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O expatriado em Paris

25 de junho de 2008

Sábado passado lembrei de um fato sem muita importância dos meus áureos tempos de caserna. Naquela época havia muita gente querendo destaque nesta vida de fama e apareciam pessoas de todos os tipos — dos obstinados aos cultos — passando pelos indecisos e influenciáveis, sem esquecer os talentosos e os dissimulados.

Havia um cabo taifeiro muito esquisitão, que vez por outra, vinha me mostrar uns escritos obscuros e depressivos, falando de safáris, ilhas e essas coisas que dão mal-estar logo de cara. Dizia que apreciava meu ponto de vista e que estava realmente interessado em se tornar escritor. Pedia opinião e eu era honesto, falando que ele devia pegar mais leve se quisesse vender alguma coisa. Na verdade eu não me dava ao trabalho de ler os manuscritos e dizia que ele era um escritor regular. Até que descobri que aquele bendito cabo tinha parentes americanizados.

A coisa mudou de figura e passei a ser mais camarada nas críticas, dizendo que ele havia evoluído muito, etc e tal. Tudo visando uma chance de ser convidado para conhecer os EEUU. Minha bajulação durou exatos 8 meses, quando o cabo foi transferido para outro destacamento. Perdi contato com o cabo e soube, tempos depois, que ele havia ganho um bom dinheiro com todos aqueles escritos tristonhos.

Tornou-se ninguém menos que Ernesto Hemingway, escritor sobejamente conhecido naquelas paragens. Pois bem, para encurtar a conversa, fiquei fulo com o sucesso do cabo E.Miller e lhe mandei uma carta, falando que ele devia ser mais fluente se quisesse ser realmente um escritor completo. Deixei essa história para lá e esqueci o cabo. Até saber que ele arrebentou os miolos com um rifle de liquidar paquidermes logo após ler minha missiva.

Ainda hoje, não tenho nem um pingo de remorso, afinal o cabo frustrou meu desejo de conhecer a américa das oportunidades.

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Um comentário para “O expatriado em Paris”
  1. Ernesto Hemingway, (1899–1961). « MadCap

    janeiro 26th, 2010 at 12:38 pm

    [...] O incidente foi motivado por recusa do artista em receber o nosso co-editor em seu país (Leia o imbróglio completo aqui). A resposta do rapagão ao acinte tomou forma de carta com críticas veementes, fato que culminou [...]