MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

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Alea jacta separactum est

9 de julho de 2007

Bom, a coisa funciona mais ou menos assim: tudo está certo, a vida perambula alvissareira pelas rajadas de emoções que cruzam nossos destinos. Até o momento fatídico em que se erra o passo. Pisa em falso, A virada de pé que estrala e dói de imediato.

Aí meu caro, a sucessão de factos obscuros e mais improváveis que a sua mente civilizada e viril possa imaginar, acontece:

- O disparate no bilhetinho escrito e dobrado dentro do bolso do paletó.
- A foto no e-mail.
- O telefonema no horário mais esdrúxulo e errado possível.

Como não ceder?

Como tentar esconder?

O sentimento é horrível, e isso não tem nem como protestar. É uma contradição de sentimentos que se seguem, uma angústia e a falsa ilusão de que tudo terminará de uma maneira rápida e indolor.

O soluço no final da noite. A decisão de sair. A última olhada para casa, a última ré para sair da garagem de canto.

As coisas que vivemos! As viagens que fizemos, os segredos que só nós tinhamos em comum? Não tem mais como recuperar. Aí Você olha para alguns detalhes incríveis, lembra de fatos engraçados, do “Topo qualquer coisa contigo!” das peculiaridades. As crises. Os furos. Até os piripaques eram engraçados. Engraçados porque no final a gente sabia que era coisa momentânea e com um pouquinho de sacrifício o mundo ja estaria reconstruído.

Só que relembrar essas coisas felizes é constrastar com a realiade. O desgaste, O despreparo. A insegurança. Deméritos impraticáveis e insustentáveis.

A gente evolui, e isso não tem como deixar de perceber.

Agora não evoluir junto é minar a própria existência.

Não que seja um defeito. Eu te conheço como ninguém.

Mas a vida segue em frente.

Você não será a primeira. Muito menos a última. Entenda que eu gostei de ti, mas não amei.

E tenha em mente que — apesar da cretinice e insensatez — a separação definitiva sempre é a melhor coisa que poderia ter acontecido.

Alimentemos as lembranças: atenue os momentos ruins; enalteça as boas coisas.

Assim teremos um bom passado para relembrar.

Só isso.

Carta para pôr fim em relacionamento

6 de julho de 2007

Dias atrás prometi que ajudaria aos 203 visitantes ocasionais que o Google despeja aqui no Blog a escrever “cartas de final de relacionamento”.

Não vou mais.

Não estamos mais no século XVIII, onde cartas lambrecadas à sinete faziam as vezes presenciais. Hoje em dia um relacionamento é bem mais dinâmico do que palavras escritas, meu caro. Precisa do charme do contato, da discussão cara-a-cara. Dos gritos, do chiliquinho.

Esse é o charme de um final de relacionamento!

A briga, o tapão na cara. A unhada no braço. O carro em disparada, rua abaixo. O “Eu te odeio!” grunhido por entre os dentes. A foto rasgada com uma ferocidade pecaminosa.

Final de relacionamento é a perfeita arte do fechamento do ciclo. A linha de corte do amor e da paixão. E não me venha dizer que pode existir uma amizade ou carinho depois. Isso é coisa de quem não tem maturidade.

Manutenção mensal? Fraqueza.

Trocar pneu em dia de chuva, para ela? Fraqueza.

Atender telefonema meloso em madrugada fria? Fraqueza.

PORQUE NÃO AJUDAR
Quem procura uma carta de final de relacionamento não tem discernimento do que escrever. Não deve nem saber porque está terminando, e o pior, não tem culhões para uma peleia passional. Postar uma bela carta aqui seria afundar no lodo mais ainda o vivente. O destinatário saberia dessa incapacidade e o atestaria da mais vil e insossa incopetência.

Conheci apenas uma carta muito bem escrita, por George Gordon Byron, datada de agosto de 1812, para meter fim em relacionamento com uma luva de pelica. Como ele era um notório putanheiro, não se sentiu bem em manter um relacionamento.

Culpou a sogra, é claro.

Agosto de 1812

Minha queridíssima Caroline.

