Meu alter ego é esbelto e elegante. Não tem residência fixa, é verdade. Faz exercícios físicos todo dia, anda, dorme até tarde e come tudo o que dá vontade. Meu alter ego não tem dinheiro, sobrevive de bicos como ghostwriter e viaja o mundo de carona.
O mundo!
Meu alter ego fala seis idiomas com uma fluência avassaladora: aprendeu um dialeto na Polinésia em apenas 8 meses.
Não tem muitas posses: uma mochila muito resistente mas velha, uma calça jeans desbotada, algumas camisetas brancas, um tênis verde musgo muito confortável e anti-derrapante e um canivete suíço original, com 27 funções, que ganhara de um finlandês em Antíqua. Tem um computador portátil que não funciona a bateria, tela monocromática e muito velho. É assim que meu alter-ego faz frila.
Tem um costume risca-de-giz que vale mil oitocentos e e oitenta e nove e noventa. Caro, muito caro. Carrega junto. E você não conseguiria imaginar as festas que meu alter ego conseguiu entrar com esse traje.
Meu alter ego não gosta de mim e fica tentando me dominar, mas eu sou mais forte que ele.
Mentira.
Eu sou fraco, muito fraco.
Meu alter ego terminou o curso superior mas procrastina a bendita colação de grau. Ele às vezes se aventura em algum palco, tem muito talento. Meu alter ego sabe desenhar e canta como ninguém. Meu alter ego — se quisesse — poderia ser bem sucedido como empresário, advogado, publicitário, médico, dono, patrão, spalla, mascate, pirata ou astronauta.
Meu alter ego daria um ótimo professor, se quisesse.
Meu alter ego poderia ficar famoso, poderia ganhar o Nobel de literatura, se quisesse.
Meu alter ego poderia viver de arte, se quisesse.
Meu alter ego ganharia leôes em Cannes e kikitos em Gramado, se quisesse.
Mas ele é louco, apaixonado, independente, desvairado, intenso, insaciável, amicíssimo, afável, bondoso, enérgico às vezes e não se preocupa com costumes cotidianos.
E prefere viver de vida.
Incrível, não?


novembro 18th, 2009 at 3:58 pm
É o tal do perigo saudável… quando o alterego e o ego caminham juntos misturando suas personas em uma única e singela forma ectoplasmica carnal… é mais ou menos o que eu acho…