Antigamente eu era um visigodo contrarista e torcia para outras nações. O soldo disso é uma coleção de camisetas alemãs, italianas, inglesas e holandesas. Do Brasil mesmo, tive apenas uma, que ganhei quando tinha uns 6 anos de idade. E lembro muito bem o que aconteceu com ela.
Era ’86, copa do México — aquela do mascote pimentito, que era para ser na Colômbia, mas foi espantada para o Brasil porque as milícias colombianas melaram tudo e, por incrível que pareça, nosso Sarneyzão subditatorial renegou sediar aqui os jogos por motivos desprezíveis, e que fez com que a FIFA desovasse o mundial para o México.
Pois bem, essa copa foi marcada pela “Mano de Dios”, Maradona, em um confronto épico e histórico entre uma Argentina malvinada e um Reino Unido falklandeado.
Mas o que me deixou puto da vida foi justamente o jogo Brasil e França, pelas quartas. Era um churrascão na casa de um colega do meu pai. Tinha muita gente lá, tv grande, muita cerveja e muita festa. O jogo foi minguado e correu para os penais. Lembro muito bem que Sócrates bateu e o goleiro defendeu. Cara, aquilo ali foi um desespero em minha volta. Tinha gente já gorando o Brasil naquele momento, gente levantando, cenhos fechados, enfim, um clima putiado.
Um francês errou e com isso voltou o clima de já ganhou. Na sequência uma trave brasileira e a vaca foi para o brejo.
Brasil rodou, a festa acabou, o clima pesou, o povo levantava meio sem jeito, uns tios mais exaltados começaram a tirar as camisetas de algodão com as três estrelinhas e arremeçavam na churrasqueira. A molecada fez o mesmo, todos revoltados; eu? eu adorava a minha, ela era de alguma copa passada, de algodão penteado, com a Jules Rimet ainda no Brasão (ou era a logomarca do café, não lembro). O problema é que saquearam-na do meu corpo e tacaram na fogueira amarela.
Mermão, pense em um moleque que chorou. Eu não entendia o porquê dessa revolta toda, desse descarte idiota das belíssimas camisetas amarelas, dessa raiva incontida. Era uma das melhores seleções que o Brasil já teve, Zico, Sócrates, Silas.
Voltei para casa descamisado e puto. Lembro que eu perguntei, ainda com os olhos mareados e no banco de trás do carro, para meus pais, porque tudo isso. Eu não lembro da resposta, mas nada, naquele momento, poderia me consolar.
Desde então eu via a copa com a futilidade existencial que ela sempre foi. Italia’90 não lembro. Aliás, lembro sim: eu tinha montado um arsenal de bombinhas amarradas com fita adesiva e todas as pólvoras ignitoras juntas. Era um jogo qualquer do brasil, todos na sala principal de casa e eu no quartinho da bagunça conferindo o jogo na Telefunken velha, com a bomba na direita e o isqueiro na esquerda.
Eu fui treinar como seria a ignição e uma centelha da pedra pulou na pórva toda e aquela bomba desgraçada começou a pegar fogo. Levei um susto, ela caiu no tapete verde que tinha na sala, começou a pipocar os petardos e eu já devia estar em cima do pé de ameixa lá do quintal. O soldo foi uns buracos no tapete, a casa empestiada de fumaça de pólvora e eu de castigo.
As outras copas eu já não estava nem aí para o mundialito, queria mesmo era sair com amigos, olhar as cocotinhas e bebericar muito etanol.
Muito tempo depois retorno com esse negócio da copa. Amigos vão se reunir daqui a pouco, as TV´s de mais de 50 poelgadas mostrarão tudo em highdef e eu — quiçá oxalá — comprarei uma camiseta amarela novamente, para fazer parte de uma torcida que eu nunca mais me senti integrante.

