24 de novembro de 2008
O que muita gente não sabe é que escrevo e não ligo que ninguém leia. Sei que apenas meia dúzia de viventes entendem o que eu quero dizer. E eu não estou incluído nessa.
A escrita é minha forma singela de ludibriar a vida. Publicar estes ensaios faz parte da regra básica do esquema. É um jogo regrado, diga-se de passagem.
Agora, quem escreve para sí, em diários secretos que, em algum periodo da vida, vá pegar fogo ou se afundar em algum lago pantanoso (ou pior, será deletado na primeira recaída), não escreve nada.
E para transmitir alguma coisa para sapos, girinos e amebas, já temos os meios televisivos.
21 de novembro de 2008

O axolotle (Ambystoma mexicanum) é um anfíbio da família dos Ambystomatidae (De anfíbio não tem nada, que fique claro, uma vez que o pequeno neoténico vive na água a vida inteira). Seu nome significa “monstro aquático” e é uma evocação ao deus asteca Xolotl, um pândego musiqueiro.
Gosta de ternos revestidos com tecido DryFit™, sabe-se lá o porquê. Tentou, sem êxito, aplicar tererés nas brânqueas externas. Sentiu desconforto e falta de ar e, desde então, conserva as madeixas ao Deus-dará.
Com um sorrisão cativante e feição esmaileniana, o Axl (redução carinhosa de Axolotl) é chicleteiro, axezeiro e micareteiro de carteirinha. Gosta de competir fêmeas com outros batráquios durante eventos, marcando com uma hidrocor laranja em sua barbatana caudal — tal e qual um piloto de caça que risca a lata do aeroplano — quantas ninfas traçou à beijo.
Dizem as más línguas que um renomado compositor de axé-elétrico fez uma música para os «xolotis», grupo de puladores de axé profissionais de Brasilia, que tiveram o auge existencial em 1994, durante o IV simpósio da APAPA (Associação dos Puladores de Axé Profissionais e Autónomos).
A música se perdeu no espaço-tempo após um desentendimento durante a «Micarecandanga’94» onde o compositor levou uma enveredada de direita de um xoloti ébrio e uma garrafada de Teleco-Teco no contra-golpe de canhoteira. O petardo da garrafa abriu-lhe um talho de ponta-a-ponta no rosto. Desde então jurou silêncio eterno da sua partitura cifrada e letrada.

20 de novembro de 2008


Miccio é um gato que criou um blog e quer ser famoso. A idéia dele é a fórmula de sucesso mais batida e manjada que tem na blogosfera: meter milhares de videos, imagens chupadas e piadinhas toscas, todos os dias, em dezenas de posts.
Catalisa uma idéia genial e inédita. Um post único, inteligente, que o torne famoso da noite para o dia. A missão é complexa, mas ele está engajado.
Enquanto não pisca a lâmpada do sucesso na sua cabeça, Miccio tenta, diariamente, trocar links entre seu blog e os outros wannabes. Mas esse lance de “coloque o meu no teu que eu coloco o teu no meu” não dá certo: quase ninguém respeita a política de escambo virtual.
O Miccio é o novo personagem deste blog. Miccio — para quem não sabe — é a tradução de “bichano” em uns 50 paises do leste e meio europeu. Ele vai mostrar como é a vida de um blogueiro fodido que quer porque quer se tornar uma celebridade virtual.
O bichano é tosco mesmo. Não tem boca nem têm pupilas ou íris; tem cara de gato mangá que você jura que já viu em algum lugar e fala em balões de pensamentos, como o Garfield.
Bem a cara de blogueiro fodido.

19 de novembro de 2008
Escrever é perder todas as lembranças e destruí-las em formatos de letras agressivas e ásperas. A literatura — em qualquer uma das suas formas mais vorazes: poesia, elegia, ou a prosa fascínora — é a maneira mais fácil e deliciosa de ignorar a vida. Qualquer outra expressão visual, por mais plástica e abstrata que seja, consegue exprimir sentidos perfeitamentame tangíveis e perfeitos.
A literatura é torpe e baixa. Descreve tudo com uma simplicidade e perfeição incrível. E mesmo assim, nunca a velha casa das paredes descascadas de um mofo adocicado será a mesma.
A sua casa não é a minha.
A minha é na beira de uma praia de Montouk, caída e sem caibros, com neve perto do beiral da varanda. A sua deve ser Bauhaus, apopética, vai saber.
Um drama nunca foi o que almejou ser; no máximo um romance dado sem narrativa alguma. Textos assíncronos, sem realidade, inexistentes em sua própria subjetividade.
A literatura é um monstro aniquilador de sonhos.
Sem dó.
17 de novembro de 2008
Essa sacada genial é para os spy-blicitários que entram aqui sempre, para usurpar uma ou outra deixa: use a intersemiótica do pátio da fábrica automotora que sua agência representa, mande os caras alinharem milhares de carros pretos e brancos na configuração 3×2x3×2 e voilá, você terá um teclado todo estiloso.

O gordini fica de brinde, só para ilustrar. O pátio foi fotochupado do Gettyimages.
14 de novembro de 2008

Os demiurgos deste veículo brindam seus freqüentadores com uma resenha rara, captada pela proximidade animalesca de R.Valentino em último bal masqué, realizado por ocasião da inclusão do então consagrado antropólogo posDoc Eric Hobsbaun à Academia Antrophologica Antananoinense.
Eric Hobsbaun foi agraciado com a bata aveludada ao concluir sua tese de pós doutorado intitulada “As diferentes entonações classissistas sociais e sua blauninossência sonora desprendida em terra brasilis”. A tese mostra a escorreita relação entre a altura sonora da conversação e o grau de envolvimento social dos atores.
O preâmbulo ganhou um resumo heróico e competitivo quando Eric desafiou R.Valentino a criar um gráfico de axis paralelos com explicação auto-entendível.
A questã logrou a voluta peripatética abaixo:

Notas do Autor: Consideráveis variáveis que influenciaram na pesquisa:
— Elitistas emergentes e falsos elitistas falaram muito alto; pertencem às classes inferiores originais.
— Pobres que falam baixo têm problemas de dicção, ortodônticos ou são mudos.

12 de novembro de 2008

Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881)
Russo esquisitão, vadiava esquivo por São Petesburgo. Abandonou a carreira militar pra escrever o primeiro livro e ganhar alguns trocados “limpos”. É preso por freqüentar um círculo de socialistas utópicos e sentenciado com pena de morte. No último minuto a pena é comutada para 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Cumpre a pena, e passa a viver precariamente de uns escritos estranhíssimos.
5 de novembro de 2008
Miguel, 73 anos. Vítor, 68 anos. Avôs e amigos.
Miguel cumprimenta Cecília, 18, sua neta, estudante de Farmácia e lê um pouco seu TD bimestral. “1/34 avos”, lê seu avô.
Vítor calcula a percentagem de bilheteria do filme do sobrinho. “1/26 avos do total”
Sobrinho ri, Cecília desdenha. Cada um desses jovens pega a folha interessada e lê apenas “1/34″ ou “1/26″. Os avos são desprezíveis, inúteis.
Miguel recorda com Vítor. “Antigamente a regra não era omitida. A partir de 1/10 lia-se 1/11 avos para diante”. “Não me lembro se era a partir do 1/10″.
Avôs esquecidos. Avos relegados ao passado.
Avos esquecidos. Avôs relegados ao passado.