Arquivos da categoria ‘l´amour’
domingo, 22 de julho de 2007 | 10:15 pm
Sim, assim como sonho, amo sim. Amo porque amar é, como queira, outra espécie de sonho. Um sonho colorido, cheiroso e lento como a bruma. Sonhos diferentes, mas mesmo assim, sonhos bons.
sábado, 21 de julho de 2007 | 8:28 pm
Quando se ama, o que vale a pena não é o amor em si, mas tudo o que conspira em volta dele. Amar é ter o poder necessário de compreender claramente tudo. Olhar com outros olhos a dor, imaginar a fé, possuir e perder-se nas mãos de quem se deseja.
Amar é imaginar a realidade e ter uma idéia precisa e intacta da razão.
Ainda que tudo isso seja sem razão alguma.
quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:08 am
O mundo que te espia enquanto dormes é um mundo único. Funciona como um pequenino relógio, tiquetaqueando tuas batidas. Bate em teu compasso, um mundo só teu, mas que eu queria estar capitaneando. Teu mundo único é perfeito, faz-me confundir o certo e a certeza de estar em seu mundo.
O mundo que te espia enquando dormes é um mundo de sonhos perfeitos. Sonhos que te sonham em campanas, te observam janela afora.
É o teu mundo, mundo que lágrimo em palavras e sonhos.
quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 12:36 pm
Adoro falar de paixonites e efervescências amorísticas.
Ainda que refreado pela violência das palavras apaixonantes, gosto de me deixar levar por oratórias melodramáticas desses devaneios ilusórios.
Palavras apaixonantes são assim, do nada, escritas sem pensar.
Palavras apaixonantes soam desconexas. E qual amor é preciso e linear?
segunda-feira, 16 de julho de 2007 | 1:58 pm
Sabe porque muita gente procura o amor e não acha nunca?
Porque amor não é sentimento para se procurar, oras bolas! Amor é estado d’alma, é simples resposta de um viver imensamente superior.
E esse viver significa que não é necessário estudar, achar um emprego legal, estabilizar tudo para aí sim catar o amor pelas ventas. É aquela velha desculpa de arrumar um amor para ser feliz, quando, na verdade, o amor é apenas um resultado disso.
E amar significa resplandecer-se em em uma felicidade de vida. Nada mais que isso.
domingo, 15 de julho de 2007 | 10:15 pm
Mais da mesma linha tênue que até então separava a pequenina verdade estratosférica: um amor irradia prazeres e sentimentalidades. Uma fragrância indelével assemelhava-se a mirra, acredito. A forte sincronia eterna ali firmou-se de uma cumplicidade quase silenciosa, percebida apenas por uma leveza na oscilação das suas pupilas. Suas pupilas magnificas de olhos verdes-castastanhos-verdes. Conversa de corpo e alma, amores-alegrias e batalhas. Batalhas? Sim, Sempre a eterna e verdadeira guerra de bem e mal, clarão e escurdez. Dois-em-um, guerra e inteligência. Duas almas, um sentido e apenas o amor que quase sempre percorre paralelo. Quase sempre. Porque fundir-se é um exercício de intensidade e razão-emoção.
domingo, 15 de julho de 2007 | 9:06 pm
Desenho circulos com os dedos. Círculos que se cruzam em um vidro embaçado de chuva e que apenas revelam o minguado coração desencontrado. A tarde me é insone e nem de amores em corações embaçados consigo viver. Não, não imagino que exista o amor. Não há de existir nada no amor, quem sabe nem exista paixão, que é, em mim, mais acreditável. Existe aquilo de desejo e química e atratividades insípidas. Amor é conversa de poeta desacreditado.
E poeta desacreditado quis ser.
Das minhas carências a inventei, mulher perfeita para mim. Assim a imaginei, de olhos grandes — para que, de relance, alcance sua alma. Cabelo escuro, que fosse muitos e dessa multidão me esgueirasse para um descanso escondido do mundo. Cílios curvados e longos, para que de piscadas constantes escutasse uma borboleta imaginária batendo asas perto de meu ouvido. Dentes afiados, o que há de mal em mordidas? É tão bom!
E assim assegurei minha perfeição de uma mulher perfeita e impossível.
