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Ladeira das Pedras, 37.

16 de janeiro de 2012

A velha casa da ladeira de pedras, número 37, era um retrato fidedigno da vida que não fluía mais na cidadela: o calçamento era irregular demais para o flanar da liberdade. A parede exibia tintas vermelhas de várias tonalidades e gerações que, pintadas umas sobre as outras, num estrupício relaxo, criaram bolhas e tumores texturados que tentavam conter as rachaduras sem base.

Janelas de madeirame empenado. A primeira, mais nova, não abria desde que fôra instalada em 72. Pedreiro escróque duma figa. A segunda abria. Abria e era usada pela senhorinha ridícula que ali pairava, plantada por horas, a reclamar da morosidade do vento que não mais assoprava como deveria.

O Tião da barbearia do final da rua, mentiroso que só, dizia que era ela a inspiradora da palavra peitoril, ja que as pelancas muxibentas e as têtas caídas esparramavam-se por toda  a madeira da balaustrada, realçando mais ainda as redondices e suas infindáveis dobras sebentas.

Nada na cidade tinha mais jeito. A diferença de temperatura média caía de maneira constante e chegou ao ponto em que a palavra hermética começava a se incorporar em artigo de previsão do tempo e arranjo climático. Assim não mais existia ali conceito de calor ou frio; o vento — como a velha ali reclamou — de fato parara de assoviar há tempos. Nem uma brisa, quem diria. Nuvens? Só carneirinhos de passagem e sem funções pluviais que as valessem.

Os velhos não geraram novos rebentos. O plantel dos chucros e irriquietos varãos dali se escafederam para novas paragens. O Tião bem que alertara: aquela nota de 10 com um bigodinho no bução da princesa passou em sua mão por mais de 4 vezes naquela semana.

A vida estaqueara e ninguém percebera; a cidade estava isolada em si mesma, em um passado que todo dia não deixava de se repetir.

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