MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

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Pensando em imigrar?

5 de janeiro de 2012

Se alguém, hoje, me perguntasse se valeria a pena mudar de país (e muita gente pergunta, por isso escrevi essa epopéia abaixo), eu diria que não. Antes que você pense que eu estou arrependido ou pior, que bailei na fronteiriça: informo que foi uma das decisões mais acertadas e felizes que já tomei. O que estou brevetando aqui é apenas um ponto de vista sincero do que encontrei em um novo-velho-mundo.

Falo isso para quem pensa em se mandar sem data para voltar. Se você vai apenas intercambiar, pare de ler aqui e vá cutucar alguém no Facebook.

 

Manualzinho da imigração hipster.

A vida fora de seu país natal é triste. Quase o banzo literário, o spleen de inglêses temperado com o ennui dos franceses em um pote de porridge fumarolento. Imigrar é uma atitude vocacional que requer sangue de barata nas veias.

Não que meu país de origem seja a tragicômica festa do desvario e dos pagãos. O Brasil consegue ser tão triste quanto, mas no idioma do Camões, o que é deveras compreensível.

O que recomendo é simples e como sói, não serve de nada além da reclamação: se você é ou está velho (mais cabeça que corpo, se é que você me entende), não queira mudar sua cultura. Seria o mesmo que destocar uma raiz de aroeira em um terreno pedregoso e árido. Vai doer e será muito mais trabalhoso do que se imagina.

Ganha bem fora. Mas gasta-se bem, também. O consumismo é uma merda e você cai em desgraça no dia-a-dia com o cramunhãozinho da compra assentado no ombro esquerdo. Fazer dinheiro aqui (e remessas de promessas de futuro via WesternUnion) é privar-se do prazer mundano.

Se você tem uma vida mais-ou-menos aí na Tupiniquinolândia, melhore-a localmente. Mudar não significa melhorar no zás-trás. Aliás, não ache que você chegará em outro país ditando moda, cagando regra e ganhando rios de dinheiro. Provavelmente o declínio profissional te pegará pelas bolas e você começará muito abaixo do que pessimisticamente imaginava.

Ritchie, o garotão da menina-veneno, afirmou que foram 30 anos para a proficiência em português. Acredito que o mesmo aconteça com outros idiomas e você sempre levará a alcunha de gringo, onde quer que vá. Abra a boca e a segregação acontecerá. Saiba lidar com isso e 90% das suas preocupações somem. Mais ou menos o que acontece com aquele padeiro perto da sua casa, o Portuga. Viu só?

O mundo é globalizado, mas as pessoas não. Parece uma contradição coloquial, mas em países mais tradicionais o povo tende a se isolar e criar bolhas de formalidade. O que não deixa de ser bom, se você gosta de ser um sociopata que não interage.

O Brasil já é visto com bons olhos por gente que nem sabia que ele existia. Isso é bom e anima. Mas ainda não estão nem ai para o que isso representa ou pior, não têm idéia de onde fica no mapa mundi.

A Europa está capenga, com um estranho freio que a estaqueará. qualquer dia tudo aqui desmorona e somente quem souber manejar uma clava de raiz de nogueira se sustentará na informalidade.

Mudar de pais casado é bom. E bem burocrático. Em contrapartida você tem uma gigantesca parceria emocional para se sustentar e a solidão não chega perto nem com reza. Venha sozinho e em 6 meses seu maior arrependimento te pegará pelos cornos. Sim, as fotos dos seus amigos no Facebook fazendo o que você FAZIA corrói a sentimentalidade varonil.

Tente aproveitar sua vida em seu país natal. Mude de cidade, estado. Vá conhecer as promessas de desenvolvimento tecnológico no Nordeste. Monte um projeto negocial em Piri-Piri, Curralinho, Florianópolis, Xanxerê, Mimoso do Goiás ou onde quer que seja: é quase o mesmo fôlego de mudar de pais, só que mais barato, fácil e com muito menos stress.

Ah, importante: não queira fazer a mostruosa cagada de se tornar um ser ilegal no país de destino. Tem brasileiro que surta e tenta a todo custo migrar. Tenha em mente que não basta querer mudar; a realidade é que nenhum país quer um novo imigrante. Nem o Brasil, acredite. A ilegalidade cansa e você será um cara muito, mas muito amargo. Amargo, esquivo e um fugitivo. Conheci gente assim por aqui e posso te dizer que não são nem um pouco amistosos.