Se lágrimas, as quais você viu e sabe que eu não estou apto a derramar, se a agitação na qual eu me separei de você, agitação esta que você deve ter percebido durante todo nosso nervoso caso de amor, não começou até que o momento de deixá-la se aproximou, se tudo o que eu tenho dito e feito e ainda estou muito pronto a dizer e fazer, não foi suficiente prova que meus reais sentimentos são e devem ser sempre para você, meu amor, eu não tenho nenhuma outra prova para oferecer.

Deus sabe que eu desejo você feliz e quando eu terminar meu relacionamento com você, ou melhor, quando você tomada de um senso de dever para com seu marido e sua mãe me abandonar, você reconhecerá a verdade daquilo que eu novamente prometo e juro: que nenhuma outra em palavra ou ação jamais tomará o seu lugar em minha afeição, que é e será mais sagrada para você até que eu não seja nada.

Eu nunca soube até aquele momento a loucura de - minha querida e mais amada amiga - eu não posso me expressar - este não é o momento para palavras - mas eu terei um orgulho, um prazer melancólico ao sofrer, o que você mesma pode quase conceber - pois você não me conhece, eu estou quase indo com com o coração pesado porque minha presença nesta noite deterá qualquer estória absurda que os acontecimentos de hoje poderiam ter levantado - você pensa agora que eu sou frio, severo e astuto - mesmo outros pensaram assim, mesmo sua mãe pensará - aquela mãe a quem devemos de fato muito sacrifício, mas muito mais de minha parte, do que ela jamais saberá ou possa imaginar.

"Promessas de não amá-la" . A! Caroline, são promessas do passado - mas atribua todas as concessões ao motivo adequado. E nunca pare de sentir tudo o que você já presenciou - e mais do que possa algum dia ser conhecido somente pelo meu próprio coração, talvez pelo seu . Possa Deus proteger, perdoar e abençoar vocês sempre e para todo o sempre.

Seu mais apaixonado
Byron

PS. Estas reprovações que dirigiram você para isto - minha queridíssima Caroline - foram não somente para sua mãe e a bondade de todas as suas relações. Existe qualquer coisa no céu ou na terra que me faria tão feliz como tê-la feito minha há algum tempo atrás? Não menos agora do que então. Mas mais do que sempre neste momento você sabe que eu com prazer desistiria de tudo aqui e tudo além do túmulo por você - e abstendo-me disto - devem meus motivos serem mal-entendidos?

Eu não me importo quem sabe disto e que uso é feito disto - é a você somente que eles devem, eu fui e sou seu livremente e completamente para obedecer, honrar, amar - e voar com você quando, onde e como você mesma poderia e pode determinar.

Entendeu como funciona? Você precisa ser muito, mas muito bom mesmo, para terminar um relacionamento apenas com uma carta. Precisa parecer muito mais honesto do que é, mais deprê do que aparenta e o pior, aplicar a delicadeza sensata que jamais se monstrou até então.

E, hoje em dia, quem procura carta de final de relacionamento não sabe nem por onde a galinha mija.

A menina do Orkut

5 de julho de 2007

Doralice acessa a internet para conhecer pessoas. Tem um computador mequetréfe, amarelado e impregnado de adesivos japoneses “metal-stickers”. Doralice — coitadinha — é feia pra chuchu. Até poderíamos dizer: “Oh, Dórinha tem alguns ângulos encantadores!” mas seria mentir em demasia.

A moçoila era bonita em 1992. Adorava zanzar pelas ruas do centro com uma bicicleta toda cheia de nove horas. Tinha até uma cesta no guidom, com umas flores roubadas na vizinhança. Praticamente una ragazza graziosa che guida la bicicletta, com direito a vestido que avoava e la mutandina, de supetão, visibile.

Acontece que esse jeitão espaventado por entre os carros não deu muito certo e um charreteiro atropelou a incauta zanzarina. A coisa até que foi engraçada em um primeiro momento, justamente porque ela se estatelou no chão de uma maneira jocosa. As flores do balaio do guidom caíram por cima e parecia que ela tinha batido as botas de verdade, envelopada para um féretro.

Devaneios à parte, Dórinha quebrou a bacia e ficou meio capenga de um lado. A queda também deslocou de leve o nervo óptico esquerdo, o que a deixou meio zarolha. Engordou, começou a fumar, largou a bicicleta, perdeu os 4 anos de namoro, ganhou olheiras, frieiras e chulé.

