O rapaz-de-boa-índole terminou uma amizade de três meses e quatro dias com a moça-petulante-melancólica. Ele era inteligente na vida, burraldo no amor. Ela, espinafrada e gostosa. Não namoraram, é verdade.
Ele queria porque queria.
Ela acreditava na polivalência afetiva, na dinâmica de relacionamentos imediatos. O “fica-fica”, em termos genéricos.
Como muita gente boa que conheço, esses dois aí.
Acontece que dia desses ele acordou cedo, sentou-se à escrivaninha, escreveu, escreveu e escreveu. Deixou um bilhete entrelaçado nas cordas da guitarra da cor-de-rosa que, estacionada no pedestal-quase-altar, tornou-se símbolo máximo de adoração da moça-petulante. Foi embora para sempre e ela ali, dormindo sem saber de nada.
“Eu te conheço até que bem, apesar de nunca conversarmos sobre a vida que circula ao seu redor.” Começava a pequenina carta. Gelou a espinha da espinafrada: ela já imaginava algum desfecho assim, credo!
“E por te conhecer, deixo pequeninos conselhos verdadeiros e doídos (do-í-dos, hiato. Minha letra é feia e você pode achar que são conselhos doidos).
A verdade sempre dói, a crítica nunca é bem vista, blablabla, esse papo todo que você já conhece:
— Você tinha que dizer umas verdades para a moça petulante que se diz sua amiga, quem sabe até dar umas bofetadas na cara dela, com a mão bem aberta, pra marcar os cinco dedos e acabar logo com essa amizade de mentira.
— Você também tinha que abrir o jogo com aquele carinha, falar o que você sente, parar de esconder dele essas coisas erradas que você teima em fazer.
— E devia aproveitar pra contar a verdade àquele outro, que tem uma costeleta maior que a outra. Vai lá, diz pra ele que você não é nada disso que ele pensa que você é, diz pra ele que você é normal, que a sua rotina é um saco, que você não tem coragem de sair da casa da sua mãe por causa da comida, da roupa lavada, da guitarra rosa que “vai te levar para o estrelato” e essas coisas.
— Aliás, pare de meninice. Ficar, ficar e ficar. Bah, cresça um pouco! Os homens só te querem porque você é gostosa.
— E já que é pra entrar num lance de sinceridade, conta logo pros seus pais que você fuma escondida e que está de rolo com um cara grisalho, desquitado e rico, um roqueiro falido de costeletas desparelhas e um carinha que você não sabe o nome! Quatro Três ao mesmo tempo.
Essa vida que você vive debaixo dos holofotes é uma farsa. Já faz tempo que você se perdeu no meio de tanta filosofia, de tanta parafernália psicológica, de tanto sentimento sem sentido; e agora você fica tentando enganar esse público enorme que te aplaude e não percebe que só está enganando a si mesma.
Porque a gente sabe. Não só eu, a turminha inteira da facul, o grupinho do bar do éder.
A gente sabe que você já fez um aborto; A gente sabe que você já tentou suicídio e que já tem passagem na polícia; A gente sabe que uma vez você gastou o salário de um mês inteiro em uma bolsa francesa; A gente conhece bem todos os seus pequenos e grandes defeitos. Todo mundo conhece, todo mundo sabe.
Então pára de se esconder atrás dessa maquiagem, pára de pensar que você pode se livrar de todos os seus erros toda vez que muda a cor do cabelo. Você vai ser sempre assim, vai ser sempre você, não importa onde, nem como e nem quando.
Desiste logo desse disfarce idiota.
Tira essa roupa e admite — de uma vez por todas — que quando está nua, você deixa de existir.”
…
(suspirou)
…
— Balela! — retrucou ao jogar a carta, já em bolinha-de-papel, no canto escuro do quarto.