O mundo afora é muito diferente do que se imagina. Pode ser uma delícia ou um inferno, e não existe fórmula do prenúncio de como será sua vida. Quiçá a auto-confiança seja o melhor termômetro de frias que você poderá encontrar. Se você tem alguma dúvida, não mude. Desconfia de algo? Não mude. Tem “Apego” no sobrenome? Fique em casa. Pensa que é fluente no idioma? Repense com sinceridade. É preguiçoso? Continue assim, na inércia eterna.

E não mude.

No mais, tudo só depende do quão safo você consegue ser.

New Year’s Eve @ London 2012

1 de janeiro de 2012

Macacomachine!

22 de dezembro de 2011

A Macaco Machine é a representação gráfica da minha tentativa de contextualização de uma idéia de réplica complexa para um argumento, em inglês. É como se fosse uma mordaça filtrante da minha vozearia mental.

Ah, as festinhas corporativas.

22 de dezembro de 2011

Sexta-feira passada foi dia de comemoração de final de ano aqui na empresa. Eu imaginava que seria apenas um almoço bocó com todo mundo se encarando de forma hostil, mas levei na cabeça com minhas previsões pessimistas.

O dia comecou com um café da manhã cheio de doces, acepipes e guloseimas que só existem por aqui na época do Natal. Meia hora depois, em uma capela-de-montanha (é esse nome mesmo, depois explico) que tem ali na ravina, contemplamos um coral natalino conhecido como Carol Service.

É claro que no caminho para a capela nevou e aquele clima de final de ano hollywoodiano achincalhou toda a minha concepção natalina calorenta brasileira de papai-noel de havainas. Cantamos umas canções natalinas, escutamos umas poesias e um pouco de drama com Shakespeare declamado.

Aqui entra um parênteses interessante: acredito que aquela capela seja protestante ou alguma vertente cristã. Descobri depois, conversando com um dos organizadores, que algumas pessoas não participaram por ser justamente em uma capela. Adivinha quem?

Errou se voce disse ‘Ah, a ateuzada!’.

Os ateus aqui são muitos. E não é pra menos, a Europa esta cada vez mais cética e sem conceitos espirituais. Mas a questão é que, apesar do Carol Service ser um evento piegas cristão, os ateus convictos estavam lá cantando, dando risadas e se emocionando com o evento. O social, mesmo.

Almoço com muito vinho, cervejas e comidas natalinas. O famoso Quiz de pub na hora dos digestivos, mince pies para matar o jotalhão.

Meia hora depois apareceram mais garrafas de vinhos e mais cervejas e umas despedidas chorosas de gente que está indo desta para uma melhor (empresa, não a vida), com brindes etílicos e mais comidas festivas.

Resumidamente o dia foi uma esbórnia gastro-bebericada descomunal. E que, como de costume, acabou na mesa de um pub, com o pessoal se abraçando e dizendo que te considera muito como irmão.

É a pingaiada, mais uma vez criando gente bonita na sociedade!

PS: quem não apareceu no Carol Service (além dos judeus, muçulmanos, indianos e budistas, por motivos de religião) foram os cristãos que não se interessaram pelo evento.

A coisa não está difícil só para vocês…

21 de dezembro de 2011

Patinando na laminha da incerteza.

21 de dezembro de 2011

A existência pura e simples deste espaço é uma afronta para meu vício de viver. A complexidade da situação que me enfio cada vez que tento dar um tombapé na morosidade começa a se tornar uma criatura sem autonomia sustentável. E isso gera dois desconfortos venais: A instabilidade da estrutura e uma espécie de autocomiseração, se é que isto existe.

A instabilidade da criatura tem resultado destrutivo e rápido. O seu passado sombrio levou uma martelada na testa que o fez cair como uma massa disforme no matadouro do Botiatuvinha. Aliás, carneada, com descartes imensos e apenas o filé-garré aproveitado. Foi um ato leviano e fadado ao fracasso, sem ressentimentos.

A autocomiseração é o distúrbio ridículo que parece uma lambeção de úlcera que não seca. Pesadíssima e sem propósitos, arrasta-se por terrenos inférteis de pedregulhos secos e cinzentados, tentando semear idéias que jamais teriam chances de brotar.

Uma nova martelada? Quiçá resolveria a instabilidade momentânea. A ignorância é apenas a prova de que hostilidade bruta pode ser a melhor situação para troçar uma conveniência dândi entre a dicotomia ridícula do existir, vivendo.

Mimosoideae*

1 de dezembro de 2011

Chacoalha a memória um pé de ingá. Não desses cujas vagens se vendem às cordas, com dez ou vinte sementes. Daqueles mais raros, amarelos e pequenos, dos meus dias de criança com a primaiada vestida de calção e argila, correndo suas euforias nas pequenas praias do córrego de Areias.

