
Arquivos do mês de março de 2009
Os cantos
23 de março de 2009
A tradição mitômana — ou puramente mistificatória — carrega, ao longo do tempo, diversas conotações e intenções que variam, justamente, ao sabor das circunstâncias históricas e das idiossincrasias de cada artífice. Dessa galeria de ilusões destaca-se, por exemplo, a declaração de texto apócrifo no Philadelphia Press, em 1913, que afirmava ser Ezra Pound “considerado na Inglaterra um dos maiores poetas do mundo”.
As mãos do próprio bardo americano lavraram essa loa, soube-se mais tarde. O que não se sabe, todavia, é se o fato já sinalizava a dementia praecox de que viria a sofrer o autor de Os Cantos.
Tristemente, esse soberbo expediente madequepeniano é continuado de forma leviana por artistas menos escrupulosos. Incapazes de obter os efeitos desejados, quais sejam o assombro e a credulidade, da verdadeira atitude sicofanta, caem na facilidade do exagero.
Tomem-se como exemplos alguns brasileiros que naufragam nessa arte. Caubi Peixoto era conhecido por declarar uma suposta fama em terras estrangeiras (mormente na Bretanha), chegando a citar periódicos locais que o alcunham de “a voz de diamante do Brazil”. Pelo mesmo trilho seguia Nelson Ned — antes de se converter— que de sua banheira de ouro em uma fictícia mansão em Atlanta, ouvia no rádio chamarem-no “the little king of Las Vegas”. Nada que honre o savoir faire de um Pound.
Mas nem tudo está perdido. Alguns poucos vates ainda carregam o estandarte da megalomania genuína. É o caso do nosso RValentino, que regala constantemente nossos leitores com pérolas deste honrado metier aparentemente fadado ao esquecimento.
Recentemente saiu das letradas controversas e criou, abrilhantado, o que prometera jamais fazer: um layout de blog. Aliás, prometeu em algum texto sem importância que não os criaria!
Não obstante e ainda traído por suas palavras criou novamente um novo layout, que desta vez promete “ser a quintessência da desconstrução empírica das raízes blogueiras”. Veremos.
Só nos resta esperar que a tradição se mantenha viva por parte desse discípulo que se empenha tão fortemente na sua arte digital etérea.
E que suas contradições não apodreçam sua alma.
Salto do Itiquira
16 de março de 2009
O Salto do Itiquira é uma cachoeira de 168 metros de altura que fica em um parque municipal da cidade de Formosa-GO. Lá o turismo é predatório e a natureza foi toda adaptada com caminhos, vias, pontes, banheiros, chafarizes para banhos, estacionamento, restaurante, lanchonete, quiosque com tranqueiras.
O bom de tudo isso é que você chega rapidinho no poço principal onde o salto despenca. Pode ir até de chinelo-de-dedo que não tem problema. É um programa ideal para quando se está com preguiça para uma aventura maior. Bom para criançada, grupos grandes, idosos.
A foto acima é uma panorâmica, tirada do lado direito do salto, onde encana um vento ferrenho. A dificuldade técnica de tirar uma boa foto por lá é interessante, porque o vento que a movimentação da água faz molha todo o equipamento fotográfico em segundos.
Velha sem sentidos
6 de março de 2009
A “Velha Sem Sentidos” é uma pequena série de imagens obsoletas capturadas de periódicos, revistas, manuais e almanaques antigos.
Meio sem sentido. E sem graça. Mas eu gosto de coisas estranhas.

Vai postergando, vai…
5 de março de 2009
Final de ano resolvi visitar gente que fazia tempo que não via. Como moro longe pra caramba da maioria das personalidades do meu passado, aproveitaria a deixa de final de ano para tal.
Fiz uma lista mental de personalidades da minha juventude: amigos da rua, pessoal do jeepclube, os maloqueiros da vila vintém, a turma do badminton, da escola de literatura e artes, do grupo educacional, a escoteirada de outrora.
A idéia era ver, após 10 anos de distância, se aquelas sementes podres vingaram para alguma coisa.
Acabou que não visitei quase ninguém. Faltou tempo, prática, vontade.
Aí recebo a notícia de um amigo meu — ontem — que uma dessas pessoas da lista (e que eu realmente ia visitar e tomar um chimas), morreu.