Continuei. Quem não continuaria! Não tenha nojo de bichos estranhos, mulher perfeita. Não quero careta quando uma aranha cai em mim e eu a pego com as mãos. Coma tampinha de caneta, eu como. Não que seja saudável, mas que não odeie quando faço. Da minha mulher perfeita — e o quanto mais perfeita ficava, mais impossível era existir — imaginei simplicidade. Nada de soberba, nada de indelicadezas. Complexidade atônita que a contraste com a indiferença de futilidades quaisquer. Inteligente ao extremo, por supuesto.
Linhas de pescoço e colo delineadas à compasso. E delinear um colo à compasso é impossível, acredite. Falemos então de corpo. Curvas perfeitas, Nada de sobrar ou faltar, sem deleites. E deste imaginativo a leveza de algumas penugens em pontos estratégicos (penugens, não posso chamar de pêlos aquelas delicadíssimas segmentações capilares). Perfume atrás da orelha. Perfume na linha do queixo, perfume em pescoço delineado à curvas francesas de um compasso. E perfume natural que é impossível explicar. E não quero explicar, ninguém entenderia.
Quer mais, continuo.
Acreditar em Deus, sem fanatismos por favor, e por favor, sem o ceticismo horrível dos ateus desregrados. Ateu é um crente covarde e disso o mundo purula. Viu, mais impossível que isso não tem. Ah, agora as pérolas! Bolo de chocolate besuntado de requeijão cremoso. Sim, minha mulher perfeita teria de gostar da minha culinária chucra. Gato de armazém, que se deixe levar por um afago. Deixe fazer massagem inventada, durma escorada em mim, sim, assim.
Como disse, não que exista o amor, amor seria ter uma mulher com esses predicados de prenda figurada em idéias e ela existir mesmo. Perceba que meus sonhos eram explicitos da impossibilidade real.
Então conheci uma mulher.
Com ela descobri o andar ao sol de segunda-feira em tempo de veranico, correr a borda do morro pequeno, subir e subir por arbustos e árvores “Aqui tem macaco, aqui tem lagartixa”, vegetação explicada de folhas vernizadas para não sucumbirem ao sal marinho. Ah! Então, era praia onde estava eu e a mulher que reunia qualidades inéditas às minhas impossibilidades imaginativas. Subir mais e, sem o fôlego que nos é necessário vez ou outra, arquejar perante uma vastidão de mar azul bravio para assim sentar na pedra qualquer. Ah! mar azul, olha essa mulher para assim ela erguer a cabeça ao vento gentil de uma brisa e os cabelos dançarem a valsinha que até hoje não sai da minha cabeça.
Não, não que uma valsa tocou, aí eu seria doidivanas assumido. Apenas cantarolei dentro de minhas idéias de mulher impossível o balangar daqueles cabelos de leve ondulação dançante.
Esvoaçante.
E do céu esperar as nuvens de lá para cá, sem rumo e horas perdidas no que um dia de segunda-feira qualquer o mundo a sibilar rodeios de palavras tortas. Voltar, afinal, era apenas bivaque furtivo e de mãos dadas saltitar de emoções incontidas.
Ah, é teimoso o narrador, impossível ela, não era o que estávamos proseando?
Embarcar, e era uma ilha, esqueci de contar. Encontrar a estrada da volta e, ao som da música deliciosa que adoro e ela canta porque gosta, encontrar finalmente na desordem das minhas idéias o que é, de súbito, uma forma de amor.
Uma forma de amor perfeito.
domingo, 15 de julho de 2007 | 11:44 am
Das caminhadas leves à orla mansa, o livrólogo consegue capturar nas retinas, que suplicam óculos de grau, uma vastidão de tonalidades amarelas-azuladas de um pôr-de-sol preguiçoso. Todo pôr-de-sol exala a preguiça de um vascolejo estelar. Bem coisa astrônomica. Dessas estrelas tímidas o mundo o lembra, livreiro, da mulher que o espera pertinaz: a beleza de seus olhos refletem luzes e sentimentos. Não queria se gabar do momento, mas era não-lógico obstinar algumas linhas sobre a reflexão não-linear de sentimentalidades que os brilhosos olhos negros de diva o refletiam.
