Chegamos no alto da serra às 02h da madrugada. Era um comboio pequeno e de poucos carros. Continuar a viagem seria arriscado, mesmo porque as trilhas estavam abandonadas e incertas. A decisão de descansar um pouco foi acordada por todos.
A região era impressionante: estávamos em uma crista da cadeia de montanhas, em um dos pontos mais altos, rodeado por uma amplitude visual imensa. A lua estava cheia e toda a penumbra escura ganhava cores esmaecidas. O vento na região era constante e gelado, e a vegetação de altitude comprovava essa força eólica. As estrelas cintilavam como furos na lona de circo e as raríssimas luzes de propriedades rurais tentavam — em vão — competir com a beleza do firmamento.
Enfrentar aquela ventania gelada de montanha era uma coisa muito peculiar. A maioria do pessoal resolveu se recolher nos carros e descansar até a alvorada. Outros ainda tentaram, em vão, se recolher atrás de qualquer veículo que emparedasse aquela ventania toda.
A minha situação já era perdida: estava em um Willys sem portas, capota e qualquer coisa que cortasse minimamente o vento. Nem o banco de couro salvava a estadia. Não havia um único lugar a salvo. Todos os carros estavam lotados, e eu estava apenas com uma jaqueta sintética corta-vento. Ela, por motivos situacionais, não esquenta. Mesmo porque aqui no planalto central não faz esse frio todo.
Tentei me acomodar em uma cadeira, nem sinal de conforto. Olhei a relva seca e densa, de um capim seco e quebradiço, titubeei por um instante, mas não relutei: resolvi encontrar um local sem muita irregularidade e relativamente macio.
Aquele capim era perfeito! Seco como estava, mostrava uma maciez e conforto fenomenal. Puxei um pedaço de tronco de corticeira que achei na redondeza e, com um pouco de jeito consegui montar um travesseiro honesto. O melhor de tudo daquele capim era que ele isolava o frio de alguma maneira térmica que me salvou de uma hipotermia qualquer. Deitar no chão foi uma atitude bem-sucedida, pois consegui fugir da massividade do vento que cortava por cima da minha cabeça.
Relaxei aos poucos. Todo aquele medo de insetos, cobras, lobisomens e coisas assustadoras foram dando lugar a uma sensação de tranquilidade. Vez ou outra um avião cruzava lentamente o céu. Estrelas continuavam o pisca-piscar frenético, uma estrela cadente varou de um horizonte a outro. E assim o corpo foi relaxando. A lua caminhava lentamente para trás de uma montanha, amarelescendo aos poucos e estufando o tamanho como uma cartada final antes do desaparecer do dia.
Fazia muito tempo que eu não dormia ao relento, com as botas ainda calçadas e sem proteção nenhuma. Contabilize dez anos nesse cálculo. Eu tinha esquecido essa sensação tênue e ferrenha que é adaptar-se à uma natureza que não faz questão de te acolher. E se uma cobra notívaga aparecesse por ali? Um escorpião amarelo do cerrado? Ou uma daquelas lacraias ferroadoras que machucam de verdade? Nada disso conseguia arranhar o brio de uma noite nas estrelas. Era fácil reconhecer formatos e brilhos. Que estrela era aquela que piscava em vermelho? Marte, talvez. O Cruzeiro do Sul era fácil de identificar. E assim fui relembrando coisas, sentidos e sensações esquedcidas há tempos.
Hora ou outra eu sentia alguma coisa passear nas minhas pernas. Era um capim a zanzar com o vento ou um inseto qualquer? Nada que uma rápida agitada não resolvesse. Ah, sim, botas, bermuda e corta-vento, esqueci do detalhe indumentário.
O frio não me fez dormir. Perambulei pelas lembranças afagadas por novas sentimentalidades, revivi amizades que não existem há tempos. Foi uma lenta transposição do que eu era e do que me tornei, com interpelações dignas de memoriais escusos.
Quando a lua resolveu se abrigar nas montanhas não consegui mais ficar imóvel. Uma é que eu tiritava de frio e tudo tremia em meu corpo. Outra é que a imagem era belíssima. Saquei a câmera e lá fui tentar retratar aquele momento. É claro que uma foto não consegue — nem de longe — contar a amplitude sensorial que o evento e a carga emocional ali abrigava. Mas, mesmo assim, segui adiante. O alvor começava a avermelhar o horizonte e mais um dia encetava sem que ninguém saboreasse aquilo comigo.
Quando o primeiro raio de sol atravessou o brumado e me atingiu, foi como o petardo de uma aduela que se assenta sobre o capitel ao estilingar de uma frécha. O calor me invadiu os póros e toda aquela sensação frienta deu lugar ao aconchego arrepiante de um abraço calorento veementíssimo.
O intrépido pernoitar vivenciado assim, sem muito esperar.
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Algumas fotos que resumem todo o amontoado de letras aí em cima:











