MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

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Amor confuso

26 de julho de 2007

O amor e paixão não se confundem. O amor possui uma temporalidade mais longa, enquanto que a paixão é imediata. A paixão diz respeito a objetos parciais, como um jeito, um cheiro, um par de pernas. O sujeito apaixonado se expande, e com isso invade o terreno daquele que é objeto de sua paixão. O sentido de alteridade se vê comprometido com a experiência, já que o “eu” e o “outro” se confundem. Nós não temos ciúmes; é ele, este sentimento, que nos tem.

O Amor acaba?

26 de julho de 2007

Uma paixão muda para amor a partir do momento em que a vontade irresistível de se ver a cada minuto da sua vida torna-se apenas uma saudade suportável. Não que isso seja ruim, pelo contrário!

A paixão nos entorpece. O amor apenas nos faz raciocinar novamente. E como tudo nesta vida é finito, a amor se desgasta. Muita gente não admite este final de relação com facilidade. Outros negam até o fim, para tentar ludibriar o coração — ou pior — proteger-se da inevitável dor da perda de uma companhia, da cumplicidade de uma vida em comum.

Muitas vezes existe uma afinidade e harmonia tão grande que fica até difícil de saber o que realmente está acontecendo. A realidade de um momento em que a vida surge só, no singular da convivência faz com que um vácuo crepuscular domine nossa alma. A vida fica amarga por um tempo, pela ausência inevitável do gostinho de saber que, de fato, existia a sua outra metade.

E não adianta querer simplesmente apagar os resquícios da lembrança, porque estas marcas viram profundas cicatrizes. E cicatrizes são marcas visíveis que servem para alertar, lembrar dos acertos e erros que a ocasionaram.

Os finais de relacionamentos não precisam ser tristes. Podem acabar em amizades duradouras. Podem acabar em esquecimento refletido constantemente em um escudo de dor e medo. Ou simplesmente pode acabar para um, mas continuar vivo por muito tempo para o outro. E esse sim, vai trucidar o pobre coraçãozinho.

Noveleta

25 de julho de 2007

Rapaz de 22 anos.
Banho demorado, barba feita duas vezes. Desodorante leve, perfume importado, leves notas doces. Colocou seu habitual terno azul-marinho, gravata vermelha escura, camisa engoada, sobretudo por cima de tudo. Estava muito frio. Parou diante do espelho. Seu rosto estava muito triste, tentou esboçar um sorriso fajuto, ficou forçado demais. Entrou no carro e saiu.

Mulher de 26 anos.
Banho demorado. Mulher sempre toma banho demorado quando lava o cabelo. Xampú perfumado, imersão em sais de banho na banheira por quinze minutos. Secador de cabelo, maquiagem sóbria, perfume carregado e vestido preto, simples, básico. Decotes insinuantes para finalizar.

A trama
Ele chega com antecedência à casa dela. Sobe, tem a chave. Cumprimentam-se friamente. Ela ainda está jogando coisas dentro de sua bolsa. Procurando o celular perdido em algum canto. Ele percebe que aquele jantar vai ser longo e dolorido. No carro, silêncio. Chegam ao restaurante, sentam-se e começam a conversar. Ela começa a falar de uma maneira surpreendente. Coloca suas tristezas, explana toda a sua amargura, fala de seus desatinos, desilusões e frustrações. Ele tenta rebater, defende-se como pode, mas não adianta: é tudo verdade.

Ela não deu a atenção especial que ele queria. Ele era inocente demais para saber o momento certo de dizer palavras confortantes. Não sabia a diferença da tara dela e da tpm. Os dois não se bicavam. Tentaram, tentaram e tentaram.

— Nosso relacionamento acabou… — Ela balbucia, quase chorando.

Ele pede mais tempo para pensar. Ela não quer extender mais essa amargura de uma frustração no relacionamento. Ela levanta, com o guardanapo de linho branco, macio, entre as mãos. Enxuga uma lágrima e vai embora. Ele chama o garçon cancela o pedido.