Que beleza né? Essa vida de procrastinador é exatamente o que me faz pensar se não sou milionário ainda por pura birra. É incrível como postergo ad infinitum coisas triviais da vida. Talvez seja uma arte. Ou a virtude de cultivar a paciência.
Ou doença.
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Outra coisa que ainda não aprendi: cultivar contatos. Alio a minha maestria em postergar coisas com a falta de contato. Perco amigos, conhecidos, a patóta da igreja, os escafandristas amadores de Santarém, os pedaladores noturnos.
Deixo meio assim-assim, até o contato se tornar um fantasma do passado que insiste em morar na pasta do meu mailbox “A responder”.
Não tem santo que me faça criar coragem em replicar um email de quatro meses atrás.
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Contatos são portas, pontes, mãos caridosas. Não seja sovina. Cultive-os. Um dia você verá, no auge da sua velhice, que jogar xadrez sozinho só tem graça para o Geri.
Black and tan fantasy overview
5 de março de 2009

Quando o Victor abandonou Mars¹ e voltou para São Paulo, perdi um pouco do meu tino fotográfico. A gente sempre saía em safaris por Brasília e região atrás de peculiaridades e conceitos visuais para fotografar. E quem leva fotografia como um hobby mais sério sabe que tem muita coisa que é constrangedora e complicada. Foto de gente por exemplo.
Então a gente estava no bar do famoso cruzamento da Ipiranga com a São João, já meio tchuco do bom chopp que tem por lá, quando alguém da mesa teve a brilhante idéia: “Bóra tirar foto da Célia no Museu do Ipiranga?”
No outro dia lá estávamos nós, com a Célia maquiada, vestida de não-sei-o-quê-do-passado e com uma asa preta que achamos na loja de fantasias.
Não sei se seguimos a risca a idéia e o conceito visual programado. Mesmo porque não deixaram a gente tirar fotos por lá, uma vez que qualquer câmera um pouquinho maior (ou um rebatedor) já caracteriza que o fotógrafo é profissional. E a pérola: “Nesse chafariz só pode tirar uma foto pra book, porque é monumento tombado.”
Book foi foda.
¹Mars foi a melhor definição para Brasília que já ouvi: o planeta vermelho.
*”Black and Tan Fantasy” é um jazz de James Newton que aparece no album The Africa Flower de 1985.
São Paulo
3 de março de 2009
You told me wed go to Rio
And you said it so charismatically
I know its me thats the nightmare
So fight fair or have some decencySao Paulo | Why am I bringing me down?
Sao Paulo | If I drink any more I will drown
Sao Paulo | Why cant I fight truth decay?
Sao Paulo | My life is just one big cliche
Sao Paulo, música da banda Morcheeba
“Sao Paulo” pede desculpas à cidade que o grupo Morcheeba conheceu e não gostou (But I just act apologetically (…) / Another stain on my passport).
São Paulo é assim: uma metrópolis dinâmica, sem tempo para nada. Prédios clássicos e antigos contrastando com viadutos concréteos sólidos como pano de fundo. Novidades, diferenças, lugares cheirosos e outros nem tanto. Gente feia, gente bonita, gente esquisita, gente diferente.
Pobreza, e muita. Mas que consegue manter uma simbiose tensa com a próle que circula atrasada.
Chove. Alaga. Esquenta e não venta. A noite é dia, se você quiser. As lojas têm o que você precisa. E o que você nem precisa, mas gosta. Os marronzinhos são ariscos. O Playcenter está morrendo. O Tietê ainda fede. A Sé agora tem seguranças. Dom Pedro não tem mais a espada na praça do Museu do Ipiranga.
São Paulo tem Ferrari. Bentley, Maserati, Aston Martin, Porsche. Tem Lada 92 conservado. Moto a dar com o pé. Lasanha com feijoada e o Bar Brahma na esquina da música do Caetano. Espaço para todos. Voz para quem quiser. Criminalidade, presteza e cordialidade. Solidariedade. Chuva ácida e o treme-treme.
Tem o Mojica, tem os estrelinhas da MTV correndo no Ibirapuera. Tem urubu-pescador. Tem a paulista que tem o Asterix que tem 590 tipos diferentes de cervejas do mundo.
Tem quem goste da cidade. Tem quem odeie. E São Paulo não vai com a cara de todo mundo não, meo.














