Ah livreiro! Esta era a sua amabilidade inconformada: comparar as vivências casuais com as confrontas sentimentalidades que de sua pretendente o sorriam dia inteiro. A paz da maré? Hum… deixa-me ver: cara de anjo ao acordar! O ar de inverno que enevôa a orla? Facil: perfume natural que do lado do seu colo é de perfeito sentido.
E tudo isso — o livreiro a conhecia como o mundo — era a visão exata do efêmero momento em que tudo se é tido, um momento intrinseco entre o tudo e nada, emplacado de tonalidades de tempo e sentimento, névoas e brumas, o certo e o beijo.
A saudade desse momento é tida como extinta. Os momentos se encaixam em posterioridades que ainda o livreiro ousa prever, como menino serelepe de imaginação incontida. Sim, vôos de braços abertos em proas de navios. Pescar com as mãos aqueles polvos grudentos, quem não faria isso?
Mas é o pôr-do-sol que o livreiro fita em uma orla esmairecida por calmaria inconstante. O sol se acaba em uma montanha de lívidas paineras que filtram a entristecida claridão amarela. Há no ar a melancolidade do encontro das entrelas e lunas e tudo mais que a noite o reserva, não tenha dúvidas. Silêncio do dia e alvoroço da noite, Calar de sol, diria o gajo do bigode-de-arame.
E o livreiro pensa um pouquinho mais, agora nem é orla nem sentimentos, apenas alma e coração. Sentimentos, inquietações de certezas e medos incertos. Ainda reluta em acreditar, mas comove-se ao saber da certeza venal de seus sonhos. A mulhe, que o espera na ternura de um aconchego substancial o é sonho, entende como?
Das certezas, e isso o acostumou em prosas deliciosas, presenteado foi de uma mulher perfeita. Existe felicidade maior? E é toda a presença de um Deus verdadeiro que o povoou de alegria que se transborda essa inquietação explicita de surtos alegrísticos de emoções que o incendeiam o coração.
E lá vai o livreiro assoviando um minueto qualquer, provavelmente Bach. E a rua o acolhe prazenteira.
quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 1:01 pm
Ambientada hoje em dia, com quaisquer dois amores que vivem do amor, o ódio.
O arrependimento beijou na boca ele e ela. Fique claro que não é pelo tempo gasto em todos os ensaios de todas as coisas que disseram. E que mais tarde, invariavelmente, ele e ela tiveram de desdizer. Nem pelos versos complexos e belos que lidos e ouvidos e que jamais encontraram razão e entendimento. Não fôra pela primeira briga que socaram-se até dizer chega, tardes de sonhos e amores, nem das noites frias de aconchego na valetinha do braço.
Nada disso.
A solidão dele e dela vêm de uma coisinha simples e que de nada era certa: arrependimento do não feito:
- Ele lembra do mundaréu de mensagens silenciosas, às vezes apenas uma respiração, na secretária eletrônica.
- Ela jogou fora algumas cartas que ele escreveu. Pouco provável que tenha achado que era publicidade, vá saber. Sequer leu. Cartinhas transbordades de um sentimento lindo e intenso. Mal escritas e com uma letra garranchenta.
- Ele, novamente. Nunca impôs vontade. Contrariava sempre o sentimento que era para ser eterno. E aí, por essa razão idiota, nunca foi.
- Ela, arrependeu-se agora.
- Ele, bebe a dor em goles etílicos.
Aí ele e ela arrependiam-se, mutuamente. Ele, por estar presente em algumas situações esdrúxulas na qual a presença não era exatamente uma necessidade. Ela, por sua vez, sentia que fôra ausente e alimentava a certeza de que a ausência — por mais que consentida — era cinza.
Ele arrependeu-se, não dos sonhos que teve, não pela bela música que ouviu, nem pelo poema manco que escreveu, Mas sim dos sorrisos lançados, dos beijos que deixou roubar, das palavrinhas mudas que de olhares se formaram, sempre.

Ela sabia, desde o ínfimo instante em que seus olhares encontraram-se pela primeira vez, que haveria um adeus. Estranho isso.
Ele sabia que toda despedida definitiva estava presente em cada “até mais”, “tchau” e “eu te amo”.
Arrependia-se agora, ele por haver colocado à prova o próprio coração, ela por haver cometido tantas loucuras, ele por haver acreditado que um único momento seria capaz de transcender todos os limites impostos pelo tempo e pela distância.