Entrega uma gorjeta, pega o carro e sai, sem rumo. No rádio, banda pop nacional, música lenta, embalo suave. A letra desfere-lhe golpes em seu estado de tristeza que é inevitável o choro, seguido de um soluço leve e triste. Passeia a noite, devagar, não pensa em nada. A cena dela levantando-se foi forte e não sai de sua cabeça. Sua mente intercala momentos de euforia, tristeza, revolta por sua incapacidade, medo por sua confusão. Pára no sinal vermelho.

O desfecho trágico
Ele avista uma prostituta. Bonita e elegante. Perde-se na selva da sua existência e a convida para entrar. Ela está com um perfume forte. seu olhar é firme e intimidador. Seguem para um motel. Ele já não sabe mais nada, apenas escuta a música melncólica. Entram em uma suíte grande e confortável. ela senta na cama, como quem quer testar a maciez. Ele senta ao seu lado.

Encosta-se levemente na mulher. Acondiciona a cabeça no colo dela. Chora baixinho. Confunde, novamente o papel de macho. Troca o papel da mulher ao seu lado. Ela entende o que ele quer. Passa a mão suavemente em sua cabeça.

A conclusão
Levou quase uma década para entender as mulheres. Conheceu muitas diferentes, brigou com outras tantas. E chegou à conclusão óbvia da relação: descobriu que as mulheres são muito mais inteligentes, sagazes, dominadoras e manipuladoras do que se imaginava. E descobriu que uma mulher consegue dobrar um homem em questão de minutos.

Ele queria pedir desculpas pela inexperiência e falta de sensibilidade em perceber sentimentos femininos.

Mas sua experiência agora era o que o freiava.

Musicalidades

25 de julho de 2007

Na verdade, hora que tocou a música foi que percebeu-se, realmente, que tudo acabara.

Era uma música leve, calma — triste por sinal. O breve devaneio de música “nossa” foi engolido por uma melancolia triste e insensata. E quanto mais e mais a música se repetia, mais a sensação de que perdia aquela mulher de olhos profundos e brilhosos tomava força de uma dor fisica inexplicável.

E nada poderia sequer nos separar. Tínhamos até uma música própria, nada poderia.

Aquele apartamento cheio de pratos bonitos, uma decoração impecável, seu gosto por chocolates e sua gatinha de estimação. Gata louca, ela sempre dizia. E ainda dizia que era fascinada por canhoto. Gostava de ver soluções práticas gauches para cotidianos destros.

E tudo isso acaba por ser irreal demais. É claro que a música na lembrança deu, por um certo momento, a ilusão de que nada realmente acabara. Ela continuaria a chamar aquela gata de louca.

Mas aí o saxofone em si bemol melancólico selou qualquer outra idéia vazia. Talvez aquela última fitada mostrara um brilho nos olhos daquela mulher. Talvez estivessem apenas úmidos.

Mas era mais provável que a umidade estivesse, na verdade, nos olhos dele.

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Aquela música que tocava remetia ao último namoro. Era a “nossa” música.

É claro que ao escutá-la instantaneamente veio à tona aquele romance muito bem vivido, momentos em que escutavam e riam junto. E relembrar momentos com uma música simplesmente é terrível.

Terrivel porque também a tristeza que se sucedeu daquele relacionamento foi angustiante.

E a música que era “nossa” e deixava feliz, também deixava triste. E infeliz.

A música acabou. Estava sem fazer nada, inerte na cadeira.

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E a música tocou novamente e novamente lembranças felizes. E a música ficou no repeat. E novas lembranças de lembranças novas misturavam-se a voz daquele que embalava “nossos” sonhos. E a tristeza, a infelicidade e as boas lembranças misturavam-se, mas não conseguiram tomar razão desta vez.

Cidade grande

25 de julho de 2007

Levou bem umas duas ou três semanas para que eu desse um bom dia para aquela mulher. E mais uns dias para que finalmente sentássemos juntos na mesma mesinha do pequeno café que ficava na entrada do prédio onde trabalhávamos. Conversamos sobre assuntos dispersos. Ela era mais velha. Contava histórias de sua infância no interior, das traquinagens que aprontara quando criança.