Do cipó do ingazeiro muito se podia fazer, desde cestas, balaios, cordas e balanços. Contavam-se centenas naquele pedaço de córrego. E com eles outros tantos pés. De cagaita, tucum, pequi, goiaba e o mal-cheiroso jenipapo. Sobre as copas os periquitos compartilhavam nossa furupa de menino feito a deles. Gritando sem precisar ser ouvido, correndo sem destino. O mundo era ali. E como era bom um ingá sem coró, doce de estralar a língua.

A nossa infância era assim. Cabia numa cestinha feita da argila do córrego com a alça trançada de cipó do ingazeiro. A fornalha que secava a cerâmica era sempre um toco rodado da última chuva, pousado junto da areia. Além das cestinhas, outras esculturas infantis surgiam com a argila recém tirada: jacarezinhos com olhos de pedra, peixes com escama de malacacheta, tartarugas com cascos de seixo.

Ficavam ali secando enquanto a tropinha subia o rio rumo ao ápice das aventuras: O temido poção. Queria ver Indiana Jones que superasse a bravura da molecada de Otto, Santana, Caetano e Camargo. Todo ano a coisa mudava de figura. Aquela curva de rio onde caiu um velho jatobá era desafiadora! Os maiores passavam por cima do tronco e já pulavam para a pedra que represava o poço, à esquerda de quem vai. Os menores desviavam, à direita, passando por baixo do tronco, e tinham que vencer a areia movediça, a corredeira da pedra-sabão, a prainha de argila e atravessar o raso cheio de folhas no fundo.

Para quem não sabe, aquelas folhas pretas no fundo da água fria escondiam dragões, cobras, aranhas d’água e toda peste-de-sete-cabeças que habita o imaginário das crianças.

Hoje não somos mais os mesmos. Dos que sobramos, a maioria já temos nossos pequenos. E eles não sabem mais fazer esculturas de argila do córrego de Areias. Fazem por moldes de massinha industrializada, sabem falar inglês, fuçar em computador, exigem seus telefones próprios.

Triste realidade é que eles vão saber, na pele, ou aprender em algum livro de escola, a importância que têm as matas ciliares, os cursos de água fresca, as sombras da mata, o húmus das folhas pretas, a farra dos periquitos e sagüis, a prosa lenta e sábia dos mais velhos.

A vida não cabe mais na cestinha. O ingazeiro já não tem a mesma graça. Será que ainda existe o ingazeiro? Será que ainda existe o córrego de Areias?

Esse texto é do meu amigo Natanael C. F. Júnior, relatando uma infância que muita gente invejaria. Um dia ele vai fabricar um blog, vai vendo.

*mimosoideae é a subfamília a que pertence o gênero Ingá.

Mais dos mesmos.

28 de novembro de 2011

Rotina safada de escritorio londrino tem seu charme. Sempre tem um vivente que se levanta, meio em horário errante e passa mesa-a-mesa perguntando se quereriam chá. Ele pega a canecaiada dos colaboradores e provisiona a bebida dos campeões a todos.

Até agora a impressão que tenho é que esse gesto é apenas bondade desinteressada. Ou um interesse desprovido de benefícios. Vamos ver mais pra frente.

Tem dias que eu ligo os humbuckers dos meus auscutadores auriculares no máximo apenas para ouvir o povo conversando por aqui. Gosto cada vez mais do sotaque e da ênfase que o pessoal usa para conversar. Nesses momentos é que percebo o quanto ainda falta para a fluência efetiva do idioma.

Alias, reveja seu conceito de fluência em inglês.

No final das contas eles não querem saber se você fala inglês bem ou mal; tá se comunicando tá valendo. Dos 10 primeiros dias de trabalho já participei de 7 reuniões, dentre as quais 3 foram com o board diretor de engravatados sizudos. Gostaram, no final. Tá certo que deram risadas quando eu falei coisas que eram para supostamente serem sérias, mas isso é assunto para outra roda de chimarrão.

Terceira vez que me perguntam se todo mundo no Brasil come porquinho-da-india (Cavia porcellus). Apesar de uns índios e matutos passarem o rodo nesses bichitos, rebato dizendo que não faz parte da culinária medieval brasileira.

Queria saber quem foi o semeador de discórdias que fez o favor de assustar a bretanha com esse tipo de comentário.

Perguntam se a gente come coração de galinha porque gosta ou se é porque existe alguma conotação espiritual na jogada.