Mas ela tem um computador amarelado. Pois então.

E eis que ela descobriu a maravilha da virtualidade e cibrenética. Pra quê! Lá foi a dondoca passear no mundo do sentimento-cego. Entrou no Orkut. Cadastrou-se no almas-gêmeas. Levou dezesseis horas em frente ao computador: digitou, apagou, reescreveu, leu, releu. Criou uma auto-biografia erudita, sensual e intrigante. Invejável por assim dizer.

“Clique aqui para enviar a foto do álbum”

Ah não! Dórinha, a coisinha feia, não tirava uma foto decente há tempos. Só 3×4 com olheiras e cara de peixe morto. E olha lá.

Bom, como nada é assim tão imutável que não possa se descaracterizar, Dó não teve dúvidas: correu para os arquivos analógicos de fotos impressas, seu gavetão de tranqueiras, convicta.

Achou a foto perfeita:

doralice.jpg

Abramos parentese. Quer foto mais especial e bonita que a que Doralice achou? Pois bem, ela chegou em um ponto muito interessante da vida virtual: a foto pessoal.

Todo mundo tem uma foto para a internet. O Orkut é o pai de todas as maldades quando se fala em “A Foto”. Milhares de perfis com belas estampas na esquerda. Ângulos reais, não tenha dúvida. Mas momentos tão sutis e especiais (as vezes artificiais ao extremo) que talvez jamais se repitam. Fotos indecentes no ponto de vista moral. Quem sabe difamatórias, não seriam? Fechemos parentese.

Dó arrancou a foto do porta-retratos. Atrás, escrito em azul: “Para meu momozinho, da sua dodózinha / Arraial’91″.

Ah, sim… Momozinho era o amor da Dodózinha. Ah, outro parentese. O maledetto Momo largou a Dodó por descaso. Descaso dela, fique claro. A dodózinha, delicadinha virou um dodôzão. Ele lutou contra o enfeiamento progressivo, mas ela já tinha perdido a batalha antes de começar. Fecho parêntese.

Enxugou o fio de lágrima. Foi para o computador, escaneou a foto, salvou e clicou acolá para enviar. Quinze minutos depois, a frase que mudaria sua vida para sempre: “Oi gata, tem MSN?”

Doralice conheceu muitos homens. Especializou-se em primeiros-encontros. “Aliás, quer coisa mais meiga e linda do que um homem perfumado com uma única rosa na mão?” Ela diz, sorridente.

Nunca alimentou a esperança de um segundo encontro.

E nem quer.

Fala-me

5 de julho de 2007

Eu desconheço uma frase tão deliciosa quanto a que ouvi na primeira vez em que beijei uma mulher. O beijo foi intenso, verdadeiro, daqueles de ver estrelas, com cenário romântico, uma trilha sonora sincera e iluminação por contraponto, perfeita.

É, sou romântico. E sou um crápula, pode pestanejar o quanto quiser, mas a verdade é que esses momentos servem muito bem como coleções de sentimentalidades, armazenadas no setor da vaidade humana do meu coração.

Um espaço delicioso e reservado para as pieguices do amor. Bom de se perder por horas, escarafunchando todos os álbuns fotográficos imaginários e coloridos.

É uma busca que me faz gostar de lembranças — como a frase que ouvi pela primeira vez em que beijei uma mulher — e me inspira, de forma extraordinária, a entender como o mundo funciona.

Desses vai-e-vens ao fundo da minh’alma, entendi duas coisas primordiais. Uma, é que ninguém ama com menos de 18. No máximo uma paixão ou uma taradice. 18 anos é a idade mínima necessária para que alguns neurônios vitais para o amor terminem de se desenvolver. E isso é genética, não me venha criticar.

Outra coisa fenomenal é que a razão só aparece depois do juízo. Como o juízo só aparece depois do ciso, a coisa desbanca para o adultismo.

Estou bem nesse entrementes do juízo versus a chancela que me diz que um dia terei razão.

Aí penso na frase que me faz estremecer as pernas.

Muitas mulheres que gostei falavam.

As que eu quis namorar ou somente viajar ao lado em um ônibus leito, falavam com certa freqüência.

As mais inteligentes falavam.

As mais cheirosas falavam.

As mais belas.

Minha mulher fala.