E aquelas idas matinais ao café estavam reamente alegrando minha labuta diária. Toda manhã conversávamos sobre alguma coisa do passado. Ríamos juntos, quando lhe contava dos desastrosos desafetos amorosos que minha adolescência me causou. Acabamos nos conhecendo de uma maneira perigosa e interessante: pelo passado. Não sabia o que aquela mulher era. Não sabia com o que trabalhava, se tinha família. Apenas desvendava aos poucos — assim ela também — o que se passou e o que estaria por vir.

Era um jogo interessante. O passado já estava acabando. Em suas histórias, ela já estava formada e construindo carreira. Eu, ainda terminava o colegial.

E o não tão distante passado acabara por se tornar mais sério. Não ríamos mais das histórias. Eram fatos que deixavam a gente a pensar e refletir.

Ela contou-me de quando conhecera seu marido, como teve uma filha. Eu contei como consegui um emprego em uma grande agência, dos países que visitei, das alegrias e tristezas com minhas namoradas — que ficaram no passado.

Mas houve uma manhã de segunda, chuvosa e fria, em que ela chorou. Seu pai havia falecido na sexta. E foi neste dia em que nos abraçamos. Pela primeira vez. O passado já acabara, já conhecia aquela mulher de uma maneira diferente e ideal. A conhecia no presente. Um abraço longo, fraterno, no manifesto do afeto que de nos completava.

Seguiram outros abraços. Quando comprei meu primeiro apartamento. Quando ela foi promovida. Quando voltei de férias, após quinze dias longe dali. Quando ela voltou da viagem de negócios.

Dia desses ela ligou-me à tarde. Queria conversar no café.

Encontramo-nos. Ela estava ansiosa. Contou-me que amava seu marido, amava seus filhos. E que iria mudar-se para a França. Seu marido iria trabalhar em uma multi-nacional por lá. Ela arranjou um emprego na filial da sua empresa naquele país. Deu-me um beijo sem precedentes. Abraçamo-nos com uma força e paixão tal que até hoje sinto arrepios em relembrar. Deixou uma caixinha embrulhada em papel fino, em cima da nossa mesinha: era para quando eu sentisse saudades dela.

Ontem estava eu sentado naquela mesa que testemunhou nosso passado. Não trocamos e-mails, telefones, nada. Não sei mais dela nem ela de mim. Pensei vê-la ao longe, senti saudades daquela mulher. Abri a caixinha. Tinham algumas dezenas de fotos. Eram fotos do sistema de segurança do café, fotos de nossa mesa, fotos em que sorríamos, conversávamos ao embalo de uma chícara de café. Fotos em preto e branco. Fotos da gente se abraçando. Datadas.

Olhei para o Alfredo, dono do café. Ele apenas sorriu. Cúmplice da mulher que verdadeiramente se apaixonou por mim. E eu, platonicamente, por ela.

Chateaubriand

25 de julho de 2007

Uma vez li Chateaubriand, que enganara não só eu como muitos, pelo simples fato de não se situar emocionalmente na citação. Dizia o Chatô, inspirado explicitamente em René:

Amarem-o cansava-o — on le fatigait en l’aimant.

E assim, perigosamente, podemos morrer se apenas amarmos.

Lá quando ela perceber

24 de julho de 2007

Quisera eu que ela soubesse o tanto que apetece aquele jeito desgraçado de ser. Ela nem deve desconfiar que é desejada. Não percebe que está sempre alimentando algo bom, algo maquiavélico e algo infeliz dentro de outrem. Miserável pessoa simplória que não percebe sentimento alheio. Ou sagaz quem sabe: consegue escarnir sentimento absorto em impessoalidades.

E nem sequer demonstra!

E lá quando ela perceber, restará fingir a indiferença, como retribuição.

Sentimentalidades

24 de julho de 2007

As vezes gostar não é suficiente. Gostar e gostar muito o é. E quem gosta e gosta muito na verdade apenas ama.

Quem apenas ama, sofre. O amor irremediavemente é a dor.

E quem sofre, gosta de amar. E ama a dor de gostar e gostar muito.

Simples, como amar.

Ou sofrer.