Ela estava arrependida. E sofria ao perceber o crasso erro cometido pelo destino, ao ter colocado em seu caminho a pessoa certa, na hora errada.
Ele estava arrependido. Sofria por saber que, uma vez que foi assim, a hora certa nunca mais tornaria a abraçar aqueles dois babacas sentimentais.
— Fodi com meu amor, ela disse para o barzeiro.
— Amor é uma bosta, reclamou ele para ninguém.
— Compliquei um sentimento que é simples e delicado, balbuciou ela.
— Amor é uma bosta! Exclamou ele, sem acreditar na própria verdade.
quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 12:28 pm
O rapaz-de-boa-índole terminou uma amizade de três meses e quatro dias com a moça-petulante-melancólica. Ele era inteligente na vida, burraldo no amor. Ela, espinafrada e gostosa. Não namoraram, é verdade.
Ele queria porque queria.
Ela acreditava na polivalência afetiva, na dinâmica de relacionamentos imediatos. O “fica-fica”, em termos genéricos.
Como muita gente boa que conheço, esses dois aí.
Acontece que dia desses ele acordou cedo, sentou-se à escrivaninha, escreveu, escreveu e escreveu. Deixou um bilhete entrelaçado nas cordas da guitarra da cor-de-rosa que, estacionada no pedestal-quase-altar, tornou-se símbolo máximo de adoração da moça-petulante. Foi embora para sempre e ela ali, dormindo sem saber de nada.
“Eu te conheço até que bem, apesar de nunca conversarmos sobre a vida que circula ao seu redor.” Começava a pequenina carta. Gelou a espinha da espinafrada: ela já imaginava algum desfecho assim, credo!
“E por te conhecer, deixo pequeninos conselhos verdadeiros e doídos (do-í-dos, hiato. Minha letra é feia e você pode achar que são conselhos doidos).
A verdade sempre dói, a crítica nunca é bem vista, blablabla, esse papo todo que você já conhece:
— Você tinha que dizer umas verdades para a moça petulante que se diz sua amiga, quem sabe até dar umas bofetadas na cara dela, com a mão bem aberta, pra marcar os cinco dedos e acabar logo com essa amizade de mentira.
— Você também tinha que abrir o jogo com aquele carinha, falar o que você sente, parar de esconder dele essas coisas erradas que você teima em fazer.
— E devia aproveitar pra contar a verdade àquele outro, que tem uma costeleta maior que a outra. Vai lá, diz pra ele que você não é nada disso que ele pensa que você é, diz pra ele que você é normal, que a sua rotina é um saco, que você não tem coragem de sair da casa da sua mãe por causa da comida, da roupa lavada, da guitarra rosa que “vai te levar para o estrelato” e essas coisas.
— Aliás, pare de meninice. Ficar, ficar e ficar. Bah, cresça um pouco! Os homens só te querem porque você é gostosa.
— E já que é pra entrar num lance de sinceridade, conta logo pros seus pais que você fuma escondida e que está de rolo com um cara grisalho, desquitado e rico, um roqueiro falido de costeletas desparelhas e um carinha que você não sabe o nome! Quatro Três ao mesmo tempo.
Essa vida que você vive debaixo dos holofotes é uma farsa. Já faz tempo que você se perdeu no meio de tanta filosofia, de tanta parafernália psicológica, de tanto sentimento sem sentido; e agora você fica tentando enganar esse público enorme que te aplaude e não percebe que só está enganando a si mesma.
Porque a gente sabe. Não só eu, a turminha inteira da facul, o grupinho do bar do éder.
A gente sabe que você já fez um aborto; A gente sabe que você já tentou suicídio e que já tem passagem na polícia; A gente sabe que uma vez você gastou o salário de um mês inteiro em uma bolsa francesa; A gente conhece bem todos os seus pequenos e grandes defeitos. Todo mundo conhece, todo mundo sabe.
Então pára de se esconder atrás dessa maquiagem, pára de pensar que você pode se livrar de todos os seus erros toda vez que muda a cor do cabelo. Você vai ser sempre assim, vai ser sempre você, não importa onde, nem como e nem quando.
Desiste logo desse disfarce idiota.
Tira essa roupa e admite — de uma vez por todas — que quando está nua, você deixa de existir.”