Com relação aos macacos, o mito de que eles andam nas ruas já foi desmistificado pelos Simpsons e agora eles acreditam que apenas na India isso acontece.

Ainda se assustam com algumas metodologias rudimentares nossas e eu estou tirando proveito disso. Mais uma nova faculdade para desenvolver.

Esses dias entrou um zangão no metrô. Apesar daquele B-29 peludo-barulhento-amarelo-e-preto parecer um fascínora alado, todo mundo que assiste Discovery Channel sabe que ele não tem ferrão e é um mané. O problema é que os passageiros que ali residiam comigo não deviam ver muitos programas de abelhas: foi uma gritaria pior do que quando mataram o Jean Charles em um desses carros subterrâneos. O caos estava armado e já previa uma apertada de alarme e frenos de emergência. O voador passou perto de mim, pensei duas vezes e não titubeei: agarrei ele com a mão.

O zangolho parou de voar e ficou amafagafado na palma da minha mão. Os populares, em frenesi pós-traumática, olhavam-me assustados. Um ali no canto braveteou: Be careful man! They are very poisonous! Outros aditivavam o colóquio: Tru,tru! This kind of wasp has a painful sting!

Se mais algum atormentado me falasse isso, acho que eu e o zangão acreditaríamos na falácia e ele me ferroaria.

Hora que o trem abriu as portas levantei e coloquei a mão para fora do trem; a porta comecou a fechar, eu abri a mão e o bombardeirinho peludo flanou para outras paragens.

A cara de alívio e o rompante de segurança que esses sorvedores de chá fizeram foi impagável. Agradeceram-me e tiveram assunto para mais de mês.

Esse episódio foi engraçado, mas mostra uma merda genial que existe por aqui: ninguém sabe reagir a nada, pois o país tem uma segurança e uma sensação de proteção gigantesca. Pobreza e miséria tem, na TV. Eles doam dinheiros pesados para ajudar o molequinho cabeçudo desnutrido da propaganda na Etiópia; um ranhentinho sem uma perna porque pisou na mina em outro reclame; os gueopardos-da-malamutolândia (“adote” e ganhe um gueopardim de pelúcia e um postal com a foto do bichim que você salvou). Eles ajudam algo que não vêem. E é isso que impressiona.

Já perguntaram para mim se os traficantes do Rio andam com aqueles fuzis de guerra nas ruas da cidade. É que eles viram na BBC e não acreditaram.

O inglês é um cidadão bem bacana de assustar. Se você dosar o palavrio, tem assustação por anos. Diversão na certa.

É claro que eles se divertem infinitamente mais do que eu, com um jungle boy no meio deles. Desde a pronúncia porca do inglês – que agora se desdefiniu de americansk para um macarronbróglio — até pedidos de tradução de coisas mongas para PT-BR, tipo palavrões e palavras aleatórias.

Mas não se iluda, inglês não gosta de estrangeiro. Apenas toleram, e por pouco tempo. Têm bronca com francês e alemão por causa de passado sangrento, com indianos e afegãos por causa de migração em massa, são desconfiados com oriente médio e suas vertentes, não gostam de argentinos por causa das Falklands, não gostam de brasileiros porque eles fazem uns guetos estranhos e, obviamente não aguentam mais indianos migratórios que não querem se adaptar à cultura local. O governo apertou o cerco contra forasteiros aqui e o bicho tá pegando pra ilegalidade desmedida.

Emprego tem, e aos montes. Esse papo de que a Europa está em recessão é conversa de mão-de-obra recalcada, desqualificada ou ilegal.

Outra conversa para boi dormir é aquela de que na Europa o povo não sabe tomar cerveja/não tem chopp/eles so tomam cerveja quente. Ah, vai cagar! Os caras inventaram a cerveja antes de inventarem a religião, fabricam centenas de tipos e qualidades diferentes do líquido virtuoso e você, brasileiro-topeira que só tem 3 tipos de cerveja no mercado nacional (e da mesma dona), vem falar que aqui não tem cerveja boa? As bicas aqui jorram cerveja à 4 graus, temperatura suficiente para refrescar uma pint por 4 minutos.

Como ainda estou proibido de tirar fotos com uma câmera boa até segunda ordem, publico aqui alguns petardos-justos clicados à celular, que eu jamais ousaria chamar de fotografia:

As árveres de outono samos nozes.

Se fosse no Brasil, teríamos algumas carangueijentas embaixo dessa folharada.

Sorte de pegar uma réstia na Union Jack. Parece adulterada, mas não é.

Aqui o povo é antenado.

Pinheirinho de natal lá em casa.

Gente forte e destemida tem em todo lugar.