AUTOR

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva. R.Valentino, circunspecto vivencial, galanteador barato por conveniência física e peripatética e só. Inteligência e sagacidade, para quê! Bruto.
Giancarlo V., 1922: in, Recheaux d’aveux
Olá, Sou o R.Valentino, o presidente e fundador da MadCap, uma das empresas mais rentáveis e aristocráticas do meio virtual e cibernético do sul do país. Desde 1997 escrevo textos para a internet. Comecei com poesias e descobri que os poetas são uns fudidos. Escritores potenciais e preguiçosos por assim dizer. Eu era preguiçoso naquela época. Achava que sabia de tudo. Um poeta e prepotente.Larguei a poesia em um canto. Larguei a vida de estagiário, cresci, comprei um carro, arrumei um emprego legal. Fazia a barba duas vezes por semana.
E continuava a escrever textos. Poesias nunca mais.
Desses textos, muito lixo, confesso.
Entao montei um blog com um titulo estranho. Uma das maiores cagadas que já fiz, convenhamos. Pô, era um dominio com nome de coisa ilícita, narcotizado. Só por isso, consegui atrair uns 300 junkies por dia, segundo as estatísticas. E também consegui a repulsa dos bons humanos, dos escritores sérios. Dos poetas de luxo. Da sociedade correta.
Sou um crápula da linha da marginalidade virtual.
Biografia por assim dizer
Tenho uns vinte e poucos de idade. Ja consegui começar um monte de coisas legais para minha vida. Levei uns 10 anos para me formar em uma universidade. Estudei um monte de cursos que julgava interessantes e percebi que todos eram adultos e sérios demais para mim.
Fiz umas besteiras fantasmagóricas na minha juventude, como qualquer adolescente sadio. Aí, com as oportunidades da vida, consegui escalonar alguns potenciais para me escorar e seguir.
Eu podia ter me dado muito bem na vida. Podia ser mais sério, poderia usar umas roupas novas, mais sociais e adultas. Talvez hoje eu fosse um adulto bem sucedido, com salário interessante e bem notado na vida.
Mas não consigo.
Aí vejo que minhas escolhas não são de um todo, erradas.
Comparo-me com alguns colegas. Alguns hoje são doutores, mestres. Dão aula, possuem filhos. Uma casa e uma vida profissional abundante. Possuem empresas rentáveis até. Conhecem a Botsuana, Timbuktu e Bucareste. Tudo pelo trabalho.
Mas a coisa descamba sempre para isso! Trabalho!
Não perguntam-me, depois de 10 anos de obscura falta de contato, sobre o que sou. Perguntam-me com o que estou trabalhando agora.
Quer saber?
Com internet. Com educação, com doutrina juvenil e infantil, com adolescentes, com publicidade, marketing, marketing de guerrilha e propaganda ideológica e subliminar. Trabalho com experiências abomináveis e improdutivas, faço testes com leitores.
Minto. E muito. Sou capaz de criar um mundo à parte com personagens e factos que jamais aconteceram.
E tudo isso faz parte das coisas com o que trabalho. É um mundo caótico, desestruturado, muito mais obscuro e intrínseco do que você aí, que dá aula e sabe quem é Van Der Vaals, pode imaginar.
Sou pavloviano. Adoro piadas internas.
Adoro causar situações atípicas com humanos ao meu redor, em lugares públicos.
Gosto de sacanear pessoas normais e robóticas.
Inspíro-me no medo e na fraqueza.
Acredito em Deus.
Aliás, quer uma coisa mais forte, respeitada e gente boa que pode ter existido na minha vida? Pois então.
Casei com uma mulher que conheci na internet. Não podia ser melhor. Ela é perfeita e o pior, deixa-me fotografá-la. Pior ainda: deixa eu fazer experiências de cientista maluco nela. Deixa eu testar pontos de i-ching e acupuntura intersemiótica-neural. Reclama que é uma beleza. E, mesmo braba, fica bonita de ver!
Muita coisa que você (talvez) tenha lido aqui no blog são verdades absolutas. Existem uns textos que são tão verídicos e assustadores que ninguém acreditaria. Outros, inventados na hora.
E a maioria deles, invariavelmente, mostram na lata como eu sou.
O, pá.
Ficha pá-púm
Tenho 27 anos, 1,96m, feio pra cacete. Moro em Brasília, um pouco em Curitiba e um tantico de nada em Guarapuava; Casado; Pinto quadros; Desenho no Secret Scrapt Book; Tenho livros; Conheci o Dalai Lama e conversei 12 segundos com ele; Tenho uma tv widescreen; tenho mais de 200 dvd´s; Escrevo textos fantasmas como ghostwriter; Já fiz a Luana Piovani rir. Aprendi o excelente português que sei com Nat King Cole, durante sua turnê pelo México em 1958; Casei-me três vezes com a mesma mulher, tendo desquitado duas vezes até o presente momento; Lutei na batalha de Guadalcanal como primeiro-tenente no mesmo pelotão de James Jones (o escritor), de quem quase arranquei dois dedos à faca por roubar três cigarros Camel de meu embornal; Sou faixa rajada em kung-fu Shaolin do Norte (técnica da serpente); Depus à favor de Arthur C. Clarke no Sri Lanka, quando acusado de guerrilha de vanguarda; Pisei na boca de Mick Jagger durante uma briga de bar ocorrida na ilha de Ibiza (Espanha) em 1971.