…
(suspirou)
…
— Balela! — retrucou ao jogar a carta, já em bolinha-de-papel, no canto escuro do quarto.
segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 11:29 am
Bom, a coisa funciona mais ou menos assim: tudo está certo, a vida perambula alvissareira pelas rajadas de emoções que cruzam nossos destinos. Até o momento fatídico em que se erra o passo. Pisa em falso, A virada de pé que estrala e dói de imediato.
Aí meu caro, a sucessão de factos obscuros e mais improváveis que a sua mente civilizada e viril possa imaginar, acontece:
- O disparate no bilhetinho escrito e dobrado dentro do bolso do paletó.
- A foto no e-mail.
- O telefonema no horário mais esdrúxulo e errado possível.
Como não ceder?
Como tentar esconder?
O sentimento é horrível, e isso não tem nem como protestar. É uma contradição de sentimentos que se seguem, uma angústia e a falsa ilusão de que tudo terminará de uma maneira rápida e indolor.
O soluço no final da noite. A decisão de sair. A última olhada para casa, a última ré para sair da garagem de canto.
As coisas que vivemos! As viagens que fizemos, os segredos que só nós tinhamos em comum? Não tem mais como recuperar. Aí Você olha para alguns detalhes incríveis, lembra de fatos engraçados, do “Topo qualquer coisa contigo!” das peculiaridades. As crises. Os furos. Até os piripaques eram engraçados. Engraçados porque no final a gente sabia que era coisa momentânea e com um pouquinho de sacrifício o mundo ja estaria reconstruído.
Só que relembrar essas coisas felizes é constrastar com a realiade. O desgaste, O despreparo. A insegurança. Deméritos impraticáveis e insustentáveis.
A gente evolui, e isso não tem como deixar de perceber.
Agora não evoluir junto é minar a própria existência.
Não que seja um defeito. Eu te conheço como ninguém.
Mas a vida segue em frente.
Você não será a primeira. Muito menos a última. Entenda que eu gostei de ti, mas não amei.
E tenha em mente que — apesar da cretinice e insensatez — a separação definitiva sempre é a melhor coisa que poderia ter acontecido.
Alimentemos as lembranças: atenue os momentos ruins; enalteça as boas coisas.
Assim teremos um bom passado para relembrar.
Só isso.
sexta-feira, 6 de julho de 2007 | 4:25 pm
Dias atrás prometi que ajudaria aos 203 visitantes ocasionais que o Google despeja aqui no Blog a escrever “cartas de final de relacionamento”.
Não vou mais.
Não estamos mais no século XVIII, onde cartas lambrecadas à sinete faziam as vezes presenciais. Hoje em dia um relacionamento é bem mais dinâmico do que palavras escritas, meu caro. Precisa do charme do contato, da discussão cara-a-cara. Dos gritos, do chiliquinho.
Esse é o charme de um final de relacionamento!
A briga, o tapão na cara. A unhada no braço. O carro em disparada, rua abaixo. O “Eu te odeio!” grunhido por entre os dentes. A foto rasgada com uma ferocidade pecaminosa.
Final de relacionamento é a perfeita arte do fechamento do ciclo. A linha de corte do amor e da paixão. E não me venha dizer que pode existir uma amizade ou carinho depois. Isso é coisa de quem não tem maturidade.
Manutenção mensal? Fraqueza.
Trocar pneu em dia de chuva, para ela? Fraqueza.
Atender telefonema meloso em madrugada fria? Fraqueza.
PORQUE NÃO AJUDAR
Quem procura uma carta de final de relacionamento não tem discernimento do que escrever. Não deve nem saber porque está terminando, e o pior, não tem culhões para uma peleia passional. Postar uma bela carta aqui seria afundar no lodo mais ainda o vivente. O destinatário saberia dessa incapacidade e o atestaria da mais vil e insossa incopetência.
Conheci apenas uma carta muito bem escrita, por George Gordon Byron, datada de agosto de 1812, para meter fim em relacionamento com uma luva de pelica. Como ele era um notório putanheiro, não se sentiu bem em manter um relacionamento.
Culpou a sogra, é claro.
Agosto de 1812
Minha queridíssima Caroline.
