segunda e terceira fila, mas sente-se profundamente molestado ao perceber que outrem tomará seu lugar, acelerando como louco. Perde o dia, quando alguém o ultrapassa. Não usa as setilhas de pisca-pisca do carro para avisar qual pista decidiu trocar, aumentando assim as chances de sucesso em uma manobra ousada.

O macaco-bigodeiro do terno tuxedo Gióia Puppeta

24 de outubro de 2007

o macaco-bigodeiro do tuxedo Gioia Pupetta
O Macaco-bigodeiro” (Saguinus imperator — Goeldi, 1907) é um miquinho fedorento e mal-agradecido. Famoso meio-quilo, pequenino, de corpo esguio e rápido, pelagem espessa, seu maior atrativo visual é o imenso bigodão-de-arame que ostenta como um baronete vivaz.

Seu cacoete irritante é alisar — em uma frenesi tremética — seu bigode com as mãozinhas pretas, tal e qual uma mulher que recém chapeou seus cachos cabelosos.

Migratório para a grande capital federal, o macaco-bigodeiro sente-se atraído pelo “eldorado salarial”, ignorando quaisquer choques culturais, climáticos e organizacionais. Chegam no oba-oba. Reclamam. E como reclamam! É o valor fora-da-realidade das moradias, da seca, do calor, da lonjura, da falta de nomes nas ruas, da falta das esquinas, de gente feia.

Mostram os dentinhos serrilhados na menor presença de ameaça à terra natal. Tentam gentileza e percebem sutileza. Descobrem que não existem empregos decentes que não rocem a barriga na servidão pública.

O Guaximim da casaca Schimidt Nöllen

23 de outubro de 2007

o guaxinim de casaca inglesa
O guaxinim (Procyon cancryvorus) ou mão-pelada tem corpo brevilíneo e cônico, com a extremidade de cima mais fina que o resto. Tem umas mãos bem pequenas e uns dedinhos nojentos com umas unhas roídas. Olheiras entristecidas compõem a retórica pessimista. Fuma excessivamente, segundo seu Orkut.

Tentou diversas vezes passar no Instituto Rio Branco, mas reprovou nas seletivas.

Boquinha-livre da embaixada germânica, no Setor de Embaixadas Sul: Diz-se um “Diplomaten” ao entrar apressado; fica em um canto obscuro segurando as guloseimas com as duas mãos. Morde sem tirar os olhos do ambiente. Come rápido e desconfiado, esgalamido que é. A cabeça não pára.

Permanece num estado de excitação constante, dançando nuns pulinhos rápidos ao som da banda, mas sem largar a comida. Não fala com ninguém e vai de instantes em instantes à mesa de acepipes, sem parar de dançar. Ri sozinho, como um pateta.

Suricata do terno Humphrey Holtz

22 de outubro de 2007

O suricata de Humphrey Holtz
O Suricata (Suricata suricatta) é esguio demais para o Costume de Cambraia Oxford. A gola fica frouxa mesmo com o Windsor na gravata apertada. A barba é mal-feita e serronada. Tem um cabelo pouco e desgrenhado em cima da cabeça que é frouxa e quadrangular. Usa uns óculos de aros finos do mesmo formato do esfenóide.

Olha rapidamente pros dois lados e atravessa a esplanada ligeiro, com os passinhos apertados e segurando a gravata com a mão. A gáspea do sapato empoeirece no primeiro quarto de passadas, avermelhando todo o conjunto, com um talco de terra que não vê chuva.

O corpo é frágil: se um carro pegasse, partiria ao meio. Entra na repartição surgindo e desaparecendo constantemente, nunca pára. Fala pouco mas gesticula muito. É medroso. Almoça marmitas de três pilas, vendida na porta do anexo.