Desde a época em que o MSN passou a perna no ICQ e aos poucos todos os usuários migraram para a plataforma Microsoft, meu ICQ morreu.
Praticamente todos os meus contatos trocaram de comunicador: de uma hora para outra o ICQ ficou cheio de UIN´s desconectados para sempre. E isso aconteceu para todos ao meu redor.
Não sei se tudo isso foi a pressão da Microsoft em empurrar o MSN no sistema operacional ou se foi a Aol LLC que matou o ICQ com as milhares de tranqueiras que o deixaram assustadoramente feio, pesado e lento.
O mérito agora é que existe uma versão 7 da brincadeira. Limpa, sem aquela penteadeira de puta velha que era antes. Comunica com um monte de comunidades 2.0, feeds, twitter, coisa e tal. E eu não sei até onde (e como) essa ressurreição pode chegar.
O tal do UIN
O UIN do ICQ Significa Universal Internet Number. Talvez o ICQ fosse convencido igual à Swatch (com aquela piração do @ beat Internet Time) e quisesse rotular TODOS os usuários de internet por números. No final do século passado, ainda no tempo em que a internet era movida à lenha no Brasil, uma das formas nerds de você avaliar o tempo de internet de uma pessoa — que convenhamos, era um status quo indubitável — era a numeração UIN do ICQ. Quanto menor o número, mais reputação o geek tinha.
É ai que meu problema começa. Eu tinha um UIN de seis dígitos (#299069), registrado no final de 1996. Esses números baixos eram tão cobiçados que se você não tivesse uma senha com 16 dígitos, era fácil perder o UIN para algum hacker. Hoje um UIN registrado está na casa dos 500 milhões.
A minha senha tinha tanto caractere especial que, quando se pedia o reenvio de senha, os browsers só imprimiam quadrados (algo como: □□□□□)
Meu e-mail daquela época já não existe mais, era um finado spegel@usa.net da Amex americana.
E agora fiquei com vontade de reavivar uma coisa que não tem como. Rever contatos antigos, que há 14 anos não converso. Sim, é tempo. Uma amiga de Hong Kong que adorava poesias de Fernando Pessoa, traduzidas; a australiana ruiva que ficou minha amiga porque achei metade dos tios-avôs dela por aqui.
Coisas pitorescas do tempo em que a internet era cultural e semântica, sem a cauda-monga que a destrói todos os dias.
A australiana
O ICQ era legal, porque toda vez que algum novo usuário aparecia, você sabia que era mais um adido cultural na sua lista de experiências virtuais. E não existia tanta privacidade, um UIN conversava com o outro sem a necessidade de adicionar ou pedir permissão (Isso mudou em 1999 com a neurótica Aol LLC).
Uma dessas conversas foi com uma garota australiana. Ela era toda bonitinha, eu era um salafrário cafajeste, então já viu. Conversávamos por muito tempo — eu na madruga e ela no entardecer — amenidades, diferenças culturais, gírias aussies pra cá, inglês macarrônico pra lá.
Até que eu contei que meu avô era imigrante aqui no Brasil. Ela confidenciou que o avô dela também era alemão e refugiado da segunda guerra, mas que tinha perdido dois irmãos pelo mundo quando fugiram, talvez para a américa. Solícito que sou, disse que aqui na América do sul era fácil achar gente (era nada), e que faria uma pesquisa mais complexa para ela.
A minha idéia era passar os nomes para um amigo que trabalhava na antiga operadora de telefonia que a TIM comprou. Por ali ele conseguiria abranger o Brasil inteiro e, se os dois chucrutes estivesse nas terras tupiniquins, eu teria assunto para mais uns anos com a ruivinha.
Acontece que eu tinha duas listas telefônicas embaixo do meu monitor (gambiarra de nivelamento de vídeo avançado) e resolvi folheá-las. Era muita coincidência: tinha 9 sobrenomes que batiam. Destes dois eram os primeiros nomes indicados. Aí já fiquei com a pulga atrás da orelha e resolvi ligar para o primeiro.
— Seu Walfried?
— Ja vohl!
— O senhor é o irmão mais velho do Günter?
— …
— Alôuuu?
— Como você sabe!?
Desliguei na cara. Liguei para o Manfried. Mesma reação atônita.
Mandei um e-mail para a garota australiana (naquele tempo a gente usava o ICQ para amenidades e e-mails para coisas importantes), com os dados dos dois velhos: telefone, endereço, CEP, tudo.
O que se sucedeu foi uma coisa inacreditável, relatado por e-mail pelo pai da down under: Eles contataram os velhos aqui no Brasil; Os dois não sabiam que o irmão estava vivo, nem o irmão sabia que os dois ainda estavam na ativa; reuniram os três, 50 anos depois, em uma grande festa em Melbourne, onde os primos, netos, familiares e agregados se conheceram pela primeira vez.
A garota achava que eu era um herói, eu achava que nunca ia dar uns pegas nela. Ela achou namorado, eu virei metaleiro, ela casou e eu comprei uma bicicleta.
Depois disso só ficou a lembrança de ter feito uma coisa extremamente fenomenal para alguém que eu nunca, de fato, conheci.


janeiro 24th, 2010 at 8:00 pm
Eu lembro que eu tenho um número de 8 dígitos até hoje. Vou ver se ele ainda funciona…
E deve ser legal fazer parte da vida de alguém que você nunca viu. Legal e estranho.
janeiro 29th, 2010 at 9:28 am
Eu conheci muita gente legal pelo ICQ… aaaah bons tempos aqueles.. a internet era lenta, e uma bosta comparado com hoje… Mas ainda não era uma coisa onde todos estão querendo te vender algo ou passar a perna em você.. então era fácil simplesmente mandar um: “oi” para completos desconhecidos e virar alguma coisa legal…
Inclusive tive relacionamentos sérios com mulheres que conheci pelo ICQ na base do “oi”..
meu número era de 7 digitos.. #3399556 e o mais legal é que ele ainda está acessível.. entrei la esses dias…
fevereiro 20th, 2010 at 7:24 am
Muito bom seu texto. Eu também conversei com uma australiana pelo ICQ, mas não fui tão aventureiro quanto você! Era só fanfarronice.
Meu uin é de 7 dígitos e lembro a senha até hoje.
Outro dia loguei.
Não tinha nem uma mosquinha online…
aí pedi para um amigo meu logar também e ficaram os dois babacas conversando pelo icq, ao mesmo que tempo que msn, gtalk e skype tão estavam ligados…
hahaha
abs
fevereiro 20th, 2010 at 9:22 am
Eu cheguei a ter um uin de 6 digitos, mas fizeram pra mim pq eu nao queria icq (do contra) e eu perdi a senha um dia e nunca mais consegui entrar naquele uin.. um tempo depois eu cheguei a ter um de 8 digitos, que eu perdi a senha e o email nao existia mais..
E acabou que meu uin ficou com 9 digitos, e vira e mexe eu uso.. e o mais bizarro.. tem pessoas online.. e ainda comentam.. ‘nossa! Qto tempo.. deve fazer oq..? 10 anos?’ hauhauhau
fevereiro 20th, 2010 at 9:36 am
O meu tem 7 dígitos e eu nunca deixei de usar desde aquele tempo
tava ali, aberto (no pidgin), às moscas, e agora tou pasmo com as pessoas voltando do sótão dos tempos…