Se lágrimas, as quais você viu e sabe que eu não estou apto a derramar, se a agitação na qual eu me separei de você, agitação esta que você deve ter percebido durante todo nosso nervoso caso de amor, não começou até que o momento de deixá-la se aproximou, se tudo o que eu tenho dito e feito e ainda estou muito pronto a dizer e fazer, não foi suficiente prova que meus reais sentimentos são e devem ser sempre para você, meu amor, eu não tenho nenhuma outra prova para oferecer.
Deus sabe que eu desejo você feliz e quando eu terminar meu relacionamento com você, ou melhor, quando você tomada de um senso de dever para com seu marido e sua mãe me abandonar, você reconhecerá a verdade daquilo que eu novamente prometo e juro: que nenhuma outra em palavra ou ação jamais tomará o seu lugar em minha afeição, que é e será mais sagrada para você até que eu não seja nada.
Eu nunca soube até aquele momento a loucura de - minha querida e mais amada amiga - eu não posso me expressar - este não é o momento para palavras - mas eu terei um orgulho, um prazer melancólico ao sofrer, o que você mesma pode quase conceber - pois você não me conhece, eu estou quase indo com com o coração pesado porque minha presença nesta noite deterá qualquer estória absurda que os acontecimentos de hoje poderiam ter levantado - você pensa agora que eu sou frio, severo e astuto - mesmo outros pensaram assim, mesmo sua mãe pensará - aquela mãe a quem devemos de fato muito sacrifício, mas muito mais de minha parte, do que ela jamais saberá ou possa imaginar.
"Promessas de não amá-la" . A! Caroline, são promessas do passado - mas atribua todas as concessões ao motivo adequado. E nunca pare de sentir tudo o que você já presenciou - e mais do que possa algum dia ser conhecido somente pelo meu próprio coração, talvez pelo seu . Possa Deus proteger, perdoar e abençoar vocês sempre e para todo o sempre.
Seu mais apaixonado
Byron
PS. Estas reprovações que dirigiram você para isto - minha queridíssima Caroline - foram não somente para sua mãe e a bondade de todas as suas relações. Existe qualquer coisa no céu ou na terra que me faria tão feliz como tê-la feito minha há algum tempo atrás? Não menos agora do que então. Mas mais do que sempre neste momento você sabe que eu com prazer desistiria de tudo aqui e tudo além do túmulo por você - e abstendo-me disto - devem meus motivos serem mal-entendidos?
Eu não me importo quem sabe disto e que uso é feito disto - é a você somente que eles devem, eu fui e sou seu livremente e completamente para obedecer, honrar, amar - e voar com você quando, onde e como você mesma poderia e pode determinar.
Entendeu como funciona? Você precisa ser muito, mas muito bom mesmo, para terminar um relacionamento apenas com uma carta. Precisa parecer muito mais honesto do que é, mais deprê do que aparenta e o pior, aplicar a delicadeza sensata que jamais se monstrou até então.
E, hoje em dia, quem procura carta de final de relacionamento não sabe nem por onde a galinha mija.
quinta-feira, 5 de julho de 2007 | 6:02 pm
Doralice acessa a internet para conhecer pessoas. Tem um computador mequetréfe, amarelado e impregnado de adesivos japoneses “metal-stickers”. Doralice — coitadinha — é feia pra chuchu. Até poderíamos dizer:
“Oh, Dórinha tem alguns ângulos encantadores!” mas seria mentir em demasia.
A moçoila era bonita em 1992. Adorava zanzar pelas ruas do centro com uma bicicleta toda cheia de nove horas. Tinha até uma cesta no guidom, com umas flores roubadas na vizinhança. Praticamente
una ragazza graziosa che guida la bicicletta, com direito a vestido que avoava e
la mutandina, de supetão,
visibile.
Acontece que esse jeitão espaventado por entre os carros não deu muito certo e um charreteiro atropelou a incauta zanzarina. A coisa até que foi engraçada em um primeiro momento, justamente porque ela se estatelou no chão de uma maneira jocosa. As flores do balaio do guidom caíram por cima e parecia que ela tinha batido as botas de verdade, envelopada para um féretro.
Devaneios à parte, Dórinha quebrou a bacia e ficou meio capenga de um lado. A queda também deslocou de leve o nervo óptico esquerdo, o que a deixou meio zarolha. Engordou, começou a fumar, largou a bicicleta, perdeu os 4 anos de namoro, ganhou olheiras, frieiras e chulé.
