PEDERNEIRAS QUE FALHAM


quarta-feira, 5 de março de 2008 | 2:54 pm

Sentado no jardim, caíam-lhe as últimas idéias trazidas pelos ventos do bom senso. Eram imagens estranhas de fatos que misturavam pessoas, lugares e tempos. Não lembrava se conhecia tudo aquilo. Na hipótese mais aceitável, eram apenas fantasmas trancafiados e clamantes dentro d´alguma gaiola do pensamento. Estendiam os braços, comprimiam as faces através das barras enferrujadas e escuras, pedindo algo na língua das multidões. Chegava mais perto e a corja quase o segurava pelo colarinho, pedindo ajuda ou propondo revide.

Punha as mãos ao rosto e o máximo efeito conseguido era o de clarões na escuridão, quando se comprimem as órbitas. E era isso o que realmente havia feito por longo tempo, Tentaou encurtar o percurso. Achatou o caminho e conseguiu o efeito dos bólidos que caem na noite. Um traço entre as estrelas, um risco na infinitude. Riscar o infinito era viver, saborear os caprichos do tempo, nada mais. A idealização decepa a realidade e martela na oficina do juízo as fôrmas das asas de metal.

Para quê essas idéias agora?

Precisava parar de pensar, precisava parar de cair daquela imensidão de onde o choque era questão de espera. E tinha a mesma sensação de aguardar um prato feito com o próprio fígado.

Mesmo com a mudança seria a águia do próprio martírio, acorrentado ao cáucaso da verdade. “Encara-me!, encara-me!”, dizia a realidade de dentro das flores, pelo grito das aves, pelo som da água. O que era inanimado confirmava em silêncio.

Ergueu-se como se levantasse o peso de um homem viril. Deu de costas para um cenário qualquer e caminhou em direção ao veículo. Atravessou o túnel de bambus e avistou o carro escuro. Já podia ver um corpo encostado à porta, braços cruzados à espera de uma resposta — que via o homem que se aproximava pelo caminho de bambus e o olhava indiferente.

Descruzou os braços quando o projetou a três passos de distância. Moveu alguns músculos da face antes de afirmar:

— Sabemos que foi você.

O outro engoliu em seco à espera do tempo para pronunciar alguma coisa. Qualquer palavra que dissesse não alteraria o curso dos acontecimentos. Estava tudo feito, tudo consumado, tudo agora trancafiado no passado. Sim, trancafiado! Podia lembrar de algumas coisas. Começava a reconhecer alguns rostos, escutava as vozes com uma nitidez estonteante, os rostos contraídos começavam a fazer algum sentido. Fazer sentido não é exatamente a idéia que as pessoas geralmente têm. Abstraiu-se novamente ao pensar no que se fazia de original, de novo, na vida de cada uma das pessoas que conhecia. Espremia-se o sumo do dia e encontrava apenas a rotina e o lugar comum. Repetições que giravam como um carrossel, tocados por um sádico ensandecido.

Expirou ruidosamente, tentando exibir, em vão, algum sinal de vitalidade.

— O que você quer?
— Confirmações.

Confirmações eram conformações da realidade, pensou num trocadilho rasteiro. Puxou a cigarreira e ofereceu-a, apenas para ouvir uma negação fria. Não negou para si mais uns tragos, esvaecimento que lhe era tão familiar de uns tempos para cá.

Acendeu e aspirou.

— A uma altura dessas, os fatos falam por mim. Não preciso fazer nada além de assistir como todos, confortável em uma cadeira na sala de estar.

Percebia-se uma mistura forçada de cinismo e ironia.

—Não teria tanta certeza.

Cortou o julgamento com um pergunta.

— Você gosta de caçadas?
— Qual parte?
— Como qual parte? — Riu-se curioso.
— A caçada só tem um lado, meu caro. A caça o caçador são cúmplices da mesma encenação. Não daria o menor prazer se a presa se mostrasse aos algozes naquele momento de preparação, sem que ninguém houvesse adentrado na mata, ouvido a própria respiração e sentido a palpitação de ser o senhor da morte. De beber o sangue, de queimar o mais fraco pelo sabor agridoce da destruição. E por que não o faz? Porque a própria presa tem um pacto prazeroso de apostar que pode vencer o duelo. O êxtase impera dos dois lados. Falo alguma impropriedade?

As vozes tornavam-se cada vez mais nítidas, porém não conseguia, ainda, delimitar os interesses.

— Alegorias fazem parte da caçada, então?
— Como queira — respondeu após notar que se envolvia num raciocínio que era já sabido ser do outro. E todo esse entendimento de nada serve agora. Via-o estender o braço em direção à fechadura do veículo e percebia mesmo que abria caminho a isso. Viu também quando a porta foi aberta e sentiu-se desconfortável ao perceber que tudo diante daquele homem era inevitável, um magnetismo que só fazia dizer e executar o sim por quem tivesse ao redor. Enquanto engolia a presença, ficava imóvel na calçada a ver seu interlocutor distanciar-se sob as sombras das árvores. A presa havia se atirado diante de seus perseguidores antes mesmo do início da caçada.


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