Mas ela tem um computador amarelado. Pois então.
E eis que ela descobriu a maravilha da virtualidade e cibrenética. Pra quê! Lá foi a dondoca passear no mundo do sentimento-cego. Entrou no Orkut. Cadastrou-se no almas-gêmeas. Levou dezesseis horas em frente ao computador: digitou, apagou, reescreveu, leu, releu. Criou uma auto-biografia erudita, sensual e intrigante. Invejável por assim dizer.
“Clique aqui para enviar a foto do álbum”
Ah não! Dórinha, a coisinha feia, não tirava uma foto decente há tempos. Só 3×4 com olheiras e cara de peixe morto. E olha lá.
Bom, como nada é assim tão imutável que não possa se descaracterizar, Dó não teve dúvidas: correu para os arquivos analógicos de fotos impressas, seu gavetão de tranqueiras, convicta.
Achou a foto perfeita:
Abramos parentese. Quer foto mais especial e bonita que a que Doralice achou? Pois bem, ela chegou em um ponto muito interessante da vida virtual: a foto pessoal.
Todo mundo tem uma foto para a internet. O Orkut é o pai de todas as maldades quando se fala em “A Foto”. Milhares de perfis com belas estampas na esquerda. Ângulos reais, não tenha dúvida. Mas momentos tão sutis e especiais (as vezes artificiais ao extremo) que talvez jamais se repitam. Fotos indecentes no ponto de vista moral. Quem sabe difamatórias, não seriam? Fechemos parentese.
Dó arrancou a foto do porta-retratos. Atrás, escrito em azul: “Para meu momozinho, da sua dodózinha / Arraial’91″.
Ah, sim… Momozinho era o amor da Dodózinha.
Ah, outro parentese. O maledetto Momo largou a Dodó por descaso. Descaso dela, fique claro. A dodózinha, delicadinha virou um dodôzão. Ele lutou contra o enfeiamento progressivo, mas ela já tinha perdido a batalha antes de começar. Fecho parêntese.
Enxugou o fio de lágrima. Foi para o computador, escaneou a foto, salvou e clicou acolá para enviar. Quinze minutos depois, a frase que mudaria sua vida para sempre:
“Oi gata, tem MSN?”
Doralice conheceu muitos homens. Especializou-se em primeiros-encontros.
“Aliás, quer coisa mais meiga e linda do que um homem perfumado com uma única rosa na mão?” Ela diz, sorridente.
Nunca alimentou a esperança de um segundo encontro.
E nem quer.
quinta-feira, 5 de julho de 2007 | 5:44 pm
Eu desconheço uma frase tão deliciosa quanto a que ouvi na primeira vez em que beijei uma mulher. O beijo foi intenso, verdadeiro, daqueles de ver estrelas, com cenário romântico, uma trilha sonora sincera e iluminação por contraponto, perfeita.
É, sou romântico. E sou um crápula, pode pestanejar o quanto quiser, mas a verdade é que esses momentos servem muito bem como coleções de sentimentalidades, armazenadas no setor da vaidade humana do meu coração.
Um espaço delicioso e reservado para as pieguices do amor. Bom de se perder por horas, escarafunchando todos os álbuns fotográficos imaginários e coloridos.
É uma busca que me faz gostar de lembranças — como a frase que ouvi pela primeira vez em que beijei uma mulher — e me inspira, de forma extraordinária, a entender como o mundo funciona.
Desses vai-e-vens ao fundo da minh’alma, entendi duas coisas primordiais. Uma, é que ninguém ama com menos de 18. No máximo uma paixão ou uma taradice. 18 anos é a idade mínima necessária para que alguns neurônios vitais para o amor terminem de se desenvolver. E isso é genética, não me venha criticar.
Outra coisa fenomenal é que a razão só aparece depois do juízo. Como o juízo só aparece depois do ciso, a coisa desbanca para o adultismo.
Estou bem nesse entrementes do juízo versus a chancela que me diz que um dia terei razão.
Aí penso na frase que me faz estremecer as pernas.
Muitas mulheres que gostei falavam.
As que eu quis namorar ou somente viajar ao lado em um ônibus leito, falavam com certa freqüência.
As mais inteligentes falavam.
As mais cheirosas falavam.
As mais belas.
Minha mulher fala.